Donald Trump Jr. foi caçar à Mongólia com Umar Kremlev, um empresário russo próximo de Vladimir Putin que ajudou a financiar o seu casamento. O encontro, numa região remota do país asiático, levanta novas questões sobre os laços entre a família do Presidente dos Estados Unidos e figuras ligadas ao Kremlin, segundo uma investigação do jornal Financial Times.

A presença de Kremlev nesta viagem foi confirmada através de testemunhos de guias e autoridades locais, dados de voos, publicações nas redes sociais e registos públicos. O oligarca, que preside à Associação Internacional de Boxe (IBA, na sigla em inglês), viajou de avião privado para Ulaanbaatar, a capital da Mongólia, a 27 de agosto, depois de ter participado numa conferência da organização no Cazaquistão. Seguiu depois para oeste, onde se juntou ao grupo de Trump Jr., acompanhado por outro empresário russo, Arthur Martirosov.

Durante a viagem, Trump Jr. matou um argali-de-Altai (carneiro), uma espécie em vias de extinção que já caçou pelo menos outras duas vezes na Mongólia desde 2019. A expedição incluiu também a caça a um íbex-de-Altai (cabra), acompanhada por convidados que ganharam essa oportunidade num leilão de beneficência, com uma das propostas a atingir os 140 mil dólares (cerca de 125 mil euros).

Um porta-voz de Trump Jr. confirmou a amizade entre os dois, mas afastou qualquer interesse comercial. “Don [Trump Jr.] deixou claro que tem uma amizade pessoal, não uma relação de negócios, com Umar”, afirmou, acrescentando que se conheceram através de um amigo comum ligado ao mundo da caça. “A amizade baseia-se sobretudo no gosto que partilham pela caça, pela pesca e pelas atividades ao ar livre. Não deveria surpreender ninguém que tenham ido caçar juntos este ano”, acrescentou.

O encontro na Mongólia aconteceu meses depois de Kremlev ter ajudado a financiar parte das celebrações do casamento de Trump Jr. com Bettina Anderson, numa ilha privada nas Bahamas, em maio. Segundo a investigação da ProPublica, o empresário russo terá contribuído com centenas de milhares de dólares para a festa.

Oligarca russo próximo de Putin pagou parte da festa de casamento de filho de Donald Trump nas Bahamas

A mulher de Trump Jr. descreveu o pagamento como “um presente de casamento extraordinariamente generoso de um amigo”. Donald Trump, que não esteve presente na cerimónia, afirmou posteriormente que, tanto quanto sabia, o filho tinha devolvido o dinheiro a Kremlev. O Wall Street Journal noticiou ainda que o líder dos EUA se queixou em privado a assessores de que o filho tinha demonstrado falta de discernimento ao aceitar o presente.

Relação levanta preocupações sobre a influência russa na família Trump

No entanto, especialistas em contraespionagem alertam para os riscos associados a este tipo de relações. Holden Triplett, antigo diretor de contraespionagem do Conselho de Segurança Nacional dos Estados Unidos durante o primeiro mandato de Donald Trump, afirmou ao Financial Times que “não importa se as pessoas têm as intenções mais transparentes”, mas “assim que os serviços de segurança e informações russos descobrirem que alguém tem uma relação com uma pessoa de grande importância, vão tentar instrumentalizá-la“.

Kremlev, cujo percurso inclui condenações por extorsão e agressão, segundo os registos criminais obtidos pelo Financial Times, construiu a sua carreira no mundo do boxe e estabeleceu relações com figuras próximas do poder russo. Em 2017, tornou-se presidente da Federação Russa de Boxe e, em 2020, assumiu a liderança da IBA, organização que recebeu um importante patrocínio da empresa estatal russa Gazprom. Kremlev integrou também a comitiva de Vladimir Putin numa visita à China, em maio deste ano.

O primeiro encontro conhecido entre Kremlev e Trump Jr. aconteceu num evento da IBA, em Istambul, no ano passado. Na ocasião, o filho do Presidente norte-americano descreveu o empresário como “não apenas um líder, mas também um amigo”.

A possibilidade de comprar acesso ao filho do líder norte-americano através de viagens deste tipo também suscita preocupações éticas. Lauren White, da organização Citizens for Responsibility and Ethics in Washington, afirmou ao FT que “comprar acesso ao poder é uma questão ética, seja através de uma instituição de beneficência, de um casamento, de um donativo para uma campanha ou de um presente luxuoso”.

Depois da caçada, Trump Jr. regressou à capital da Mongólia, onde trocou o equipamento de caça por um fato e participou em várias reuniões. Entre elas, esteve um jantar com o Presidente do país, Ukhnaagiin Khürelsükh. Um porta-voz do chefe de Estado afirmou que se tratou de um encontro informal e que os dois falaram sobre atividades ao ar livre, sem discutir política ou visitas oficiais.

Entretanto, congressistas democratas abriram uma investigação à relação entre Trump Jr. e Kremlev, na sequência das revelações sobre o financiamento do casamento, noticiou a revista Forbes. Robert Garcia, principal representante democrata na Comissão de Supervisão da Câmara dos Representantes, considerou que os laços entre ambos levantam “questões sérias sobre esquemas de favorecimento em troca de benefícios e sobre a infiltração de serviços de informações estrangeiros na família do Presidente”.