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Olá, sejam bem-vindos a mais um episódio de "Artigo 38". A minha convidada de hoje é a jornalista Felícia Cabrita. Muito obrigado por estares aqui presente.

Obrigada eu, João.

Um dos casos que tens acompanhado ultimamente é o caso de Tancos. É um caso grave. Começa como uma espécie de opera bufa, mas depois, de repente, ganha dimensões meio incompreensíveis e chega às mais altas instâncias do Estado, ao primeiro-ministro, ao presidente da República. O que se passou aqui?

Isto revela mais uma vez em que país é que nós vivemos. Que é um país de opera bufa. No fundo, toda a gente sabia, andaram a brincar conosco. Este caso revolta-me muito pela forma como comentadores e jornalistas o acompanharam inicialmente, porque quem lê a acusação percebe que há ali duas partes que têm a mesma responsabilidade política, se se quiser ir por aí, porque as pessoas quiseram ir por aí, nomeadamente o Rui Rio. Disse que não falava de casos de justiça, mas que havia ali uma responsabilidade política e que queria discutir isso. Nessa parte, ele tinha razão.

Certo.

Ou seja, nós temos, por um lado, o Azeredo Lopes, ministro da Defesa, e as pessoas que suspeito de ter sabido de tudo isto, do achamento e toda a tramóia feita entre a GNR e a PJ Militar, ter sabido do achamento também através deles e de ter ocultado tudo isto do Ministério Público e da polícia, de quem tinha a investigação, de facto, nas mãos. Mas também temos um ex-chefe da Casa Militar de Marcelo Rebelo de Sousa, a quem são atribuídas praticamente as mesmas suspeitas.

Estás a falar de João Cordeiro, chefe da Casa Militar, que se teve de demitir. Se demitiu, aliás, uma demissão por motivos pessoais, que não está explicada até hoje.

Não está explicada, e meses após o achamento.

Certo. E pouco tempo antes de terem começado as primeiras prisões, as primeiras detenções.

E o que me irritou foi a forma como a comunicação social tratou isto, dando a notícia que mais lhes dava jeito. Tu sabes mais ou menos quais são os jornais, este jornal está ligado a isto, este jornal àquilo. Portanto, quem estava ligado ao PSD esquecia a história do Marcelo Rebelo de Sousa. Quem estava mais à esquerda, atacava o outro lado.

Puxava pelo papagaio-mor, não é?

Puxava pelo papagaio-mor.

E depois tens comentadores que também embrulham isto.

E depois tens comentadores encartados. E este foi o caso que mais me enervou, porque eu até tenho respeito pelo senhor, que foi Marques Mendes, na sua rubrica ao domingo.

Que tem alguma fama de ser correia de transmissão.

Sim, também. Ele é o ventrículo, supostamente, do papagaio-mor. A sua intervenção nesse dia a defender Marcelo Rebelo de Sousa. Só naquela conversa que nós conhecemos daquela escuta em que lhe era atribuído este cognome de papagaio-mor e que ele não se vai mexer, vai ficar quietinho porque tem medo, porque existe o e-mail, estava a par de tudo. O Marques Mendes e os jornalistas andaram a discutir imenso tempo quem era o papagaio-mor.

Sim. Não é que fosse muito difícil de adivinhar, diria eu.

Exato.

Mas o Marques Mendes disse que o papagaio-mor era...

O Marques Mendes disse diretamente que não havia aqui discussão possível. O papagaio-mor era o Marcelo Rebelo de Sousa. Mas há uma coisa que é estranha, muito estranha pra um homem tão informado como o Marques Mendes. É que o papagaio-mor é o menor dos males. O que era grave ali, naquela acusação, são as suspeitas que incidem sobre o ex-presidente da Casa Militar.

O ex-chefe da Casa Militar.

O ex-chefe militar.

Estás a falar do João Cordeiro, mais uma vez.

João Cordeiro.

Sim.

Sobre esse assunto-

Do qual foi tirada uma certidão para ser investigado.

Exatamente. Sobre esse assunto, Marques Mendes não abriu a boca.

Certo.

E não abre a boca. E aí devia ter feito uma declaração de interesses. E não abre a boca porque é compadre do Cordeiro.

Do João Cordeiro?

Do João Cordeiro.

Compadre como assim?

Uma das filhas é casada com o filho do João Cordeiro. Portanto, quando nós estamos a ver um comentador que está a passar uma informação parcelar e a tomar partido, obviamente, para defender o presidente Marcelo Rebelo de Sousa, que toda a gente sabe, são amigos, e esquece de falar nessa região. Isto não pode ser um mero esquecimento. E é isto tudo, é esta promiscuidade que existe entre comunicação social, comentadores O universo político, financeiro, econômico, é isto que lixa este país.

