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E quem era ao certo esta mulher? Contra um tempo e um país que não a quis ouvir. As boas meninas podem ir para o céu, mas são as más que mudam a história. Sentada à secretária, rodeada de estantes inclinadas pelo peso dos livros, Ana interrompe a escrita, fitando a luz de Lisboa sobre as suas palavras. Por instantes, perde o olhar dentro de si, naquele ponto exato onde vai buscar mais do que a inspiração, a indignação. Sem mais interrupções, dispara: "A palavra feminismo é, no Portugal em que vivo, uma palavra de que os homens riem ou se indignam consoante o temperamento. O feminismo não consiste em pôr gravata e colarinho de homem, nem em querer fazer das mulheres umas insexuais, umas masculinas de caricatura, mas em livrá-las do papel de escravas nascidas só para a felicidade e regalo do homem. O homem português tem o terror instintivo da mulher culta e intelectualmente independente". As boas meninas vão para o céu, as más mudam a história. Está no ar o episódio seis das "Desobedientes" da Rádio Observador. Comigo, Margarida Vila Nova, com a Maria João Lobo de Carvalho, o Alexandre Borges e uma das maiores ativistas de sempre na luta pelos direitos das mulheres em Portugal, Ana de Castro Osório. Maria João, o que é que sempre foste desde pequenina?

Pensando bem, mandona. Como irmã mais velha e contadora de histórias. Acho que até às bonecas e até às formigas contava histórias.

E tu, Alexandre?

Louco por queijo, que é uma coisa importantíssima.

Louco por queijo? Ainda hoje? Isso é que tens memória.

Olha, deve ser. Ainda hoje, por todo o queijo. E um bocado espectador da realidade. Acho que era aquela coisa, quando os miúdos estavam todos a jogar qualquer coisa no pátio, eu sempre fui alguém que estava a um passo. Não de uma maneira esquisita, ok?

Não.

Mas há aquela coisa do observador.

Como estás, estás no sítio certo, observador da realidade.

Exato.

Exato. Mas então vieste aqui parar.

Estavas escrito nas estrelas.

Bom, já no caso da nossa Ana de Castro Osório, eu acho que ela foi feminista desde pequenina. Ou estou enganada? Esta provocadora, inconformada, desobediente, revolucionária, que atravessa três regimes, uma monarquia, uma república, um Estado Novo, dois séculos, nasce em Mangualde, irmã mais nova de três irmãos. Achas que esta sua condição de ter nascido como a mais nova de três rapazes condiciona toda a sua luta feminista pela oportunidade, pela igualdade? Acho que nos dois é um bocado nisso. Eu nasci depois de dois rapazes e era a primeira rapariga, mas neste caso da nossa amiga, ela nasceu numa família da alta sociedade. Portanto, não vamos ter pena dela financeiramente, desta vez. Uma família culta, bem informada, uma ascendência materna absolutamente brutal, holandesa. O pai era notário, depois mais tarde veio a ser juiz, e juiz importante na nossa desobediente seguinte. Ele tinha uma imponente, enorme biblioteca, imensos livros em casa, e a mãe, como nós dissemos, era de uma das melhores famílias holandesesas. Portanto, pergaminhos não lhe faltavam. Isto numa época em que era uma ofensa aos costumes instalados que a mulher trabalhasse, como já vimos. Portanto, aqui é a reviravolta que ela se calhar vai logo sentir. "Mas porque é que eu não posso trabalhar só porque sou mulher?" Bom, nasce em Mangualde, numa linda terra. Não se esqueçam de visitar o Palácio dos Condes de Anadia, em Mangualde, um sítio onde eu gosto sempre de ir e estivemos aqui a falar antes, e o Alexandre também.

Também. Os meus avós e meu pai são de lá, muito perto.

E mais importante, há a Casa Memória de Ana Castro Osório.

Ok.

Eu tirei lá umas fotografias quando lá fui. Ainda está um bocadinho por dentro, ainda não está 100% como a câmara disse que ia ficar, mas é uma bela homenagem, mesmo no centro da cidade e uau, nós vamos ali e pensamos: "Uau, estamos no sítio certo, foi aqui que tudo se passou". Bom, nasce a 18 de junho de 1872, como a Margarida disse, depois de três rapazes consecutivos. Um deles vai ser juiz, poeta e maçom, o outro escritor, o outro presidente da Liga dos Combatentes da Grande Guerra, enfim, todos vão ter um futuro ditoso. E ela, a única rapariga, começa a ver a coisa mal parada. "Se eles fazem, porque é que eu não faço? Se eles estudam, porque é que eu não estudo? Se eles trabalham e são ativistas à sua maneira, porque é que eu não posso ser? O que é que eu vou mudar aqui?" Mas, meu Deus, é uma condenação. Margarida, lê lá aquele parágrafo tão giro sobre a condenação de nascer rapariga.

