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E quem era ao certo esta mulher? Contra um tempo e um país que não a quis ouvir. As boas meninas podem ir pro céu, mas são as más que mudam a história. Se Irene Lisboa não chegou nunca a propor um outro gênero, hoje banalizado como não binário, avançou pelo menos com duas ideias importantes. Em primeiro lugar, espírito, pensamento, arte e escrita não se caracterizam pelo sexo biológico nem pelo gênero social de quem os produz. Em segundo, os rótulos mente feminina e mente masculina não cobrem toda a variedade de pensamentos e, por extensão, de pessoas. Haverá formas de ver, sentir, pensar, escrever, que não encaixam nestas gavetas de gênero. E passo a citar: "Leio o que tenho escrito e vêm-me destes pensamentos. De que tempo sou? Onde vivo? Que valor têm pra mim as palavras?" Está no ar o episódio 10 das "Desobedientes" da Rádio Observador, também disponível em podcast. Eu sou a Margarida Vila Nova e tenho, como sempre, comigo, os especialistas de desobedienciologia, Maria João Lobo de Carvalho e Alexandre Borges. Bem-vinda, Maria João. Bem-vindo, Alexandre. Hoje trazemos aqui a história de Irene Lisboa, talvez uma das mais renegadas e desconhecidas das nossas revolucionárias. Mas vamos começar pelo princípio e tentar perceber o porquê. Maria João?

Oi. É tanta coisa pra dizer sobre esta mulher. Tem uma infância, como muitas outras, triste e complicada. Nasceu em Arruda dos Vinhos, passamos a dizer, 1892, e viveu até, vamos já contar o fim, 1958. Em Arruda dos Vinhos e nasceu precisamente no dia de Natal, com o lindo nome de Irene do Céu Vieira Lisboa. Se fosse tudo lindo, mas não era. A mãe tinha só 17 anos e era uma camponesa adolescente naquela altura. Teve a Irene e outra irmã mais nova chamada Rita, de um senhor bem na vida, proprietário, Luís Emídio Vieira Lisboa, com mais de 50 anos do que ela, de Arruda dos Vinhos.

Um advogado.

Sim, famoso.

Desconhecia a lei, portanto.

Pronto, desconhecia a lei. Desconhecia a lei, sim, menor, não era?

Exatamente.

62 anos, talvez mais, porque dizem que ele tinha quase 50 anos a mais do que ela. Portanto, imaginem. Primeira coisa que lhe ocorreu fazer foi tirar as duas crianças à mãe. A mãe, Maria Joaquina, camponesa, seguiu o seu caminho. Sabemos lá depois o que é que se terá passado, mas não deve ter sido nada fácil pra ela. E as duas meninas ficaram com o pai. É batizada aos seis anos só, em Lisboa. E quem é que a cria? O pai e a dita madrinha, que devia ser alguma senhora das relações do pai. Primeiro, vai pra um colégio de freiras.

O pai era procurador desta senhora.

O pai era procurador?

Exatamente, era assim que se conheciam.

Sabes tudo. Investigadora.

Gostei do tom com que a Maria João disse. "Sabes tudo, né?"

Sabes tudo.

E já agora, uma palavrinha pra Arruda dos Vinhos, que é um lugar que se falou tanto nestes últimos meses.

Quando houve as inundações.

Fustigada pelas tempestades.

E que tem uma linda biblioteca, a Irene Lisboa, onde eu já fui.

Muito bem.

E é a heroína daquela terra, e merecidamente, como vamos ver. Bom, mas então ela vai pra um colégio de freiras com a irmã, depois a seguir passa pra um colégio inglês. Portanto, como estamos a ver, o pai, dinheiro não lhe faltava. E no colégio inglês, é logo chefe de turma. Na turma dela. Mais uma vez, ela sente-se um bocadinho fora do contexto. Estigmatizada por ser uma filha ilegítima, que isso não se escapa, a ilegitimidade. A mãe não quis saber mais dela, nunca mais viu a mãe, ela não tem qualquer memória da mãe. E o pai não devia ser flor que se cheire, também quanto mais longe ela tivesse e mais interna ela tivesse num colégio, menos chatice lhe dava.

