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No ao vivo de hoje são nossos convidados o encenador Luís Moraira e a atriz Alice Medeiros. Bom dia, muito obrigada aos dois por estarem conosco nas manhãs 360.

Olá, bom dia.

Olá, bom dia, obrigado.

O quarto espetáculo do ciclo Três Comédias, Três Tragédias dedicado a William Shakespeare já pode ser visto no Teatro do Bairro. Mais de 5000 espectadores esgotaram todas as sessões de Noite de Reis, Sonho de uma Noite de Verão e Muito Barulho por Nada. Agora é a vez de Hamlet em cena até o dia 2 de fevereiro. Luís Moraira, encenar Hamlet é um verdadeiro desafio? O que é que o motivou? O que é que esteve por trás deste trabalho?

O maior desafio é fazer um texto que toda a gente já conhece ou acha que já conhece. Esse é o verdadeiro desafio, porque todos nós temos muitas opiniões sobre Hamlet. Mais que não seja, sabemos que é um príncipe que a dada altura diz "ser ou não ser", e a dada altura também alguém diz: "Alguma coisa está podre no reino da Dinamarca". Depois já não sabemos muito mais o que é que acontece, mas a verdade é essa.

Toda a gente utiliza isso.

Toda a gente ainda hoje diz isso, e nós todos herdamos qualquer coisa de Hamlet, mas não sabemos exatamente o quê. Então o propósito do Filho do Meio, desde o início, é contar a história. E contar a história para quem conhece, para quem não conhece e para quem acha que conhece. A nossa ideia é essa.

E o Luís disse numa entrevista dada ao Observador, há dias, define esta peça como unplugged, sem efeitos. A ideia é surpreender quem já conhece o texto original?

É, também, exatamente. E o unplugged, está aqui a Alice, que não me deixa mentir, foi a primeira indicação que eu dei aos atores.

É verdade.

Eu disse: "Vocês estão a ver aquelas bandas que fazem uma versão unplugged dos álbuns e das suas músicas? Então é exatamente isso que nós vamos fazer. Hamlet unplugged".

Mas como é que isso se faz?

Na verdade, seguimos o mesmo caminho nas várias peças que temos vindo a fazer e o facto de alguns atores se repetirem ajuda à criação de uma linguagem comum e torna mais fácil o arranque pra nova ideia do Luís. Partimos sempre e assumidamente do trabalho de mesa e do texto, e depois vamos seguindo por camadas com corpo e movimento, e compondo as cenas de acordo com a ideia original dele.

É.

E fica uma peça mais intimista com este unplugged, porque é isso que temos também nesses cenários. Eu estou a imaginar os cenários de concertos dos unplugged. É uma peça mais intimista para quem vai ver?

Completamente. Quando abrimos a cortina e revelamos ao público, a ideia de unplugged mostra-se perante o olhar. De facto, o cenário são tapetes, há as cadeiras.

Está longo o cenário, isso é isso?

É verdade. E os atores, pode pensar-se que ficam desprotegidos nesse sentido, porque ficam muito expostos e muito vulneráveis. Mas a verdade é que a peça ganha um outro sentido e uma outra dinâmica e funciona muito melhor, porque o que interessa é a palavra, a musicalidade do texto, e das intenções, e das ideias, e a história, e as emoções.

E a expressão corporal também dos atores, não é?

Claro. E então esta versão unplugged traz ao de cima essa capacidade que eles têm, e têm maravilhosamente, de contar a história.

E de jogo.

E de jogo, sim, e muito jogo de cena. E muita brincadeira, porque há pessoas que acham que o Hamlet é muito trágico, é muito sério.

Shakespeare tem todo um peso muito grande.

Sim, e o peso de ser uma coisa muito séria. E nós dissemos: "Não, quer dizer, isso não faz sentido nenhum".

Como é que isso se desmonta? Porque acredito que até o público tenha a expectativa de ir a uma peça onde vai encontrar o sentido da vida e do homem e do mundo. Como é que isso se desmonta?

E nós próprios sentimos isso no início, enquanto atores, uma espécie de respeito extra por ir trabalhar personagens como o Hamlet, ou a Ofélia, que têm de facto essa herança de seriedade. Eu acho que começa por respirar fundo e tentar mesmo fazer o salto de fé de ser uma abordagem a um texto como a um outro, como se fosse a primeira vez que o lemos. E ter essa simplicidade, que às vezes é muito difícil ter. É uma espécie de voltar atrás a uma simplicidade na primeira abordagem. E a partir daí as coisas encaixam e vamos pelas tais camadas.

Mas na preparação que fazem para uma peça dessas, também há limites quando se está a falar de Shakespeare, isto é, limites de adaptação. Há mais pudor em mexer num texto de Shakespeare do que de outro autor menos clássico. Há. A tradução do Fernando Vilas-Boas é excepcional, portanto, nós não temos que fazer um grande trabalho de adaptação dos clássicos. E eu nunca gosto de falar da atualidade dos clássicos, nem é por isso que o Filho do Meio faz os clássicos. Aliás, é precisamente pelo contrário. Ou seja, porque o texto em si já é tão bom, a musicalidade do verso, o verso em branco e até o verso rimado na maior parte das personagens, o que interessa mesmo é que o ator faça esse trabalho de adaptação da intenção e da maneira como diz o texto, mas o texto é Hamlet, é Shakespeare. Nós não o atualizamos, nós não aligeiramos, nem modernizamos nada. É exatamente como lá está e nós cumprimos o verso.

E há uma barreira ou não? Estamos a falar de textos clássicos, obviamente, a tradução ajuda. Com as novas gerações, por exemplo, é fácil atraí-los para isto? É difícil? Há aqui barreiras que ainda falta transpor?