Ah, a nascença. Logo que a parteira anuncia aos pais que uma rapariga abriu os olhos ao mundo, eles, por via de regra, ficam pesarosos. Uma filha é um tropeço, é um pesadelo, é um futuro incerto e cheio de receios. É claro que se lhe há de arranjar um noivo, pensam os pais resignadamente, mas os noivos aproveitáveis começam a rarear por tal forma. Uma rapariga, que pouca sorte. Enfim, o que se há de fazer?

Isto era uma condenação.

Eu adoro, mas notem também este detalhe, que já no fim do século 19 havia poucos noivos aproveitáveis.

Os homens estavam já em escassez.

Imagina isto em 2021.

E dizer sobre 2021.

Está difícil para todas as gerações, isto não é fácil. Entretanto, na verdade, ela é uma leitora compulsiva, pois não havia de ser com a biblioteca que tinha à disposição. Viviam uma altura em Setúbal e ela passou a ler nada menos do que todos os Prêmios Nobel que havia até aqui. O Rilke não era Prêmio Nobel, mas o André Gide, o Anatole France e depois, mais modestamente, o padre António Vieira, enorme, Ramalho Ortigão, Teófilo Braga. Todos esses que eram os portugueses amigos do pai, havia sempre convívio desta geração de pessoas que lia e que tinham estudos e que tinham bibliotecas em casa, obviamente que se entregavam todos uns aos outros e às conversas uns com os outros.

Já agora, Teófilo Braga é engraçado de ver. Ele tinha sido colega do pai na universidade, em Coimbra, a estudar Direito. E, portanto, é não só uma referência como escritor, mas se calhar uma das primeiras influências depois no republicanismo da-

Sim, aliás, eles já deviam estar a germinar o assunto. Entretanto, ela sabia, por ler também, que sem haver a Jane Austen, que nós nos lembramos do "Sense and Sensibility", "Sensibilidade e Bom Senso", as irmãs Brontë. Minha neta chama-se Charlotte, talvez por causa delas, da Jane Eyre. A Charlotte Brontë e a Emily Brontë, que a Jane Eyre era fechada lá num quarto, num sótão, por um professor mau, toda uma história que nós lemos. Enfim, eu lembro perfeitamente de ter pesadelos com a história do sótão. A George Eliot, que teve que arranjar o tal pseudônimo, na verdade, ela chamava-se Mary Ann Evans e também fartou-se de escrever isto tudo em língua inglesa. E ela sempre achou, digo eu, não estava dentro da consciência dela, mas pelo tanto que ela escreveu, ela dá-nos a entender isso, que poucas mulheres em Portugal teriam coragem para escrever ficção. E com o próprio nome. Entretanto, relembro aqui uma frase que eu gostei de pôr aqui no prefácio do livro, que eu acho que é mesmo divertida, da Virginia Woolf. E então dizia ela assim: "Dêem-lhes um quarto só para elas, com uma fechadura e 500 libras por ano e deixem-nas escrever ficção ou poesia". Pronto, era isto que era preciso, segundo a Virginia Woolf, para uma mulher ser a melhor de todos e de todas no mundo. Só que agora aqui um contrassenso giro para nós pensarmos, que é: ok, é preciso ter dinheiro para ser escritora. Por quê? Porque quem é que faz os trabalhos domésticos em casa? Da Ana Castro Osório, da Virgínia Castro Almeida. Também tinham que lavar a roupa, fazer o jantar, fazer o almoço, tratar dos filhos. Porque elas podiam pagar a outras que o fizessem. E, portanto, já está aqui uma desigualdade. Elas são feministas, são republicanas, são tudo isso.

Mas são de famílias-

Mas neste caso particular e no caso seguinte, é porque podem, é porque têm rendimentos suficientes que lhes permitem dar-se a estas frivolidades políticas e ativistas, porque têm quem trate depois de todo o resto. Tal e qual como a Virginia Woolf está aqui a dizer.

Exato. Aí nesse sentido, já tivemos, talvez, a Alice Vieira e a Adelaide Cabete.

Ao contrário.

Ao contrário.

Isto é para explicar que estes 12 têm parecenças e têm muitas diferenças. E muitas diferenças sociais, sobretudo. Geográficas também, já falamos dos maridos, disso tudo. Portanto, cada uma é um caso. Entretanto, começa a primeira desilusão, ela começa a ver em que terra é que tinha caído. Nos últimos anos, ela resolve pôr-se a escrever uma série de crônicas no jornal chamado "Mala da Europa".

Incentivada pelo seu pai.