Já agora, outra coisa de espertinho, que vou juntar, que é: ela só foi batizada, sabes por quê? Ela só é batizada aos seis anos para poder entrar no colégio de freiras. Porque senão nem sequer teria sido batizada.

Eu creio que é aquela que foi batizada filha de pai incógnito.

Era isso mesmo.

Exatamente.

Como filha de pai incógnito, sim, que ele não queria dizer que era pai. Mas lá ia pagando as despesas, digo eu. Bom, e o pior de tudo pra ela, segundo o que ela própria diz, era os dias de verão na Quinta de Monfalim, em Sobral de Monte Agraço, que isso é que era absolutamente dramático. Por quê? Porque à medida que o tempo ia passando, o pai casou-se com uma megera.

Mania das madrastas.

É, as madrastas más têm alguma razão de ser.

Que clichê.

Eu já fui madrasta de vários e tinha sempre medo, mas já sem madrasta má. Acho que não sou assim tanto, mas elas dirão ou eles dirão. Bom, o pai casa-se com esta senhora, muitos anos mais nova, mudam-se pra Arruda com a respectiva mãe. Ou seja, a sogra do pai, a velha, que era uma própria madrasta má, mesquinha, gananciosa, estava com muito medo que ela e a irmã, a Irene e a irmã, recebessem ou avichassem, como se diz em termos populares, alguma coisa da herança e, portanto, lhe tirassem os dinheirinhos a ela e à rica filhinha dela. Bom, como nós sabemos, dos contos de fadas, e já que falamos tantas vezes de contos de fadas, é sempre um contraponto entre a madrasta e a mãe ou a madrasta e o pai. É sempre a benévola, e a bela, e a bonita, contra a inveja, a má, a que quer matar, a que quer torturar. Há sempre o bom e o mau. O vilão e a princesa. E era exatamente isso que corporizava esta família paterna da Irene Lisboa.

A ficção na realidade.

Pois, sim, se calhar os contos de fadas também são...

Um espelho.

Um espelho desta realidade que continua, esperemos que já esteja mais terno, hoje em dia, com as madrastas e os padrastos Em Lisboa, já depois de passar por estas fases e ainda muito nova, vai para o Liceu Maria Pia. Já falámos que, tal como a Virgínia Quaresma, também foi para o Liceu Maria Pia. Passamos várias vezes.

Todas passam por lá.

Todas passam por lá. Era o único.

A vinda dela para Lisboa é a emancipação dela, onde ela ganha o seu espaço de pensamento.

Sim, porque depois de passar do Colégio Inglês, onde é que continuavam o liceu feminino? Só havia em Lisboa. Dá uma ideia que sim, ela aí deve ter se sentido peixe na água, no liceu. Conhece a Hilda Moreira, que vai ser sua companheira o resto da vida. Muito importante em todo o processo de crescimento e de idade adulta da Irene Lisboa, como os meus amigos concordam, de certeza. Terminado o liceu, ela vai, como foi a nossa Virgínia Quaresma também, para o Magistério Primário, para a Escola Normal Primária de Lisboa, para estudar para professora do ensino primário. E aí vai acontecer muita coisa engraçada para nós contarmos aqui. Entretanto, dá-se a instauração da República. Ela não é como as outras, não sei se concordam, mas não é política ativista, feminista e revolucionária.

Tal e qual.

Não é nada disto. É muitíssimo diferente das outras. E o seu primeiro trabalho, eu fui ver aqui as datas, tem graça. Ainda no século passado, há o primeiro jardim de infância em Portugal, data de 1882. Não devia ser muito frequente haver jardins de infância. Aliás, porque as crianças nasciam como cerejas. Muitas estavam em casa e muitas com seis e sete anos já estavam a ajudar a mãe nas lides domésticas e a cuidar dos mais novos.

E qual era essa instituição, sabes? Que colégio era esse? Era uma coisa super fina, não?

Não, era mais por necessidade da criança, uma coisa mais informal. Mas este onde a Irene Lisboa esteve, era o jardim de infância da Tapada da Ajuda, perto onde a Margarida mora.

Sim.

Da Tapada da Ajuda.

É verdade.