Tu acompanhaste todos os casos mais relevantes dos últimos tempos. E a lista dos casos que tu investigaste como jornalista é bastante impressionante. Casa Pia, Freeport, Face Oculta, Operação Furacão, Operação Monte Branco, BPN, o caso do Duarte Lima, a Caruzona Ribeiro, a Operação Marquês. E depois também tens casos muito marcantes, já não tão ligados à política, mas em termos sociais, como o caso da Maddie McCann ou até o alegado estripador de Lisboa. De todos estes casos, que fazem uma panóplia bastante impressionante, qual é que te marcou mais? Qual é que dirias que mais te impressionou? Eu digo tanto humanamente como jornalista, não sei se tu consegues separar as coisas umas das outras. Qual dirias?

Não, não consigo separar as coisas umas das outras, em certos casos. Eu sou muitas vezes associada ao jornalismo policial. O que é completamente falso. Antes da Casa Pia, eu já tinha uma série de trabalhos, nomeadamente na área da guerra colonial, que depois deu origem a um livro, os "Massacres em África". E nesse capítulo, nesse confronto com homens que estiveram na guerra, que fizeram massacres, e o reencontro também com as vítimas. Nós vamos de encontro ao lado mais negro do homem, que é muito assustador. Colocar estas pessoas a falar não é fácil, mas uma vez em que lhes salta a tampa, até porque precisam de um escape. São situações tão violentas, cá das tantas um escape, um jornalista torna-se um escape.

Já te enganaste muitas vezes?

Não me ocorre uma única situação, mas pode ter acontecido, mas não me ocorre. Eu acho que se isso tivesse acontecido, que me lembraria. Posso me ter arrependido de fazer certos trabalhos.

Ah, é? Então dá-me aí exemplos de trabalhos que tenhas a arrepender.

O exemplo da biografia do nosso rei. Que eu acho uma figura deliciosa. Simplesmente o passado dele, aquela coisa do o treinarem pra rei, precisamente. O treino de um príncipe. Ele não era uma pessoa ágil, não era e não é. Fisicamente é um bocado desastrado. Portanto, todo aquele passado no colégio militar, na tropa, aquilo foi caótico pra ele. Eu não posso deixar de dizer e de contar as coisas, e é evidente que havia episódios que eram muito humorísticos. E a dada altura eu pensei: "Para a próxima vez trago alguém pra brincar comigo que não tenha coração". É uma frase do Óscar Wilde, do aniversário da infanta.

Mas isso é verdade.

Eu não estou arrependida do que escrevi. Não me enganei a nada.

Sentiste é que tiveste que ser cruel.

Sim, não valia a necessidade, porque não é um primeiro-ministro, não era uma figura importante. O que é que o dom Duarte, quer dizer, que poder é que ele tem nesta sociedade? Não tem nenhum.

Tu referiste a Casa Pia, que também foi outro caso que te marcou muito. Tu escreveste muito, até porque foi um caso que se alargou e se expandiu pelos anos fora. Foi um processo muito longo, muitas vezes com depoimentos contraditórios, de testemunhas que diziam uma coisa e depois se arrependiam, ou eram pagas. Quer dizer, foi ali um jogo de luz e de sombra extremamente complexo. Nem aí dirias que cometeste erros?

Não. A convicção que eu tinha na altura mantém-se. O problema dos Balaia Rose, que se tem mantido em todos os processos.

Quando tu dizes dos Balaia Rose, só para as pessoas perceberem. Eu estou a falar da Casa Pia, mas de certa forma há contactos entre uma coisa e outra. O que eu queria saber é se tu fazes essa ligação, é a minha pergunta.

Mas, por exemplo, vamos falar dos Balaia Rose, porque os Balaia Rose, que é um escândalo que rebenta no Estado Novo clerical, é denunciado pela oposição. Mais tarde, são esses antifascistas, mais tarde na Casa Pia, são esses antifascistas, filhos, netos, primos de Stalin, quem naquela da construção da engenharia das almas, não aceita esta vergonha em casa própria. O que é que se passa na Casa Pia? Enquanto o problema se põe ao nível do Silvino Carlos Silvino, mais conhecido por Bibi, que era um homem de classes desfavorecidas, que também tinha sido despejado pela mãe na Casa Pia, aí a classe política e os jornalistas diziam: "Dôa a quem doer". Quando entramos no Carlos Cruz, o Carlos Cruz era um pouco o namoradinho da nação, o homem que nunca envelhecia. As pessoas sentaram-se, abancaram à porta dos tribunais em sua defesa. Mas quando Paulo Pedroso é detido, aí, sim, o país entupiu E houve aquelas reações que são inesquecíveis quando há um acórdão que o coloca em liberdade. Portanto, ele não foi absolvido com aquele acórdão. Saiu em liberdade, ele é recebido na Assembleia da República como se tivesse chegado nos anos 50 do Tarrafal. A Assembleia da República é a casa de todos os portugueses, supostamente.