Claro, o pai dizia: "Tem jeito". Ao contrário do pai da nossa Maria Amália, que pôs tudo no lixo. Este disse: "Não, tu tens ideias, tens vontade, tens espírito combativo, tens tudo isso. Por que tu não vais escrever para a Mala da Europa?" Assim foi. Começou a escrever, só que depois percebeu que não era paga. Era uma miúda, era rapariga. Quem é que vai pagar esta miúda?

Exato, porque os rapazes eram pagos para escrever para o jornal.

Sim, então ela não.

Foi a primeira desigualdade com a qual se confrontou.

Sabes que estas desigualdades e estas coisas que acontecem desde pequenos, desde logo dizer "veste de rapariga" e depois esta, marcam-te mesmo. A gente tem que ter muita atenção com os nossos filhos, com os nossos netos, porque os primeiros cinco anos são fatais para as coisas acontecerem para sempre dentro de nós. E portanto, às vezes estas coisas, nós pensamos que passam. Não, estão lá e marcam-nos. A infância é um território muito importante. Entretanto, ela tem um enorme aplauso das pessoas que leem e que a começam a ler e cria uma certa vontade de começar a escrever mesmo romances à séria. Entretanto, muito mais tarde, ela escreve o "Ambições", que eu recomendo a toda gente, está editado pela Sibila. Eu não digo que é o melhor livro escrito em língua portuguesa por uma mulher, mas não está lá perto. É absolutamente espetacular e recomendo a toda a gente o "Mundo Novo" e o "Ambições". São romances de folgo editados pela Sibila e que são absolutamente incontornáveis. E é claro que ela faz um bocadinho os direitos das mulheres, o tema da mulher, o central destas narrativas dela. No fundo, é um pretexto, uma história.

A palavra como uma arma.

Isso, e cria uma narrativa como uma lição. Entretanto, começa a escrever para a Sociedade Futura, depois inventa o chamado Jornal dos Pequeninos, depois inventa a mulher e a criança, que é muito importante. Entretanto, dentro da Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, o órgão chama-se Alma Feminina e é fundamental para veicular a mensagem delas. E começa, claro, a escrever também usando pseudônimos, vai buscar dois pseudônimos que são os nomes da mãe e da avó holandesas, que eu não sei dizer bem, mas é Anne Moore ou Ana Doroteia Moore, e começa, de facto, a perceber que o caminho dela é este. Concordam ou não, meus amigos, aqui?

Perfeitamente.

Este é o princípio do caminho dela, escrever para crianças e ao escrever para crianças, com quem ela se vai cruzar?

Vai se cruzar com as nossas outras duas.

Exato. Com Maria Amália Vaz de Carvalho e com Carolina Michaëlis.

E qual é a importância de escrever para as crianças e o legado que ela deixa escrito? Que impacto é que isto teve?

A primeira história da Carochinha, que todos nós sabemos, foi Ana Castro Osório que a recuperou do folclore e que a escreveu pela primeira vez. O João Ratão caiu no caldeirão, tudo isso assinado Ana de Castro Osório. É uma história popular portuguesa. O legado, eu acho que era uma batalha muito comum nestas mulheres todas, a história da literatura infantil. Como vimos, como vamos ver, é quase uma porta de entrada para a literatura maior, porque havia este preconceito que a literatura infantil era a pequena literatura e a literatura para adultos era a grande literatura. O que é completamente estúpido.

A instrução e educação, mais do que a instrução e educação das mulheres nesta luta feminista, começava também em tenra idade, com as crianças, nos próximos cidadãos que vão ocupar.

Sim, eu acho que por um lado, sim, elas queriam passar mensagens e muitas delas escrevem, vão recuperar heróis portugueses para contar o que é hoje os romances históricos ou o que é hoje a adaptação de romances históricos para crianças que há por todo lado. E elas faziam muito isto, no fundo, para passar um legado da história de uma forma mais simples para eles. Mas era uma porta de entrada e não eram mal vistas se escrevessem para literatura infantil e seriam pessimamente vistas se escrevessem literatura para adultos. Entretanto, eu tenho que deixar de dizer entretanto, é a palavra que eu digo mais, porque é tanta coisa entretanto aqui. Bem, apaixona-se um senhor por ela, que não é retribuído. Este senhor, minhas senhoras e meu senhor que estão a ouvir, chama-se Camilo Pessanha, que já ouviram com certeza falar do seu maravilhoso livro, "A Clepsidra". E ele escrevia-lhe cartas suplicantes, ele rogava-lhe que casasse com ele. Era um amor sereno, um amor que esperava, um amor capaz de ser paciente, resiliente, tudo o que o amor deve ser. Mas qual? Ela não achava a mais maldita graça ao Camilo Pessanha.

