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De certeza que sabem aquele conceito de criadoras de conteúdo de conforto. Sabem aqueles vídeos, aquelas criadoras de conteúdo que vocês vão ver para sentirem um colinho e com companhia. A convidada de hoje é muito isto para mim. Eu lembro-me de eu assistir, ela fazia vídeos diários no YouTube na altura e que foi das primeiras a estar no YouTube, a eu acompanhar de verdade. Fazia-me tanta companhia e é daquelas pessoas que eu nunca a conheci pessoalmente, nunca estive com ela, mas sinto que vou ter uma conversa com uma amiga minha aqui sentada, porque sinto que já a acompanho há tanto tempo, que conheço o percurso dela, as várias camadas que ela tem. E vou me sentar aqui hoje com a Rita Serrano, uma pessoa que fala abertamente sobre a relação com o corpo dela, sobre aceitação corporal, sobre a confiança que foi encontrando ao longo do percurso também, na forma como se arranja, na forma como se apresenta. E passou recentemente por um processo de transformação, de perda de peso e fala também abertamente sobre isso e sobre como tudo isto é um processo interno, como muitas vezes nós falamos aqui, sobre aprendermos a aceitar-nos como somos, tanto agora como antes, como em todas as fases que vamos passar. E tentamos desconstruir um bocadinho isto e dissociar o nosso valor daquilo que nós vemos ao espelho. A nossa conversa vai ser muito à volta disto, também sobre sermos mulher e sobre sermos constantemente bombardeadas com aquela sensação de que temos de ser corrigidas, de que temos de ser perfeitinhas, temos de ser melhores em tudo aquilo que nós fazemos. E acho que a Rita é uma pessoa que aborda todos estes temas de forma leve e que acaba por transmitir muita confiança em tudo aquilo que ela faz e na postura que ela tem na vida. Portanto, eu espero muito que vocês gostem desta conversa, que também seja assim um colinho para vocês. E vamos então passar ao episódio. Não é fácil, eu sei, mas amiga, faz parte. Encontramo-nos domingo à hora do costume?
Eu super confio aqui.
Não é? É como se estivesse em casa.
É mesmo cozy. Gosto.
E é isso, é criar também um espaço para ter conversas longas e para fazer uma pausa daquele conteúdo.
De loucos.
E tu também estás a voltar ao YouTube agora também muito nesse registo de voltar a trazer.
Para trazer um bocadinho a companhia, que depois as pessoas vão dando o feedback, que é companhia à hora do almoço, a fazer o jantar, companhia. E também companhia para mim, porque às vezes apetece-me simplesmente estar a falar e a divagar. Ainda há bocado estava a caminho de cá e vi um documentário e estava a falar sobre isso. Coisas que não me apetece estar a fazer um hook para poder falar sobre isso e comprimir a minha opinião em um minuto e meio. Quer dizer, limita muito a expressividade da pessoa. Portanto, por mais que haja, obviamente há sítio para estar, há sítio no Instagram, há sítio no TikTok, também há sítio no YouTube e realmente é melhor para expressar. Eu sinto que eu me consigo expressar melhor no YouTube.
Sim, com mais tempo, sem ter esse script todo planeado. Mas tu também tens feito algumas reflexões também pelo TikTok. Sentes que tens espaço para isso lá também?
Tenho.
Como é que geres essas audiências diferentes?
Por acaso é engraçado, porque é óbvio que há pessoas que estão em todas as plataformas e há outras que só estão em cada uma. No TikTok é muito mais tocá tu lá e eu às vezes quando falo, estou ou a dar uma opinião, ou honestamente também andava a ver qualquer coisa, se eu estou frustrada com alguma coisa. Exato, alguma irritação. E as pessoas têm muito mais uma proximidade um bocado diferente, parece que estamos no café, simplesmente a falar. Portanto, no TikTok diria que é estamos num café e eu ponho qualquer coisa, um tema por cima da mesa. O YouTube é mais nós fomos tomar café e estamos a ter uma longa conversa, eu estou a contar a minha semana. Depois no Instagram não é bem uma conversa.
Mandaste uma fotografia e estamos a comentar por mensagens.
Exatamente. Estou a te dar algum conselho ou alguma ajuda, mas eu tenho de agarrar a tua atenção de alguma forma, para ficar a ver, que nem sempre é fácil, depois há sempre formas diferentes de agarrar a atenção.
Sim, lá está, YouTube se calhar é aquele espaço em que tu não pensas nisso.
Não penso, de todo.
É livre, podes estar só tu e falar durante uma hora e meia, quem ouvir, ouviu.
Eu gravo com o telefone. Eu gravo às vezes com o telemóvel. Eu tenho N câmeras em casa ao longo dos anos, eu nem sequer sou aquela pessoa que compra uma nova e vendo. Eu fico com elas todas, por alguma razão. Quando mudámos de casa, o João disse mesmo à Rita: "Quantas câmeras é que tu tens?" Eu já nem sei. Mas tinha até a minha câmera de vlogs, a clássica AG7X, e nem sequer a fui buscar, porque a facilidade de ter o telefone comigo.
Se quiseres estás a fazer uma coisa vertical, depois já estás a virar.
É, eu simplesmente agarro no telefone e gravo no momento, não tenho que estar a preocupar com a bateria da câmera, com o equilíbrio da luz, com não sei o que. O telefone faz tudo por mim, é muito mais rápido.
E tu se tivesses rotular com uma cena, é YouTube para ti? Eu associo a ti imenso, era o que eu estava a contar antes, que eu via muito os teus vídeos diários, eu estava a contar. Tu estavas maquiada e via tudo.
Aí é que foi que a coisa realmente começou a acontecer. Mas eu acho que no geral é criadora de conteúdo.
Sim, hoje em dia se calhar já és muita coisa, não é?
É um bocado de tudo. Claro que associam com influenciadora, só que eu não me associo imenso a influenciadora, sou mais criadora de conteúdo, que também tem o chapéu da influenciadora, mas é mais criadora de conteúdo.
Mas criadora de conteúdo também trabalha com marcas e faz esse tipo de...
Exatamente, faz um bocadinho de tudo. Depois no mundo da criação de conteúdo, em várias plataformas.
Olha, tu disseste, acho que foi no teu TikTok, que o teu ano passado não foi um ano excelente. E este ano, está a ser?
Estou a ver a luz ao fundo do túnel. Foi um ano muito complicado e eu estou acompanhada por um psicólogo, que é excelente, que eu adoro, e ele perguntava-me em dezembro: "Como é que estás agora? Como é que estão as coisas? Como é que te sentes?" E eu dizia: "Eu só quero acabar este ano", porque eu sou muito de limites, de acaba uma coisa, começa outra. E eu, ainda por cima, como faço anos no dia 1 de janeiro, é literal, esse recomeço e esse novo ano é muito literal pra mim. E eu em dezembro só estava com esperança pro ano novo, só queria acabar aquele, vamos fechar este. Eu nem fazia nada, eu tinha uma lista de coisas para fazer, nem começava a gravá-las, nem pôr em prática, porque eu senti que não é agora.
Vou esperar.
Vou esperar, tenho que esperar.
Sou igual.
E começar o ano, realmente entrei com o pé direito e entrei com uma nova visão da vida em si, das coisas, como é que elas podiam correr ou não. Portanto, por enquanto tem estado a correr bem, está a melhorar.
Boa. Ainda estamos no início do ano, tens muito para caminhar. E também estavas a comentar que nessa altura, foi um ano difícil, em que estavas em muita batalha interna e ao mesmo tempo estavas a receber muitos comentários de: "Estás cheia de luz, estás tão bem, estás tão feliz."
Estás com luz.
E tu achas que nós associamos sempre este brilho, esta luz, à perda de peso?
