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Não é fácil, eu sei. Mas, amiga, faz parte. Encontramo-nos domingo à hora do costume?
Olhem, bom ano! Quer dizer, este episódio já vai sair para fevereiro, mas bom ano no fim do ano.
Para nós aqui, que ainda não tínhamos vindo cá.
Vamos começar, não gravamos há imenso tempo. Vamos fazer uma rosa, espinho e semente da semana, dos últimos tempos.
E a Joana também vai, já enxocada, participar.
Sim, a Joana está aqui como convidada/psicóloga da Inês.
Exato, mas não é para contar os meus segredos. Pronto, e pensei também em trazer e fazermos este episódio um bocadinho para quase como se tivéssemos aqui até uma terapia "live", as duas.
Ok.
Temas pessoais para resolver na internet. Mas vamos começar então. Podes começar tu?
Posso, claro. Eu apontei a minha rosa, espinho e semente. Nós estamos a gravar isto ainda em modo, pelo menos para mim, de início do ano, e eu sinto que a minha rosa é muito sobre estar a avançar efetivamente com os projetos que eu tinha planeados para este ano.
Profissionalmente, não é?
Profissionalmente. E a minha semente, até posso passar já aqui o mote, que é a minha semente, mas que também já vem a ser a minha rosa, que a Marina vai ficar muito feliz.
Já sabia que ia vir.
Já avancei aqui com o "self-tracking" financeiro, organizar financeiramente as coisas e quem não viu esse episódio que nós falamos aqui sobre finanças pessoais, eu tinha essa coisa de começar a colocar em prática e comecei. Por isso é a minha rosa também, mas também a minha semente, porque é um compromisso.
Porque é algo que estás a trabalhar.
Exato, cada vez mais.
Que bom, fico muito orgulhosa.
Estou muito feliz por causa disso. E isto também puxa um episódio atrás ou um livro que nós falamos há muito tempo de poupanças que eu li, que eu não gostei nada. Lembras-te? E eu fui buscá-lo.
Mas deu-te dicas práticas para tu gerires contratos, essas coisas?
Não foi mais para gerir dinheiro, mas percebi que há coisas que nos dizem lá, revi contratos que eu tinha de Net, não sei o quê. E fiz esse tipo de coisas que são lá dicas que dizem no livro para pouparmos e para estarmos mais organizados financeiramente. E por isso volto com a minha palavra atrás e aquele livro, afinal, é útil.
Eu acho que também muitas vezes nós estamos é muito focadas em ganhar mais, e arranjar mais clientes, e mais projetos, e mais dinheiro, e revês aquilo, os teus gastos no dia a dia, que estavas numa fase em que não estavas a ter noção de para onde é que o dinheiro estava a ir.
Sim. Então ajudou muito e por isso era para dar também esta dica. Espinho. É estranho este espinho, eu acho, para quem nunca viveu fora e voltou. Mas eu estou a sentir isto e pode ser que alguém se relacione também, de certa forma. Que é: eu fui viver para Lisboa quatro anos atrás, curti muito a minha vida lá, muitas vezes tinha saudades da minha família, outras vezes não. Tornei-me muito mais independente. Voltei e está a ser meio estranho e difícil para mim equilibrar a minha vida sozinha e não me sentir culpada por não passar tanto tempo com a minha família. Às vezes até me irrita.
Por estar cá, não é?
Exato. Sinto obrigação de estar mais presente, mas às vezes também gosto de estar no meu mundinho. E porque antes de eu ir, eu era muito mais nova.
Porque estás mesmo perto da tua família, não é?
Sim, eu estou a dois minutos.
Pois, eu não sinto tanto isso, porque estou a meia hora, 40 minutos da minha família.
Então eu sinto um bocadinho isto. Às vezes eles sem querer, não é por mal, cobram-me um bocadinho isso, e eu própria, mesmo que eles não o façam, eu acabo por sentir um bocadinho isso.
Essa expectativa.
Sim. Não sou a mesma Inês com eles, não tenho o mesmo equilíbrio de tempo que passo e de envolvida que estou em todas as coisinhas da minha família grande, como antes. Então às vezes está a ser estranho.
Sim, mas tu também não voltas para cá a ser a Inês que era antes de Lisboa.
Foi não. É um bocado contraditório, mas sinto que esse equilíbrio-
Sim, mas se fizeres o pensamento ao contrário de a diferença que está a ser de quando estavas em Lisboa, o tempo que estás a passar com eles, se calhar acalma um bocadinho.
Claro. Eu não me sinto mal com isso, mas sinto que está a ser um tema. E os teus?
Queres fazer tu, Joana?
Pode ser. Então, eu acho que neste momento a minha rosa e o meu espinho são um bocadinho a mesma coisa. Porque eu estou num processo de abertura de clínica física em Braga e efetivamente todo esse processo está a ser um bocadinho difícil. E portanto, acho que o meu espinho tem sido um bocadinho esse processo e as obras e tudo o que isso acarreta, mas a rosa é que efetivamente as coisas estão a andar, estão a acontecer e por isso dá-me um bocadinho esse alento. A minha semente, que já tem vindo a ser, principalmente desde que fui mãe, e que é também um bocadinho aqui o meu mote para este ano de 2026, é conseguir ter aqui um equilíbrio saudável e positivo no que diz respeito ao trabalho e à vida familiar. Porque, obviamente, sendo empreendedora e gerindo o meu próprio negócio, acaba por às vezes ser difícil ter este equilíbrio e essa acaba por ser a minha semente constante, digamos assim.
Uma curiosidade, porque surgiu agora. Os psicólogos fazem terapia?
Fazem.
Eu estava a pensar nisso.
E se não fazem, deviam fazer. Exatamente, sim. Porque nós efetivamente somos pessoas normais, que têm inseguranças, que têm medos, que têm traumas, que têm feridas. E por isso nós precisamos também De procurar essa ajuda, porque nós também não conseguimos resolver tudo sozinhos e é importante termos esta consciência. E de procurarmos essa ajuda nas diferentes fases da vida em que isso for sendo necessário, até porque, e aí sim, a diferença de sermos psicólogos é que nós precisamos de estar relativamente bem para conseguir também ajudar e cuidar do outro.
Não, faz sentido.
Até muitas vezes nós vemos, e na universidade aconselham-nos a isso, a fazer o nosso processo de terapia pessoal e de desenvolvimento pessoal para nos tornarmos também melhores terapeutas. E por isso é aconselhável que o psicólogo faça terapia.
Pois, eu estava a pensar se vocês fariam a vocês mesmos de tentar desconstruir pensamentos e por escrito, arranjar ferramentas.
Sim, e é normal fazermos isto, até porque isto acontece em todas as profissões. Tu és mais experiente em determinada área, tu vais tentar resolver as questões relacionadas com essa área, mas tu não consegues, tu precisas de uma visão externa, tu precisas de uma visão de fora, porque tu estás condicionada com as tuas crenças, com as tuas emoções, estás toldada por um discernimento que pode não ser o mais racional. E por isso tu precisas dessa visão externa para te ajudar também a arrumar as coisas direitinho e a pensar: "Ok, até estás a pensar bem, mas estás a deixar-te levar por esta emoção, ou estás a deixar-te levar por esta crença sobre ti, que pode não ser assim tão real." E por isso nós precisamos desse apoio externo. Não podemos fazer terapia a nós mesmos, isso não.
A minha irmã é psicóloga e quando ela acabou o percurso dela de faculdade, antes de começar a dar consultas e exercer efetivamente, ela fez o processo dela de terapia e desenvolvimento pessoal até ter alta. Porque eu nem sabia que existia alta em terapia, mas existe e é suposto, eu aprendi isto também com a Joana, tu teres objetivos.
Sim.
Mas quando tu atinges os objetivos, surgem outros, não?
Exatamente, pode acontecer, mas outras vezes não. A pessoa diz: "Ok, estes são os meus objetivos terapêuticos, isso é uma coisa que eu faço, é logo na primeira consulta, é a primeira coisa que eu faço."
Eu adorei esta abordagem quando conheci a Joana, porque acho que é tangível.
Sim, porque tu tens que ir avaliando. "Eu quero sentir-me bem", isso não é um objetivo. O que te incomoda na tua vida? O que está neste momento a causar-te um impacto negativo na tua vida? O que tu queres mudar? O que tu gostavas de sentir mais? O que tu gostavas de sentir menos? O que tu gostavas de mudar em termos de hábitos, de comportamentos? E se tu fizeres esta lista de objetivos terapêuticos, tu consegues ir avaliando isto ao longo das sessões. E não é uma coisa que tu vais indo e vais vendo e vais fazendo. Não, isto é tangível, é mensurável. Ok, este objetivo, de 0 a 100%, quanto é que tu sentes que já alcançaste? E tu consegues ir fazendo esta avaliação.