Eles ficaram amigos a vida toda. Pelo menos ficaram bons amigos e escreveram-se toda a vida.

Digamos que não tinha o tal sex appeal que ela desejava. Mas, pelos vistos, ela destroçava corações, Alexandre. Já viste esta da amiga dela.

Porque também encantou o irmão da amiga Virgínia Castro Almeida, não é? Que falaremos melhor, vamos conhecer mais à frente.

Era Luís Conde de Nova Goa.

Exato. Mas ela também se faz difícil aqui para o Luís. Não sei se ela já teria conhecido aquele que virá a ser o seu marido.

Dá-me ideia que sim.

Jovem jornalista.

Mas sabes o que é? Eu acho que aquilo era quase teimosia, porque era assim: "Não me imponham homens, porque eu escolho com quem quero, com quem quero casar, com quem me apetece casar e com quem quero. E ninguém me impõe homem nenhum. A mim, Ana Castro Osório, sou eu que escolho. Prefiro ficar solteira se eu quiser, mas ninguém me impõe."

E assim se apaixona por Paulino de Oliveira, com quem casa.

Um grande republicano.

Um grande republicano. E ela diz uma coisa lindíssima, que depois destes corações despedaçados, diz: "Hoje posso dizer que sou a mais feliz das mulheres. O meu marido é o melhor, o mais delicado, o mais inteligente e mais meu amigo do que quantos homens no mundo existam. Vou casar por amor, casar com o homem que se agrada completamente e todas as horas que me separam dele parecem séculos."

Olha, por isso é que um está em Setúbal e outro em Lisboa. Eles descobriam uma carta. Não, descobriu uma carta dele.

Ainda não havia ponte.

Olha que só ganho de escrever-te isto. Minha Aninhas, estou faminto, meiguice e ternura. Passaste bem a noite, chamei por ti muitas vezes, não ouviste, fica com todos os meus beijos que tenho estado a juntar. Eu amo-te loucamente, Ana. Eu adoro-te perdidamente. Mil beijinhos do teu adorado admirador e teu maridinho Paulino. Olha o aprendão.

Isto até ele ter que embarcar para o Brasil e a deixar por um longo período.

Pois, mas isto é ossos do ofício, porque está a pessoa republicana ali.

De súbito, Paulino teria de se ausentar por mais tempo do que um dia e mais distância do que a que separava Lisboa de Setúbal. Envolve-se de corpo e alma no golpe revolucionário de janeiro de 1908, mas perante o fracasso da Intentona, vê-se obrigado a fugir e exilar no Brasil. Podia o amor sobreviver à distância de um oceano? E a força de Ana para a luta feminista, à falta da sua melhor metade? Para saber mais, na segunda parte das Desobedientes. E quem era ao certo esta mulher? Contra um tempo e um país que não a quis ouvir. As boas meninas podem ir para o céu, mas são as más que mudam a história. E quem era ao certo esta mulher? Contra um tempo e um país que não a quis ouvir. As boas meninas podem ir para o céu, mas são as más que mudam a história. Provocadora, inconformada, desobediente. O espírito combativo vinha-lhe do próprio desassossego. Uns diziam que a sua revolução foi a do feminismo, palavra com que antipatizava, embora usasse com frequência. Outros inscreviam-na como pioneira da literatura infantil. Todos reconhecem que dedicou a vida a revolucionar, de forma obsessiva e, por vezes, controversa, os direitos das mulheres. Segunda parte das Desobedientes. Maria João, Alexandre, deixámos Ana de Castro Osório num momento de viragem na vida e no país. O que é que acontece a seguir?

Ora bem, deixamos então a nossa Ana num momento delicado, que é quando o marido tem de fugir para o Brasil. O marido por quem ela sentia estas coisas lindíssimas todas que a Maria João estava a ler. O Paulino era um jornalista de Setúbal, mas também já um militante do Partido Republicano Português, e que já tinha tido alguns problemas com a justiça ou com o poder, quando começou a dar voz aos protestos que havia dos trabalhadores, particularmente no Porto de Setúbal. Com algumas manifestações bastante incendiárias, literalmente, de pegarem fogo aos cabos no porto, etc. Foi se envolvendo mais e mais na causa e acaba por estar ligado a um golpe fracassado, que tem muita piada. Estávamos aqui já a falar um bocadinho antes, que é o Golpe do Elevador, em 1908, três dias antes do regicídio. Portanto, já havia mais uma série de conspirações republicanas, toda a gente sabia disso, só que às vezes eles estavam com tanta confiança, os conspiradores, que já desafiavam toda a gente a participar nos golpes, inclusive a polícia. Dizia: "Olha, vamos fazer aqui um golpe no dia X, tentar prender o primeiro-ministro ou matar o primeiro-ministro. O que você acha?" É num destes casos em que um polícia, que foi assediado para isto, denuncia o que se vai passar. Há logo umas quantas figuras que são presas, porque era mesmo uma tentativa de golpe grande, era preciso tomar uns quartéis, impedir outros de sair. Nisto fica sozinho, a responsabilidade fica sobre o Afonso Costa e mais algumas figuras, tentar organizar este golpe. Reparem, isto não era provavelmente como hoje que se organizam protestos por WhatsApp. Não havia esta possibilidade. Estas comunicações, de cada vez que um lado falhava, não era muito fácil comunicar com os outros. Então fica um grupo sozinho, junto a um elevador que já não existe.