Ela e a Hilda sempre juntas. E neste jardim de infância, há fotografias muito interessantes, que é 40 crianças e uma professora. Hoje em dia, idealmente, são 15, 16, 17. Idealmente, que há sempre imensa procura ainda hoje. Como sabemos, para creche, para jardins de infância, para tudo. Nesta altura, ela começa a escrever poesia para um jornal chamado "Educação Feminina", que foi considerado um jornal revolucionário. E, portanto, enquanto não a calaram, não descansaram. E nesse jornal, ela já ia dizendo o que ela sentia, o que podia mudar na escola. Ela achava estranha a forma como os miúdos ali estavam, muitas vezes como armazém de crianças, outras vezes a aprenderem coisas que não tinham nada a ver com a idade das crianças, nem o que era suposto eles aprenderem. Mas foi aí que nasceu, tanto numa como noutra, acho eu, tanto na Irene Lisboa como na Hilda Moreira, o prazer de ensinar com alegria, com luz, com cor, com experiências, com tudo isso. Tanto que ela escreve um manifesto muito engraçado chamado "A Escola Atraente", porque não devia ser nada atraente a escola, sobretudo para crianças tão pequenas. E a partir desta ideia da escola atraente, é que vai começar a nascer nela, um método totalmente moderno, que já vamos ver a seguir. E de facto, podemos dizer que a Irene Lisboa foi pioneira em muitas coisas, e certamente uma das quais foi, não na pedagogia, mas na vontade de incrementar esta pedagogia.

Podemos dizer que hoje em dia ainda vemos um resquício do caminho que ela desbravou lá atrás?

Sim, ela começou por intuição, porque era uma mulher muito inteligente e com uma vocação, mesmo, uma grande vocação para o ensino. Começou a perceber, no seu primeiro trabalho com a Hilda, que meter crianças numa sala sem se passar nada ou ensinar coisas que nada têm a ver com a idade deles, era contraproducente. É uma coisa inata, é a vocação de uma professora diz isso. Estou aqui agora a falar como professora. Desculpem, mas acho que os professores são os heróis nacionais, estou farta de dizer isto.

Mas é ela que abre caminho para um pensamento, uma nova escola.

Sim, mas para implementar o que ela viu, percebe que é importante o que vamos dizer a seguir, que ela teve uma bolsa do Instituto de Alta Cultura para ir à Bélgica, à Suíça e à França, frequentar estas escolas de ciências de educação, numa época em que a psicologia infantil era totalmente inexistente. Depois sabemos todos, o Piaget e o Claparède, o Instituto Jean Jacques Rousseau, que abriram este caminho. E agora, sobre o método que a Margarida estava a perguntar, de facto, é muito interessante. A Maria Montessori, cujo percurso e filme eu recomendo, consegui ver no YouTube, mas acho que deve haver maneiras mais rápidas de ver. Em 1870.

Se calhar, só para quem nos está a ouvir, médica, pedagoga, educadora, destacou a liberdade, o ato de brincar e o estímulo do desenvolvimento físico e mental das crianças, representante máxima do movimento Educação Nova.

Escola Nova, Educação Nova, exatamente, tudo isso. Não foi a Irene Lisboa que criou. Sim, a Maria Montessori. Mas foi a Maria Montessori, e não só, através destas novas pedagogias e o que isto se baseava? Baseava, sobretudo, em pôr a criança no centro da atenção. Cada um tem a sua maneira de ser, cada um tem os seus talentos, cada um tem as coisas que gosta, as coisas que são mais fortes e que são menos fortes, e não analisar toda a sala do jardim de infância como: "São capazes de fazer estas atividades e têm que saber pintar dentro dos riscos." Não existe isso, cada um com cada qual. Cada um tem o seu talento. Primeiro o ser, só depois o saber e só depois o saber fazer.

Isto, de facto, é muito moderno mesmo.

É supermoderno, isto era a educação nova. E o que eles faziam? Eles experimentavam as coisas todas, tinham que mexer, tocar, sentir, provar, sujar-se de lama. Tudo isto era totalmente novo. Imaginem o que era neste país, há não sei quantos anos, as crianças a brincarem com lama, a experimentarem as coisas, que é muito evidente no filme da Maria Montessori. A Maria Eurica, em Portugal, que nasceu em 1908, já um bocadinho depois, mas que também bebeu deste método, e hoje em dia há vários colégios que seguem o método da Maria Eurica, onde andaram os meus filhos, onde anda a minha neta agora, é exatamente isto, é a criança no centro de tudo e cada um ao seu ritmo. É isto que é a base desta pedagogia nova.