Mas de certeza que tens muita gente que deve chegar a ti com muita confusão mental, que é difícil de perceber o que está errado. "Eu só estou triste."
Claro que sim. Mas é para isso também que lá está o meu papel.
De ajudares a definir estes objetivos.
Ajudando, exatamente. E às vezes eu vou às diferentes áreas da vida de cada pessoa para perceber, até porque às vezes a pessoa até pensa: "Eu nem tinha pensado em falar sobre isso, eu nem tinha pensado em resolver nada dessa área, mas já que falas, se calhar há aí qualquer coisa que eu gostava de falar." Eu costumo dizer que gosto de ir bater às portinhas todas da vida daquela pessoa para perceber. E claro que a lista de objetivos terapêuticos é uma coisa que pode ir mudando ao longo da terapia. Ou seja, eu nunca retiro os objetivos da lista, porque se eles existiram ali em algum momento é porque são importantes, mas podemos ir adicionando mediante as necessidades da pessoa.
Sim, era o que eu ia dizer. Tu tens a alta, estás numa boa fase, mas depois surgem outras coisas que te vão fazer querer voltar.
Exatamente, determinadas fases da vida. Agora, o ideal é, e se a terapia correu bem, há coisas que tu foste trabalhar que já não voltas a precisar de trabalhar.
Ok. Até porque podem acontecer situações na tua vida triggering para isso ou semelhantes, mas tu já se calhar tens as ferramentas para conseguir lidar com isso e dar a volta e voltar ao estado pleno.
E já aconteceu o contrário. Imagina, pessoas que, por exemplo, tiveram alta ou que estavam muito próximas da alta e aconteceu-lhes ali qualquer coisa que eu pensei: "Se calhar agora vai haver aqui uma recaída, um retrocesso", e a pessoa lidou até muito melhor do que aquilo que até era a minha expectativa. E eu pensei: "Ok, realmente isto está a ser uma coisa sólida, está sustentada, a pessoa aprendeu efetivamente estes recursos." Isso é ótimo para nós e efetivamente a alta terapêutica é uma coisa que é suposta.
Por acaso não sabia.
A ideia não é tu ficares na terapia a vida toda. Lá está, podes ir precisando da terapia ao longo da vida em diferentes fases, mas os objetivos que te levaram à terapia, a ideia é serem resolvidos, é serem trabalhados até chegarem a um nível de satisfação para ti.
Bom. Vou dizer então os meus agora, falta eu.
Claro.
Já disseste a tua semente. O equilíbrio da vida pessoal e profissional. Pronto, o que eu apontei aqui? Este início do ano, a minha rosa, eu acho que é eu estar muito motivada no meu trabalho, de fazer muitas coisas dinâmicas, a sentir que as coisas estão a avançar. E, por acaso, um amigo meu esta semana fez-me pensar, porque ele disse que tinha definido uma palavra para o ano dele, e se eu tinha pensado sobre isto. Não sei se vocês já fizeram este tipo de exercício.
Não, eu nem sabia.
Mas eu pensei numa palavra e acho que é consistência, e sinto que estou a ter muito disso a nível profissional também. E deixo como a minha rosa e deixo-vos também como desafio pensarem na vossa palavra do ano. E na mesma ótica de consistência, mas no sentido oposto, o meu espinho é que eu sinto que este início do ano estou muito Desmotivada no que toca a treinos e isso mexe muito comigo, porque eu já estou tão certinha nas minhas rotinas e nos meus objetivos e sinto que me está a custar muito, que me estou a forçar muito a que isto aconteça e quando eu falho, parece que entro logo num loop negativo, perco a confiança em mim, porque eu tinha uma rotina tão treinada.
Porque tu disseste a ti própria: "Eu vou fazer isso" e não fazes.
Eu sou assim e de repente não estou a fazer e basta eu falhar dois, três treinos, que a minha cabeça entra num loop negativo e de autodestruição. E sinto logo que estou a falhar e depois parece que custa mais a retomar tudo isso. Portanto, a minha semente também passa por, nesta semana, esta semana que estamos agora, porque isto também já vai ser lançado muito depois, portanto não sei nem se vais acabar por estar lá.
Se calhar já está ótimo a relação.
Mas esta semana o meu objetivo é focar 100% na parte de desporto e de movimento e ser esse o meu objetivo número um, é cumprir com aquilo que eu defini. Portanto, tudo o resto pode falhar. Eu sei que preciso mesmo disto para mim.
Para estruturares.
Para voltar, sim, a não sentir isto que tenho sentido nos últimos tempos. E queria te perguntar, já que estamos aqui, portanto vou fazer a minha terapia agora . Por que estes pensamentos negativos acontecem em tanta força no que toca a desporto para mim? Porque eu vejo pessoas à minha volta que não fazem nenhum, que estão superbém, superfelizes, e eu parece que estou-me sempre a autosabotar neste sentido, por que isto vem em tanta força para mim?
E se calhar comparativamente com outras pessoas fazes muito, não é?
Pois, é isso. Eu estou a dizer isto numa semana em que eu corri duas vezes, fui duas vezes ao pilates e fui uma vez ao ginásio, ou seja, treinei cinco vezes e sinto que estou a falhar na mesma.
Não é suficiente.
Sim.
Ok. Primeiro, é óbvio que o desporto é uma coisa muito importante para ti e se calhar para outras pessoas não é assim tão importante. Ainda que nós saibamos que o exercício físico é importante, há pessoas que acabam por não priorizar. Isso que tu estavas a dizer é importante, que é: "Ok, esta semana pode falhar tudo, mas se eu conseguir fazer isto, significa que está tudo ok, atingi o meu objetivo principal". Mas estes pensamentos de "não está a ser o suficiente, vou falhar", estes pensamentos de autosabotagem surgem numa ótica de exigência, de autocrítica, que tu provavelmente foste crescendo com alguns padrões que te levaram a recorrer muito a essa autoexigência. Ou seja, isso não te acontece por ser o desporto, isso acontece por ser uma coisa importante para ti. Se calhar, se fosse outra coisa.
Nesta fase da minha vida pode ser o desporto e noutra fase da tua vida pode ter sido outra coisa.
O trabalho, sim. Exatamente. E depois nós temos estes picos de energia e de motivação, que às vezes levamos tudo à frente e conseguimos fazer efetivamente, mas às vezes não. E às vezes temos estes momentos em que precisamos mais de definir prioridades, refletir o que é realmente importante para mim. E uma coisa que é muito importante e que as pessoas às vezes perguntam: "Mas como é que eu posso estar motivada?" Acho que não é o teu caso, porque tu gostas de fazer desporto. Mas há muita gente que diz: "Mas eu não gosto de nada, como é que eu faço para sentir a motivação para ir treinar, para ir fazer exercício físico?" Vai sem motivação.
Sim, eu acho que esse ponto eu já passei, porque eu gosto muito. Por isso é que me irrita ainda mais quando não vou, porque eu sei que gosto, sei que me vou sentir melhor.
Sim.
E mesmo assim não estou a ir.
Eu acho que tem mais a ver, porque não é sobre o exercício físico, e o que isso significa para ti. Que é onde tu falhas, não é? Tu estavas a falar sobre a rosa, espinho e semente, e tu não és atleta de alta competição. Isso não é a tua profissão. Ou seja, é uma coisa que tu gostas, mas é supostamente parte da tua vida. A tua rosa, espinho e semente tem sempre a ver com o desporto. E fazia sentido se tu fosses atleta de alta competição, mas não faz assim tanto sentido estar assim.
Mas por isso é que percebem a importância que tem.
Lembras-te quando nós estávamos aqui no episódio sobre resoluções para este novo ano e tu estavas a dizer que a minha cena de eu prejudicar a minha alimentação não era sobre alimentação, era sobre amor-próprio? Eu acho que o exercício físico é sobre amor-próprio para ti. É tu a mostrares a ti própria, tipo: "Eu gosto de mim, eu cuido de mim". Então quando tu falhas no exercício físico, eu estou a tentar ser psicóloga. Sendo que a Inês tem a vantagem que ela conhece-te muito melhor do que eu. Exato, acho que é um bocado por aí. Exatamente, ela conhece. E porque eu e a Mariana fazemos muitas sessões de terapia neste sofá. As duas juntas aqui sempre a conversar.
Não, mas tens razão.