Eu acho que sim. Por acaso foi engraçado, porque eu desta vez quando perdi peso, porque eu já tive mais do que uma vez perda de peso substancial, a minha forma de pensar estava completamente diferente. Eu desta vez sinto que foi de uma maneira muito mais saudável pra mim, psicologicamente. Tanto que eu conseguia ver de fora o que estava a acontecer e achava engraçado, porque punha muito em perspectiva. Os comentários das pessoas dizerem isso, eu percebo porque é que estavam a dizer isso, porque eu também tinha outra forma de estar. Uma pessoa quando passa por uma transformação, é normal que esteja fisicamente diferente, mas eu também acho que se calhar podia estar a compensar de alguma forma para que não vissem, porque eu sou uma pessoa um bocado guardada e privada. Não vou estar propriamente a pôr cá para fora exatamente o que está a passar, porque eu também não gosto muito de pôr essa energia cá fora quando eu penso no tipo de pessoas que me seguem, acho que elas não estão propriamente a seguir-me para eu estar a lamuriar e dizer: "Não, a minha vida é péssima, está tudo a correr mal." Calma, perspectiva, Rita.
Se calhar no YouTube vais dando um bocadinho dessas luzes daquilo que se está a passar na tua vida, mas balizas bem aquilo que partilhas.
Exato. E também tenho noção que o que pra mim pode ser mau, no contexto da minha vida inteira, a vida está boa, calma. Estás a passar por uma má fase, que vai passar, mas não é por isso que alguém que vai ver a tua vida de fora vai achar que a tua vida tem motivos para ser má ou triste. No contexto geral das coisas, as coisas estavam a correr bem. Nós mudámos para uma casa nova, temos uma filha saudável, temos um casamento feliz.
Passa cá pra fora, é isso. Tu estás, se calhar, a mostrar mais e a aparecer mais, porque também te sentes melhor contigo, se calhar é por aí?
É porque o ano em si, tanto profissional como pessoal, foi complicado. E eu estava a tentar criar conteúdo de forma que conseguisse descobrir o que se estava a passar em termos das redes sociais, qual é que era a direção, o que fazia mais sentido, o que as audiências estavam a pedir mais. Portanto, eu também acabei por me refugiar muito no trabalho e a fazer. As pessoas também acabam por me ver mais quando eu faço isso. Aparecer mais, fazer mais, mas não dar tudo.
Mas quando fazem esses comentários de "estás com mais luz" e não sei o quê, ainda te pesa, ainda te faz pensar: "Estão a dizer isto porque eu estou mais magra e agora tenho que estar sempre assim." E causa-te mais pressão ou já vês de outra forma?
Não. Refleto um bocado no que as pessoas associam uma pessoa que seja gorda, uma pessoa que seja mais magra, não que eu me considere agora magríssima, estou mais magra, simplesmente. O que as pessoas projetam nessa mesma pessoa. Porque eu sinto que estava ótima antes. Eu sinto que estava na mesma luz, só que agora estou só mais magra. Mas as pessoas acabam por ver aquilo que elas próprias sentem em relação a qualquer coisa. Portanto, quando elas me veem mais magra, sentem que eu estou melhor agora. Mas isso é o que elas veem, é o que elas sentem em relação a mim, não é o que eu sinto em relação a mim. Eu sinto-me bem agora, sentia-me bem antes também. Sentia-me lindíssima, sentia-me no sítio, estava sexy, estava atraente, estava isso tudo nessa altura. Mas depois as pessoas acabam por projetar aquilo que sentem.
Mas achas que isso vem do teu conteúdo também ser muito à volta de confiança, aceitação corporal e tudo mais, que abre uma portinha para as pessoas poderem comentar mais sobre isso?
Sim. É engraçado perguntares isso, porque é uma boa coisa pra agarrar. Eu, desde que comecei a fazer mais conteúdo de moda, sempre tive um bocado noção. No início, fazia um bocado isso, mas depois tomei uma decisão mais consciente de não fazer tanto, de não pôr uma etiqueta de eu visto o número tal, vou me vestir ou sou uma influenciadora mid-size ou plus-size. Plus-size nunca esqueço ser, mas sou isto ou sou aquilo e vou fazer isto. Chegou a um certo ponto que eu pensei: "Não, eu sou simplesmente uma mulher que se está a vestir nas redes sociais, da mesma maneira que muitas das minhas colegas o estão a fazer." Só que como eu vestia aquele tamanho, as pessoas automaticamente puseram-me essa etiqueta, esse rótulo. Quando me etiquetavam disso, não era que eu tivesse algum problema com isso, não tinha, porque era uma forma de me identificar, mas era engraçado que tinha de haver essa identificação relacionada com o meu peso.
Sim, porque se vestes o S, não tens um rótulo que vestes.
Não tens um rótulo. Exato. És só uma mulher a vestir-se nas redes sociais, és só uma influenciadora que está a fazer moda. Eu era uma influenciadora mid size ou body positive, ou o que fosse, a vestir-se nas redes sociais. Só porque era. Portanto, há aí uma dualidade, digamos assim, muito obviamente associada ao peso e ao corpo que a pessoa tem, que me foi imposta e que faz parte, mas que eu não vejo a fazerem com malta que veste o M, ou que veste o S, ou que veste o XS, ou que seja, que é normal.
Mas isso já é uma coisa que está tão enraizada na nossa sociedade, que nós acabamos por fazer, talvez sem sequer nos estamos aperceber que estamos a fazer inconscientemente.
Acho que não é por mal, acho que é inconsciente, acho que é uma forma de encontrares as pessoas com quem te identificas e onde te sentes em casa. Eu percebo isso tudo, só que é uma realidade. É uma coisa que eu quando me apercebi, porque obviamente comecei a perder peso e comecei a levar com o: "Ah, mas não eras isto, não tinhas coisa." Eu estava bem como estava, eu nunca disse que não estava. Agora também estou bem, mas eu sou a minha pessoa, eu vivo a minha vida e ajunto as minhas decisões, sei eu. Eu não estou a viver em função de servir esta audiência ou aquela audiência. Eu trabalho e eu faço as coisas. Eu agora estou a me vestir assim porque é o corpo que eu tenho. Eu vestia-me como estava porque era o corpo que eu tinha.
Mas achas que estas pessoas que fazem esse tipo de comentários são pessoas que se identificavam contigo na altura e que sentiam essa role model?
Possivelmente, sim. A questão é que o meu estilo nunca mudou. Eu estou a me vestir exatamente da mesma forma, simplesmente estou mais pequena, mas a minha forma de vestir e o meu estilo em si, tanto que eu tive pessoas que disseram: "Já não precisas te vestir com roupas tão largas, agora aproveita e veste roupas mais..." Não. O meu estilo é o mesmo.
Não deixa de ser a Rita.
Não deixo de ter os mesmos gostos. Simplesmente, tenho roupa mais pequena.
E na altura, quando estavas a fazer aqueles vídeos da passadeira de styling, que correram super bem, viralizaram e foram uma grande exposição para ti, por que achas que correu tão bem? Por que achas que essa fórmula resultou?
Funcionou. Foi um completo acaso. Eu estava a testar esse conceito quando fiz o primeiro que viralizou e foi porque eu simplesmente estava me a vestir e vesti a roupa. E depois pensei: "Ok, agora deixa-me pôr isto bem." E pensei: "Isto podia ser, deixa eu experimentar." Porque era a ilusão ótica da coisa. Eu num estou só vestida com a roupa e noutro estou arranjada. E o meu objetivo sempre foi dar a entender. Eu sou estas duas pessoas, que era uma coisa que as pessoas depois também não... Diziam: "Eu sou a primeira." E eu: "Eu também sou." Essa é a parte que vocês estão a falhar. Eu sou estas duas pessoas. A única coisa que eu mudei foi, se calhar, o sutiã que eu estou a usar por baixo, se calhar pus o top por dentro das calças, se calhar pus um cinto. Foi só mesmo o styling. Portanto, não interessa o corpo que a pessoa tem ou da forma que está, em qualquer tamanho, é o poder de simplesmente demorares mais dois, três minutos a arranjar e a pôr a coisa bem feita.
Pequenos truques de como te apresentares, ou seja, a tua presença ser diferente só com pequenas mudanças na forma como te vestes.
Exatamente, só pequenos pormenores que fazem diferença ao olhares para uma pessoa.
E eu acho que o que resultava também superbém era a postura com que tu estavas. No início tu estavas mesmo: "Não tenho confiança em mim." E de repente sai ali uma mulher poderosa e cheia de si.
Eu admito, também a certa altura é um bocado caricatura.
Exagerar tanto uma como a outra.