Desculpe interromper-te, Maria João, mas é tão mais interessante quando Irene Terá tido pouquíssima atenção.

Exato.

Ela que cresceu sem nenhum apoio especial, nenhum de todo, sem nenhuma preocupação com ela.

Sim, quer familiar, quer escolar.

Exatamente. E ela até tem um verso bonito que diz qualquer coisa como: "Eu não tinha quem..." eu gosto da palavra, é: "Não tinha quem me endomingasse", como as outras raparigas.

Endomingasse.

Exatamente.

Ela não tinha nem o suporte físico, nem o social, nem o emocional, que é isso que a escola método Montessori faz, é dar este crescimento nas várias frentes, incluindo as crianças terem frustrações, estarem aborrecidas, serem contrariadas, tudo isso que nós sabemos. E a Irene Lisboa, como o Alexandre estava a dizer, só teve rejeição.

Exato.

Mais nada. Ela teve que lidar com a rejeição em todas as frentes de batalha, como vamos ver. Concordam?

Perfeitamente.

Pronto, estou a mastigar, não é?

Não. Estou encantada a ouvir.

Estamos a gostar de trabalhar.

Não, é que eu sou absolutamente fã do método Montessori, da Maria Henrique, em particular, portanto, digo isto com o coração cheio mesmo e muito contente com o resultado que consegui em minha casa, com os meus filhos, e espero que com a minha neta também. A contribuição do desenho era muito importante, o bem-estar das crianças em todos os sítios, as crianças saírem da casa da mãe para um espaço onde pudessem aprender e não, como era até aí, serem elas parte do sustento da casa. Imagina, a gente via os jardinas, aquelas imagens que temos dos filmes do Manuel Oliveira, os jardinas descalços com seis anos e sete anos. Era isto.

Ela diz da escola: "Na escola, toda a criança se submete a um viver artificial. É estudante. Leva anos a aprender frases. Tudo a desvia dos seus pequenos interesses. Pouco aproveitará do que ouve e do que copia. Está presa e contrariada. Não parte, não mexe, não apalpa, não discute, não tem preferências, tem deveres, é subordinada."

Isto contraria tudo. O problema, depois, é que alguém já no Estado Novo, ou quase no Estado Novo, põe-na como inspetora orientadora do ensino primário infantil.

Em teoria, seria um reconhecimento do prestígio dela.

Isso seria um cargo importante para quem tinha passado em França, por aqui, por ali.

Só que, um parêntesis necessário. Nos jardins de infância, não era uma ideia como nós hoje vimos. Às vezes, os miúdos tinham seis anos, por exemplo, e aquilo não havia bem distinção de primeira classe, segunda classe, terceira classe ainda. Podiam estar miúdos de cinco anos, os mais velhinhos já estavam a aprender a ler, os outros não havia propriamente. Portanto, elas não eram colocadas como educadoras de infância. Eram colocadas na escola como professoras. Depois os mais pequenos, não era uma distinção assim tipo em gaveta.

Mas tinhas, acho que é uma experiência da República, que é essa questão do ensino pré-primário, ou seja, anterior à primeira classe, à segunda classe, à quarta.

Sim, mas era vago, não era aos seis anos tinha que ter, não existia. Era um bocadinho a maturidade, era o que era preciso. Não era exatamente em clichês e em ordem como era aqui. Depois, no Estado Novo, sim. O que acontece é que ela, achamos, como o Alexandre dizia-

Mas esta era uma mulher que estaria preparada por todo o seu trajeto, por ter estudado em França, em Genebra, aqui, ali, e que podia trazer todo o seu conhecimento, todos os métodos que estavam a ser implementados lá fora para Portugal, poderia ter sido interessantíssimo ela ter estado à frente deste cargo para o qual é nomeada, e isto em pleno Estado Novo, 1932, mas que já com António de Oliveira Salazar como presidente do Ministério, mas ela começa todas estas suas ideias e ideais a querer implementá-los dentro da sociedade, isto contraria alguns.

