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Hoje no ao vivo é nosso convidado, o humorista de stand-up comedy, o Rui Cruz. Olá Rui, bom dia!

Bom dia.

Muito obrigada por terdes aceitado o convite para estares conosco nas manhãs 360.

Muito obrigado eu pelo convite.

No teu currículo pode ler-se humorista, guionista, stand-up comedian e semifinalista nas Olimpíadas de Matemática no Conselho de Arganil de 1998.

Verdade. Um terceiro lugar que muito me custou.

E, portanto, está visto que não seguiste os números. Os mais de 500 espetáculos que deste não foram seguramente em ensinar equações.

Não, aliás, quase tudo aquilo que a minha mãe me disse, que era: "Não, tens que estudar para ser uma pessoa de sucesso", não resultou.

Não seguiste.

Não.

Mas o pensamento matemático, de alguma maneira, ajuda o humorista?

Por acaso, eu não uso muita matemática na escrita de humor, mas acho que a cultura é bastante importante. Acho que é muito mais fácil fazeres um bom humor quando és mais culto. Porque tu tens mais referências, acabas por conhecer mais coisas, tens ângulos diferentes. Matemática, eu, por exemplo, não uso, mas o conhecimento histórico, que eu sou arqueólogo de formação, uso várias vezes no meu material.

E Rui, depois de cego, surdo e mudo e homem branco privilegiado, andas agora em tour com "Como Todos Fazem", o teu novo espetáculo de stand-up comedy, que dizes ser igual a todos os outros numa sociedade que apregoa a diferença, mas só valoriza o mais do mesmo. Isso quer dizer que não pretendes marcar a diferença?

Neste espetáculo, eu tento fazer a estrutura clichê de todos os espetáculos que eu tenho visto ultimamente, mas, claro, dar-lhe o meu toque pessoal. Só que é um bocado uma sátira à forma, mais do mesmo, que tem sido corrente, não só na comédia, mas em todas as artes, acho eu, nos últimos tempos.

Qual é a estrutura clichê do stand-up comedy?

Tens vários clichês, desde meter com o público: "São um casal há quantos anos? Não se lembram?" Esse tipo de coisas que é comum em quase todos os espetáculos, ou gozar com as fotos de infância, ou sei lá. Esses pequenos clichezinhos, eu tento metê-los todos no espetáculo. Acho que tenho 15 ou 17 clichês no espetáculo, mesmo assinalados, que eu tenho um contador de clichês.

Então, isso quer dizer que assistes a muitos espetáculos de stand-up.

Sim. Eu sou um viciado da comédia desde que me lembro de ser gente, que eu lembro-me ainda miúdo, ainda nem sabia ler e via comédia tipo "O Gendarme" do Louis de Funès e o Peter Sellers, que meu pai e minha mãe obrigavam a ler as legendas e ficava ali a tarde toda de domingo a ver com eles. Aos nove, meu pai deu-me um livro do Woody Allen e desde aí, comédia está na minha vida desde sempre. Eu comecei a escrever comédia aos 11.

E tens alguém que te sirva de inspiração?

Toda a gente.

Mas nacional ou internacional?

Ídolos, tenho alguns nacionais e internacionais. O meu comediante favorito é o Bill Hicks, um comediante americano que já morreu. Acho que é o meu protótipo de artista. Mas toda a gente me influencia, desde o talhante que me atende, que me chama querido, até aos malucos da rua, que na minha há sempre um que vai rodando, parece que é um centro de emprego, quando desaparece um, aparece outro e tudo isso me inspira.

Mas quer dizer que te inspiras muito no dia a dia, na tua vida.

Sim.

Se a tua vida fosse diferente, o teu humor também seria diferente. Isso é sempre assim.

E neste espetáculo, então, que é um espetáculo mais pessoal, eu falo muito de histórias, 50% do espetáculo é storytelling. Se a minha vida fosse diferente, o espetáculo era completamente diferente, porque eu, com sorte ou com azar, a minha vida não é propriamente muito normal. Por exemplo, eu conto uma história de uma passagem de ano onde passei passagem de ano com um anão amarrado às costas.