Mas eu acho que tem mais a ver com isso. Ou seja, é quase um alerta de: "Eu não estou a cuidar de mim, eu sei o impacto que isto tem".
E eu acho que é um medo de eu vou voltar a ser caqueira.
Exato. Eu acho que tem mais a ver com isso, não consegue estar tranquila. Isto faz parte de mim.
Eu digo: "Ah, eu quero levar a corrida agora de uma forma mais chill, ir fazendo e só para mexer, só para me sentir bem", eu não consigo. Porque se eu tiver nesse registo, sinto que estou a falhar. Lá está.
Pois, e a questão é, tu disseste tudo o que já fizeste de desporto na semana que passou e eu penso: "Meu Deus, ela faz muita coisa em desporto". Percebes? E tu tens que perceber por que fazer essa quantidade de exercício para ti significa falhar. O que para ti é preciso para não sentires que estás a falhar?
Porque eu normalmente defino segunda-feira ou domingo os exercícios que eu quero fazer, a quantidade e a que horas e ponho na minha agenda. E quando tenho definido e não vou, é uma sensação horrível
Porque sinto mesmo que estou a falhar comigo. Certo. E vem o medo de voltar atrás. Eu digo muitas vezes isto a amigas minhas e tento fazer isso comigo própria, que é: quando tu estás com pouca autoestima ou pouca confiança em ti, para mim, como é que eu restituo essa confiança é eu dizer que vou fazer uma coisa e fazê-la, seja qual for. No ginásio, às vezes, eu estou no ginásio e estou na passadeira a correr e odeio, por exemplo. Isto até pode ser um exercício para quem quer restituir essa confiança ou quer começar nesses pequenos hábitos. Estão na passadeira, não digam que vão correr 10 km, digam que vão correr cinco minutos e corram esses cinco minutos, porque o impacto que tu dizeres que vais correr cinco minutos e os correres, é gigante. Tu estabeleces uma meta que não é realista e que não é ajustada. Exatamente. Ao comparado tu dizeres: "Vou correr 10 km" e corres nove, é muito melhor. Se calhar tu precisas fazer algum ajuste aos objetivos que tu traças durante a tua semana. Ou seja, teres até aquele mínimo de vezes que vais ou de exercício que fazes, mas haver aqui um espaço para o imprevisto, para a flexibilidade, porque se o objetivo que tu traças é muito ambicioso, a probabilidade de não ocorrer como tu esperas é muito maior. E depois dá-te uma sensação de falha e se calhar até foste ao ginásio cinco vezes, mas como não foste seis, "não atingi o que eu queria." Sim, eu acho que, por exemplo, no mês de dezembro eu estive com imenso trabalho e não foi a minha prioridade, mas como isso não foi prioridade e não estava mesmo a definir na minha agenda que era para fazer isso, esse número de vezes, não me senti mal sobre isso. Não te sentiste mal. Não. Porque tinhas outra prioridade. Mas agora em janeiro foi: "Ok, agora quero fazer isto e não consegui e sinto-me muito mal sobre isso." Claro. Claro, conhecendo o que eu conheço, que não te conheço, e por isso é apenas uma hipótese, mas tem mais a ver, se calhar, com este objetivo que tu traças, que pode ser um bocadinho irrealista, tendo em conta o teu trabalho, o teu ritmo de vida, as exigências do dia a dia, do que propriamente tu estares desmotivada ou tu não estares focada o suficiente. Uma coisa que eu faço muito na minha vida e que eu aprendi com a Joana até, porque quando eu estava em processo de terapia, nós chegávamos a uma conclusão e eu dizia: "Ok, mas e agora, o que eu faço com isto?" Eu não percebia sobre psicologia. Eu levo isto para a minha vida. Descobrimos porque é que isto acontece, mas como é que eu faço com que deixe de acontecer? Porque acontece aquela situação e eu sinto-me assim. E eu ficava frustrada: "Mas o que eu faço?" E a Joana dizia-me: "É só estares consciente o porquê". Ou seja, quando a coisa acontece, quando tu te sentes frustrada porque fizeste cinco vezes exercício físico, mas para ti não é suficiente, é estares consciente que este pensamento é irrealista, como é óbvio, isto é suficiente. Eu não sei, eu pelo menos tento fazer um bocado isso para tentar não me deixar sentir assim. O fundo é mudares um bocadinho o teu diálogo interno de crítica e de exigência. Porque depois nós usamos muito este exercício em terapia e acho que muita gente já conhece este exercício, que é: se fosse outra pessoa falar contigo sobre isto e a dizer-te: "Olha, eu fiz duas vezes pilates, fui correr três vezes, esta semana não fiz nada." O que tu sentires relativamente a essa pessoa? Sim, eu sei. Porque tu dizes: "Não, tu fizeste imensa coisa, tu fizeste e esforçaste-te bastante." Mas como é contigo, tu tens esse automatismo de dizer: "Falhaste, não foste o suficiente, não foste capaz de atingir o teu objetivo." É quase como se isso fosse uma coisa sobre ti e não sobre aquilo que tu fizeste. E que no fundo nem te estás a comparar a ninguém, é uma coisa contigo própria, é uma competição contigo própria. Onde é que acaba o autocuidado e começa a rigidez que é não saudável? Ok, boa questão. Aí tu vais vendo mediante um bocadinho estes objetivos que tu defines e tu vais fazendo aqui uma testagem. Tu vais: "Ok, eu estabeleci fazer exercício cinco vezes na semana e consigo, isto dá para encaixar no meu horário, no meu trabalho. Isto faz sentido para mim, para a minha rotina, para a minha dinâmica." Se tu começas a perceber que aquele momento que tu vais ao ginásio, por exemplo, te deixa muito mais estressada do que te deixa tranquila e leve e a sentires-te bem, começas a ter que avaliar se aquilo faz sentido para ti, porque aquilo que é saudável e autocuidado para ti, pode ser rígido e inflexível para outra pessoa. E aí tu tens que ir vendo mediante a forma como tu te sentes relativamente ao teu comportamento. Porque lá está, para algumas pessoas funciona irem muitas vezes, para outras funciona ir uma vez ou ir duas, o que importa é o impacto psicológico e emocional que aquele comportamento tem na tua vida. Se eu disser que os hábitos saudáveis para mim são uma forma de liberdade, mas também uma prisão, faz sentido? Claro que sim. Faz? Faz todo sentido. Porque um hábito saudável é uma coisa que tu escolhes e que tu sentes essa liberdade de- Quando estou, sinto-me eu, sinto-me livre, sinto-me bem. E porque sentes que estás a fazer aquilo por ti, mas como é uma escolha que tu fazes, apesar de às vezes não te apetece, às vezes não queres, às vezes não tens vontade.
E se começas a sentir isto muitas vezes, começas a sentir essa prisão.
Tu achas que isso acontece pelo fato de tu partilhares isso com outras pessoas?
Não.
Sempre aconteceu mesmo antes de...
Eu sempre fui assim.
Ok.
Sempre fui assim. É tudo aquilo que também acabo por partilhar aqui, da minha relação com o meu corpo. Acho que já começou na ginástica e sempre fui assim.
E ajuda quando nós temos este discurso de obrigação, do gênero: "Eu tenho que ir ao ginásio cinco vezes por semana." E tu adotas este discurso de obrigação, é muito mais pesado do que: "Eu vou ao ginásio três vezes por semana, porque me acalma, porque faz bem ao meu corpo." Quando tu tens e vais repetindo pra ti própria, no fundo, os motivos que te levam a ter determinado comportamento, ele acaba por se tornar mais leve do que uma simples obrigação e um "tenho que".
Mas eu acho que na superfície é nessa forma que eu olho pro esporte, mas se formos mais escavarmos um bocadinho, não é tanto por aí.
Exatamente.
Tu sentes a obrigação moral, porque eu escolhi esta vida pra mim. Então agora eu tenho que... Nos "Hábitos Atômicos", o que a Joana estava a dizer é um bocadinho uma das técnicas que eles falam lá sobre tu deixares de ver como uma pessoa que tem que praticar exercício físico, mas eu sou uma pessoa saudável, por isso eu pratico exercício físico.
E quando estou numa fase que estou a cumprir com tudo e estou megamotivada, eu sinto-me assim. Mas nas alturas em que é puxada a ferro.
Sim.
Mas o que eu acho-
Porque tu tens muito esse discurso do "eu estou a cumprir com tudo". E esse tudo, provavelmente, pode ser um bocadinho irrealista. Pode ser uma coisa que é mais de fases do que uma coisa constante. Tu se calhar precisas de baixar um bocadinho essa obrigação que tu colocas, está me a faltar a palavra, essa fasquia. Se tu se calhar abaixares um bocadinho, tu já consegues lidar com isso com um bocadinho mais de leveza e um bocadinho mais de eu estou a fazer isto porque eu quero e porque eu me sinto bem, e não tanto porque eu tenho que cumprir com tudo, em todas as fases da minha vida e em qualquer momento.
