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Aqui no Aprender a Comer da Rádio Observador, uma vez por semana respondemos a dúvidas de ouvintes. Podem enviar a sua para marianachaves@observador.pt e aqui receber os melhores conselhos para uma alimentação saudável. Olá, Mariana.
Olá, Nelson.
Vamos responder a uma dúvida da nossa ouvinte Joana. Perguntou uma coisa muito comum, também fiquei com aquela sensação de que já devíamos ter falado disso, até porque já falamos de diabetes tipo 2 algumas vezes no Aprender a Comer.
Exatamente.
O que a Joana quer saber é se é possível que alguém venha a desenvolver esta doença, diabetes tipo 2, sem nunca ter abusado dos açúcares.
Sem dúvida. Uma ótima pergunta e é possível. É importante porque fica um pouco a ideia, na população em geral, que o diabetes tipo 2 só aparece porque se comeu açúcar, mas na verdade é uma mistura de vários fatores, em que a genética tem papel muito importante. Portanto, saber se pai, mãe, avós tiveram diabetes tipo 2 é um fator importante no rastreio. Por isso o médico de família tem aqui um papel tão importante neste rastreio. Depois, a resistência à insulina, que é uma coisa que se mede nas análises, é um fator de risco muito importante para se vir a ter diabetes tipo 2, independente de comermos ou não açúcar todos os dias. Mas há mais fatores. Há a questão do ambiente onde nós vivemos, portanto, mesmo o nosso sono, o fato de termos um corpo mais inflamado, também o ganho de gordura corporal.
Mais o abdominal, não é?
Mais o abdominal, exatamente. Ou seja, se nós pensarmos no que é que vai ter aqui mais impacto é se tivermos uma gordura abdominal em excesso, visceral. Aquela perímetro abdominal grande, que nós já falamos aqui até quais eram os valores limites que podemos ter para não ser considerado excesso. Essa gordura abdominal é que vai aumentar esta resistência à insulina. E por isso este é o raciocínio, que é: se eu tenho gordura aumentada na zona abdominal, posso ter um aumento da resistência à insulina, ou seja, o meu pâncreas não vai funcionar da mesma maneira. Sim, eu estou em risco de poder desenvolver diabetes tipo 2. E a verdade é que não é preciso comer só doces para ter uma gordura abdominal aumentada. Portanto, mesmo hidratos de carbono que não doces, como pão, bolachas, cereais refinados, podem provocar aqui respostas glicêmicas fortes, constantes, e por vezes com impacto igual ou superior ao açúcar simples, portanto vai depender do alimento e não da pessoa.
Mas se eu não como doces e até tenho glicemias estáveis, posso estar em risco na mesma, por causa dos outros fatores que falavas.
Sim, por causa dos outros fatores que falava. Realmente a genética aqui é muito importante. E realmente não é só os picos. Nós conseguimos medir a nossa glicemia, essa glicemia estável que falavas, conseguimos medi-la numas análises, ou mesmo quem faz essa medição, normalmente são os diabéticos, pontualmente.
Aquela picada no dedo?
Exatamente. Mas quando nós medimos nas análises a média dos três meses anteriores, que é a hemoglobina glicada, ela reflete a média. Então é muito importante, porque ela sobe tanto com picos frequentes, como com uma glicemia basal mais alta persistente. Portanto, não é só comi o doce. É o padrão global, é a capacidade do corpo de estar a gerir aquela glicose ao longo do tempo. E isso sim, é um fator de risco importante.
E quais são os fatores de risco que muita gente me parece que ignora?
Sim, a Sociedade Americana de Diabetes chama a atenção para fatores de risco para diabetes tipo 2 como: obesidade abdominal, que nós estávamos a falar, o sedentarismo, a idade, a hipertensão, a dislipidemia e, claro, a parte genética, histórico familiar, os distúrbios do sono, por exemplo, a apneia do sono pode ser um risco. Também doenças como a síndrome dos ovários policísticos é um fator de risco. A diabetes gestacional para as grávidas que tiveram é sempre um alerta, porque é um fator de risco para voltar a ter diabetes. E não sei se as pessoas percebem, mas quando eu dizia aqui a idade, o envelhecimento por si só tende a diminuir a resposta das células beta do nosso pâncreas e aumentar a resistência à insulina, portanto, mesmo com uma alimentação certinha e saudável.