Ali na Baixa.

Exatamente, na Baixa.

Não, elevador ao pé dos Paços do Concelho.

Exato. Vinha da Rua de São Julião, ao pé da Câmara de Lisboa, para quem conhece. E ia ter ao atual Largo das Belas Artes, na altura conhecido como Largo da Biblioteca. Portanto, esse elevador chamavam-lhe elevador da biblioteca. Os conspiradores, que era suposto tomarem o quartel do Carmo, penso eu, começaram a reunir-se junto ao elevador cá em baixo, que era o ponto de encontro combinado para prosseguirem. Aparentemente, isto terá dado algo nas vistas, porque isto é Portugal, o elevador estava avariado.

Ninguém verificou.

Ninguém verificou. E então o polícia desconfiou: "O que estão a fazer estes caraças todos ali, se o elevador nem sequer funciona?"

Entre eles o Egas Moniz.

Entre eles o grande Egas Moniz, o nosso primeiro prêmio Nobel. E, portanto, o golpe é desmantelado antes de sequer acontecer. Descobre-se o envolvimento do Paulino e ele tem que fugir para o Brasil. Apesar disto, a nossa Ana de Castro Osório não baixa a guarda, nem no seu trabalho literário, nem no seu trabalho revolucionário. Não sei, Maria João, queres ir por qual?

Pois, ela tem duas facetas paralelas. Uma, o trabalho literário, que ela tinha propriamente dita uma livraria editora para crianças. Foi ela a primeira a fazer a chancela de editar, produzir e escrever.

Com o apoio do seu pai.

Fazia tudo com o apoio do pai, sempre. Editou contos tradicionais, já falámos, contos maravilhosos, animais, fábulas, as boas crianças, e na altura não era um livro que saía, eram fascículos. Muitas vezes saíam de graça com o jornal, outras vezes iam mesmo escritos no próprio jornal, era um destacável do jornal, e era uma linguagem clara, simples, tinha algumas ilustrações, ainda primitivas, mas era melhor do que não terem nada. E a seguir juntou todos esses fascículos numa fascinante biblioteca infantil ilustrada, que deu 18 volumes e uma data de prêmios e uma projeção na literatura infantil muito grande. Muito engraçado, porque a história das traduções, porque ela também se dedicou a traduzir os contos do irmão Grimm, e como era do alemão para o português, teve que pedir ajuda à Carolina Michaelis e à nora dela, chamada Lotte, de algumas palavras muito giras. Todo este arquivo da Ana de Castro Osório está na Biblioteca Nacional Portuguesa, por isso imaginem o que eu gostei de ali estar a ver as palavras que elas se perguntavam uma à outra, que a Ana de Castro Osório perguntava à Carolina como é que se traduzia isto melhor. Palavras tipo estapafúrdio, palavras assim, difíceis de perceber a tradução. E é engraçado vermos como está tão bem preservado esse arquivo, para quem quiser ver com mais detalhe estes assuntos.

Estapafúrdio.

Exato. A literatura para a infância não era, de facto, aquela que escreve para as crianças, mas aquela que é lida com gosto pelas crianças. Este é o ponto em que eu também batalho, como já agora, puxando o meu lustre, os muitos livros que fiz para crianças, é tentar que eles percebam e que não haja entraves na escrita, palavras muito difíceis, que sejam bloqueios de gostarem ou de seguirem com a história. Foi esta a ideia da Ana Castro Osório, que façam as histórias simples, façam com as crianças, percebam imediatamente o que lá está e que contem umas às outras e que passe de boca em boca, que é isso que se quer. Este foi o papel importantíssimo dela na literatura infantil. Na parte revolucionária.

Na política.

E na política.

Na política, ela vai envolver-se numa quantidade de organizações feministas e republicanas. Vai juntar-se à maçonaria, porque como já vimos, a maçonaria servia um bocadão de câmara conspirativa para, fora do alcance da lei, se poder preparar a revolução.

Vai se encontrar com uma outra desobediente.

Tal e qual, com a Adelaide Cabete, que era a grã-mestre da loja feminina Humanidade, que falamos no episódio quatro.

