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Ao vivo, na Rádio Observador.
Um banho, um gole, um gole. Um copo de água a beber. Um cantil, um refil. Um gole, um gole. Este deserto que é meu vaguear de olhar incerto, sem medo, tentar a caminhada, sem nunca parar. Sóbrio a minha nada, resistir, batalhar. Pode ser o fim, mas continuamos. Pode ser o fim, mas continuamos. Passo a passo, enfim. Água. Água. Água. Água. Sol, a sede, minha ilusão. Alucinação, o meu oásis. Alucinação, o meu oásis. Água. Um banho, um gole, um gole. Um copo de água a beber. Um cantil, um refil. Um gole, um gole. Pode ser o fim, mas continuamos, por fim. Sol, a sede, minha ilusão. Alucinação, o meu oásis. O sol, a sede, minha ilusão. Alucinação, o meu oásis. Um banho, um gole, um gole. Um copo de água a beber. Um cantil, um refil. Um gole.
Chama-se "Um Gole" e é uma das novas canções dos Holy Nothing para o disco "Fascínio e Miragem", lançamento deste ano e um passo diferente para esta banda que nasceu do Porto, mas é do mundo e é cada vez mais, também me parece, do Atlântico Sul. Pedro Rodrigues, aqui em representação dos Holy Nothing, bem-vindo à Rádio Observador. É um bocadinho isto, Pedro, é um disco que está muito apontado ao Atlântico Sul?
Não diria outra coisa, Nelson. Acho que a tua descrição foi fantástica. Começou no Porto, surgiu no Porto e foi alargando esta rede de contactos, travessou um bocadinho este oceano e estamos, de alguma forma, a criar esta ponte que nos vai ligando cada vez mais à América Latina, nomeadamente ao hemisfério sul, ao Brasil. Eu diria que são alguns acasos que se foram acontecendo no nosso caminho de formação de banda, mas eu também acho que foi um bocadinho estrelas que se foram alinhando nesta constelação. Então fomos criando vários amigos do outro lado do oceano, começou um bocadinho com esta relação com os BaianaSystem, no disco anterior.
São incríveis, devo dizer. São uma das minhas bandas favoritas do Brasil, já de há uns anos para cá.
E são muito generosos, também é bom dizer isso, porque esta relação com BaianaSystem já vem de 2019, do outro disco, do "Plural Real Animal", que é o primeiro contacto que nós tivemos com o Russo Passapusso e com o Roberto Barreto no MIMO, em Amarante. De alguma forma, foi a porta que se abriu para nós começarmos a explorar um bocadinho conceptualmente o que é esta relação Portugal-Brasil. Depois, a seguir, a BaianaSystem vem também a relação com os Barbatuques, que também fizemos um rework de uma música deles. E agora neste disco, isto é a nossa perceção do trabalho que fizemos, tentamos clarificar efetivamente o que é esta relação Portugal-Brasil e trazê-la como conceito base e conceito formador deste disco, porque ele é não só estético, como também é em termos de escrita e da mensagem das músicas, o conceito do que é esta relação Portugal-Brasil é que molda todo este "Fascínio e Miragem".
Percebi que o "Fascínio e Miragem" tem também essa inspiração literária do livro do "Brasil: Fascínio e Miragem", do Eduardo Lourenço. Isto que tu acabaste de explicar é um bocadinho o próprio livro do Eduardo Lourenço, não é?
É. Nós, percebendo a complexidade do assunto, percebemos logo à partida que nós teríamos que nos nutrir de informações e referências de muitos lados. Não nos bastaria ir à música, não nos bastariam as conversas com os nossos amigos do outro lado do oceano, mas teríamos que nos ir informar a quem já trilhou um caminho neste pensamentoO Eduardo Lourenço, para além da sua poesia, apesar de ele ser um ensaísta, há muito quem o identifique como uma espécie de filósofo, mas eu o identifico quase como um poeta. A escrita dele é belíssima. Ele viveu muito tempo no Brasil, foi professor universitário no Brasil e esse livro, que é uma compilação de textos que ele escreveu ao longo da vida sobre esta relação Portugal-Brasil. É difícil dizer resumir.
É um assunto demasiado vasto.
Complexo. Mas ele consegue explanar bem as várias contradições do que é esta relação Portugal-Brasil. Por isso é que o título, e o título do nosso disco ser o título de uma obra do Eduardo Lourenço, também é a nossa homenagem possível ao trabalho dele e ao trabalho de tantos outros que exploraram esta ponte Portugal-Brasil, espelha muito bem o que é esta relação. É uma relação feita de contradições, aproximação, afastamento, memória, esquecimento. Nós falamos muito disso nas músicas, o que é efetivamente a memória e como é que a memória, de alguma forma, é reconstruída. E o título resume muito bem o que é esta relação. Vive do fascínio e também de uma certa miragem.
Nós ouvimos aqui e vamos ouvir um outro tema numa versão bem mais acústica, muito longe do que se ouve em "Fascínio e Miragem". Deixo esse convite para que vamos explorar também estas 10 novas canções dos All и Nothing. Mas é essencialmente um disco colaborativo, que me parece que andou com faixas para cá e para lá durante algum tempo, se calhar durante alguns anos, até.
Há alguns anos, sim. Foram praticamente cinco anos de composição. É um disco coletivo e é um disco que tentou ser multirreferencial. Nós costumamos dizer que o disco tem três dimensões de aproximação ao problema, a própria reestruturação interna da banda com a entrada de um novo músico para a banda, que é o Ângelo B, ele é de São Paulo, vive no Porto há mais de 10 anos e agora faz parte do núcleo duro do All и Nothing. Então há, em 2020, uma reestruturação da própria banda. Depois há esta perspectiva transatlântica que vem de BaianaSystem ou até os Bixiga 70, aquele potente afrobeat de São Paulo.