Eu acho que se faz parte daquilo que tu és e da tua vida, não devia ter essa importância toda. Percebes? Ou seja, se não há nenhum objetivo por trás, competitivo ou, sei lá, como tu estavas a dizer, quero levar isto porque eu gosto e porque me faz bem. Eu, por exemplo, passo os meus verões no Algarve e tem lá uma rede de vôlei de praia, eu adoro jogar e eu passo os meus dias a jogar. E adoro. Isso faz parte de mim, mas eu nem sequer penso que eu estou a ir fazer aquilo com este, este ou aquele objetivo. Ou seja, eu não me sinto mal se eu também não for fazer. Mas faz parte de mim e eu acabo por fazer.
Mas se calhar aí entra um bocadinho aquela parte que ela estava a falar da relação com o corpo.
Lá está!
Está um bocadinho mais ligado.
Não é sobre o desporto.
Pois, não é sobre o desporto.
Bem, vamos chegar ao fim da minha terapia, tá? Vamos avançar.
Eu estou a sentir o clima a ficar mais tenso.
Bem, EMDR. Já usei esta terapia antes e descobri-a por causa da Inês. Basicamente, a Inês, estávamos a ter uma conversa, já não sei por quê, e ela disse-me: "Mariana, eu consegui ter um namorado porque fui pra EMDR." E eu: "O que é EMDR?" Joana, o que é EMDR?
Ok. Vamos explicar um bocadinho em que consiste o EMDR, só pra termos aqui uma ideia do que significa a sigla EMDR, significa Eye Movement Desensitization and Reprocessing. E a tradução é dessensibilização e reprocessamento através de movimentos oculares. Esta terapia é utilizada, é primeira linha de tratamento para trauma. Ela foi desenvolvida por uma psicóloga norte-americana e acho que isto é uma curiosidade engraçada, porque tu estás muito ligada ao desporto e às corridas, e ela descobriu um bocadinho esta terapia enquanto estava a fazer uma caminhada. Ela estava a fazer uma caminhada e começou a perceber de que forma é que aquilo, aquela estimulação bilateral, esquerda, direita, estava, no fundo, a mexer um bocadinho com os pensamentos dela.
A sério? Que giro.
E a trazer aqui alguma clareza à forma como ela estava a pensar naquele determinado tema. E depois ela desenvolveu todos os estudos a partir daí. O que é que pressupõe o EMDR? Pressupõe que quando tu vives um trauma, quando tu passas por alguma situação traumática, o teu sistema nervoso fica preso a uma resposta de defesa, ele fica congelado. Porque o nosso sistema nervoso, eu acho que isto é importante dizer, ele não foi feito para nos fazer felizes, ele foi feito para nos manter vivos.
Manter alerta.
E por isso, quando há alguma coisa que bloqueia este nosso sistema nervoso, nós desenvolvemos um trauma. E acho que também é importante desmistificar, porque isto muitas vezes acontece, as pessoas acham que o trauma é um evento específico, é uma coisa que te aconteceu. Mas o trauma não é o que te aconteceu, é aquilo que ficou em ti depois do que te aconteceu.
Mas eu ia te perguntar se tem que ser um momento e uma coisa grande que aconteça, ou podem ser coisas pequeninas que tu foste guardando de forma errada no teu cérebro, não é?
De forma desadaptativa, exatamente. E isso é muito importante, e os autores fazem um bocadinho esta distinção entre o grande trauma e os pequenos traumas. O grande trauma, no fundo, é tudo aquilo Que nós conhecemos mais como trauma agudo ou trauma de choque, um acidente, uma perda inesperada, um diagnóstico médico.
Uma violação.
Uma violação, exatamente.
Até porque uma perda de alguém, para mim, pode ter desengatilhado um trauma e para ti, não. Tu podes ter conseguido lidar bem com a situação.
Exatamente. E os pequenos T, que são muito desvalorizados, mas no fundo é aquilo que nós mais trabalhamos na terapia, são as coisas mais desenvolvimentais e contextuais com as quais tu foste crescendo. E aqui estamos a falar mais de situações de crítica, situações de rejeição, de abandono, de medo, de ansiedade e, portanto, todas essas coisas foram construindo dentro de ti uma espécie de um muro que te foi fazendo desenvolver determinadas crenças e determinadas emoções. E esses são os pequenos T, os pequenos traumas. E aquilo que a Inês estava a dizer também é muito importante, que é: o trauma é uma experiência subjetiva, não é igual para toda a gente, nem é igual para a mesma pessoa em diferentes momentos da vida. Uma coisa pode ser traumática para mim hoje, porque estou inserida num contexto familiar, numa cultura, e tenho determinados recursos emocionais com os quais eu posso contar, e para ti, não. Por isso é que se diz que o trauma é uma experiência muito subjetiva.
Mas assim de forma prática, que eu costumo chamar esta terapia, terapia das bolinhas. Este é o nome que eu uso, que é basicamente, de forma prática, temos de ter estímulos bilaterais.
Exatamente.
Portanto, som e de olhar para umas bolinhas, para a direita e para a esquerda, e isto estimula o cérebro. Como é que isto acontece? De reprogramar memórias.
Certo. No fundo, é isso, é dares um novo significado à memória. É muito importante nós deixarmos claro que ninguém vai esquecer o que aconteceu. Ninguém vai eliminar aquela memória.
Aposto que há pessoas que vão ter convosco: "Eu quero mesmo esquecer isto, pode-me ajudar?"
"Posso esquecer-me disto?" Não, não é esse de todo o objetivo, até porque isso faz parte da nossa história, aquilo que nós vivemos. Mas o que é que o EMDR pressupõe? Que quando o trauma acontece, o teu sistema nervoso congela, bloqueia e essa memória traumática sai da tua rede de memórias, ela desintegra-se, ela fica como se estivesse isolada, como se fosse uma espécie de uma ilha. E o que tu fazes no EMDR é colocares os hemisférios cerebrais em comunicação com essa estimulação bilateral, de modo a trazer de volta essa memória para as tuas redes de memória adaptativas e integrá-la, armazená-la no teu sistema nervoso da forma correta. Eu costumo usar um bocadinho esta analogia de que quando nós passamos por uma situação difícil, uma vivência traumática, nós não conseguimos processar adaptativamente essa informação. É quase como se nós atirássemos aquela memória um bocadinho para baixo do tapete. E o que o EMDR faz é obrigar-te a ir buscar essa memória e a integrá-la de forma adaptativa. O objetivo é reduzires a carga emocional dessa memória. Porque o que é que o trauma nos dá? Dá-nos gatilhos. Nós temos gatilhos no nosso presente que nos levam ao passado, que nos levam àquelas memórias, e isto às vezes é consciente, outras vezes não. Mas o que o EMDR vai fazer é desligar-te esses gatilhos, é baixar o impacto emocional de forma que tu te lembres da memória, mas que não te lembres com sofrimento emocional associado, porque a memória é uma coisa passada. Então tu quando te lembras dela, ela devia fazer parte do passado.
Ou seja, não ter impacto nas tuas decisões presentes o quanto aquilo te impactou.
Te impactou no passado. E a ideia é mesmo deixar de te impactar. Esse é o objetivo, é deixar de te impactar.
E é possível atingir os mesmos resultados com a terapia convencional?
Olha, imagina, isso acho que é um bocadinho, ainda é muito conversado, questionado e estudado, mas daquilo que são os estudos hoje em dia é: qual é aqui a grande diferença para a terapia tradicional, a talk therapy.
Cognitiva ou comportamental.