E a Beatriz Ângelo.

E a Beatriz Ângelo, exato. As grandes figuras do feminismo e femininas do republicanismo estão todas aqui. Entretanto, consegue-se a implantação da República em 1910. Breaking news, estou aqui.

Breaking news.

Ainda bem que as pessoas ouvem este podcast, senão não sabiam lá o que se passava no mundo. E portanto, em 1911, de todas as organizações que a Ana de Castro Osório vai criar, cria esta, que é provavelmente a mais importante de todas elas, que é a Liga Republicana das Mulheres Portuguesas. Ela é a primeira presidente desta associação, e que vai ter escritóriosAli na atual zona do intendente. Num prédio, não sei exatamente em que andar, Maria João, mas em que aquilo é um ver se te avias.

Aquilo é o ver se te avias de saias para cima e saias para baixo, vestidos para cima, o restolhar, estamos mesmo a ver, das saias na escada. E os vizinhos todos espasmados, que é que estas mulheres estão aqui todas carrancudas, a maior parte delas feias ao olhar dos homens, não ao nosso, e a subir e a descer as escadas como se mandassem no mundo. Era uma desconfiança brutal. Mas olha, por falar nas Unidas Venceremos. Sabes que eu fui contar as associações em que ela fez parte e criou, foram cinco, se é que eu contei bem. Quase em simultâneo. Imagina, faz uma, faz outra. Isto é como fazer um partido político hoje.

Mas ela acreditava nesta ideia da união das mulheres, desta emancipação. Acreditava na luta em grupo do que uma batalha individual?

É aquela célebre frase da Ana de Castro Osório sobre a carta de alforria: "Desde que se torne independente, desde que saiba agenciar o pão que come, a casa que habita, os vestidos que veste, sem estar à espera do homem, fonte perene de todo o dinheiro que hoje a sustenta, a sua alforria está decretada". Esta foi uma das frases mais importantes e que na altura causou mais burburinho. Tipo independência das mulheres.

É muito boa. E diz aquela outra, também muito a propósito da questão dos vizinhos que temiam aquelas mulheres todas juntas naquela organização. "O homem português tinha um medo excessivo do ridículo e um pavor da opinião do vizinho, horrorizando-se com a ideia de que alguém o possa supor inferiorizado perante a mulher, esse ser dependente, fraquinho, mesquinho."

Eu acho que ainda hoje temos um receio dos vizinhos tremendo. Eu acho que essa ideia do vizinho até hoje perpetuou-se no tempo.

É isso mesmo. Acho que é o ponto.

Fala baixo para os vizinhos não ouvirem.

Exatamente.

Atenção que ela não era propriamente só feminismo e só literatura infantil. Ela diz numa carta à Fernanda de Castro: "Não sei se as mulheres que se dizem de letras gostam de coser. Eu gosto imenso de coser, de fazer renda, de bordar e de tudo. Quando forem pregar utilmente as mãos, e acho mesmo que as mulheres podiam criar pequenas indústrias de bordadeiras e tecedeiras, fazendas, rendas e tapetes. Eu não me considero uma mulher de letras, sou mais da ação, de energia, de vontade e de pensamento. Mas qual é o problema de eu também gostar dos afazeres domésticos?"

Pois, isso é interessante. É como os sonhos de bacalhau da Carolina Michaelis.

É, exatamente. Que ela gostava tanto de fazer traduções e fazer gramáticas como fazer sonhos de bacalhau.

Exatamente, não tinha nenhum embaraço com isso. Interessante.

Mas era este o unionismo, digamos que Unidas Venceremos faz sentido.

E nesse combate e nessa liga, qual é que foi o papel determinante da liga na sociedade, na altura? Foi importantíssimo.

Exato. Há vitórias muito importantes, de facto, aqui, e creio que se devem muito a Ana de Castro Osório, porque ela tinha, de facto, muita influência junto dos decisores. Ela era particularmente próxima do Afonso Costa e de outros políticos.

Devia ter medo dela, também.

Exato, devia ser mesmo isso.

Lá vem esta histérica.

Talvez.

Lá falar pelas mulheres, vamos ouvi-la. Vai tu. Não, vou eu.

Portanto, há ali um conjunto de primeiras leis da República que são de facto conquistas da liga e negociadas e discutidas na letra de lei que vamos ter por Ana de Castro Osório. A lei do divórcio, que é logo a 3 de novembro de 1910, interessante, é menos de um mês depois da revolução.

Já estava na cartilha delas.

Tal e qual. E a lei da família, que curiosamente ou não, é publicada no dia 25 de dezembro, dia de Natal de 1910. Em nome da liga, a Ana exigiu: "A lei do divórcio é necessária, não para separar os que estão separados e que sem escrúpulos seguem o seu destino, mas para libertar os que estão presos".