Sim, mas como tu bem sabes, aí o Partido Socialista também se queixava de ter havido um juiz que também invadiu o espaço da Assembleia da República.

Mas o juiz fez o seu trabalho. Ele foi notificado e feito tudo. Não há, e para a lei não pode haver uns mais iguais do que outros. É porque esta coisa de serem sempre os ricos e os poderosos a descobrirem os buracos da lei, já chateia. A lei não precisa de ser a justiça. Qualquer discípulo de Hegel dir-te-á que a lei é apenas a objetivação da justiça. Agora, aqui parece bruxedo, é porque são sempre os mesmos que conseguem romper.

E tu achas que isso é uma constante, ou seja, é algo que já existia no tempo do Estado Novo e que continua em democracia e que nesse aspeto achas que o regime não mudou muito?

Não, não mudou muito. Olha, os Ballet Rose foram abafados. Eu ainda consegui descobrir o processo daquela gente toda envolvida. Uma prostituta apanhou uma pena de prisão, acho eu.

Só para enquadrar este caso, eu acho que há muita gente que está nos a ouvir lá em casa, ou na rádio, ou em podcast, e não tem bem noção do que é o Ballet Rose.

O Ballet Rose é um escândalo de pedofilia que rebenta nos anos 60, em que meia dúzia de fidalgos, meia dúzia de políticos, meia dúzia de empresários, são apontados como abusadores de menores, neste caso, de meninas. O processo é investigado. Eu lembro-me, durante a investigação, eu tenho acesso ao processo, e a história dos Ballet Rose, como foi chamado inicialmente, aquilo não é Ballet Rose, nós não estamos a falar de adolescentes. Eu fiz este trabalho, os Ballet Rose, porque tinha levado de férias o Processo das Virgens.

Sim, um livro lançado pela Afrodita, ainda na década de 70.

Saiu em 84. Acho que é logo após a revolução. E a ideia com que se fica daquele livro é que estamos a falar de adolescentes. Não, nós estamos a falar de crianças. Sete anos, oito anos. E perdi-me.

O que eu te perguntei acerca disso, eu pedi-te para enquadrares o Ballet Rose e depois para estabeleceres uma linha entre essa conduta no tempo do Estado Novo e aquilo que se passa nos dias de hoje.

Não só pela reconstituição que eu faço do caso, porque eu consigo chegar a grande parte desta gente, das crianças, que na altura já eram adultas, e a figuras principais, como a abusadores, e outras senhoras que participavam neste tipo de jogos.

E tu sentes que esse tipo de esquema, de certa forma, é replicado na Casa Pia?

Este esquema depois não está no processo. Aliás, eu falei com um polícia na altura, com um PJ, que tinha feito a investigação e disse-lhe: "Mas este nome e este não estão. Se não estão é porque foram engolidos. Nós lidamos, falamos com essas pessoas, ouvimos essas pessoas. Os crimes estavam atribuídos, portanto, se não estão lá, é porque foram engolidos". E o processo foi abafado, de facto. Como eu te disse, resultou dali o Teodoro dos Santos, que era o dono do Hotel do Casino, Casino Estoril. Ficou naquilo que hoje chama em domiciliária. E depois há uma prostituta ou duas, que são condenadas a penas de prisão ínfimas.

E tu achas, quando olhas para o caso da Casa Pia, também achas que a justiça não foi aplicada da mesma maneira a todos os suspeitos?

Eu acho que fica no ar alguma desconfiança em relação à posição de um tribunal superior, como é o Tribunal da Relação. Porque há pouco estávamos a falar do Paulo Pedroso. O acórdão que o restitui à liberdade, quase que condena os miúdos. Diz que não existem indícios e as crianças aparecem ali como os grandes responsáveis. No dia seguinte, sai um outro acórdão que diz precisamente o contrário. E mais, que diz que os indícios foram reforçados. Isto aconteceu algumas vezes. Nós até dizíamos: "Se preparar este coletivo, nós já sabemos o que é que vai sair dali".

Mas tu és sensível à questão também da prova direta, da prova indireta, o facto de ser uma prova completamente alicerçada, evidentemente, provavelmente não havia muita outra forma, nos testemunhos das crianças.