Terapia conversacional, que nós usamos mais. É que quando o teu sistema nervoso congela, quando ele está bloqueado naquela resposta de defesa, ele não consegue voltar ao seu estado de regulação emocional, de segurança. E quando tu falas, e isto é um mito, que as pessoas acham que falar do passado e falar sobre o que aconteceu e compreender o que aconteceu é suficiente para eu depois me sentir bem. E vem um bocadinho aquela questão que a Inês estava a falar há bocadinho de: "Ok, eu sei isto, eu percebo isto, mas e agora? O que eu faço com esta informação?" Este bloqueio que a pessoa sente é uma coisa que é emocional e é corporal, é somática. Eu acho que aqui é que vem o verdadeiro diferencial do EMDR, porque quando tu falas sobre o passado e compreendes os teus pensamentos, os teus padrões, os teus gatilhos, tu estás a trabalhar numa ótica analítica, numa ótica racional. Não estás a aprofundar para a parte somática do teu corpo, para a parte física. E o EMDR obriga-te a fazer isso, vai ao teu subconsciente e vai buscar a parte emocional e corporal que estavam ali escondidas naquela memória implícita. E depois imagina, nós sabemos que hoje em dia, já há imensos estudos que nos mostram que 95% da nossa atividade cerebral passa-se no nosso subconsciente, e não na nossa parte consciente. Então esta parte consciente não é suficiente para tu saíres dela, para tu conseguires efetivamente Melhorar, sentires-te bem relativamente àquela memória. E isto muitas vezes não é uma coisa consciente. E o EMDR ajuda-nos a ir buscar coisas que às vezes as pessoas realmente nem se lembram, nem fazem ideia do impacto.
Como é que foi a tua experiência?
Eu ia falar sobre isso, porque o primeiro impacto que eu tive com o EMDR, quando nós efetivamente começamos a fazer as bolinhas e tudo mais, eu saía de cada consulta muito confusa.
Sim, foi o que tu me disseste: "Isto está a resolver alguma coisa, mas eu não estou a perceber."
Eu quando saía de lá, porque o que normalmente acontece é que tu estás a ver as bolinhas e a terapeuta, a Joana, neste caso-
E vão surgindo memórias.
A Joana vai guiando um bocadinho, ou seja, nós começamos a ver as bolinhas e supostamente eu tenho que estar a pensar em alguma coisa que está a ser guiada por algum motivo.
Só para completar a tua ideia, Inês. Nós selecionamos, neste caso, uma memória, que nós gostamos de trabalhar, e há determinados elementos daquela memória que nós vamos ativar. Nomeadamente, uma imagem relacionada com esse evento, uma emoção que tu sentes quando estás a pensar naquilo, um pensamento relacionado com aquilo e uma sensação corporal, que pode ser uma, podem ser várias. Tu vais ativar estes elementos relacionados com aquela memória. E a ideia depois, e é por isso que eu também gosto tanto do EMDR, que é: a pessoa não tem que fazer muito.
Tem que deixar ir.
Não tem que ter um papel super ativo. E nós usamos muito a metáfora do andar de comboio. Quando tu estás a andar de comboio, tu estás a ver uma paisagem a passar e tu não estás a ter qualquer influência nessa paisagem. E no EMDR acontece um bocadinho isso durante o processamento, que eu só peço para a pessoa começar por se focar naqueles elementos, mas depois, o que surge a partir dali já não é nem responsabilidade minha, nem responsabilidade consciente da pessoa. É uma coisa que vai acontecendo e a pessoa às vezes diz: "Ai, mas eu agora estou a fugir da memória, estou a lembrar-me de outras coisas." Eu: "Tudo bem, faz parte."
Era isso que me acontecia. Nós definimos inicialmente alguns pontos sobre a minha vida em que faria sentido trabalhar aqui o EMDR.
Mas tu chegaste lá com objetivos concretos?
Eu cheguei lá com-
É que eu fui diretamente com: "Eu tenho este objetivo e este objetivo".
Mas sabes o que é o curioso? Eu fui para lá com um objetivo, que para mim era importante, era muito específico, que era-- ok, eu vou contar tudo.
Conta!
Eu tinha muita dificuldade em conseguir ter uma relação séria. Ou seja, eu ia conhecendo, durante a minha adolescência e agora como jovem adulta, ia conhecendo algumas pessoas, que me apaixonava, que eu gostava, mas depois eu não conseguia passar o nível de efetivamente ter uma relação séria, estável.
De compromisso.
De compromisso, para mim era muito complicado. Mas eu não conseguia ver por quê, eu não conseguia perceber por quê. Muitas vezes eu chegava à consulta e dizia: "Eu estou estragada. Eu não sei como é que eu vou resolver isto" porque eu acordava, sei lá, eu gostava de uma pessoa, estava com essa pessoa e de um dia para outro eu sentia que deixava de gostar. Então eu achava que eu tinha algum problema, porque não era normal. Ou seja, não era um medo, quer dizer, na verdade era, mas não era tão explícito ao ponto de eu sentir: "Eu tenho medo que isto aconteça". Não, eu queria, mas eu sentia que deixava de gostar. Isso fazia muita confusão e quando és adolescente, se calhar, não ligas tanto a isso, mas eu comecei a chegar a uma fase que: "Não, eu quero ter uma relação estável, eu quero ter um casamento, filhos, sei lá. Sinto que preciso resolver isto." E quando comecei a ter terapia, eu resolvi isto sem falar sobre isto.
Exatamente.
Nunca falamos muito sobre isto. Nós começamos a analisar várias coisas ao longo da minha vida. Os meus pais são divorciados, e eu lembro perfeitamente de dizer à Joana: "Não, mas o divórcio dos meus pais, não, porque os meus pais são super amigos, estão super bem."
Sim, mas lá para trás, se calhar.
Fomos a esses pontos todos na minha vida, que supostamente não seriam situações de grande trauma, nunca me aconteceu assim, ou pelo menos eu-
Não tinhas essa perceção
...porque nós vemos filmes e às vezes há pessoas que têm vidas tão complicadas e com traumas tão grandes e com coisas, e nós achamos que eu não tenho nenhum trauma, porque eu nunca passei por isto.
Há uma desvalorização. Sim.
Mas nós fomos bater essas portinhas todas e eu consegui resolver essa questão sem eu falar efetivamente ou debatermos sobre essa questão, porque era o que estávamos a dizer, não é sobre esforço, não era sobre eu não conseguir ter uma relação.
Exatamente.
Mas tu foste sentindo mudanças de atitude tuas ao longo do processo?
Sim, ou seja, eu pensei assim: "Isto é uma questão, eu quero resolvê-la", mas eu fui para lá com a consciência de que não pode ser sobre isto. Tem que ser mais. E eu também tive todo um percurso ao longo da minha adolescência, eu fui gostando de desenvolvimento pessoal. Eu lembro-me de sempre fui uma pessoa que pensei: "Isto está a acontecer por causa disto, porque quando eu era miúda, não sei o quê."
Tu tinhas uma explicação para isso.
Eu sempre tive esse pensamento crítico. Para esta coisa específica, eu não tinha bem um pensamento ou uma justificação, e por isso é que decidi começar a fazer terapia e achei muito interessante o EMDR. Quando nós começamos a trabalhar este tipo de outras situações, eu sou disléxica, trabalhamos a minha dislexia, por exemplo, fizemos o EMDR nesse sentido, de pensar em memórias relacionadas com isso.