É daí que vem aquela frase típica: "Mas eu sempre comi saudável, por que é que isto me foi acontecer a mim?"
É. São estes todos os fatores que têm que ser contabilizados. E por isso o profissional de saúde deve tentar encontrar todos estes fatores para perceber se há risco real ou não.
E então, em termos práticos, o que é que a Joana e quem nos ouve pode fazer para reduzir estes vários riscos que temos?
Até porque eu não percebi se seria para ela ou para familiares. Isto é importante às vezes até para nós ajudarmos os nossos familiares, pais, avós. Portanto, peso e cintura não é estético, é saúde, que chamamos saúde metabólica.
É logo ali um fator.
Exatamente, que vai melhorar a resistência à insulina. Portanto, aqui o fator de risco é a resistência à insulina. Logo, eu tenho que controlar o perímetro abdominal. E claro que isso depois, por base, tem uma alimentação saudável, exercício físico, etc. Portanto, o exercício físico também entra aqui. O caminhar é importante, mas treino de força é o chamado superpoder para gastar a glicose, porque o músculo é um grande consumidor de açúcar do sangue. Portanto, treino mesmo, de força, é muito importante. O sono e o estresse também, porque dormir mal e o estresse crônico vão mexer com o apetite, com a inflamação e com a sensibilidade à insulina. Portanto, todos estes fatores acabam por intervir com a sensibilidade à insulina, que nós queremos que seja alta. E depois, sim, reduzir bebidas açucaradas, ultraprocessados, claro que sim, mas o foco não é demonizar o açúcar, é este equilíbrio energético de qualidade e estilo de vida saudável. E depois, se houver outros fatores de risco, como história familiar, genética, síndrome do ovário policístico, diabetes gestacional, hipertensão. Vale mesmo a pena falar com o médico e pedir uma avaliação global e regular, por exemplo, da glicemia.
Nós já falamos até noutros episódios do Aprender a Comer de diabetes. É uma doença terrível, mas parece-me que também muito derivada das nossas escolhas.
Sim.
Continua com alta prevalência.
Sim, com muita prevalência em Portugal, sem dúvida. E portanto, como é uma doença que exige rastreio e nós conseguimos entender o nosso real risco e conseguimos atuar na altura em que temos risco, mas não temos doença. E por isso é tão importante termos conhecimento sobre esta doença e o que é que podemos fazer. Falamos em vários programas, se as pessoas quiserem voltar a ouvir para relembrar, porque não temos tempo sempre para falar de tudo no mesmo. Um deles chamava-se "Diabetes: Cortar Tudo ou Transformar?". Noutro era "Sou Diabético, Que Frutas Devo Evitar?" E para desfazer mitos à volta do açúcar da fruta, vale a pena ouvir um programa que muitos ouvintes adoraram, que se chama "Comer Fruta Antes da Refeição Não Faz Sentido".
Eu lembro-me desse, foi giro. Muito bem, no próximo episódio vamos falar de quê, Mariana? Recorda-me.
Olha, vamos falar de estarmos constipados, o que é que devemos pôr no prato.
E é uma altura em que as viroses e as gripes estão em força. Temos tido também semanas muito frias, dias muito frios neste início de ano de 2026. É um programa para acompanhar aqui na Rádio Observador, às terças-feiras, o Aprender a Comer. Depois temos sempre esta edição extra, onde respondemos a dúvidas de ouvintes. Envie a sua para marianachaves@observador.pt e acompanhe-nos nas plataformas de podcast e também no nosso site observador.pt. Mariana, até para a semana.
Até para a semana, Nelson.