É que não é só os testemunhos das crianças, as pessoas estão enganadas. Há ali um grande cruzamento de informação.

Crianças que já não eram crianças na altura, não é?

Vamos focar, por exemplo, no caso do médico Ferreira de Mendes Para além das crianças que dizem que foram abusadas por ele naquele momento, há outras crianças que no passado já tinham, porque nós conseguimos recuperar processos antigos, nomeadamente o processo conhecido dos anos 80, que envolve pela primeira vez Carlos Cruz e Jorge Rita. Eu consigo documentação dos Belém Rose dos anos 60, com um grupo, a Ameca, um grupo de americanos que se passavam por benfeitores, gente com muito dinheiro, que se deslocava a Portugal em jato privado, que conseguia passaportes para as miúdas da Casa Pia, de um dia para o outro, para levá-los para a Jugoslávia, o que é muito estranho. Esse caso, que depois acaba por ser denunciado por um padre, e acaba por ir a tribunal. Nessa altura, a secretária de Estado era a Teresa Costa Lobo, que veio confirmar tudo isto, ainda era viva à época. Este processo também foi abafado. Mas esta documentação existe, da mesma forma que existem cartas amorosas dos miúdos para estes americanos. Existe o processo dos anos 80. Partes do processo que conseguimos recuperar. Existe um documento extraordinário, que é do SIS, em 2001, que ninguém tinha conhecimento e que eu venho a descobrir em Paris, imagina. Que narra o que se passava no Parque Eduardo VII. E em que dizem, protegendo os pedófilos, quando se referem a pessoas conhecidas, referem-se a altas figuras e carros topo de gama, enquanto que os intermediários, as crianças, vinham os nomes completamente escarrapachados. Portanto, havia aqui uma proteção de uma determinada classe. E fui vendo. Eu lembro-me quando encontrei a Teresa Costa Macedo e lhe disse que estava a fazer um trabalho sobre o Carlos Silvino, ela perguntou: "Mas o quê? Esse homem ainda não foi preso?"

Ou seja, sabia-se, mas ninguém fazia nada.

Sabia-se e ninguém fazia nada. Eu lembro-me uma vez, numa conversa entre colegas e jornalistas reputados, num aniversário, em que um deles me dizia, na altura eu estava no Público: "Mas isso sempre houve, sempre existiu. Eu lembro-me de ver os putos em Belém, a ir sacar dinheiro". E eu disse: "Está bem, mas o que é que tu chamas a um homem que abusa, que vai ou que leva um miúdo de sete anos com ele para ter relações?" É pedofilia, não tem outro nome. Portanto, o discutir se os miúdos eram prostitutos ou se não eram prostitutos. E isto por quê? Porque Portugal é muito pequeno. Tu falas muito nisso e eu dou-te razão, porque penso exatamente como tu. Portugal é muito pequeno e as classes em todo o mundo são como as bruxas da Galiza, não existem, pero que las hay, las hay. E portanto, as classes protegem-se. E isso aconteceu na comunicação social, na política, durante o processo Casa Pia e depois repetiu-se com o Freeport e repetiu-se com a Face Oculta. As pessoas tinham uma grande dificuldade em aceitar. Não há chancela política que nos liberte da noite escura que cai sobre cada um de nós. A direita, sempre cética, sabe isto, esconde-o, mas sabe isto. A esquerda não aceita esta vergonha em casa própria, percebes? E portanto, isto dividiu-se. Há uma divisão entre jornalistas e políticos. Eu lembro-me quando a Casa Pia começa, os políticos diziam: "Doa a quem doer". Tal como agora no caso Tanques.

Depois quando doeu a si próprio, a conversa mudou. Só para concluir esta primeira parte numa nota ligeiramente mais otimista, tu dirias que ao menos no meio de toda a confusão do caso Casa Pia, que depois teve implicações para adiante, acho eu, e falaremos disso na segunda parte, dirias que ao menos não voltou a acontecer? Acabou?

Claro que não acabou. Este processo ainda estava em julgamento e eu descubro novos abusos na Casa Pia, com um senhor de dentro da Casa Pia que levava os miúdos para a casa de um famoso escultor, que por acaso já morreu. E foi aberto outro inquérito.

Achas que não tem fim?

Não, acho que não tem fim.

Bom, mas tem fim pelo menos esta primeira parte. Nós voltamos já a seguir à conversa com Felícia Cabrita. Olá, sejam bem-vindos à segunda parte do Artigo 38. Desta vez a minha convidada é a jornalista Felícia Cabrita. Felícia, diz-me uma coisa, perdeste alguma vez amigos ao longo das tuas investigações?