O primeiro eu acho que não fiz bem de propósito, mas a certa altura, obviamente, que funciona dar a entender de uma forma tão literal, mas tive de me inclinar um bocado para aí porque percebi que tornava o efeito ainda mais notório nas duas partes. E muita gente disse: "Um dos elementos é a confiança." Sim, obrigada!
É o elemento principal.
Às vezes é só isso. Às vezes nem precisam de mudar.
É só a tua postura, é só a forma como tu apareces.
A forma como estás, a forma como andas. E eu sempre tive um andar muito confiante, digamos assim, desde miúda, ombros para trás, sempre andei assim. E metiam-se comigo na escola por causa disso, porque diziam que eu andava, parecia que estava numa passarela.
Nariz empinado.
Andava sempre muito coisinha. E que isso faz toda a diferença e às vezes é mesmo, lá está, qualquer pessoa consegue fazer essas pequenas mudançazinhas que tornam logo a pessoa um bocadinho mais confiante, um bocadinho mais arranjada, um bocadinho mais isto, um bocadinho mais aquilo. E a pessoa que sente: "Eu vejo-as e nunca vou conseguir." É tudo uma questão de confiança ou talvez mais dois minutos a arranjar aqui ou ali. Não é preciso grandes mudanças, grandes coisas.
E como é que foi a tua relação com o teu corpo ao longo do ano? Estavas a dizer que tinhas feito várias dietas, já tinhas experimentado várias coisas. Eu lembro também de te ouvir no YouTube, algumas dietas que tu foste fazendo. Eram aquelas dietas io-iô. Eu também passei um bocadinho por isso e queria te perguntar como é que é hoje em dia a relação com o teu corpo, se sentes que já não depositas de todo o teu valor naquilo que vês ao espelho, e como é que evoluiu isso, tanto também o teu conteúdo ser muito à volta de tu apareceres e mostrares o teu O teu corpo, como te vestes, como te estás, se recebesses comentários.
É assim, como eu estava a dizer há bocado. Desta vez foi muito diferente o meu psicológico, comparando com as outras vezes todas, porque desta vez, o trabalho que eu fiz começou há muitos anos. Começou antes de engravidar da Leo, aliás, porque eu percebi que antes do que quer que fosse, eu tinha de ter uma relação saudável com o meu corpo, psicologicamente. Até ao ponto, ou era negativa a mais, ou era positiva a mais, porque tanto um como o outro não são super...
Ou seja, quando perdias o peso, eras tipo: "Adoro assim, como estou." E depois voltavas a ganhar e: "Ora, já detesto isso em mim."
Isso acontecia. Ou quando eu estava maior, dizia: "Eu adoro assim, porque a sociedade diz para eu não gostar de mim assim, portanto, eu vou adorar-me assim, é assim que eu estou bem." O problema aqui é que eu estava sempre a dar uma conotação positiva ou negativa ao tamanho do meu corpo, que é só factual, ele existe, é o meu, não vou ter outro, mais ninguém vai ter o meu. Ele só existe e já me ajudou a passar por tanta coisa na vida que eu só tenho de aceitá-lo e ter essa noção. É neutro, ele existe, é o meu corpo e está tudo bem. Ele não faz nada contra mim de propósito.
Não vou valer mais ou menos.
Não vou valer mais ou menos por causa do estado em que ele está, em qualquer estado que seja. E eu comecei a fazer um bocado este trabalho mais psicológico, principalmente quando percebi que ia ter uma menina, porque lá está, estas coisas passam de gerações a gerações.
Eram medos que tinhas de passar isso?
Sim, porque há várias coisas que nós sem nos apercebermos passamos para os miúdos, seja rapaz ou rapariga, só que lá está, com raparigas é sempre mais enaltecido. E eu quando engravidei, não foi uma excelente gravidez, não adorei estar grávida, principalmente no final, por causa da minha coluna, tornou o processo bastante doloroso. E eu consegui estar extremamente agradecida pelo que ele me ajudou a fazer, pelo que ele me ajudou a ultrapassar. No final da gravidez, no pós-parto, estar extremamente agradecida por ele no depois, que também foi uma recuperação complicada. E depois disso, foi um trabalho de simplesmente parar de olhar para o meu corpo com uma conotação associada. Aprendi simplesmente a aceitá-lo, ponto. Sem ser a bem, sem ser a mal, simplesmente aceitá-lo, é o que eu tenho. Obviamente que depois no meio disto tudo vem a minha relação com a comida.
Sim, é isso, depois o que tu podes controlar, que mudanças é que podes fazer. E eu acho que faz esse switch quando passas para: "Ok, o que é mais saudável para mim? Porque eu quero que o meu corpo seja saudável para me permitir fazer isto e aquilo."
Eu finalmente fui fazer fisioterapia por causa da minha coluna, porque estava preocupada, eu a ser mãe da Leo, como é que eu conseguia acompanhá-la, porque ela não é propriamente uma rapariga parada. Então comecei a fazer fisioterapia e depois da fisioterapia acompanhei no pós com pilates, que já faço há alguns anos, e cheguei a um ponto em que realmente eu primeiro percebi, eu para conseguir sequer fazer algum tipo de salto mental nesta questão, eu não me posso estar a preocupar com comida. Não posso estar a pôr essa pressão em cima, porque senão isto não vai a lado nenhum, vou estar constantemente a lutar contra mim mesma, e foi exatamente isso que eu fiz. Não estava bem focada em controlar o que comia, em ter cuidados ou o que seja, não estava. Estava simplesmente focada em não dar uma atenção extra a como é que estava o meu corpo, simplesmente aceitá-lo e a estar bem com isso. De forma que à frente da Leo, ela não me oiça a dizer: "Eu hoje estou isto, hoje estou aquilo, não posso usar isto, não posso usar aquilo, tal coisa." E a verdade é que ela nunca me ouviu a fazer isso, nunca me ouviu a dizer essas coisas, nunca me ouviu a dizer essas coisas a ela, porque eu consegui chegar a um ponto em que simplesmente estava bem. Era o que eu estava a dizer há bocado, no ano passado eu estava bem, eu estava bonita, eu estava atraente, eu estava sexy, mesmo que tivesse maior, eu sentia em mim isso tudo. Cheguei a um ponto em que eu estava muito feliz comigo mesma por ter percebido isso.
Mas como é que achas que tu chegaste a esse ponto? Foi a terapia, foi o feitio da maternidade, maturidade?
Acho que foi uma mistura de maturidade, de maternidade, de relativizar as coisas. Ser mãe ajudou-me muito a relativizar as coisas e a dar importância às coisas importantes e a conseguir não ser tão focada nas coisas que não interessam tanto.
Egocêntrica também, que somos muitas vezes.
Sim. E acho que mais que tudo, estar agradecida pelo meu corpo. Conseguir reconhecer que por mais coisas que eu tenha, que tenho, é um corpo saudável, é um corpo que se mexe, é um corpo que anda, é um corpo que fala, é um corpo que respira bem. Isso tudo. Consegui chegar a um ponto em que estava só neutra com ele.
E como é que tomas a decisão de querer emagrecer? Foste a uma médica, foi por saúde?
Eu sempre tive uma questão, a única coisa que eu alguma vez quis fazer em termos cirúrgicos era uma redução mamária. A minha questão era: se eu quiser fazer, porque no ano passado eu comecei a pensar: "Vou fazer por mim, vou fazer algumas coisas por mim agora". E uma coisa que eu sabia que queria fazer era isso e eu pensei: "Ok, se eu quero fazer isto, convém perder peso, porque para uma cirurgia há sempre um perigo associado. Quanto mais peso tu tens, há sempre ali um risco". Então eu pensei: "Ok, então deixa-me lá fazer isto, o que eu posso fazer?" Obviamente, já tinha ouvido falar das picas, já era uma coisa super banalizada, já era normal.
Já era tema.