Isto em especial as mulheres.

Em especial as mulheres, exato, que estavam presas, de facto, porque financeiramente, socialmente, não conseguiam.

E a revisão do próprio Código Civil.

Não, o Código Civil da Família é todas estas alíneas que o Alexandre tão bem elencou aqui.

E depois aí uma dessas alíneas, de facto, é este ponto maravilhoso de fazer a justiça sobre a questão do adultério. Ao contrário do que se pudesse pensar, um crime não tinha a mesma moldura penal se fosse homem ou mulher. No caso do adultério, o homem poderia incorrer numa pena pesadíssima de seis meses. Se fosse a mulher, a moldura penal ia de dois a oito anos. Não se sabe muito bem porquê. Outra das vitórias da liga. Exato, porque é mais compreensível, no caso dos homens. As mulheres que, para citar o nosso episódio anterior, se desonestam. Não me vou esquecer deste.

Se desonestam.

Se desnuda e se desonestam perante as crianças. E portanto, outra das vitórias da liga é conseguir que, naturalmente, seja a mesma pena para toda a gente. O reconhecimento da mulher a poder publicar sem autorização do marido, uma questão que tocava particularmente a Ana.

Às escritoras todas. E a outra da obrigatoriedade da mulher prestar obediência ao marido.

Ah, exatamente.

Esta é muito boa. "Julgarão os homens, por acaso, tamanha será a sua ingenuidade, que podiam em vão dispor de metade da humanidade, reduzi-la ao papel farfalhudo de deusa do lar, nuvem anjo ou demônio, e dizer-lhes: fica aí quietinha e sossegadinha."

O papel farfalhudo de deusa do lar.

Mas estes tinham mesmo este dever da obrigatoriedade. Isto é que é extraordinário. Estão a ver nós desobedientes e elas desobedientes, como é que seria?

Temos que agradecer ter aberto o caminho para as seguintes.

Para se discutir publicamente e para se fazer a revisão do Código Civil, como acabou por ser feito. Alguns, depois retrocedeu, não é, Alexandre?

Exato. Sim, tal qual.

Mas no meio deste caminho, ela vai para o Brasil viver com a sua Paulina.

Porque ela torna-se cônsul lá em São Paulo, não é? É nomeado cônsul em São Paulo e trata de ir para lá e pensou assim: "Mais um país gigante onde se fala e escreve em português." Era sempre a mesma tirada. Vamos lá, mas é escrever contos para estas crianças, fazer livros escolares, porque o mercado é quantas vezes maior do que o português. Nem sei fazer contas. Ela fez manuais escolares, ganhou prêmios com eles, viveu três anos felizes e tranquilos até 1914. E aí é que há um problema. O problema foi que o Paulino morreu vítima de tuberculose, a doença que assolava e que matava, levava milhões de vidas. E vem para Portugal, acaba por vir para Portugal e também triste, viúva, tudo isto a cargo, mas também muito desencantada com a República.

Isto são passados três anos da implantação da República.

Sim, no fundo. Três, quatro. Tal e qual. Sim, de repente, as coisas tinham retrocedido, como já temos aflorado e vamos ver um bocadinho mais à frente, particularmente na questão do direito de voto das mulheres, que é imediatamente retirado quando se percebeu a ambiguidade legal. E depois o desapontamento, no fundo, mesmo a aposta na instrução, quer dizer, há um conjunto de direitos que ficam reservados para quem tem instrução e isso significa quase negá-los à maioria das mulheres, porque como os responsáveis políticos sabem perfeitamente, são ainda menos instruídas do que os homens, por força das circunstâncias que reinaram durante muito tempo em Portugal. Portanto, vai se desiludindo com a República.

Os dois filhos são presos, entretanto.

Verdade.

É uma das razões para ela desiludir.

Envolvidos nesse caos de instabilidade da Primeira República, em que os governos se sucedem, às vezes, de três em três meses. Dois dos filhos são presos.

E os dois filhos que foram brilhantes na sua carreira depois. Escritores, jornalistas, poetas, tudo.

Tal e qual.

Hirdaram bem os genes.

Tal e qual. Sim, é mesmo isso. E portanto, a Ana afasta-se, recusa até uma distinção daquelas com que se tenta calar as pessoas, de facto, que era a Ordem de Santiago.

Sim, não quer.

E afasta-se das causas políticas e concentra-se no seu trabalho de escritora e de editora.

E aí temos uma viragem. Publica na sua nova editora, Lusitânia Editora Limitada, a obra maravilhosa e única de Camilo Pessanha, a "Clepsidra". Conseguiu convencê-lo, embora ele vivendo em Macau, a publicar o que viria a ser o seu único título.

