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Ao vivo, na Rádio Observador.
Desesperado, desarrumado, calo o grito e a vontade de te ver chegar perto de mim. Da madrugada quase nada, é o que sobra da insônia por querer e não poder fazer algo melhor. Há de haver um dia que não faltem dias pra respirar sem tanta condição. Há de haver magia, que a cidade fria e vazia acolha a multidão, que em festa vem calar a solidão. Ai, ai. Entediado, aqui sentado, vejo o mundo da janela virtual. Vejo a novela habitual, um enredo tecido a medo e o sorriso que sossega é flor de sal, que desce em forma de cristal. Há de haver um dia que não faltem dias pra respirar sem tanta condição. Há de haver magia, que a cidade fria e vazia acolha a multidão, que em festa vem calar a solidão. Fico fora de combate, à espera do desempate. O barulho no debate é tão confuso, fico confuso demais. Estou com saudades dos meus pais. Há de haver um dia que não faltem dia pra respirar sem tanta condição. Há de haver magia, que a cidade fria e vazia acolha a multidão, que em festa vem calar a solidão. Ai, ai.
"Há de Haver" é single novo para o Tiago Nacarato, que é convidado esta semana do ao vivo da Rádio Observador. Tiago, bem-vindo, mais uma vez.
Olá, Nelson, mais uma vez. É sempre bom estar aqui contigo.
Sempre um prazer ouvir a tua bela voz. Tu és doce a tocar e a cantar e é uma das coisas que mais me faz gostar das tuas canções. Vamos falar um bocadinho deste novo disco, "Não Sabia ". De alguma forma, pareceu-me um álbum em que, do ponto de vista das letras, parece que ainda estás numa certa introspecção a tentar responder a dúvidas existenciais. Já não tens idade pra isto, Tiago. Ainda tens?
Quem me dera resolver algum dia essas questões todas que foram aqui colocadas.
Todos esses dilemas.
Quem me dera.
Mas é, de facto, um disco mais virado pra dentro de ti?
Sim, eu acho que o clique de viragem parte da morte da minha avó. Ou seja, esse momento faz-me querer escrever.
"Amélia" foi a primeira canção que conhecemos deste disco.
Exatamente. E foi ela que motivou um disco com esta frequência. Tipo de: "Ok, é na boa, tu estás a refletir sobre as coisas, é na boa, tu não estás a 100%, é na boa, não estás feliz". E foi uma consequência desse acontecimento que deu esse clique de viragem pra eu escrever um disco com essas dúvidas todas, com essas questões todas, com essas fragilidades todas, e dei-me ao luxo de me pôr nesse lugar.
Isso é bom. De alguma forma, também continuo a achar que se nota um amadurecimento na tua música, onde parece-me que cada vez mais, porque se calhar tu também cantas cada vez melhor, a voz continua a ser o teu instrumento principal.
Sim, é bem analisado isso. Esta viagem tem tudo a ver com isso. Com o facto de, de alguma forma, talvez pelo meu pai ser cantor também e eu me ver com isso e a sociedade ter dito que eu sou cantor, então a responsabilidade foi aumentando. E acho que o trabalho dos três discos é isso, é procurar onde é que está a voz. E este, que foi o primeiro disco que eu produzi do início ao fim, sozinho.
Que tal?
Fixe.
Foi bom?
Dá pra chegar a um sítio mais íntimo. Acho que esta intimidade toda também precisava disso.
Isso nota-se no disco, sim.
E sim, foi bom, foi bom saber que já consigo fazer sozinho. E focar exatamente no lugar da voz em que eu me sinto mais confortável. Então concordando contigo, acho que a voz acaba por ser dentro deste projeto que é o Tiago Nacarato. Porque eu também gosto de ter outros projetos em queAjudo outros amigos ou toco instrumentos que não são a guitarra, pode ser um baixo, ou pode ser só ajudar com as letras ou ajudar com guitarras elétricas, etc. Nesse projeto, Tiago Nacarato, acho que sim, acho que a voz é o foco.
Tu és um portuense brasileiro, não é? E isso não deixa de se sentir na tua música nunca, seja qual for o projeto. Mais recentemente tiveste as colaborações com o Kainã Cavalcante, em que isso se calhar até estava mais visível, porque ele é ainda mais brasileiro do que tu. Mas mesmo quando tu partes agora para um disco em nome próprio, Tiago Nacarato, "Não Sabia o Desamor", com muitas colaborações, já vamos falar delas ao nível da composição de outros artistas, há aqui um lado MPB, de uma certa doçura que os brasileiros têm, uma certa ginga que tu não abdicas ou se calhar já não sabes fazer de outra maneira.
Talvez seja isso. E depois também tem a ver muito com uma coisa, é mais técnica esta conversa, mas há essa questão rítmica, sim, mas a questão também de algumas escolhas de acordes e de notas que eu me proponho a deixar ali gravadas. Tipo algumas extensões de acordes, etc, que não se vê tanto assim na música portuguesa e que, por exemplo, a música "A Vês" está carregada de acordes bossanovísticos. Arranjo feito pelo Diogo Bertifaro, claro, temos que salientar, mas é isso. E acho que essa brasilidade também muitas vezes se ouve nessa escolha harmônica.
Como é que foi trabalhar também com nomes como a Luísa Sobral, a Picas, Bel Galim, Milheiras? Escrevem contigo ou deram-te alguma coisa pra mão? Imagino que casos diferentes nalguns deles.
Sim, olha, foram todos diferentes. Luísa Sobral, eu encomendei-lhe uma música sobre o dilema da-
Fizeste um briefing mesmo.
Exato. Eu disse: "Olha, estou cheio de dúvidas. É a síndrome do impostor, não é assim que se chama?