Já era tema. E eu decidi fazer uma pesquisa e decidi procurar uma endocrinologista que me dissesse se faria sentido ou não, porque eu tenho compulsão alimentar, eu sei o que isso é e sei que é uma questão, não é uma coisa que eu, hoje em dia, já aceito isso como o problema que ele é. Não vou simplesmente dizer: "Porque eu sou preguiçosa ou porque eu não tenho força de vontade." É um problema, é uma questão que eu tenho, é minha, está se bem. Mas que isto podia ser uma coisa, que eu cada vez mais ouvia esse feedback, que podia ajudar a reduzir muito o barulho que faz na cabeça, no cérebro sobre: "Agora come isto, agora come aquilo." Portanto, fui efetivamente à médica e falei com ela, expliquei-lhe a minha situação, fizemos os exames necessários, disse-me que eu era uma candidata boa para fazer isto e foi isso que eu fiz. Foi muito simples.
E quando tu tomaste essa decisão, tu pensaste: "Quero partilhar, não quero partilhar, qual é que vai ser minha postura nisto?" Porque é um tema tão polémico, que acredito também tenha sido difícil para ti de gerir.
Foi. Se já me segues nos temas do YouTube, sabes, eu sempre tive uma postura muito honesta com a minha audiência e muito sem grandes filtros, é muito real. Sou só uma pessoa, no final do dia é isso. Eu faço tudo o que as outras pessoas fazem, só porque apareço no ecrã das pessoas, não quer dizer que eu seja mais ou menos especial que ninguém. Portanto, se eu tomei esta decisão, por mim foi. Tenho as minhas razões, não preciso estar aqui a publicitá-las. Mas eu sempre soube que no momento em que começassem a fazer perguntas, que eu não ia esconder. Não vou publicitar, mas também não vou esconder.
Depois porque acho que também tem um pouquinho estes dois lados, que é se calhar o medo de se eu disser, parece que posso estar a influenciar pessoas a ir por este caminho e não é isso que eu quero fazer, porque é o meu caso.
E porque é um tratamento médico. No final do dia, é um tratamento médico.
Mas do outro lado também quero ser honesta e quero falar abertamente sobre o que estou a fazer, porque é isso que eu sempre fiz e porque são os meus valores ser assim.
E porque eu também não queria que as pessoas fossem um bocado com aquilo do: "Ela conseguiu e é porque está a fazer exercício e porque está a comer coisas." Também é verdade, também estou a fazer exercício e a comer bem, mas é por causa disto. E é isso que eu estou a fazer. Não achem que: "Se ela consegue, eu também consigo, por que eu não consigo e ela..." Não, calma, eu estou a fazer isto.
Mas achas que o teu conteúdo também ter muito a ver com o teu corpo, com a forma como te vestes, aquilo que estávamos a falar, a tua sensação pessoal.
Era inevitável que as pessoas perguntassem.
Cria uma pressão extra em ti. É um tema.
É um tema.
É um elefante. Se eu não falar, ele está aqui à frente na mesma.
Sim, eu tinha a perfeita noção que era óbvio. Aliás, quando se começou a notar mais foi quando eu cortei o cabelo. E eu acho que as pessoas, nessa altura, não se aperceberam tanto porque associaram que a minha cara parecia mais magra por causa do corte de cabelo que eu tinha feito, que eu ainda achei pior. "Tu pareces mais magra." Até porque estou. Mas eu sempre tive essa noção, sempre tive a noção de eu vou ser muito transparente com o que estou a fazer. Não vou estar a fazer um vídeo sentada a dizer: "Eu estou a fazer isto." Não, não faz sentido, não estou aqui para influenciar ninguém para fazer uma coisa destas como eu. Mas se perguntarem, eu vou responder. Tanto que eu recebi inúmeras, ainda agora.
E qual foi a repercussão disso?
É uma mistura. Havia quem já me conhecia um pouquinho melhor, percebeu perfeitamente e respeitou completamente. Percebeu perfeitamente e como já me conheciam, sabiam que era lógico para mim abordar esta questão desta forma. Quem não conhecia e quem não viu todas as respostas aos comentários que apareciam em todos os vídeos, que a certa altura já nem eu tinha de responder, tinha pessoas que respondiam por mim, porque sabiam e sabiam a minha postura em relação a isso. Então poupavam-me um bocado o trabalho, que eu até agradecia. Mas ficavam um bocado revoltadas ou porque eu não falava mais sobre o tema, ou porque eu não tinha feito um vídeo a partilhar a minha experiência. Mas eu não tenho de fazer um vídeo a partilhar a minha experiência. O meu conteúdo não é sobre saúde. O meu conteúdo não é sobre a experiência de ter este peso. Não é sobre isso. É roupa, ou lifestyle, ou beleza. Não tem a ver com isso.
Sim, a honestidade já está lá, já estás a dizer o que estás a fazer.
Exatamente. Nunca neguei, sempre fui muito transparente. Se calhar não fui responder aos 100 comentários a fazer a mesma pergunta, porque outras pessoas foram lá responder por mim e basta andar um pouquinho para baixo e ler.
Mas há muita gente em Portugal e fora, que eu também acompanho, que dá para perceber perfeitamente que também tomaram a medicação e que não falam abertamente sobre isso, mas as pessoas caem-lhes todas em cima. E acho que faz sentido.
Eles mais vale dizer. Lá está, não publicitar.
Não esconder, não esconder uma coisa que está à vista.
"O que estás a fazer?" "Eu estou a comer bem e estou a ir ao ginásio." Ok Porque há pessoas que, efetivamente, só essa mudança foi mais do que suficiente e conseguiram fazer isso. Mas depois há outras pessoas que não, e não querem dizer. Eu também podia ter ficado calada e dizer que fui só ao ginásio e estar a comer bem, mas não me pareceu justo para com as pessoas que me seguem.
Para contigo e para as pessoas que te seguem.
E para a narrativa em si. Eu sempre me orgulhei muito em ser honesta e transparente sobre as coisas que estou a fazer. Posso ser uma pessoa mais privada na minha vida pessoal e com as pessoas que envolvem a minha vida pessoal, mas em relação a mim, eu até me considero uma pessoa bastante aberta para disponibilizar o que eu passei, as minhas experiências, a minha vida, o que normalmente se passa. E essa foi uma delas, não fazia sentido nenhum para mim não dizer que estava a fazer isso.
E hoje em dia achas que mentalmente tudo aquilo que estavas a falar antes, da tua relação com a comida, do teu corpo, etc, já está trabalhado? Achas que é uma coisa que se resolve ou é uma coisa que vai ficar contigo e que tu vais resolvendo no dia a dia?
Eu ainda no outro dia falei sobre isso com o psicólogo e ele disse-me: "Sabes que compulsão alimentar é uma coisa que também pode ser tratada em terapia." Eu disse-lhe: "Não acredito em si, mas vamos tentar, porque se conseguirmos, excelente, ótimo, maravilhoso, porque conseguimos tirar um peso de uma vida inteira deste problema que eu tenho." Portanto, nisso estamos a trabalhar.
Tu achas que a compulsão alimentar está sempre ligada a outras coisas?
Sim, a preencher um vazio.
E que resolvendo as outras coisas, provavelmente vais melhorar aquele teu aspeto, aquele teu mecanismo de fuga.
Sim, exato. Ele pôs isso da melhor forma que eu consigo entender. É o preencher um vazio. E é perceber qual é que é esse vazio, como é que preencho, etc.
E esse vazio pode mudar ao longo da tua vida também.
Sim, claramente.
Só que quem tem um mecanismo para fumar ou para fazer outros comportamentos também prejudiciais à saúde, nós temos para comer.
Exato, é isso. E é difícil porque é uma coisa que todos fazemos. Uma coisa é o vício com droga, não é uma coisa que toda a gente faz. Com bebida, uma coisa que as pessoas que não têm problemas fazem socialmente e está tudo bem. Com comida, tu precisas literalmente de comida para sobreviver no dia a dia. Quer dizer, não escapas a isso.
Sim, não dá para cortar o mal pela raiz.
Exatamente. É darem-te um copo cheio de vinho ao alcoólico e dizer: "Tens de beber isto todos os dias, três vezes ao dia, mas só um pouquinho." É isso, mas com comida. E é um tipo de problema que é difícil de explicar, porque é comida e todos comemos e toda a gente olha para aquilo do género: "Mas como assim? Simplesmente come aquilo que tu queres e depois para de comer." Mas esse é o problema. E por isso é que o tratamento em si para mim foi tão positivo, porque me ajudou a reduzir isso tudo. Não sentia essa necessidade, porque não só o cérebro não pedia tanto, como o corpo não me deixava, porque acaba por ser um efeito do medicamento.