Vinha para cá e estava a pensar nisto. Jornalismo de investigação não é nada sexy. Neste país, então, não é nada sexy. Tu não tens grupos económicos a quererem apostar em jornais mais ligados à investigação, ou revistas. Não há, porque eles nunca sabem para que lado a mão vai cair. E é curioso que, por exemplo, a partir da Casa Pia, há duas fases na minha vida de jornalista. Há o antes Casa Pia e o pós Casa Pia. Antes Casa Pia eu era uma jornalista premiada, muito bem aceita na classe. Depois da Casa Pia, eu ganhei imensos inimigos Eu suporto muito bem viver com isso e espero que isso me acompanhe até abandonar a carreira, porque é bom sinal, é sinal que incomodo. Aquilo que custa mais é perder amigos. E de facto perdi. Perdi, por exemplo, gente muito amiga, ligada ao Partido Socialista, com responsabilidades dentro do Partido Socialista. Há pessoas com quem eu me dava muito bem. Agora, por exemplo, no caso Sócrates, também as relações foram afetadas. Não por mim, porque eu separo o jornalismo e o meu trabalho do resto. Mas vai-se deixando para trás. Ganha-se muitos inimigos e também se perde amigos, que é o mais dramático.

Isso significa que vais ficando cada vez mais sozinha?

Até ao dia em que eu não consiga trabalhar. Porque há de chegar o dia em que ninguém quer falar comigo.

Achas?

Acho que sim. De facto, eu não sou confiável. Por exemplo, para a classe política eu não sou confiável. Eu não sei como é que será se eu fizer agora uma biografia. Agora, por exemplo, imagina, era normal eu estar a fazer a biografia de alguém, ou do Rio, ou do Costa.

Fizeste isso com o Passos Coelho.

Fiz isso com o Passos Coelho. É normal fazer-se, nesta altura, a biografia dos candidatos, daqueles que é mais provável ganhar. Eu não sei como é que me iam aceitar neste momento.

Já ninguém te convida para isso.

Não seria tão fácil. Não, nunca me convidaram para fazer biografias. Biografias são propostas do jornal, essencialmente. Nestas alturas, em alturas de campanha eleitoral ou de presidenciais.

Não, mas eu digo isso porque tu tens formado até em livro também, não é?

Todos os livros que eu tenho não foram ideia minha. Nem as séries de televisão.

O que eu te estava a perguntar é se te convidavam menos hoje em dia.

Olha que talvez. Não tinha pensado nisso. Também o último grande trabalho em que eu estive envolvida foi o caso Sócrates. E saiu um livro, um livro que eu considero muito bom e que foi completamente ignorado pela comunicação social. Lá está, há uma censura, há uma mão de censura que não é visível, que as pessoas não dão conta, mas que é feita pelos próprios jornalistas.

Mas o teu livro sobre o Sócrates já saiu com ele mais do que detido e em investigação. Por que houve essa censura então nessa altura?

Porque era aquilo que eu te estava a falar há pouco. Eu e o Joaquim Vieira não somos bem vistos na classe.

Por quê?

Eu já te falei do problema da Casa Pia. Há muita gente que continua a achar que eles são inocentes. E depois começaram-me a associar, não sei porquê, a um jornalismo sensacionalista. Que eu não sei o que é, porque eu estou há quase 30 anos no jornalismo a fazer, a manter o mesmo estilo e a manter o mesmo tipo de trabalho.

Portanto, tu achas que as pessoas classificam o populismo ou o jornalismo sensacionalista, não propriamente com o conteúdo das notícias, mas quando elas atingem alguém que as pessoas acham que não devem ser atingidos.

Sim, é o problema das classes. E eu sinto muito isso na minha classe. Por exemplo, o Sol é o jornal que trouxe nas últimas décadas os trabalhos mais importantes ao nível da justiça. Freeport, a Face Oculta, o Monte Branco, tudo isso que tu aqui estiveste a falar, o BPN, Marquês, etc. São raros os comentaristas encartados que se referem a notícias do Sol. Portanto, é óbvio que o Sol incomoda e que há pessoas que não estão interessadas em falar neste jornal. Eu digo-te que não percebo porquê. Tentam denegrir a nossa imagem dizendo que somos um jornal de direita, o que eu acho extraordinário, porque devem fazer essa associação por causa do antigo diretor, José António Saraiva, que é um homem assumidamente do PSD. Nós, por exemplo, fazíamos sondagens à boca da urna com a redação e quem ganhava, em maioria, era o Bloco de Esquerda.

Sim, como em quase todas as redações.

Portanto, esta coisa de nos ligarem à direita, é uma das formas de nos denegrir.