Sim.
É assim que se diz?
Sim.
Síndrome do impostor, preciso disto, a vibe é esta. E ela fez essa canção que eu acho que caiu que nem uma luva.
Qual é que é o tema?
"Pela Metade".
"Pela Metade".
E é muito fixe, porque eu abro o disco com essa música e ela meio que conta qual é a personagem que de repente vai passar e ser transversal a todas as outras oito músicas. São nove músicas o disco. Então a Luísa Sobral, sou muito fã e muito amigo também, adoro. Pessoa e artista.
Gostei muito de "Novelo", é da Picas. Fizeste com ela? Como é que foi essa colaboração? Ela também te entregou alguma coisa?
Sim, ela manda músicas, ela diz: "Olha, fiz esta a pensar, se calhar não em mim, mas acho que fica bem na tua voz". E eu, das várias que ela me mandou, eu achei muito piada a esta, porque eu sou muito fã, por exemplo, do Rodrigo Amarante, não sei se conheces.
Claro.
E ele tem lá uma música do disco dele, "Cavalo", que é "Tardei", que tem esta coisa meio western, solitário. E eu: "Vou ter que fazer, vou ter que produzir esta música". E produzi, consegui gravar os instrumentos todos e achei que ficou superlindo. As cordas foi o Lucas Gonçalves que gravou, a bateria Mário Costa, mas tudo o resto fui eu que produzi em conjunto com o Bessa, que é o técnico de som e um grande artista também.
Estava aqui a olhar quando fui ao Spotify para ouvir o teu novo disco, deparei-me com a "Flash", que é uma canção que já tem algum tempo e que eu acho sempre que é uma tua faceta mais pop, que eu espero que venhas ainda a explorar mais assumida num disco. Queria também, porque estamos a ficar sem tempo, olhar aqui para dois concertos que foram já anunciados. 23 de janeiro, Centro Cultural de Belém, 30 de janeiro, Coliseu do Porto, são as primeiras datas que surgem também numa coisa chamada celebração dos 10 anos de carreira.
É verdade.
E agora?
10 aninhos.
Como é que estás a olhar também para estes dois grandes espetáculos, já para o próximo ano, mas presumo que ainda se calhar com alguma estrada para fazer este ano, antes disso.
Claro. Olha, estou muito contente. Acho que é realmente-
São duas salas grandes.
São duas salas grandes. CCB já fiz. Apesar de ser especial na mesma, uma sala grande em Lisboa, a capital, mas não posso deixar de salientar este sonho que vai ser tornado realidade, que é eu fazer o Coliseu do Porto, que é um simbolismo muito grande pra mim, como deves imaginar. Já toquei também em Casa da Música, eu e Bamba Social, já esgotamos várias vezes aquela Casa da Música, e amo. E o Coliseu é o passo obrigatório depois disso. No entanto, é isso, é a sala mais simbólica do Porto, estou muito contente, com certeza vai ser uma reunião, principalmente de todos os amigos que fizeram parte da minha carreira e vai haver uma retrospectiva.
Claro. Muito rapidamente, este disco, como é que se apresenta ao vivo?
Boa pergunta. Eu gosto das tuas perguntas.
Fiquei curioso, porque há determinadas músicas que até têm uma grande composição instrumental, sonora, não são tão despidas como até pode parecer de início.
Olha, por acaso eu estou com alta banda.
E é assim que vai ser apresentado?
É. É muito essencial pra mim, e é uma resposta mais uma vez técnica, mas tu mandas-me pra esse lugar, não sei porquê. Que é ter um baterista que é compositor, ter um baterista que também é cantautor, que é o Lucas. E ele realmente faz a diferença, porque me deixa à vontade para todas as dinâmicas da canção. E estou também com altos músicos e vai ser um disco difícil de soar, mas com certeza está no caminho certo.
Bom desafio. Tiago Nacarato e o seu novo álbum, "Não Sabia o Desamor". Já está cá fora, já o podem ouvir, já há concertos anunciados para o próximo ano. Antes disso, podem sempre passar pelas redes sociais do Tiago Nacarato, porque ele antes disso também ainda vai dar mais concertos. Qual é que é a canção que trouxeste para fechar o ao vivo desta semana?
"Não Sabia o Desamor".
"Não Sabia o Desamor", o tema título do novo disco. Muitos parabéns. Tiago Nacarato, de novo na Rádio Observador e com novo disco. Um abraço.
Um abraço.
Guardei os jogos nas caixas, deixei os lápis no chão. Levei comigo a viola e a bola não. Do meu quadro de ardósia, apaguei o meu coelho que mordeu um cão e alguém a acenar do avião com a mão. Tantos risos e memórias, sabe-me tão bem lembrar do tempo em que no colo da mãe. Fui astronauta e fui pintor, não sabia o desamor. Eu juro, eu voei, prendi ladrões, não doíam tanto em mim as relações. Era eu e os meus botões. Dou um nó na gravata, é sinal que cresci. Não ata nem desata, ando por aí. A cada beijo um encontro que é eterno enquanto for eterna a adoração. Só que não é bem assim, no fim. Tantos risos e memórias, sabe-me tão bem lembrar do tempo em que no colo da mãe. Fui astronauta e fui pintor, não sabia o desamor. Eu juro, eu voei, prendi ladrões, não doíam tanto em mim. Fui astronauta e fui pintor, não sabia o desamor. Eu juro, eu voei, prendi ladrões, não doíam tanto em mim as relações. Era eu e os meus botões. Era eu e os meus botões. Era eu e os meus botões. Era eu e os meus botões.
Ao vivo, na Rádio Observador. Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.