Sim, eu sinto que para mim foi a terapia e também o desporto. Por exemplo, o que eu sinto é, em fases em que se calhar não treino tanto, eu acabo por descambar mais nesse sentido, porque me culpabilizo por isso e a minha forma de escapar é comer.
É um ciclo vicioso.
É tudo. Só sinto que hoje em dia estou muito mais resolvida, mas não sei se isto não será uma questão para a vida, que me vá surgindo de acordo com as fases.
Certo.
Percebes?
Certo.
Uma coisa que está sempre aqui. Está sempre ali.
Está sempre presente, de alguma forma.
A culpazinha aparece por estar a comer aquilo.
E depois eu acho que o volume difere de pessoa para pessoa, o quanto é que tu sentes isso ou não. Por isso é que eu tenho confiança que o meu psicólogo me consiga ajudar nisso, mas senti muito orgulho que depois de ter perdido o peso e de estar aqui agora assim, eu senti ainda mais orgulho, porque percebi que olhando para trás, eu não me sentia melhor ou pior agora. Sentia-me simplesmente eu.
Mas se calhar isso não aconteceu nas últimas vezes em que tu emagreceste.
Não, porque quando me diziam parabéns, eu estava sedenta por isso.
Era isso mesmo, eu queria a tua atenção!
Exato, eu queria essa validação, a validação externa e o "estás a reconquistar alguma coisa".
E agora tenho razão, porque quando eu estou mais magra, as pessoas olham para mim.
Exatamente. Hoje em dia, que me andam a dar os parabéns, eu genuinamente fico: "Mas por quê?" "Ah, mas parabéns!" Ou "Ah, estás mais magra." E eu: "Estou."
É um facto.
É um facto, é só factual. Deste ponto para mim, isso é só factual. Porque são duas coisas diferentes, a compulsão e a parte psicológica da minha relação com o meu corpo. São diferentes peças.
São diferentes, mas estão ligados.
Estão ligados, mas trabalhar neles implica sítios diferentes, coisas diferentes.
Olha, e contaste também há pouco tempo no TikTok, aquela questão de uma clínica que eu achei aquilo hilariante. E por acaso, eu queria que contasses essa história, mas antes queria te contar que ontem estava a fazer as unhas e estávamos a ter aquelas conversas de meninas, estávamos lá tipo quatro.
Das melhores conversas que há.
E uma delas estava a perguntar: "Ai, por acaso no outro dia estive a pensar, se eu tivesse dinheiros infinitos, o que eu mudava no meu corpo? E será que eu seria a mesma pessoa? Será que teria a mesma cara? O que eu faria para mudar?" E estávamos a ter esta discussão de que será que faria alguma coisa diferente? Será que não é pelo dinheiro que tu não estás a fazer? Será que tens de aceitar como és? Estávamos a ter estas discussões.
Sim.
E depois quando revi a tua história da clínica, fiquei tipo: "Isto faz todo sentido."
É, foi tão estranho. E é engraçado que quando eu contei isso, depois tive amigas minhas a dizer: "Eu lembro-me disso, quando isso aconteceu, que tu contaste-me, porque foi exatamente isso que foi tão estranho." Foi muito estranho.
Mas conta um bocadinho para as pessoas estarem a par.
Porque eu fui contactada por uma clínica de cirurgia plástica para ir lá e eu pensei: "Olha, OK." Em modo parceria, portanto, não teria de pagar, era fazer a cirurgia. E eu na altura tinha uma insegurança com o meu nariz, que era menos algo, um bocadinho, e se calhar tinha a papada. E então fui um bocado sem saber ler nem escrever, porque nunca tinha feito nada daquilo, até hoje nunca fiz, portanto continuo sempre um bocado receosa dessas coisas, mas lá fui eu. Atenção, isto já foi há seis ou sete anos atrás, já foi há mesmo muito tempo atrás. E quando lá chego, eles têm todo um scanner muito específico, todo de XPTO, para tirar uma fotografia toda evoluída para depois passar para o ecrã do cirurgião para fazer as alterações com o programa que eles lá têm. E eu quando entrei no consultório e expliquei à doutora o que estava ali a fazer. Eu dei a entender: "Eu estou muito satisfeita com a minha cara, sinto que sou uma mulher bonita, mas gostava de se calhar raspar aqui um bocadinho e aqui a papada." Pronto, foi literalmente coisa assim. E enquanto falava comigo, ela estava a olhar para o ecrã e a fazer algumas coisas. E a certa altura, ela acaba de fazer isso e começa-me a dizer a mim: "Pois não, é que eu estou aqui a ver, tem o rosto um bocado desequilibrado, se calhar nós podemos fazer aqui uma pequena harmonização facial, fazer isto, fazer aquilo." E depois mostra-me o resultado do que ela estava a fazer, como é que ficaria a cara. Eu assustei-me, porque era tipo eu, mas não era eu.
Mais bonequinha.
Eram pequenos toquezinhos feitos em que deixava de ser eu e coisas que eu não tinha pedido. E eu fiquei naquele momento, primeiro comecei a duvidar um bocado de mim mesma e do que eu achava.
Se calhar queria ter inseguranças que tu nem sequer tens.
Exato, eu comecei a pensar: "Mas eu tenho mesmo isso?" Comecei a pensar nisso. "Estou mal? É assim que eu preciso tanto?" Lá está, fiquei um bocado encavacada na altura, não soube propriamente lidar. Agradeci, fui-me embora e fui mesmo embora. E quando saí de lá, eu pensei: "Não. Como assim isto acabou de acontecer?" Porque eu sempre me considerei uma pessoa bastante confiante em mim mesma e só queria fazer esta mudançazinha e só com esta pequena interação eu comecei a duvidar de mim mesma e das coisas que eu gosto em mim mesma. Como é que é possível? E eu sou, na altura tinha 28 anos, acho eu. Portanto, já era uma mulher adulta. E porem-me a conseguir duvidar de coisas que eu sabia tomadas como certas, por uma questão cirúrgica, que é permanente, pôs-me a pensar em todas as pessoas que vão a este tipo de consultórios.
Imagina que tinhas 23 anos quando tinhas ido lá.
Sim. Uma pessoa influenciável, ou até uma pessoa mais velha, mas mais influenciável, mais insegura das suas coisas. Se eu tivesse ido lá, por exemplo, para as minhas mamas, que é uma insegurança minha, se calhar tinham-me feito exatamente aquilo que ela tinha dito, porque eu não estava a ver coisas e eu tinha essa insegurança. E por isso é que fiz o TikTok, porque deixou-me um bocado na altura, e agora senti-me mais à vontade para falar sobre o tema. Senti-me um bocado estranha com isso.
É isto mostrar que isso é normal.
É, porque é normal.
Porque eu também recebi há uns tempos uma abordagem também numa clínica: "Vens aqui, podes fazer o que tu quiseres." E eu fui ver os serviços que eles tinham e assim: "Olha, daquilo que vocês têm, até gostava de fazer aquelas massagens modeladoras ou massagens para as pernas desportivas." "Então vamos marcar isso, mas depois se quiseres outro tipo de tratamentos." E só tinha massagem, depois outros tratamentos era tudo cirúrgico ou estético. Que eu não sinto vontade. Se quiseres fazer, está tudo bem, não julgo nem nada, mas não sinto necessidade de mudar nada. "Então faz as massagens e depois se quiseres, vais para outros serviços."
Mas eu não disse que queria isso. Obrigada.
Eu não quero outros serviços. Porque é que estamos tão à vontade em banalizar isto?
E em sugerir.
E em sugerir.
Em sugerir isso para...
Para ficarmos todos iguais, todos padronizados?
Também. Se calhar é porque acham que todas queremos.
Pois, as redes sociais também acabam por extrapolar isto.
Só não fazemos porque não conseguimos ou porque não temos os recursos.
E aí volta aquela pergunta: se tu tivesses dinheiro, o que é que tu mudavas em ti?
Se eu tivesse todo o dinheiro, o que é que eu mudava? Já disse, só isso. E de resto, estava tranquila. Não sei.