Pois, porque lembram-se que nós falámos noutra desobediente, a história da Obra das Mães?

Vamos falar no próximo episódio.

Sim, mas também já falámos antes da Obra das Mães no passado.

Ah, também? Pois, claro que também. É evidente que também.

Elas cruzam-se todas.

Falámos e vamos continuar. É isso mesmo.

Da Obra das Mães. E esta Obra das Mães era muito do Estado Novo.

Sim.

E o que aconteceu foi que quando a Obra das Mães apareceu, para o bem e para o mal, eles começaram a cancelar pessoas, a cancelar professores e professoras, a cancelar mesmo, literalmente a cancelar. Tu, não me interessa, estás a usar um método muito inovador, estás a contrariar aqui a Deus, pátria, família, estás tal. Cruza em cima, põe noutro sítio de castigo. Havia pessoas que pelos seus ideais mais abertos, por contestarem o Estado Novo, por escreverem, às vezes só por escreverem, esta escreveu naquela revista revolucionária contra o que estava instituído, eram postas na prateleira.

E no caso concreto da Obra das Mães, é isto. A experiência do ensino pré-primário, vai ser retirada ao Ministério da Educação, digamos, onde estava. Da Instrução e tal e qual, e é entregue à Obra das Mães. Ou seja, deixa de existir formalmente no sistema e a Obra das Mães, enquanto ONG, esta expressão não existia então, mas enquanto organização não governamental, se quisesse, podia ocupar-se desta tarefa de ensinar as criancinhas antes da escola oficial, da primeira classe.

E o ensinar, lá está, é o ensinar. E aquilo que interessava à Irene Lisboa era o brincar. E a partir do brincar, do lúdico, aprender. Exatamente o processo ao contrário. Reparem só a inovação.

E sem o sentido moralista que a Obra das Mães terá, porque é um propagar da ideologia do Estado Novo.

E ela, como nós vimos, era fora da caixa, totalmente revolucionária e totalmente desobediente.

Irene redesenha de alto a baixo o programa de ensino, de acordo com as suas convicções, estudos, experiência e ignorando totalmente o controle ideológico a que o ensino e professores estão sujeitos. A sua militante desobediência tem tudo para dar mau resultado. Em 1940, negando-se a respeitar as regras do regime, é afastada do Ministério da Educação e do Instituto de Alta Cultura. Era já a segunda vez na vida que era votada ao abandono. O golpe da infância nunca sarara. Poderia ela sobreviver ao da idade adulta? Voltamos já para a segunda parte das desobedientes. E quem era ao certo esta mulher? Contra um tempo e um país que não a quis ouvir. As boas meninas podem ir para o céu, mas são as más que mudam a história. E quem era ao certo esta mulher? Contra um tempo e um país que não a quis ouvir. As boas meninas podem ir para o céu, mas são as más que mudam a história. Estamos de volta para a segunda parte das "Desobedientes", e segunda parte é mesmo uma expressão importante na história desta nossa revolucionária de hoje. Confúcio, que não era uma desobediente portuguesa, mas também tinha as suas coisas muito acertadas, dizia que todos temos duas vidas. A segunda começa quando percebemos que só temos uma. Foi assim com Irene Lisboa. Eu aproveito já para me corrigir, que ainda há pouco referi que António de Oliveira Salazar era presidente do ministério e não presidente do conselho.

E disseste com grande convicção.

Com grande convicção. Eu tenho esta pequena dislexia. Mas voltando à Irene, que certamente não sofria destes males.

Não sei.

Ele, no fundo, era presidente de todos os ministérios.

Era o presidente.

Era quem mandava. Mas olhem, vocês repararam que ela foi rejeitada em tudo ou com tudo. Pai, o ofício, o método de ensino e depois o Estado Novo. Foram quatro rejeições para uma pessoa só.

E vai ter uma quinta.