Olha, isso interessa-me, essa questão de denegrir. Tu uma vez queixaste-te numa entrevista que arranjaram um plano sórdido para denegrir a minha imagem com a colocação de determinadas notícias sobre a minha pessoa, insinuando relacionamentos com polícias e magistrados. E de facto, isso é uma coisa de vez em quando que vem, e se ouve: "Como é que a Felícia Cabrita tem tantas fontes?" Como é que tu olhas para isto?

Eu acho que, primeiro, estou no jornalismo há muito tempo. Como te disse, durante os meus primeiros 10 anos de jornalismo, eu dediquei-me a biografias e até à guerra colonial, mas fui fazendo leitores. Eu lembro-me que a primeira vez que eu falo com um senhor, para mim eu digo isto, senhor, em caixa alta, deste universo, ele disse-me: "Eu só a recebo, eu só a recebi, porque gosto do seu trabalho", nomeadamente, e aponta o meu trabalho. Portanto, eu acho que foi por isso que algumas pessoas começaram não só a fazer denúncias de outros casos, que eu não estava habituada, como a Casa Pia. Não era nem de longe, nem de perto o meu universo, mas é em mim que a denúncia vai parar. E é em mim que algumas pessoas da Justiça, de facto, depositam confiança em relação a determinados trabalhos, mas isso eu acho que é o resultado da minha carreira. Quando um jornalista que anda nesta vida há quase 30 anos não tem uma boa agenda, é para esquecer.

Mas achas que havia aqui uma velha conversa e um preconceito machista de: "Aqui está esta mulher a dar estas notícias incríveis", e depois aqui vem logo o preconceito.

Não sei, eu não quero acreditar nisso. Eu acho que se tivéssemos aí um jornalista macho que conseguisse ter um leque de trabalhos igual, haveria muita inveja.

Não, mas eu não estou a falar de inveja.

Do dormir. A glória do lançar.

Sim, iam insinuar que um jornalista macho que dava muitas notícias andava a dormir com procuradoras-gerais da República.

Sabes quem é que lançou isso? E eu processei. Quem lançou isso foi José Sócrates. No caso Freeport, e eu processei-o por isso. Foi ele e foi um magistrado. Portanto, são fórmulas que pegaram para denegrir os jornalistas. Eu não sei se é só com uma mulher, se não inventam qualquer dia que tu, por exemplo, andas a dormir com a procuradora.

Não, nunca tive essa.

Não faço ideia. Está bem. Eu também nunca tinha tido. Eu sempre andei por outras áreas, nunca tinha tido. E depois, quer dizer, a acreditar a uma figura que é o Jorge Vancreeken, que ele não é jornalista, não é nada. E foi ele que num blog que tinha, dizia coisas extraordinárias, que o meu pai que era um pedófilo e que tinha sido o primeiro a abusar do Pedro Namora. Eu não ligava a esse tipo de coisas, eu não lia. O Joaquim Vieira um dia fez um print de tudo e num jantar no Algarve levou as coisas porque achava que eu tinha que reagir.

Olha, já tocaste no nome de José Sócrates, não podíamos passar este programa sem falar dele, como é natural. José Sócrates é uma figura especial. Como é que tu hoje olhas para ele? Como é que te relacionas com ele? Qual é a singularidade de José Sócrates na história do Portugal dos últimos 100 anos ou pelo menos da nossa democracia? É uma figura única? Porque muitas vezes existe muito aquela conversa de: "Como este há muitos". Há mesmo muitos?

Não, não há. O José Sócrates faz-me lembrar um conto dos contos do Gin Tónico, que era: assaltou por três vezes a compota, o pai admoestou. Roubou a mercearia da esquina do Sr. Esteves, o pai pô-lo na rua. Passado 22 anos apareceu de chofer fardado e era diretor-geral das polícias. Aqui não é o diretor-geral, é o primeiro-ministro. Porque já havia muitas suspeitas em relação a José Sócrates, não era novidade. O curtinho por parte dos jornalistas é que foi curto. Sócrates, para mim, e não é a primeira vez que o digo, é o grande impostor do século, é o homem do embuste. É um homem que para ter currículo universitário, teve que pagar a um amigo para lhe escrever o livro. Para que esse livro fosse lido, teve que alavancá-lo com o dinheiro do melhor amigo do mundo, que é o Carlos Santos Silva.

Terá fabricado uma licenciatura também.