Sim, a mim também me deixa a pensar, que é literal, tu também estás a contar a experiência que tinhas toda a oportunidade de fazer qualquer tipo de serviço.
Sim.
E não queres, porque está tudo bem. Agora, sugerirem-te isso, isso ser normal, é que eu acho surreal.
É, foi uma experiência surreal.
Acho mesmo surreal e acho que mostra bem uma amostra daquilo que nós banalizamos em poder comentar o corpo das mulheres, em poder fazer sugestões, em estar constantemente a olhar. E nós sentimos que nos estão a olhar, que nos estão a avaliar.
Eu acho que era mais um aviso também tanto para as pessoas que vão, porque lá está, eu própria disse no vídeo: "Vão, se têm insegurança, vão resolver isso, está ótimo. Poder para vocês, apoio 100%. Mas tenham só atenção isto, porque a pessoa vai com uma coisa em mente e depois de repente são mudanças permanentes, não é propriamente uma coisa que dê para alterar facilmente."
Sim, mas é isso, ser mulher é muito assim, porque tu não vês isto acontecer para os homens. Não vês estas sugestões acontecerem. As mulheres é que têm de pôr os lábios e fazer não sei o quê, encher rugas e Por acaso agora há uma trend que andava a ver no Instagram que é: "Tens 28 anos e já tens imensas rugas de expressão." E depois os clips que aparecem a seguir é: "Obrigada, trabalho imenso para isso." E fazer ela a sorrir imenso. E eu adoro isso.
É isso. Eu concordo 100%. Nunca digas nunca. Eu não me vejo a fazer esses procedimentos, porque não está em mim, não tenho vontade, estou tranquila com isso. Mas é porque é isso, porque faz parte de mim. Eu tenho aqui uns seis ou sete cabelos brancos que apareceram lá está, no ano passado. Estão aqui, estão bem. Não tenho propriamente muito trabalho em escondê-los, porque faz parte da história, faz parte do que passei. Estão lá, ok.
Sim, é como as estrias, cicatrizes e coisas assim.
As que eu tenho da minha gravidez, eu guardo-as com muito carinho. Estão lá. Também não posso falar muito. O corpo foi muito simpático nesse aspeto, não me deixou com muitas marcas, mas as que eu tenho, eu guardo-as com muito carinho. Não tenho de todo vontade de as esconder.
Olha, e contaste que a tua postura para o exercício físico é que não gostas de fazer exercício físico. Quão irritante é uma pessoa como eu, que partilha todos os dias que vai treinar e que adora treinar?
Não é. Aliás, eu vi aquela coisa a dizer: "Podem parar de normalizar o exercício físico?" Vi. Não posso concordar com isso, porque as pessoas gostam do que gostam. Eu compreendo um mundo em que a pessoa genuinamente gosta de exercício físico, da mesma maneira que há um mundo em que pessoas não gostam de exercício físico. Pronto, é a vida, é assim. O que seria do amarelo se não fôssemos assim todos diferentes? É uma coisa que é necessária, faz bem à saúde. Eu gosto do meu escolhido agora, do Pilates Reformer, gosto, dou-me bem com ele. Mas atenção, eu estou em ginásios desde os 14 anos. Eu fiz exercício físico a minha vida inteira.
E já experimentaste desportos e coisas diferentes?
Há muitas coisas que eu gostaria de fazer, mas que não posso fazer por causa da minha coluna. Tipo zumba, não posso. Há coisa mais de primento do que isso? Não posso ir dançar. Não posso fazer coisas tipo body combat. Há coisas de alto impacto que eu não posso fazer, que é uma chatice, que são coisas que eu gostaria de fazer e depois as que eu posso fazer é tipo hidroginástica.
Sim, porque há muitos desportos que tu nem percebes que estás a praticar desporto, isso é que é giro.
Porque te estás a divertir. Exato.
Agora, por exemplo, a minha mãe e a minha madrinha e as minhas primas entraram todas para a salsa e têm duas vezes por semana salsa. E adoram. E vão para lá dançar e mexem-se e fazem muito mais do que muitos desportos. Mexes-te imenso e nem sequer estás a perceber.
É isso. Por acaso foi engraçado, porque eu quando comecei o Pilates Reformer, foi quando começou a entrar na moda. Só que eu fui para lá por recomendação do meu fisioterapeuta, é literalmente uma continuação da minha fisioterapia. E tornei-me uma Pilates girl também. Pronto, estou super na moda, estou muito trendy. Mas depois quando passarem para a próxima trend, eu vou continuar nesta, porque eu dou-me bem com aquilo e é um bom exercício para mim e ajuda-me muito e tem ajudado bastante ultimamente também. Não gosto, eu nem consigo correr. Correr magoa-me.
Sim, mas nem toda a gente tem de correr.
Eu sei, mas eu vejo a malta a correr com todo o gosto, a fazer manteiga na mochila. Já viste isso ou já?
Fazer manteiga? Como assim?
A malta que anda a fazer manteiga enquanto corre.
Como assim?
Então metem o...
Não. Tu andas a ver muitos TikToks.
Estamos em algoritmos diferentes, claramente.
Retorno da corrida.
Ficas a saber e vais fazer manteiga da próxima vez que fores correr. A manteiga é o heavy cream, eu não sei qual é o termo em português. É natas? Não, não há de ser natas. Não sei. Isso num saco, metes naquela mochilinha de corrida pequenina e enquanto corres, porque a cena da manteiga é que tens de bater. E enquanto estás a correr, o salto, aquilo está a saltar. Mas tu metes aquilo dentro de um saco plástico, está seguro. Eu sei que parece estranho, mas eu já vi malta a fazer.
Mas para que é que fazem isso? É um desafio?
Primeiro é para experimentar, como assim? Consigo fazer manteiga só a ir correr. E depois tens manteiga feita. Juntas as duas coisas, porque elas quando chegam a casa depois de uma corrida de oito quilómetros, chegam, abrem o saco e a manteiga está separada do creme, ou como é que aquilo se chama? Eu nunca sei os termos, porque eu sou péssima a cozinhar também. Portanto, não sei as coisas específicas. E então tens manteiga feita. Foste correr, voltas a casa e pões a manteiga na torrada. Acabaste de fazer. As pessoas inventam cada coisa.
Se puser as pessoas a correr para ir fazer a manteiga, ótimo.
Acho que é tipo um junta o útil ao agradável.
Pode ser também pela piada de fazer um vídeo e mostrar. Imagina, agora estas trends que envolvam corrida, adoro.
Vai-te aparecer de certeza. Agora que falámos nisso, depois o fundo está aqui perto, de certeza que vai aparecer alguma coisa, alguém a fazer manteiga enquanto corre. É fascinante.
Mas bom, que encontraste o teu desporto. Também não temos todos de ser corredores, não temos todos de fazer desporto todos os dias, mas aquilo que estavas a dizer do TikTok, da normalização, eu acho que depende de quem tu segues, depende da forma como comunica, mas lá está, cada um gosta das suas coisas. Se eu gosto muito de desporto, se calhar vou falar mais sobre isso e está tudo certo.
Não me faz sentir melhor ou pior só porque outra pessoa faz mais desporto.
Ou seja, se o discurso for: "Olha, tu és uma merda porque não estás a fazer desporto." Mas se o discurso não é esse, é: "Olha, fui correr cinco quilómetros."
Isso é que está errado. Para mim, logo à partida é, se alguém me estiver a dizer porque eu faço isto, eu sou Pior que, aí está mal. Palavra não interessada, segue em frente com a tua vida que eu sigo com a minha. Outra coisa, é a pessoa estar simplesmente a partilhar uma coisa da sua vida. Está tranquilo, partilha. Para isso é que estamos todos nas redes sociais, é para partilhar as coisas da nossa vida.
Sim, depois é podemos escolher que seguimos e que acompanhamos.
Exatamente.
Estavas a dizer que profissionalmente também estiveste aí a tentar perceber aquilo que querias e como é que vai ser, o que é que vês agora no teu futuro, quais vão ser os teus caminhos, aquilo que tu imaginas a comunicar.
Eu acho que quero voltar um bocado às minhas raízes, quero voltar um bocado a reviews de maquiagem.
Giro.