Isso foi um castigo?

Não.

Não sabes como é que aconteceu, isso é bom sinal.

É isto, a minha vida é um bocado isto. Então, se a minha vida fosse diferente, o meu humor claramente era diferente.

Tu gostas de te classificar ou que te classifiquem em algum tipo de humor? Há o humor mais negro, há o dos clichês que já falaste há pouco, há o que vive sobretudo à base de anedotas, quase.

Sim, eu sou muito classificado como humor negro, porque quando eu comecei a fazer stand-up comedy, eu era claramente humor negro. Tinha aquelas temáticas que são sempre aquelas cinco, seis doenças, guerras e não sei o quê. Mas hoje em dia acaba por ser castrador, porque quem vai ver um espetáculo meu, às vezes anunciado como humor negro, depois desilude-se, porque já não faço humor puramente negro. Sou ácido, porque eu sou ácido por natureza, mas eu tento explorar todos os espectros do humor. Eu tenho desde o humor de observação ao storytelling. Faço um bocado de tudo. Agora, o meu cunho pessoal é um bocadinho mais ácido do que a maioria dos comediantes.

E estuda-se o humor? Tu lês e trabalhas sobre aquilo que já é refletido, sobre aquilo que se pensa sobre humor. Estás a fazer muita referência ao storytelling, portanto, tens uma formação humorística, para além das Olimpíadas de Matemática.

Tenho. Eu tirei o curso das produções fictícias em 2010, 2011, mas já estudava comédia antes e continuo a estudar, porque eu sou um bocado, digamos, semi-autista neste aspecto. Eu quando gosto de uma coisa, eu sou obcecado, quase. Por exemplo, eu agora ando viciado em Beatles, eu até sei quanto é que o George Harrison calçava, esse tipo de coisas. Sou mesmo obcecado. Então com a comédia é igual. Eu tento estudar coisas que foram feitas, coisas que posso fazer, referências desde o teatro clássico grego. Eu gosto de estudar essas coisas.

E o que é a parte mais difícil? É construir as histórias que vais apresentar ou é a parte de estar sozinho num palco e enfrentar aqueles olhares e o teste do riso, que deve ser um sufoco?

São as duas coisas difíceis. Para mim, eu acho que o palco acaba por ser um bocado mais complicado, que eu sou uma pessoa extremamente tímida, apesar de não parecer. Eu quando cantava, nas minhas bandas antigas, eu por exemplo, era vocalista e cantava de costas pra banda, porque tinha vergonha. Então estar sozinho em palco ainda me custa um bocado. Mas construir também, aqueles dias de bloqueio de escritor, onde estás com a página em branco e escreves o teu nome 40 vezes até aparecer alguma coisa na cabeça É complicado.

E há técnicas para desbloquear isso de alguma maneira?

Há técnicas de escrita.

Depois há um calendário, não é? Espectáculos a fazer, um repertório.

Sim, este solo, por exemplo, foi o que eu acabei de escrever quatro dias antes de estrear. Mas sim, há pequenas técnicas de escrita, a regra dos três, tu estás bloqueado, sabes que aquela regra funciona numa piada, mas é muito mais giro quando aplicas as regras, quando tens inspiração. Normalmente o que eu uso quando estou bloqueado é irritar-me. Abro o Twitter e vejo as polémicas do dia, que são todas.

E vais buscar inspiração aí.

A raiva ajuda-me a escrever muito.

E este teu espetáculo a solo, o "Como Todos Fazem", é diferente todos os dias, sempre que o apresentas?

Acaba sempre por ser um bocadinho diferente. Apesar da estrutura estar feita, eu gosto de saber o texto a 80% para dar 20% de improviso em palco.

E a interação com o público?

Há.

Mas é nos clichês.

É nos clichês. É um bocado abusar com a própria interação do público.

Esta pergunta provavelmente já te fizeram muitas vezes, mas que perspectivas é que tens em termos de carreira? A ideia é apostares tudo na stand up comedy? É possível viver-se desta arte?