Fabricou a licenciatura. A relação também que ele tem com as mulheres e mesmo com a família. Ele tem uma relação com as mulheres de mercadoria. Ele paga tudo, ele paga os afetos. Se tu reparares, as mulheres, as namoradas são pagas. Os filhos são calados com dinheiro. E chegam a protestar usando até uma linguagem muito pouco própria de um filho para um pai, com alguns palavrões que são conhecidos. Chegam a protestar por viver em luxo, em grande luxo. Portanto, eles queriam serem podres de ricos. Eles eram ricos, muito ricos, mas queriam ser podres de ricos. Portanto, o José Sócrates mantém afetos e amizades pagas com dinheiro. E isto eu acho extraordinário. Acho que muito dificilmente. O problema da Operação Marquês é que deixa de facto um estigma na classe política e no regime. E nós podemos pensar que ele não é o único. Eu até já pensei fazer um dicionário para lobistas, porque existem muitas expressões no Processo Marquês, por exemplo: "Qual será a nossa fatia no bolo?" O Tomir Porras, que era também um lobista venezuelano, também dizia: "O que ele vem cá fazer? Vem cobrar as rendas". Na face oculta. Tu tens os tipos que dizem: "Agora é preciso mamar, mamar até ao fim", porque era suposto que o PS não ia ganhar as próximas legislativas, portanto, era preciso mamar. Isto é tudo muito mau.

Mas tu achas que era só dinheiro? Ou seja, que aquilo que fazia mover José Sócrates é o dinheiro por si, é o dinheiro no fim da linha?

José Sócrates é um megalómano.

Eu não tenho essa tese.

José Sócrates é um megalómano. Ele constrói um personagem. É um personagem. Aquilo é alheio Não é um homem culto.

Mas tu não achas que o dinheiro não é, sobretudo, um instrumento? Aliás, eu penso que tu própria estavas a seguir essa linha, que o dinheiro em José Sócrates é substituído por um instrumento para ser amado, para ter poder, para poder agregar à sua volta pessoas.

Sim, mas tudo isto que ele fez-

Ou seja, era o cimento, não era o último objetivo.

O livro, o mestrado, isto é a preparação de um terreno para voltar à vida política. E ao contrário do que se diz, não era ser presidente da República, era primeiro-ministro, porque é aí também que se pode chegar ao dinheiro. Portanto, é evidente que o dinheiro é que lhe proporcionava este, nomeadamente, o regresso à política, que para ele era fundamental. Ele foi completamente enxovalhado quando perdeu as eleições e ele queria regressar rapidamente à política. O dinheiro foi-lhe servindo para isso tudo.

Mas não era o último fim, também concordas com isso?

Sim, concordo.

Era, sobretudo, um instrumento para cimentar as suas relações.

O que é muito triste.

Sim, mas isso dá uma imagem mais trágica e que torna o mesmo José Sócrates mais interessante.

Sim, que é uma obra bufa.

Sim, mas tu ainda falas com uma azia maior do que a minha. Bom, também sofreste mais na pele, possivelmente, do que eu.

Já são muitos anos de Sócrates, desde o Freeport.

Ainda não o achas uma personagem fascinante?

Mas isto é fascinante.

Não, é certo.

Quando eu digo que é o maior impostor do século, é fascinante.

O Tropa-Sobros dos reis.

É, porque de alguma forma é exemplar. Não que seja um homem exemplar, mas que tem uma exemplar história de vida.

Sim. Quando é que tu desconfiaste que Sócrates era o que era?

Eu penso que foi no Freeport. Naquelas ligações aos primos. Eu aí investiguei muito no Freeport. As relações familiares, todas as empresas. Havia uma série de empresas formadas e que não tinham existência. Portanto, não se percebia, até davam prejuízo. Não se percebia o que ele estava ali a fazer. Era, de facto, muito estranho. A Operação Marquês depois veio apanhar aquilo tudo, e quando o Ministério Público, por exemplo, na acusação diz que o Sócrates tinha um projeto de enriquecimento apoderando-se dos mecanismos do Estado. Isto é uma acusação gravíssima. E tinha desde que ele tinha formado uma empresa com o Carlos Santos Silva, que datava-se de 2005. E isto vai de encontro também àquilo que tu achas. Percebes que, de facto, o dinheiro era um meio para atingir determinados fins.

Eu faço outra pergunta, então. Se tu, desde o caso Freeport, começaste a desconfiar, por que a maior parte das pessoas demorou tanto tempo a ver?

João, nós do Sol começamos a dar notícias sobre, por exemplo, a Operação Marquês e da Face Oculta. Foi a mesma coisa, foi o mesmo processo. Nós começamos a dar notícias, imagina, durante um ano. As únicas pessoas que nos acompanhavam era o Correio da Manhã. Às vezes citando, outras vezes não citando, mas eram os únicos que acompanhavam. E isto tudo a falar de notícias sem termos acesso ao processo. Depois também fomos assistentes e o Correio da Manhã também foi assistente. E os outros jornalistas não falavam nisto, as televisões não falavam nisto. Houve pessoas que tiveram que se vir retratar, como tu sabes. Estamos a falar destes comentadores encartados do país. Este fenómeno repete-se. E eu volto ao mesmo. As classes em todo o mundo são como as bruxas da Galiza, não existem, mas era que las há, las há.