Que é uma coisa que, lá está, como dizias, foi assim que eu-
Que começaste.
Que eu comecei.
Não, começaste com cabelo.
Comecei com cabelo. Não foi quando comecei a levar a sério, mas foi quando começaram a levar a mim a sério, foi quando comecei a fazer reviews. E à medida que eu vou fazendo isso, faz-me lembrar do gosto que eu tinha por isso mesmo. E entusiasma-me outra vez por criar conteúdo, porque eu acho muito giro criar looks. Eu adoro roupa, adoro ir às compras, adoro experimentar roupa e fazer looks, adoro isso tudo. Mas limita-te, não posso estar só a fazer isso porque depois sinto-me um pouco criativa, sinto-me limitada.
Sim, e nós somos tantas coisas, não temos de ser só uma.
É isso. Eu podia extrapolar completamente, mas eu também acho que há coisas que eu me sinto à vontade para falar e outras que não me sinto à vontade para falar, porque eu tenho muitos interesses em diversas áreas. Só que há sítios em que eu me sinto mais confiante a falar delas e outros sítios em que eu me sinto um bocadinho menos confiante. Onde eu estou confiante é onde eu me sinto à vontade de me pôr em câmera. E por mais que eu não seja, que não sou maquiadora, ponto. Por mais que haja pessoas que acham que eu seja, não sou, nunca fui. Só me sei maquiar a mim mesma e mesmo assim ainda às vezes preciso de ajuda. Sei que sou boa a experimentar coisas e a dar uma real primeira impressão por parte de alguém que eu assumo que seja o consumidor normal, portanto, a mulher que simplesmente vai ao supermercado comprar uma coisa nova para a sua rotina de maquiagem, é aí que eu me insiro, pelo menos neste contexto de maquiagem.
Dar a tua opinião enquanto consumidora.
Exatamente, enquanto consumidora, não enquanto profissional. Porque para profissionais, lá está, também há outros maquiadores profissionais. Eu não estou para eles, porque eles percebem muito mais do que eu e iam te aplicar as coisas de uma forma diferente.
Eu acho que neste trabalho, eu também já faço isto há muitos anos, acho que também temos de aprender a seguir aquilo que nós gostamos mais de fazer.
Sim.
Não é? Porque se calhar há fases em que estamos mais viradas para: "Isto vai bater mais ou isto vai correr melhor, ou as marcas vão gostar mais, ou fazer mais dinheiro." Mas se fores sempre seguindo o caminho de eu sinto-me confortável e gosto, e dá-me gosto fazer este trabalho ou comunicar desta forma, então acho que não tem como dar errado.
É, porque assim tu consegues fazer nas alturas boas e nas alturas menos boas. Consegues ao mesmo tempo encontrar esse gosto pelo teu trabalho enquanto estás a passar por isso tudo. Se estiveres a fazer uma coisa com a qual não te identificas, onde não te sentes muito à vontade, onde não estás propriamente no teu meio, só porque achas que é o que vai bater, não vai funcionar tão bem. Não te vai dar tanto gozo.
E como é que tu defines esses limites, do que é que queres partilhar, o que é que não queres? Por exemplo, a tua família não aparece tanto. Como é que tu defines isso? Já tens há muito tempo ciente que-
A minha família não aparece praticamente. A Leo foi uma decisão muito consciente antes de calhar ela fazer um ano. Eu já tinha isso em mente, já sabia que ela não seria um foco do meu trabalho e sabia que a certa altura ia ter de cortar ali a exposição dela por questões de segurança, por questões de privacidade. No início eu partilhei um bocado porque era novo para mim e eu estava entusiasmada e mesmo ao partilhar eu tinha muita atenção do que eu partilhava dela e as pequenas coisas que eu partilhava dela, mas houve um dia qualquer que o João estava a levá-la à escola e alguém reconheceu-os aos dois. Eu não estava lá. Portanto, reconheceram o João e a Leo, sem mim. E quando o João me disse isso, eu pensei: "Ok, então está na hora."
Está na hora.
Está na hora de cortar as asas, porque lamento, mas uma relação parassocial com a minha filha não faz sentido. Ela é uma criança, é um bebê, ela não pode consentir, ela não tem a noção disto. Se até a mim me faz confusão, muitas vezes, ter a noção que as pessoas me veem, que as pessoas têm uma relação, lá está, dita parassocial comigo e eu com elas, quanto mais a uma criança que mal sabe do mundo.
Sim, e ela não escolheu.
E ela não escolheu, quem escolheu fui eu e sempre disse em relação ao João também, quem escolheu esta profissão fui eu, não foi ele. Portanto, se ele aparecer, é porque ele quer. E ele aparecia às vezes no YouTube também de vez em quando, ia aparecendo. Mas agora é raro. Também acho que não faz sentido.
Acho que se calhar é um bocadinho a diferença entre influencer e criador de conteúdo. Talvez.
Se calhar.
Porque imagina, eu associo muito a influencer ou figura pública, tu seres conhecido porque partilhas a tua vida e porque querem saber onde tu estás, o que estás a comer. Um criador de conteúdo cria conteúdo que seja útil para quem está a ver.
Exato.
E que não é só eu.
Sim, eu acho que há uma linha que eu estabeleci desde cedo, que de uma maneira ou de outra, acabou por definir também até onde é que eu conseguia ir em termos de carreira, porque há coisas que eu simplesmente não dou de mim.
Mas achas que isso limita a tua carreira?
Eu acho que é capaz. Há pessoas que expõem muito e, por expor muito, há mais pessoas que têm esse interesse. As pessoas gostam muito quando as pessoas expõem absolutamente tudo da sua vida.
Sim, enquanto tu dás o dedo, elas vão querer o braço.
Exatamente. Eu tenho a noção que por guardar algumas coisas da minha vida pessoal, posso não ter tanto, não sei como explicar.
Sim, tanto esse lado comercial, se calhar.
Sim, tanto a coisa da celebridade da coisa, porque há coisas que não precisam de ser mostradas.
Porque estão a viver um reality show e estão a ver a tua vida como se estivessem a assistir uma novela.
E a vida não é um reality show. É essencialmente isso. E era o que eu estava a dizer, eu posso não partilhar muito de quem anda à minha volta na minha vida pessoal, mas eu partilho muito de mim, das minhas experiências, de quem eu sou, do que é que acontece, como é que eu me estou a sentir, o meu ponto de vista em muitas coisas, as minhas opiniões sobre coisas que estejam a acontecer. Eu partilho muito disso, mas não partilho das pessoas que me rodeiam, porque nenhuma delas escolheu esta profissão, fui eu. E são todas pessoas incrivelmente privadas também. Portanto, eu prefiro respeitar isso do que estar a impingir a minha vida para cima delas, que acho que não é justo.
Sim, eu também acho que acabo por partilhar muito de mim e dar muito de mim, por exemplo, no podcast, e conto muitas histórias de pessoas que não aparecem visualmente, mas conto as histórias da minha perspectiva de como é que eu as vivenciei e de que forma é que eu lido com elas. E falo da pessoa, acabei de falar da minha mãe. Mas são pessoas que não aparecem de todo porque não querem. E está tudo certo, porque eu que escolhi essa postura e sei que não é fácil lidar com isso, e sabemos perfeitamente que não é fácil lidar com isso. Mas já criamos ao longo dos anos também o estofo para lidar.
Sim. E acho que é uma decisão que tu também acabas por tomar dependendo do tipo de pessoa que és. Acho que é uma questão de personalidade mesmo. Se tens uma personalidade mais aberta e queres mostrar tudo, mostras tudo. Uma personalidade um bocadinho mais resguardada, és mais resguardada. Acho que há espaço para toda a gente, mas depois a audiência é que escolhe o que lhes faz mais sentido, o que gostam mais de ver, o que gostam menos de ver. Lá está, eu ontem estive a fazer um binge do "Secret Lives of Mormon Wives", que quer dizer, mostram tudo.
Não.
Jura? Tu não sabes o que é que é o "Secret Lives of Mormon Wives"?
Dava na televisão?
Dá, é uma série, é um reality show das influenciadoras mórmons americanas.
Estás a gozar?
Não estás a par?
Não estou a par.
Ai, meu Deus, como assim? Aquilo é tipo Kardashians.