Eu vivo desta arte já há oito anos, mas eu não consigo fazer só uma coisa.

E o gato não se queixa.

O gato queixa-se, mas queixa-se de tudo. Não é propriamente só da comida.

Tu que dizes que tens que alimentar um gato.

Tenho. Um psicopata peludo muito fofo, mas que é mesmo um psicopata. Odeia toda a gente, tirando eu. É horrível levar pessoas lá a casa.

Mas dizias que vives disto. É possível viver da comédia?

Sim, há muita gente já a viver da comédia. Eu, pessoalmente, como preciso me expressar de várias maneiras, a comédia stand up ou só a escrita de guiões não me preenche. Eu faço música, escrevo contos, faço stand up. Não é para ganhar dinheiro de outras maneiras, é só porque preciso disso para não ir para um manicómio.

Este espetáculo está a percorrer o país de alguma maneira, não é?

Sim.

Há cada vez mais mercado, de facto. Isto era impensável há uns anos atrás.

O stand up comedy está em expansão já desde 2010, 2011. Cada vez há mais salas a receber, porque cada vez há mais público a ir. Aliás, se nós compararmos a afluência de público ao stand up comparada com o teatro, o stand up neste momento enche salas. Colegas meus estão a encher três e quatro coliseus com um espetáculo. O Bruno Nogueira vai encher o Meo Arena. Ou seja, há aqui uma transformação. Antigamente, isto acontecia com músicos, com grandes bandas, hoje em dia está a acontecer com comédia. Portanto, é natural que os teatros, mesmo espalhados pelo país, queiram ter este tipo de espetáculo, porque é uma maneira de terem casa cheia.

E por que está a crescer este público? É porque a oferta é de qualidade? Certamente, mas encontras mais alguma explicação?

Eu acho que é uma questão de modas cíclicas, como o teatro de revista já foi moda, como o rock and roll já foi moda, como o hip-hop está a ser, agora acontece com a comédia. Eu lembro-me na minha adolescência, nós trocávamos CDs de música. Hoje em dia os miúdos trocam especiais Netflix de comédia. E é cíclico. Daqui a uns anos, se calhar, isto vai abaixo e aparece outra arte qualquer que vai suplantar esta.

Para já, insinuas no teu espetáculo que há muito, mas é tudo muito igual? Já estamos na fase do processo de seleção em que vão ficar os melhores ou os menos bons já estão a desaparecer?

Eu acho que ainda há aqui muita gente a chegar, porque como todos os fenómenos de moda, como foi o grunge nos anos 90, onde todas as bandas de repente queriam fazer grunge. Hoje em dia, como há uma certa fórmula que teve sucesso, quem aparece repete a fórmula à exaustão, em vez de tentar procurar a sua própria persona. Isto é cíclico em qualquer moda. Neste momento, eu acho que está a haver muito mais do mesmo. Espero que agora comece a haver um processo de seleção. Se não houver, também daqui a 20 ou 30 anos haverá.

Rui, estamos a terminar. Só para te perguntar, porque tu estás também a trabalhar num podcast de entrevistas, chama-se Fake News. A ideia é desmistificar os boatos sobre personalidades que entrevistas. Que nomes é que já entrevistaste ou que tens na tua lista?

Na lista tenho vários nomes. Ainda não comecei o podcast, porque eu agora estou a fazer uma série de vídeos, quando acabar, então começarei o podcast. Mas tenho uma lista de cento e tal nomes. Espero bem que aceitem todos. Vai desde a Vanessa Fernandes até ao Ricardo Araújo Pereira, tenho um bocado de tudo.

Portanto, várias áreas da nossa sociedade.

Sim, de várias áreas. Todas as pessoas que já levaram com boatos.

Que já levaram com boatos.

Sim, basicamente é isso.

O humorista Rui Cruz no ao vivo das manhãs 360, tem novo espetáculo de stand up comedy, chama-se "Como Todos Fazem". Rui, muito obrigada por teres vindo à Rádio Observador.

Muito obrigado.

Agora, 12h45.