Até porque isso ia também muito de encontro Ao teu pensamento de: "Eu tenho um defeito, eu estou estragada." Exato. Está tudo interligado. Eu não percebia por quê. E a Joana percebeu, se calhar, eu lembro de ela me orientar e dizer: "Não, mas vamos falar sobre isso." Porque eu era muito importante. Vamos falar um bocadinho. Só um bocadinho assim, se não for, também. Porque eu sinto que o EMDR teve mesmo impacto, porque nestes temas em que para mim estavam efetivamente resolvidos e que não tinham problema nenhum, era o que a Joana estava a falar da parte consciente e da parte inconsciente, porque conscientemente. Racionalmente. Racionalmente estavam resolvidos, mas o meu inconsciente não estavam. E eu senti que ao fazer o EMDR, o que me acontecia muitas vezes era: começávamos a guiar a terapia com uma memória relacionada, por exemplo, com a dislexia. Começávamos a guiar, começavam as bolinhas e eu começava a me lembrar de pessoas e de coisas. Mesmo aleatórias, não é? Nada a ver. Mas nada a ver. E eu só pensava. Às vezes as pessoas pensam: "Estou a me fazer mal?" "Estou mesmo a fazer mal, está me a surgir isto aqui, tenho nada a ver ela." "Sim, continua por aí." É isso. E eu acabava a sessão a pensar. E coisas que eu já não me lembrava há anos. Nada a ver. Eram coisas nada a ver. Exatamente. É um fenómeno de associação livre, que no fundo, leva tua memória para a tua rede de memórias, que está tudo interligado, mas que tu não tens essa consciência, não é uma coisa consciente. Mas no fundo, está tudo ligado e é isso que a estimulação, e só para explicar um bocadinho esta questão das bolinhas, que vocês já começaram a falar, esta estimulação bilateral, ela pode ser visual e aí que vocês veem uma luzinha ou uma bolinha, mas ela pode ser também tátil, pode ser através de toque, às vezes há pessoas que gostam, por exemplo, de bater com os pés no chão. Às vezes eu não estava a conseguir entrar e a minha psicóloga mandava-me fazer assim com o- Exatamente, com o braço borboleta. Pode ser auditivo, há pessoas que gostam mais do auditivo. Eu fazia auditivo mais. Também fazia sons. Exatamente, e por isso é uma estimulação que permite esta comunicação interhemisférica, que põe o hemisfério esquerdo e direito em comunicação para fazer esta ligação dos vários elementos das memórias. E a ti sentias coisas no teu corpo? Não me lembro de sentir propriamente coisas no meu corpo. Eu lembro-me de acabar as sessões muito confusa. E às vezes ficavas um bocadinho em baixo. Eu ficava sempre em baixo. Ficava low, mas depois o que eu achava incrível é que durante a semana vinham cenas à cabeça. Parecia que eu ia resolvendo coisas. Exatamente. A psicóloga dizia que aquilo continuava a processar ao longo da semana e para eu estar atenta aos meus comportamentos, para perceber as diferenças que iam acontecendo. Mas o que eu sentia no final das consultas, para além de baixa energia, era aqui um nó na garganta, sempre. Pelo menos nas primeiras consultas, depois foi aliviando. Depois ia aliviando. Eu muitas vezes deitava-me e ficava assim. E ficavas com uma energia muito em baixo. Eu pagava para me sentir assim, para ficar assim e para olhar. Mas eu detestava ir. Eu detestava ir a essas consultas, porque sabia sempre que eu ia ficar confusa. É isso, não era uma sensação de que falei sobre um tema que me deixou perto. Não é uma sensação de resolução, não, não é. Não. Mas o que é que mudaste, como começaste a sentir, por exemplo, nesse caso da tua relação? Desse bloqueio. Eu simplesmente deixei de me sentir assim. Porque eu senti mesmo diferença concreta na minha vida. Posso explicar? Não, não vamos entrar muito específico. Não temos que entrar por aí. O que eu sinto é, principalmente em relação a esse bloqueio, que eu deixei de me bloquear, eu deixei de me autossabotar. Eu comecei a gostar da pessoa todos os dias. Ok, porque já estavas com a pessoa na altura. Sim, não estava numa relação, mas a pessoa estava na minha vida. Ok. Eu sinto que em relação a esse tema, a principal mudança, porque não era uma questão de eu não ter comportamentos, eu bloqueava-me, nesse sentido, de imensas formas e eu deixei de me bloquear. Eu acho que foi mais por aí. Sinto que mudei também alguns pensamentos que eu tinha. Eu tinha muito o pensamento de que só as pessoas fracas é que têm relações e que precisam dos outros, as pessoas confiantes, independentes não precisam. O sentido de conexão, não é? Se eu tiver uma relação, eu vou deixar de ser independente. Exatamente. Eu vou deixar de ser isto tudo inconscientemente. É uma dependência expectável. Ou seja, eu, consciente, queria ter uma relação, o meu inconsciente dizia: "Não, olha que tu, se tiveres uma relação, és frágil, és fraca." Mas eu não pensava efetivamente isto, era o meu inconsciente. E era por isso que eu depois acordava e já não gostava da pessoa, porque o meu inconsciente andava ali à solta. Era um mecanismo de defesa. Sim, para mim também foi a mesma situação. Eu fui com dois objetivos concretos e um deles também era esse bloqueio, que eu já não estava com alguém há um ano e tal e nem sequer sentia vontade de conhecer outras pessoas. E foi uma coisa que eu até chegava às consultas e ia contando updates da minha vida e ela: "Já viste a diferença?" E para mim não acontecia diferença nenhuma, não conseguia ver. Mas foi mais ou menos três meses de estar com consultas semanais que eu comecei a sentir vontade de sair e marcava date, eu conhecia pessoas. Que é uma coisa muito natural. É isso também. E depois quando eu olhei para trás é que eu comecei a perceber. É gradual e natural. E por isso é que eu gosto tanto de traçar os objetivos com a pessoa, porque às vezes a pessoa nem tem noção de que aquilo era um problema antes. Sim, mesmo, por exemplo, a relação com a comida foi também um objetivo e ela estava me dizendo: "Então e pensa a última vez que tiveste um episódio." E eu começava a pensar: "Foi há três semanas." Ela: "Já viste a diferença?" E eu: "Realmente, agora que estou a pensar, mas é uma coisa que ia acontecendo sem eu estar a pensar sobre isso." Exatamente. E acho que também uma das grandes vantagens do EMDR e o diferencial é essa continuidade pós-sessões, que é: tu dás esse estímulo ao cérebro E ele depois continua a fazer o trabalhinho dele. Mesmo que tu não estejas ativamente a dar novamente esse estímulo, ele continua a fazer o trabalho dele e ele aprende a fazer esse trabalho. E por isso acontece muito também nas primeiras memórias que tu trabalhas ser uma coisa mais demorada e ser uma coisa mais difícil.
Sim.
Mas depois é como se o cérebro já sabe o que é que tem que fazer. Dás ali um estímulo e ele já faz e com muito mais rapidez, muito mais facilidade, porque ele aprende também a lidar com esse estímulo. É muito engraçado ver isso.
E hipnose? Qual é a ligação com isto, se era haver? Eu já fiz e não consegui entrar no estado.
Certo. É assim, eu não sou especialista em hipnose, ok?
Mas é feita também por psicólogos, terapeutas, não?
É feita por psicólogos, mas não é uma terapia validada pela Ordem dos Psicólogos.
Ok.
Não há evidência científica suficiente para ser validado e credenciado pela Ordem dos Psicólogos. Por isso é que também há muitos terapeutas que fazem hipnose e que não são psicólogos. E aí já é um bocadinho mais perigoso, na minha perspectiva. Agora, é realmente diferente. Primeiro, porque tu na hipnose estás num estado de relaxamento muito profundo. Tu quase não estás muito consciente do processo.
Quase que estás a dormir.
No EMDR não. Tu estás sempre em modo de vigília, estás sempre desperta, estás sempre consciente. Isso é muito diferente da hipnose. Depois, imagina, na parte quando tu estás nesse estado de relaxamento na hipnose, existe aquilo que é a sugestão hipnótica, que é o terapeuta vai te dando pensamentos, vai te dando sugestões.
Como é que estás a imaginar uma praia.
Exatamente, e vai te dando: "Agora pensa nisto, agora pensa sobre aquilo, agora podes alternar esse pensamento com este." No EMDR não, o terapeuta não te dá este tipo de indicação. É tudo muito livre, é tudo muito próprio, individual de cada pessoa. O teu cérebro é que te vai dando os pensamentos, as emoções, aquilo que tu estás a sentir no teu corpo. Nada é sugerido. E por isso acho que é muito diferente da hipnose.
Sim, uma coisa que eu sentia no EMDR é que eu às vezes até sentia que queria falar mais com ela, mas que não era sobre isso.
Exatamente.
Mas no final da consulta fazíamos sempre um resumo daquilo que estava a acontecer, pra eu ficar com as ideias mais claras, porque eu saía sempre muito confusa.
Eu saía 100% confusa.
As coisas iam se ajustando.
Eu no início ligava a minha irmã, e dizia assim: "Eu devo estar a fazer alguma coisa errada, eu não estou a perceber." Era muito confuso, mas uma das coisas que eu também, para além de resolver alguns dos objetivos aos quais eu me propus resolver, uma coisa que eu também gostei muito deste método, foi começar a dar mais importância, como eu estava a falar há bocadinho, a coisas da minha vida, acontecimentos da minha vida que eu antes não dava.
Estás mais alerta, estás mais atenta, estás mais consciente.
Estás mais consciente. E também outra coisa, como eu sempre fui aquela pessoa de tentar perceber, isto vem daqui, ok, eu sinto-me aqui por causa disto, isto tem impacto por causa disso. Eu durante anos achei que este meu bloqueio em relação às relações tinha sido por causa do meu namorado, quando eu tinha 15 anos, que não sei o quê.
Também eu.
Não tinha nada a ver.
Normalmente é uma coisa muito mais atrás.
Mais atrás, exatamente. Eu comecei a estar muito mais atenta a esse tipo de questões e a tentar não achar que sei de onde é que vem tudo e mais alguma coisa, porque se nós efetivamente soubéssemos e se essa informação estivesse certa e bem trabalhada e consciente, já não era um problema. Percebes? Ou seja, acho que é importante também as pessoas não acharem que é só ler livros de desenvolvimento pessoal e pensarem muito sobre a vida delas e não sei o quê.