Sabes que é interessante.

E que é estudado e muito bem estudado nos liceus.

É isso mesmo, é um livro magnífico. Acho que o Camilo Pessanha é dos nossos melhores poetas e eu nunca tinha ido ver um pouco mais sobre a vida dele. E só aqui é que percebi. Eu não sei exatamente se a relação entre a Ana de Castro Osório e o Camilo Pessanha vinha mais de Portugal, porque ela era de Coimbra, ela ali de Mangual, enfim, região centro, relativamente próxima, ou de Macau, porque a tal avó holandesa, Anne Mor, era na verdade natural de Macau. Provavelmente é holandesa.

Mas ele já foi depois.

Sim, mas ele já deveria ter alguma ligação, porque o avô da Ana de Castro Osório, o marido desta avó, foi governador de Macau. E o Camilo Pessanha depois vai viver a maior parte da vida lá. Eu não tenho a certeza, ele provavelmente já teria lá algum contacto, mas o que é que o leva depois? É uma coisa um bocadinho triste. E não sei se também não foi isso que afastou a Ana de Castro Osório dele, ou se era o sex appeal, como tu dizias. Se calhar foi só o sex appeal. Ele era um opiômano, o Camilo Pessanha. Era viciado em ópio.

Era a época.

Tinha conhecido o ópio em Paris e era tão viciado que aparentemente a sua mudança para Macau se prende com isso, porque o ópio era extremamente barato em Macau. As Guerras do Ópio explicam, era muito barato em Macau e portanto é um bocado rock'n'roll star, este nosso Camilo Pessanha, antes do rock'n'roll. Aliás, como até os poetas malditos que ele apreciava.

O Camilo Pessanha só escreve um livro. E foi um drama para ele publicar.

No fundo, esse livro, é ela que o cria, porque esse livro é a compilação de poemas soltos do Camilo Pessanha, que estavam publicados na imprensa, outros eram coisas que ele tinha escrito e enviado e portanto é ela que verdadeiramente reúne e publica isto. E depois um dos filhos dela, de quem falavas há pouco e bem, o João de Castro Osório, vai mais tarde ampliar esta edição original da "Clepsidra" com outros poemas que vai encontrando do Camilo Pessanha. Ou seja, sem eles não haveria Camilo Pessanha, no fundo, a ideia é esta. Ter-se-ia perdido no tempo.

E mais uma obra importante dela.

Tal e qual.

E ela terá se sentido traída pela República?

Eu acho que foi um desencanto generalizado delas todas. Já viste o que é lutarem por determinadas frentes de batalha importantes e leis e direitos para as mulheres e igualidade, e depois, de repente: "Agora já ganhámos a República, agora vão lá para casa, calem-se lá com isso, vão-se dedicar a outra coisa" e pumba, voltam com as leis todas para trás. É um rude golpe. E no fim da vida, a Margarida diz que não lhe perdoa isto.

Ela não perdoa. Uma revolucionária como esta ter ficado desencantada. Esta ideia de desencantamento, de desistência e de conformismo com a política, com a sociedade à época, a mim parte-me o coração ver uma mulher que tanto fez, conformar-se com o Estado tão pouco livre.

Perde as ilusões.

Sim.

Praticamente perde as ilusões e percebe que as mulheres burguesas ou das classes altas vão fazer exatamente zero e nunca mais vão lutar por inverter a situação.

Acontece muito aos mais idealistas. É um bocadinho como o "Cândido" do Voltaire, no fim. Depois vais cuidar do teu jardim.

Vais cuidar do teu jardim.

Desistes de tentar mudar o mundo e vais cuidar do teu jardim. Estás prontinha para acabar, Maria Eduarda?

Estou, acho que foi tão bonito o que disseste agora.

Então vamos acabar.

Ana de Castro Osório, personagem central entre as revolucionárias do seu tempo. Tinha uma amiga íntima, companheira de escrita e de luta, e de quem por pouco não se tornou cunhada. A singular figura de Virgínia de Castro Almeida. Tanto as unia e separava. Ambas nascidas em berço de ouro, ambas casadas e mães, ambas se dedicaram à escrita para crianças e ao feminismo, e ambas terminaram aparentemente vencidas pelas regras do Estado Novo. Mas o que realmente as separava de forma irredutível, isso vamos descobrir no próximo episódio. Se gostou deste episódio das Desobedientes, pode seguir-nos nas plataformas de podcast, no YouTube e no site do Observador. O podcast As Desobedientes tem o alto patrocínio da Toyota. E quem era ao certo esta mulher? Contra um tempo e um país que não a quis ouvir. As boas meninas podem ir para o céu, mas são as más que mudam a história.