Conquistar a atenção de uma audiência cada vez mais distraída com a vida moderna é uma dificuldade que já havia no tempo de Shakespeare. E por isso é que a maior parte dos textos em Shakespeare, não sei se sabem, não têm nenhuma indicação cênica. Então os atores, as próprias personagens dizem: "Vai entrar o rei". Por quê? Porque já estava tudo bêbado e distraído e ninguém sabia quem é que ia entrar. Então eles têm que dizer: "Vai entrar o rei, sai a rainha", porque eram milhares de espectadores já embriagados que não faziam a mínima ideia do que é que já estavam a ver. E a meio da peça, depois de duas horas, já se tinham esquecido.

Há que situá-los.

Portanto, já-

Era mais fácil ganhar essa altura.

Era, exato. Portanto, já havia distração da audiência no tempo de Shakespeare. Agora, nós temos outro gênero de distrações, que eu não sou fundamentalista, eu até acho graça a isso. Eu vejo muitas vezes, e a Alice está em cena e vê também, os espectadores estão a tirar fotografias. Estão a tirar fotografias e a filmar.

E publicar naquele instante: "Estou aqui".

Exatamente, estou aqui no teatro a ver Hamlet. E eu sei que há encenadores que não gostam disso, e eu sei que há atores que também não gostam porque incomoda e estraga um bocado a concentração. Mas na verdade é que essa publicação repetir-se-á centenas de vezes. Portanto, é graças-

Não deixam de estar a promover

Não deixam de estar a promover. É verdade. Portanto, é graças a isso que nós temos enchido as salas e as pessoas, não estou a dizer que não estejam atentas, mas aquele momento não as distrai. Elas conseguem ver e relacionam-se de uma forma diferente com a peça.

Alice está discordar.

É que a Alice está a discordar.

Para efeitos promocionais, eu consigo compreender que depois aquilo chega a um espectro maior do que aquele que será o ir ao teatro. Mas eu ainda estou para perceber o que leva uma pessoa a filmar um momento que está a ver. E como atriz, quando às vezes vejo as publicações feitas no momento em que a cena foi feita, ainda tenho dificuldade em perceber se a relação com a cena

Foi a melhor naquele momento.

O espectador acaba por perder a cena.

O momento presencial, sem mediação.

Foi necessariamente uma experiência diferente. E para o ator, como é que é estar a ser flashado? Acontecendo no meio de uma peça.

Eu temo que isso venha a normalizar, mas para mim ainda é estranho, ainda desliga um bocadinho daquela relação sem mediação nenhuma que eu gostava de ter com o espectador. Por isso, diretamente com o espectador, sem ser mediada por nenhuma tecnologia. Mas se for para aceitar.

Se nos apetece tirar o telemóvel.

Sim.

Mas no caso de se não os pode vencer, junte-se a eles. É um bocado este o lema nesta tomada de decisão?

Eu diria que sim, e diria que nós temos que começar a aceitar isso. Há museus que proíbem as pessoas de tirar fotografias aos quadros. São cada vez menos, porque na verdade, o público começa a crescer sabendo o que é que está a acontecer através do telemóvel, das redes sociais. E lutar contra isso é não estar no tempo contemporâneo, do tempo de agora.

Vão estar em cena até dia 2 de fevereiro. Ainda há bilhetes?

Há bilhetes para a próxima semana, para quinta e sexta-feira, mas eu tenho dito a toda a gente que nós aceitamos lista de espera, porque há sempre aquela desistência de última hora. Portanto, tentem ir ao Teatro do Bairro ver o espetáculo, que vale a pena.

E depois vão sair de Lisboa ou ficam por cá?

E depois saímos, vamos para digressão para Ponte de Lima e estamos a programar ainda outras digressões que não estão confirmadas e por isso eu não posso falar ainda sobre elas, mas a vontade é irmos a cada vez mais sítios e levar Shakespeare para todos.

E há vontade fora de Lisboa de haver teatro. Encontram essa disponibilidade por parte de autarquias, calculo que seja por aí.

Sim, foi muito barulho que levamos a Leiria e surpreendentemente a sala encheu. Estavam mais de 300 pessoas na sala e adoraram e querem que nós voltemos.

Sim, a vontade há. Há alguma dificuldade pelo facto de sermos muitos, uma equipa muito grande. Só em cena somos mais do que é normal num espetáculo que faça 400.

São quantos a dizer o quê?

São quantos?

Somos 10.

11.

Somos 11 em cena, mais equipa, e isso às vezes torna mais difícil a logística de andar, mas queríamos mesmo, ainda para mais com Shakespeare, que tem ele próprio essa coisa de ambulatório, queríamos muito poder correr o país.

E o público é diferente fora de Lisboa?

Eu diria que sim. Muito acolhedor, eu diria que sim.

E há menos telemóveis?

Não sei dizer, mas estarei atenta, vou estar atenta, porque eu percebo que seja um hábito que temos de aceitar e não o podemos combater no momento do espetáculo, mas acho que é também nosso dever incutir uma forma de ir ao teatro própria que se distinga de outros fenómenos culturais.

O Luís disse também numa entrevista que o seu texto favorito do autor inglês era Romeu e Julieta. Fica para uma próxima? Já está na calha?

Não posso dizer.

Fica por desvendar.

Fiquem atentos.

Muito bem. O encenador Luís Morais e a atriz Alice Medeiros no ao vivo das manhãs 360. A peça Hamlet está no Teatro do Bairro, pode ser vista até dia 2 de fevereiro. É como dizem, vão ao teatro. Obrigada por terem aceitado o nosso convite.

Muito obrigada nós.

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