São incríveis.
São incríveis. São fortíssimos mesmo. E expressam muito bem esta energia e o que eles iam transmitindo à medida que íamos criando a "Irmã Dalão", expressa muito bem o que é aquela coletividade dentro da própria banda, porque aquilo é uma banda imensa, são 12, 15 músicos. E depois a terceira perspectiva, como eu te dizia, é da diáspora brasileira em Portugal, ou seja, quem vem de fora e se estabelece cá em Portugal, traz toda a brasilidade para o nosso país e como é que se integra e como é que faz a leitura desta relação Portugal-Brasil.
O Luccas Gel faz isso muito bem.
E o Luccas Gel está no nosso disco para também ter essa perspectiva. E também a Angélica Diniz, que é uma musicista menos conhecida do público, mas também dá uma perspectiva engraçada, a metáfora que ela estabelece na música "Voltar". É interessante que é aquela perspectiva do que é um certo sentimento de pertença quando vais para um lugar que não é teu, voltar. Se eu verdadeiramente voltasse para a minha terra natal, seria um verdadeiro voltar, numa perspectiva do que é que o mundo, o meu mundo, a minha cidade natal, as mudanças que operaram sobre essa origem, de alguma forma, criam uma espécie de situação de falta de pertença. Falta de lugar. Respondendo à tua pergunta inicial, depois desta explicação mais longa, é efetivamente um disco colaborativo, porque é um disco que precisa de várias perspectivas para densificar e explicar a complexidade do problema.
Há aqui uma situação que eu gostava de colocar e que te peço para me dizer se concordas ou não. Por exemplo, eu lembro-me do "Hypertext" dos All и Nothing, era um disco onde sobressaía uma eletrónica que poderia ser mais até de pista de dança, digamos, e não deixaram de ser eletrónicos, mas acho que agora os All и Nothing são mais para dançar na rua do que propriamente no clube.
Acho que é isso. Acho que somos mais banda de dançar ao entardecer, com aquele pôr do sol. Ou seja, nós nunca tivemos medo de desconstruir a nossa obra e trilhar caminhos novos. Nunca tivemos grande receio da mudança e fomos, de alguma forma, velejando este grande barco à medida dos inputs que íamos recebendo, das pessoas que íamos conhecendo, das situações que nos iam acontecendo. Então, se tu reparares um bocadinho na cronologia, na discografia do All и Nothing, o "Hypertext", "Plural, Real, Animal" e agora o "Fascínio e Miragem", têm de alguma forma oscilações ou divergências bastante grandes por essa percepção também de que as fronteiras da música eletrónica são muito vastas. Eu, o Nelson e o Ângelo, ou até antes o Samuel, quando estava na banda, nunca tivemos grande medo da ideia da mistura e de misturar várias influências. E eu continuo a achar sempre que nós vamos ter sempre um espetáculo, vamos ter sempre música que vai fazer pensar dançando, que é a perspectiva deste disco. Mas sim, há uma evolução do que é o "Hypertext", aquela música mais visceral, mais maquinada, para agora uma grande diferença do "Fascínio e Miragem", que é a primeira vez que nós não só cantamos totalmente em português, mas em que trazemos a voz para um primeiro plano completamente despida. Ou seja, a perspectiva era: a mensagem é difícil, é difícil de explicar, é complexa, tem várias perspectivas. Então a melhor forma de tornar este diálogo mais claro e mais produtivo também é despir a produção da voz, torná-la mais simples, mais singela, sem efeitos, para permitir que essa discussão fosse mais útil.
"Fascínio e Miragem" é o novo disco de All и Nothing, aqui representados neste Ao Vivo desta semana com o Pedro Rodrigues. Já aconteceram os concertos de apresentação em Porto e Lisboa. Deixo o convite para que ouçam este novo trabalho dos All и Nothing e passem pelas redes sociais da banda também para ver onde os podem apanhar ao vivo. Eu estou com vontade de os ver ao vivo. Muito obrigado, Pedro Rodrigues, por teres passado aqui pelo Ao Vivo da Rádio Observador. "Crença, Ofensa e Desafio" é o outro tema que vamos ouvir deste "Fascínio e Miragem", o novo dos All и Nothing. Um abraço, Pedro. Parabéns.
Obrigado pelo convite, Nelson.Crença, ofensa e desafio, afluentes deste imenso rio. Crença, ofensa e desafio, raiva de um povo preso por um fio. Então, se este sal é tal e qual aquele mar, por que cravar os dentes no impotente, sua alma saquear? Quiseram enterrar-nos vivos, mas esqueceram que somos raiz. Fizeram-nos passar no crivo e reabrir a nossa cicatriz. Agora aqui, por entre terra queimada, curamos o que resta de nós. Irai cantar e depois, sobre coisas concretas falamos. Eu sei esquecer e depois, serás tu e não eu a curar a ferida aberta no delírio e ruína da viagem destes náufragos. Crença, ofensa e desafio, grito da gente eternamente esquecida. Então, se este sal é tal e qual aquele mar, por que cravar os dentes no impotente, sua alma saquear? Então, se este sal é tal e qual aquele mar, por que cravar os dentes no impotente, sua alma saquear?
Ao vivo, na Rádio Observador. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.