E nós às vezes no EMDR não chegamos a essa conclusão específica. Ou seja, a pessoa tem este medo. Às vezes conseguimos chegar lá e perceber, ok, isto pode vir daqui, mas outras vezes não.
E a pessoa pode bloquear isso também.
Sim, mas isso também não é o objetivo, porque tu podes conseguir resolver aquilo sem saber exatamente de onde é que aquilo veio.
Este bloqueio que eu tinha em relação a ter um relacionamento sério e o compromisso, não era de uma coisa, são várias coisas que moldaram.
É aquele muro que nós vamos construindo.
Mas eu estou a falar disto de bloquear porque eu sei que algumas das consultas eu ia fazendo isso, porque depois chegava ali um ponto em que eu dizia: "Não surge mais, não está a surgir mais nada." E acontecia isso várias vezes, e ela: "Estás a bloquear, porque estamos aqui a entrar, sei lá, falar de alguma coisa, dos meus pais, estás a bloquear." E eu aí, ok, percebia, não, deixa ir.
Estavas a racionalizar, estavas a proteger-te.
Outra coisa que eu também me lembrei que pode ser interessante. O eu achar que eu tinha ficado com este problema, com este trauma, por causa daquele relacionamento quando eu era miúda, não sei o quê, não sei o que mais, eu percebi uma coisa muito curiosa, que foi, eu dava toda essa importância de aquele relacionamento quando eu era miúda, aquele acontecimento, fez com que eu tivesse esse problema.
Racionalmente puseste esse peso todo.
Eu pus este peso todo nisto. Quando eu consegui resolver esta questão, esse acontecimento deixou de ter impacto.
Isso também, na minha primeira relação, e eu contei aqui há uns tempos num episódio que eu tinha muitos pesadelos recorrentes com aquilo e foi, sei lá, há oito anos.
Isso também me acontecia, deixei.
E foi quando comecei a fazer EMDR que eu deixei de ter, já não tenho desde aí, nenhum pesadelo.
Lá está, eu acho que isso também me ajudou muito, porque eu achava que aquilo tinha me trazido um impacto gigante na minha vida, hoje em dia, tinha me desenvolvido problemas ou traumas, ou seja, o que for. E quando eu consegui resolver Efetivamente a questão, isto deixou de ter impacto, porque não era este o motivo.
Às vezes colocamos esse peso.
Eu personificava naquela relação, naquela pessoa e nada tinha a ver. Por isso eu acho que nós irmos resolvendo estas caixinhas e batendo estas portinhas, vai nos resolver muitas mais coisas.
Que não há muitas vezes consciência, e às vezes não há mesmo memória. Há coisas que as pessoas às vezes vivem e não têm mesmo memória, e nem é uma questão de não quererem contar ou não quererem falar sobre o que aconteceu. As pessoas não se lembram verdadeiramente.
Eu conheço pessoas assim.
Às vezes nós estamos no processo e depois a pessoa lembra-se, muitas vezes. E medos que a pessoa: "Ok, isto agora faz muito mais sentido, porque eu passei por isto", mas a pessoa não se lembrava mesmo. E quando tu às vezes chegas a essas memórias, é um passo muito importante para a terapia, porque sabes: "Ok, agora chegamos aqui, vamos conseguir resolver mais rápido."
Mas então no EMDR, chegando lá com objetivos, depois passando várias sessões, chega-se a um ponto que está resolvido o trauma e podemos ter alta. É isso que acontece? E por exemplo, tu já fizeste EMDR antes e estavas a dizer que voltaste entretanto.
Sim.
Porque tinhas outros traumas a resolver ou tens temas de hoje que queres resolver?
Sim, e por acaso tive uma conversa relativamente há pouco tempo com um amigo meu sobre isso, que é: eu acho que a psicologia tem que ser vista também, de certa forma, como outra especialidade. Ou seja, é um tratamento mais contínuo, não é como tu estares constipada, vais ao médico, dão-te o medicamento e ficas.
Sim, mas a psicologia sim, mas o EMDR é um método que funciona em traumas, por isso é que eu estou a perguntar, de que forma é que faz sentido na tua vida hoje?
Eu não acho que seja bem assim.
Não é só isso. Imagina, ele está como primeira linha de tratamento para trauma, mas esta abordagem psicoterapêutica começou a ser utilizada em muito mais questões. E nós usamos em questões, por exemplo, relacionadas com dor crônica, com o sono, e depois a parte mais psicopatológica, ansiedade, depressão.
Mas eu ia perguntar isso, a ligação com a ansiedade, de que forma é que pode ajudar?
Imagina, a ansiedade vem de medos que não tiveram resposta, de medos que não foram respondidos com segurança e com previsibilidade. E, portanto, a ansiedade tem normalmente uma origem traumática. Ninguém é ansioso. Porque há muito esta ideia de que: "Eu sempre fui ansiosa, eu sempre fui assim, mas não tenho nenhum trauma. Não, minha vida, zero traumas, mas sempre fui ansiosa."
E tu do teu lado de psicóloga e dos clientes que vais tendo, o que tu sentes em relação à nossa geração? Sentes que somos mais ansiosos, naturalmente, que estamos a viver uma altura, esta era tecnológica acelera um bocadinho isso?
Sim, sem dúvida. Agora, claro, eu só tenho experiência nesta geração. Não posso falar das gerações anteriores, mas nós vemos uma geração muito mais ansiosa, porque, efetivamente, e aqui nós temos sempre que voltar à parte da infância, e eu bato muito nesta tecla, porque nós fomos crescendo com pais estressados, com pais que tinham que equilibrar às vezes dois e três trabalhos. E hoje em dia, e nós vemos muito isto, as crianças desde muito pequeninas passam muito tempo nos ecrãs, nas televisões, nos telemóveis, nos tablets. Isso faz com que elas percam um bocadinho esta conexão àquilo que é a relação, aquilo que é o natural. E faz com que haja este acelerar de pensamento, de uma perda de foco, uma perda de atenção, uma perda de tudo o que é a conexão à relação, que faz com que isto surja. E esta parte das redes sociais da nossa geração, há muito isto da comparação, e a ansiedade muitas vezes vem daí. Vem desta comparação constante, desta competição, destes comportamentos de "aquela já alcançou isto e eu não, já chegou ali ou não". E isto é uma coisa que está muito a acontecer agora na nossa geração. Mas imagina, das pessoas que eu atendo, os meus clientes e pessoas que trabalham com a minha equipa, esta ansiedade muitas vezes não vem tanto daqui, deste presente, desta questão.
Vem de acompanhar os nossos pais?
Vem de coisas mais atrás, exatamente. Questões de afeto, de vinculação, de rejeição, de abandono.
Então pior ainda vão ser os nossos filhos.
Mais ou menos. Eu não sei se já falei aqui no podcast, que isto é uma coisa que eu tenho pensado muito e sou capaz já de ter falado aqui contigo alguma vez sobre isso, que é: eu sinto cada vez mais o sentido de responsabilidade de ter filhos, de ainda não ter a certeza se eu quero ou se eu não quero, até um bocadinho por quão mais eu percebo a responsabilidade que é tu educares outro ser humano e o impacto que isso tem.
Mas se calhar vamos estar mais conscientes, se calhar vamos tomar melhores decisões que os nossos pais não estavam conscientes.
Exatamente. Era isso que eu ia dizer. Ou seja, tem a dualidade que é: os meus pais são incríveis, eu adoro os meus pais, eles adoram-me a mim, às minhas irmãs, são pais muito presentes, sempre quiseram fazer o melhor, mas acabaram por também-
E tu também vais acabar por também deixar-
Desenvolver alguns traumas.
Exatamente, não há como fugir. Ninguém é perfeito.
E é isso que me assusta, que é Fogo, tu queres tanto fazer melhor.
Se calhar ainda vai ser pior, porque vai estar muito consciente de qualquer coisinha que ele diga vai ter impacto, vai criar uma memória e ele vai ter de ir para EMDR resolver este trauma.
É isso.
Eu acho que aí temos que ter algum equilíbrio, não é? Porque obviamente isso pode acontecer também, mas por um lado, nós não temos como controlar isso 100% e é assim toda a gente, nós sabemos, viver é traumático, portanto, nós sabemos que toda a gente vai passar por algum trauma, obviamente. Agora, e eu no outro dia estava a ver uma entrevista sobre isto, que era uma senhora que estava muito preocupada com isso e que estava a perguntar ao Gabor Maté, que é uma pessoa que fala muito sobre isto, um médico. E ele perguntou: "Com que idade é que os teus pais começaram a trabalhar as suas questões, os seus traumas, o seu estresse, tudo isso?" E ela disse: "Agora." E ele: "Ok, agora. E que idade é que tu tens?" Ela: "Tenho 34, 35." "Ok, com que idade é que tu começaste a trabalhar isto em ti?" E ela: "Já desde, sei lá, desde os 20 e poucos." Ele: "Ok, então imagina, os teus pais passam-te 100% dos teus traumas, porque eles não trabalharam isso. Se tu passares 50% dos teus traumas aos teus filhos-
Já é muito melhor.
