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Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.
Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.
Calma, Jesus.
Ainda bem que faz essa pergunta na Rádio Observador, as perguntas que marcam esta sexta-feira com o Bruno Vieira Amaral. E o Bruno traz aqui uma coisa que eu não sabia que existia, que é a cotação atual do Orçamento de Estado. Está em bolsa?
Está, mais ou menos. Eu também não sabia que existia, mas agora estou atento ao índice PS27, que diz que o preço está alto do Orçamento de Estado, mas pelo menos os temas ou os produtos parecem ser claros. José Luís Carneiro põe como condições para aprovação a revisão constitucional, as pensões, a saúde e as tempestades. Basicamente, o PS pede ao governo que não avance para uma revisão constitucional com o Chega e o mesmo se aplica à Lei de Bases da Saúde. Também não quer alterações ao sistema de pensões e pretende mais medidas concretas em resposta às tempestades do último inverno. Não é tanto aquilo que o PS quer que o governo faça, à exceção da resposta às tempestades, é mais aquilo que o PS não quer que o governo faça. O preço para ter o orçamento aprovado são, na verdade, e percebemos por estas condições, linhas vermelhas, ou seja, o preço está no vermelho.
Mas não se pode dizer linhas vermelhas.
Não se pode dizer.
O ministro da Administração Interna sabe coisas.
Sabe coisas. Esta é a nova tese de André Ventura. Curiosamente, é o tipo de argumento que os adeptos de futebol, em conversa nos cafés, usam para justificar a titularidade de um jogador tosco, não sei se pode dizer um jogador tosco, que é aquela coisa: "Ele deve saber alguma coisa sobre o treinador." Para o líder do Chega, só isso justifica a manutenção de Luís Neves em funções e também o silêncio de responsáveis políticos da área do PS. Se o ministro fosse demitido, isso desencadearia uma vingança dos poderes ocultos que dominam o país e que têm informações sensíveis que tornam os políticos reféns desses mesmos poderes. Não há dúvidas de que haverá muita informação a circular pelos corredores do poder, nos bastidores e dos vários poderes, mas vamos com calma com as teorias da conspiração ou então teremos de concluir que, por exemplo, a ministra da Saúde, Ana Paula Martins, também estará na posse de informação comprometedora e que o mesmo acontece com Fernando Alexandre e, no fundo, com qualquer ministro de quem a oposição já tenha pedido a demissão. A explicação é capaz de ser um pouquinho mais simples. Os primeiros-ministros gostam de segurar os ministros, porque se não o fizerem, tornam-se reféns da oposição.
E por isso a pergunta: o primeiro-ministro vai ou não fazer limpezas de outono?
De outono, não de verão.
As limpezas são na Páscoa, não é?
Normalmente são as de primavera. Mas podemos ter aqui na política limpezas de outono.
A tradição japonesa é fazer no fim do ano. Deitar fora o que está velho.
E aqui é capaz de alguém ir fora no outono. Porque o mais provável é que Luís Montenegro deixe para depois do verão qualquer mudança significativa no governo, seja a substituição de um ministro ou uma remodelação mais profunda. Já sabemos que Montenegro não vai tirar férias, mas pode aproveitar este período para traçar um plano, também em função das notícias que forem saindo, também está dependente disso. E no caso do ministro da Administração Interna, as notícias continuam a suceder-se e não têm sido boas. Mas esta não é uma boa altura para trocar ministros e, em particular, o da Administração Interna. No entanto, a posição de Luís Neves, ao contrário da de Fernando Alexandre, começa a ser insustentável, mesmo que a oposição tenha sido menos complacente com o ministro da Educação. O primeiro-ministro não parece estar refém de nenhum ministro, nem da oposição. Agora, parece estar refém dos acontecimentos e das notícias que forem surgindo.
E então, parece que não somos mesmo bons com números.
Olha, eu não sou, mas eu tenho a desculpa das humanidades. E ontem estava a ver aqui uma notícia sobre a Câmara de Gaia e, de facto, há alguns problemas com os números. A Câmara de Gaia anunciou esta semana que o teleférico que pretendia instalar entre a Arrábida e as praias iria transportar cerca de 15 mil passageiros por hora, sendo que as cabines planeadas terão uma lotação de 12 passageiros. É fazer as contas. Duas cabines a transportar 24 passageiros teriam de fazer 625 viagens por hora, cerca de 10 viagens por minuto. Isto não seria um teleférico, seria praticamente teletransporte. Como é óbvio, tinha havido um lapso na comunicação. O mais incrível é que o vice-presidente da Câmara comentou os números, admitia que poderiam ser revistos em baixa. A oposição, claro, gozou o prato com muitas contas à mistura e teve que ser o presidente da autarquia, Luís Filipe Menezes, a repor a normalidade. Disse que houve um lapso e que qualquer cidadão que não tenha a cabeça vazia percebia muito bem o que se estava a dizer, declarações de Luís Filipe Menezes. E assim se passou mais um dia, ou dois dias, ou até três dias a discutir coisa nenhuma.
Eu ouvi a pergunta, mas ela não é uma pergunta.
Eu percebo as vossas perguntas, mas vamos com calma, está bem? Não quero que ninguém se magoe.
Eu respondo-lhe a isso quando me disser aqui olhos nos olhos.
Eu às vezes tenho mais que fazer do que estar a responder diariamente.
Calma, Jesus.