Eu também nunca vi Kardashians.
Eu também nunca fui muito de Kardashians, mas as Kardashians é uma família, e isto nós estamos a falar de um grupo de cinco ou seis influenciadoras, é o "Mom Talk", que são mórmons americanas. E é um reality show da Hulu, agora Disney, que segue a vida delas. E elas mostram absolutamente tudo.
Sim, é aquilo que gostamos.
Exatamente. Lá está, eu posso ver das outras, a minha que eu não gosto.
Sim, a Maria Pombo adoro acompanhá-la, ela também fez um reality show, aquela espanhola.
Fez? Não sabia.
Com a família.
Pronto, lá está, estamos em algoritmos diferentes.
Total, estou na espanhola.
Exato.
Olha, mas então achas que o caminho vai ser voltar às origens, voltar atrás?
Se calhar voltar um bocadinho às origens.
Já para terminar, que estamos a chegar aqui ao fim da conversa, o que achas que vai ser o futuro das redes sociais? O que é que tu imaginas, o que é que gostavas? Achas que estamos a voltar ao conteúdo longo, ao conteúdo mais raw?
Acho que estamos a voltar um bocadinho ao conteúdo mais longo, um bocadinho mais autêntico, se calhar, porque também com a AI as pessoas querem um bocado contrariar isso para ter a certeza que o que estão a ver é de uma pessoa real e humana. Mas acho que há espaço para tudo. Há espaço para o conteúdo curto e há espaço para o conteúdo longo. E eu pelo menos vejo isso por mim. Eu consumo ambos agora e depende muito do que eu estou a fazer e o que me apetece. Há alturas em que só me apetece não pensar na vida e estou no TikTok ali, hipnotizada, ou apetece-me realmente ver qualquer coisa de conteúdo e ponho alguma coisa no YouTube, seja um podcast longo, seja um vlog assim mais longo, que eu fico simplesmente a ver e é conforto. Portanto, acho que há espaço para tudo.
Já pensaste alguma vez em sair das redes sociais?
Sempre. Há muitos anos que, ao longo dos anos, é sempre muito assim, há alturas boas, muito boas, há alturas mais chatas, há alturas em que eu penso: "Vou desistir!" mas depois digo: "Não, não vou desistir. Não, mas sim, mas não."
O que é que eu vou fazer?
Exato, é sempre um misto, é um trabalho que é muito volátil e que tu estás sempre a pensar: "Mas por que estou a fazer isto?"
E é muito gasto emocional, que acho que as pessoas também não têm muita noção.
É aquele trabalho, eu já disse, é um trabalho fácil, não é difícil de coisa nenhuma, é fácil, mas é difícil de gerir mentalmente. É uma coisa que é uma gestão emocional complicada, que se a pessoa não tiver estofo para isso e não tiver paciência e não tiver resiliência mental, talvez não seja o mais indicado para ela. Mas que é um excelente trabalho, porque nós somos donas de nós mesmas e decidimos o que nós fazemos. A criatividade é nossa, nós é que decidimos o que vamos fazer para o vídeo de amanhã. Sim, é ótimo, é excelente. Mas ao mesmo tempo, lá está, depois tens estas alturas em que num dia vais desistir, no dia seguinte tens uma excelente ideia, no outro dia outra coisa. É muito assim. Os nossos companheiros é que sofrem.
Total. Mas acho também é porque envolve tanto a tua vida pessoal, o que tu estás a sentir.
Está muito ligado a nós.
Que é difícil dissociar de quem é a Rita fora do digital. Também sentes isso no dia a dia?
Acho que já senti mais. Agora dou-me mais espaço para fazer uma pausa literal, parar para ganhar um bocadinho de noção e respirar outra vez um bocadinho. Ao longo dos anos eu fui me tornando melhor a fazer essa gestão. Há alturas que são complicadas, em que eu já consigo gerir melhor para me centrar e para voltar ao que realmente importa, do que antes. Antes se calhar nem sequer parava. Lá está, por isso é que cheguei ao burnout no YouTube. Se calhar devia ter parado mais cedo e não parei, porque na minha cabeça: "Não dá, isto é um cavalo com palas. Siga, bora, até não me levantar mais." Portanto, acho que hoje em dia já consigo fazer uma gestão mais saudável disso. Também já tenho 36 anos.
Se a Laura te dissesse que queria ter o trabalho da mãe, o que é que tu lhe dizias?
Não sei. Dir-lhe-ia: "Tens de tirar um curso superior à mesma, se calhar. Ou fazer alguma coisa, acabar a tua educação, ter alguma coisa na tua educação que te não só ajude, caso não corra bem, porque eu tenho o meu, como para aprenderes a navegar no mundo." Porque é o que eu sinto muito.
Sim, ajudar-te certo, totalmente.
O percurso da escola e depois algum tipo de educação superior, seja mesmo educação superior, seja uma escola profissional, permite-te ter outro tipo de experiências e ter relação com pessoas diferentes, ver o mundo de uma forma diferente e ultrapassar os desafios de uma forma diferente. Acho que isso é importantíssimo. Tanto como o curso em si, como aquela validação do curso, acho que todas essas experiências são muito importantes na vida de uma pessoa. Portanto, se ela o quisesse fazer, podia fazer, mas tinha de ter isso também no bolso.
Faz todo sentido e concordo 100%. Eu tenho um curso em Economia, sinto que hoje em dia não uso nada que estudei praticamente, mas deu-me ferramentas não só de resolução de problemas, na altura de stress, como lidar com isso, gestão de agenda, as próprias amigas, grupo de amigas que criei, toda essa rede. É numa fase que se eu fosse para o mercado de trabalho nessa fase, ou se começasse logo no digital nessa fase, eu acho que me iria perder e não ia ter tanta esta cabeça de negócios que se calhar que tenho hoje em dia.
É isso. Eu tirei Engenharia Informática, no técnico, foi lá que eu aprendi esta tal resiliência que eu estou a falar, foi de lá, porque eu ouvi mesmo muitos nãos. É um sítio chato para se estar. Ainda por cima eu tenho PhD, não é muito fácil lidar com isso, não sabendo sequer que o tenho numa faculdade desse nível de exigência. Mas eu fui incrivelmente teimosa e acabei o curso, anos depois, mas acabei o curso e tinha isso no meu bolso. E isso ajudou-me muito a ser a pessoa que eu sou hoje e a ser a profissional que eu sou hoje na minha carreira. Portanto, faz toda a diferença.
O futuro assusta-te? Se não quiseres no futuro estar nas redes sociais ou se já não sentires motivação, já não sentires brilho, magia nisto.
Não muito. Eu vejo-me a fazer diferentes coisas com capacidade para o fazer. É um bocado assustador, porque nunca fiz mais nada, sempre que eu trabalhei sempre foi por minha conta. Portanto, sair deste trabalho em particular e ir para um mercado de trabalho mais dito normal, é um bocadinho assustador, porque não saberia o que esperar, mas é sempre uma possibilidade que está lá.
Mas se calhar até irias para os cabelos ou outra coisa qualquer.
Não, eu por acaso acho que para os cabelos não voltava. Sou reformada e muito feliz reformada e foi muito giro enquanto durou, foi uma fase incrível da minha vida, mas acho que hoje em dia se calhar não voltava, ia mais para o mundo corporate. Mas sei que tenho valências que eu poderia, sem dúvida, tirar partido se fosse necessário.
Sim, eu acho que este trabalho nos dá muito isso, essa capacidade de nos mexermos e de tendo uma comunidade, tu depois podes fazer o que tu quiseres.
Sim, também.
Podes criar outros negócios, explorar outras coisas, descobrir hobbies e depois esses hobbies tornam-se também monetizáveis.
Exatamente. Nós temos muito essa mentalidade.
Rita, adorei ter-te aqui. Adoro estares de volta ao YouTube, faz muito mais, por favor.
Estarei, novamente.
Queremos a nossa criadora de conteúdo conforto de volta.
Estou de volta.
E obrigada por teres alinhado. Gostei muito de estar nessa conversa.
E obrigada pelo convite e bom podcast.
Não é fácil, eu sei. Mas amiga, faz parte. Encontramo-nos domingo à hora do costume?