Tu uma vez disseste: "Sou uma pessoa normal, uma pobre provinciana algarvia que apenas leva a sua profissão muito a sério." Imagino que te continues a identificar com esta descrição que fizeste de ti própria.

Eu de mim própria diria que sou uma pessoa que gosta da vida e da liberdade.

Certo. Tu referiste várias vezes a questão da classe. Eu acho que possivelmente eu, por ser um alentejano vindo de Portalegre, e tu sendo uma algarvia, talvez a gente sinta melhor o que isso significa. E nesse sentido, se calhar até percebemos melhor o José Sócrates em muitos dos seus aspetos do que as classes elitistas da capital, que no início o empurraram muito e o colocaram muito de fora. A minha pergunta era se o facto de seres esta pobre provinciana algarvia, como tu te descreveste, é importante para o trabalho que tu fazes.

Sem dúvida. Eu sou um bicho do mato, eu não tenho praticamente vida social, ninguém me vê aparecer em festas. Precisamente porque há um perigo de que tu falas recorrentemente, que sendo este país um país pequeno, onde é fácil conhecer-se todo mundo e frequentar-se os mesmos restaurantes, isso torna muito mais difícil a nossa tarefa. Portanto, eu sentia-me à vontade a fazer biografias porque eu não frequentava o homem. E acho que fiquei a ganhar com isso ao nível das biografias. Isso deu-me uma independência incrível. Desde ver pessoas com quem eu não simpatizava politicamente. E o trabalho resultava, acabava por ser positivo para essas pessoas, porque eu acho que é a investigação que conduz o jornalista e não o contrário. Quem fizer isso não é jornalista.

Sim.

Eu, como o Luís Pacheco, preciso de umas desintoxicações. Porque nós lidamos com o lado mais obscuro da sociedade. E eu preciso de umas desintoxicações e essas desintoxicações é casa. Portanto, sou um bicho de casa, eu não trabalho em redações, era incapaz de escrever numa redação, e sempre fui assim. Eu nunca escrevi numa redação. A minha filha talvez um dia me vá odiar, porque eu não me cerco com cadeiras. Não sei quem é que fazia isso, se era o Torga, se era o Cena. Havia um escritor português que fazia isso, que se rodeava de cadeiras para que as crianças não o incomodassem. Eu sou assim.

Essa tua famosa vida de juventude na banda Damas Rock, que ainda gravou dois singles, não foi?

Foi.

E essa tua vida rock and roll. Isso que estás a descrever não é nada rock and roll.

Eu tenho ainda a esperança de cantar com o Fausto. Eu estou a tentar convencê-lo já há muito tempo. Aliás, estou a tentar convencê-lo também a musicar um fado meu. Mas ele agora está um bocado cansado.

Em meditação integrada.

Em meditação. Ele faz isso, fica grandes temporadas após um trabalho, o Fausto retira-se.

Mas, portanto, o bichinho da música não morreu.

Eu, por acaso, adorava cantar com o Fausto. Eu gosto muito do Fausto, sou amiga dele. E para mim a referência nessa altura das Damas Rock era o Zé Cafonso, era o Fausto, era o Zé Mário Branco. E essa história é muito simples. Nós o que queríamos, de facto, era entrar na música popular portuguesa com estes mestres. Chegámos à Polygram, éramos umas miúdas, não tínhamos idade para assinar um contrato e não assinámos contrato. E o Tó Zé Brito, com a experiência que tinha, olhou para nós, quatro miúdas, ouve-nos a cantar música popular portuguesa, no fim diz: "Vocês para fazer um bom..."

Quis fazer de vocês umas Doce.

E faz a primeira banda de rock feminina em Portugal.

Portanto, vocês foram as precursoras das Doce.

As Doce já existiam. Não tinha nada a ver com rock and roll.

Muito bem.

Ainda dei algumas dores de cabeça a alguns senhores com essa banda.

Tens que pôr isso no CD, então. Olha, Felícia, muito obrigado por teres estado aqui. O nosso tempo já terminou, foi um prazer. E para a semana regressa o Artigo 38 para uma última entrevista. Muito obrigado.

Obrigada, João. Fizeste-me rir e isso para mim é fundamental na vida.

Foi um gosto.

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