Já estás a ganhar.
Já estás a ganhar. É isso, já estás a fazer um ótimo trabalho. E por isso acho que é isso que temos que ter em consideração. Mas acho que esta consciência que nós temos de eu quero fazer, às vezes, eu quero fazer uma coisa diferente no que diz respeito a este ou aquele tema, é bom. E claro que não nos pode fazer ter medo de tudo.
Não pode ser um bloqueio.
Não pode ser um bloqueio, nós não somos perfeitos, mas lá está, é uma coisa que: ok, eu sei que da minha boca nunca vai sair pro meu filho: "Os homens não choram." Que é uma coisa que nós ouvimos sempre, que é tão óbvio pra nós, ouvimos desde sempre. Ou ele agora está naquela fase em que já não é bebê, já é crescido, já tem dois anos e meio. E tu ouves muitas vezes esse comentário de: "Chorar é para os bebês." Se tu já és crescido, tu não podes chorar. E eu é assim, se alguém diz isso sem eu estar presente, eu não posso fazer nada, eu não posso controlar. Mas se alguém tem o azar de dizer isso à minha frente, aí já não posso.
Leva logo à consulta de psicologia, por que não pode dizer isso.
Não fico calada, porque eu quero muito protegê-lo disso.
Mas acho que é ótimo. Quanto mais nós falarmos sobre isto, mais pessoas vão estar conscientes e educadas.
Sim, e é muito importante nós normalizarmos, e isto funciona na infância e funciona na idade adulta, que é: um dos grandes objetivos que as pessoas trazem para a terapia é: eu quero aprender a gerir as minhas emoções. Eu quero aprender a regular as minhas emoções. E eu primeiro pergunto sempre: "Ok, o que isso significa pra ti?" Porque às vezes as pessoas dizem: "Ai, não me quero sentir triste tantas vezes." E eu: "Mas a tristeza não é má. A tristeza é um sinal."
Foi uma das coisas que eu mais aprendi este ano, que é o errado é nós nunca nos sentirmos tristes. É normal nós sentirmos tristes, é normal nós termos problemas, é normal nós termos questões pra resolver, e eu acho é que nós temos que estar ou mais felizes e/ou mais preparados para receber esse tipo de coisas.
Tem que ser muito claro que não há emoções boas e emoções más. Claro que há emoções mais agradáveis do que outras. Nós gostamos mais de sentir algumas emoções do que outras.
Mas tem que estar equilibrada.
Claro, mas todas elas são importantes, todas elas têm o seu papel na nossa vida. E se tu não tiveste esta permissão em criança, de sentir todo o teu leque emocional, como é que tu vais lidar com ele na idade adulta? Porque tu não tiveste esta liberdade. Tu foste punida e castigada quando choravas. Quando te zangavas e fazias uma grande birra, punham-te-
Castigo.
Castigo. "Vai pro teu quarto pensar no que fizeste."
Está errado, estás triste, está errado, estás frustrado, está errado.
Exatamente. Mas se tu tiveres esta liberdade de sentir tudo e de ter este contato com as várias emoções com as quais te vais deparando, e eu imagino que quando tu és um bebê, uma criança, que aquilo seja assustador pra ti, sentires aquilo tudo naquela intensidade. Mas se tu tiveres alguém que te diga: "Ok, isso não está errado, é um sinal do teu corpo. Está tudo bem, estás seguro."
E dando as ferramentas pra aprender ele próprio a lidar com isso.
Exatamente, porque senão o que é que tu tens? Tens crianças que são muito bem comportadas e são muito certinhas e são exemplos a seguir. "Olha que bem que ele se porta, olha que bem que ele está." Mas depois são crianças que estão constantemente com medo de serem elas próprias, de se eu mostro esta emoção, eu posso perder a aprovação, posso perder o amor dos meus pais. Exatamente.
É?
Sim, acho que sim.
E então tu acabas por te perder um bocadinho.
Como é que eu estou a chorar só de pensar.
Sabes que acabas por te perder um bocadinho naquilo que é, porque as crianças nunca pensam: "Os meus pais estão estressados, os meus pais estão preocupados." É: "O que eu fiz de errado? O que eu tenho que fazer pra merecer o amor daquela pessoa?" Que são as pessoas que importam pra nós. E o facto de tu começares a sentir, no fundo, essa castração, de isso é mau comportamento, tu estás a ser mau. As boas meninas não se comportam dessa forma. Tu aprendes a lidar com isso e tu aprendes que pra eu ter o amor e a aprovação e o afeto que eu preciso na minha vida, porque todos precisamos, eu tenho-
De ser sempre assim.
Que esconder quando estou zangada. Eu tenho que ir pro meu quarto sozinha quando estou triste, porque ninguém me vai ver a chorar
Para mim, há exercícios que são muito sobre tu veres-te pequena, criança. E eu acho que é um exercício mesmo poderoso, que é o impacto que essas pequeninas coisas têm numa criança.
Sim.
E o que isso molda.
Mas ela vai se desenvolver a partir daí. Ou seja, as crianças não se veem como elas são, elas veem-se como os adultos as veem. E portanto, se tu lhes dás a possibilidade delas sentirem tudo, de viverem tudo, de experimentarem as várias sensações, as várias emoções, elas vão crescer muito mais conscientes daquilo que são, da sua autenticidade, da sua confiança, ficam muito mais reguladas, muito mais felizes.
Isso, pensas uma coisa: vale mais a pena tu teres uma criança que "porta-se pior", entre aspas, que eu estou a dizer, que faz uma birra. Ou teres adultos estáveis, que sabem lidar com as suas emoções.
Adultos também fazem birras.
Ou seja, estás a educar uma criança, tu não estás a pensar já nisso.
Claro.
Mas se calhar, hoje em dia consegues pensar de outra forma e consegues lidar. Claro que não vai ser todos os dias, às vezes estás cansado e não consegues lidar com a birra do teu filho da mesma forma.
Claro. E acho que estamos a generalizar um bocadinho, porque as crianças são todas diferentes e não sabemos o que nos vai esperar. São todas diferentes, mas as suas necessidades básicas são as mesmas. São sempre as mesmas, que é claro, tu tens as necessidades básicas de alimentação, sono, esses cuidados de higiene, mas depois temos aquelas necessidades de afeto, validação, amor. E isto é universal. Responsabilidade.
Sabes qual é o filme das emoções?
Isto é universal. Sim, "Inside Out".
É, tem a ver com isso.
Exatamente. Fala muito sobre isso, sobre a importância da tristeza. Joana, tens alguma recomendação de livros para nos dar? Livros. Tu gostas. Sim, e imagina, este médico que eu estava a falar há bocadinho, o Gabor Maté, ele fala muito desta questão da ligação corpo-mente, que no fundo é aquilo com que eu trabalho todos os dias e que eu acho tão importante as pessoas saberem mais sobre isto. Qual é aquele livro dele? E há um que ele tem muito interessante, que é "Quando o Corpo Diz Não". Já sei. Que eu acho que é muito interessante, porque fala-nos muito desta ligação do corpo com a mente, do quanto o trauma e a parte emocional têm impacto depois na nossa saúde física. Já sei quem é este, também já ouvi vários podcasts com ele. E no fato de nós conseguirmos, às vezes, prevenir algumas doenças e alguns problemas na nossa vida adulta, tratando desta questão das nossas emoções. E por isso é um livro que eu aconselho bastante para quem quer saber mais sobre esta ligação e quer perceber mais sobre isto das respostas do meu corpo e que estão tão ligadas às minhas emoções. Boa. Queres acrescentar alguma coisa? Terminamos por aqui?
Acho que já dei "over share".
Hoje é que foi uma terapia a sério.
Pois foi.
Pronto, olhem, obrigada às duas. Obrigada, Joana, por ter estado aqui. Obrigada pelo convite. Por teres feito terapia a nós.
Exato.
E vemo-nos nós daqui a...
Vemo-nos em breve.
É isso, vemo-nos em breve. Obrigada. Não é fácil, eu sei. Mas amiga, faz parte. Encontramo-nos domingo ao hora do costume?