E uma quinta rejeição que já vamos ver a seguir. Bom, ela foi logo posta a andar, ou seja, foi logo condenada ao exílio, mal entrou o Estado Novo. Primeiro, passou para funções burocráticas, que era tudo o que ela menos gostava na Junta de Educação Nacional, e depois, para não ser uma pessoa incômoda aqui na capital, mandaram-na como professora para Braga. Parece agora os professores deslocados, não é? Acharam eles, certamente, não estamos lá para ver, mas acharam que estar longe de tudo, longe da Hilda Moreira, longe da capital, longe disto tudo, o frio, a solidão, a fizessem repensar e voltar a trabalhar como professora, mas já domesticada para o Estado Novo e para os valores do Estado Novo. Ela recusou, claro.

Mas eles colocaram duas hipóteses em cima da mesa.

Exato. Sim.

Das duas, uma: ou bem que vai para Braga, vai para longe. Ou bem que pede a reforma antecipada.

Fica aqui no quentinho, mas na reforma.

E ela pediu a reforma.

Eu, por acaso, quando comecei a ler, eu achei que ela ia para Braga.

Não.

Não, pensei assim.

Não, é porque ela deve ter percebido que, por muito que fizesse, nunca iria conseguir implementar o que ela achava que verdadeiramente era importante para as crianças. Portanto, que era tipo uma luta inglória. E tinha 48 anos. É bom vermos isto, 48 anos e ela reformou-se. A partir daí, de que ela vivia?

Vale a pena dizer que é uma reforma muito baixinha, ou seja, até pode parecer uma coisa fixe. Olha, reforma antecipada aos 48 anos, mas acho que era uma coisa de miséria.

Sim, e esta forma de silenciar as pessoas.

Ela simplesmente não se arregimentava com o Estado Novo, não era aquilo que ela achava. E mais uma vez, quase que o Estado, no fundo, a rejeitou, como eu disse das outras vezes. Bem, e ela começou então a levar mais a sério o seu ofício de escrita. E claro, para quem é professor, eu vi também que comecei pela literatura infantil, é muito óbvio que se começa a escrever contos para crianças. Não só ela os escrevia, como criou uma editora para os vender, como já vimos a Ana Castro Rosário isso, mas com outro pedigree financeiro. Ela já tinha, muito atrás, em 1926, ainda tinha 30 anos e já tinha escrito um livro de contos infantis que era ilustrado pela Hilda Moreira, como nós vimos com a Virgínia de Castro Almeida, que também a Pam ilustrava os livros, eram parcerias. A Hilda Moreira fez todo o percurso com ela, foi professora como ela, fez o curso como ela, e cada vez estavam mais unidas, não só na parte profissional, como também na vida, como vamos ver.

Talvez viesse da Hilda também a sensibilidade para a questão do desenho, colocar o desenho também no centro da importância pedagógica, era uma das teorias dela. Como a Hilda era ilustradora, talvez viesse dali.

Sim, nós vimos hoje em dia, qualquer psicóloga, quando está em terapia com uma criança, quando está a receber uma criança, a primeira coisa é o desenho. Para ver como é que é a família, para ver as coisas. A coisa mais importante é o desenho, logo.

Eu tenho uma falta de jeito para o desenho que não está escrito.

Eu também, é, excluída.

Podemos fazer aqui uma experiência, fazermos no último episódio.

Eles não estão a analisar o desenho, eles estão a analisar é as cores que vais usar e como é que está o teu espírito através do desenho e qual é a tua noção de família, quais são as tuas alegrias. Estão a analisar montes de coisas que não nos passa pela cabeça a nós, leigos, em psicologia. Bem, o primeiro livro chama-se "Treze Contarelos", escritos pela Irene e ilustrados pela Hilda. Mais uma vez, e já falamos nisso tantas vezes, a riqueza destas histórias dela vem, tal como as outras, vou fazer aqui uma pergunta aos meus queridos, dos nossos contos infantis, do Grimm, do Christian Andersen, etc.

Desse grande patrimônio comum. Fantástico.

E para não falarmos já aqui da nossa Selma Lagerlof, o primeiro Prêmio Nobel feminino de Literatura em 1909, a sueca que escreveu "A Viagem Maravilhosa - Nils Holgersson Através da Suécia", baseada em lendas nórdicas e tudo isso. E que eu lembro de ter lido com gosto, por aí com uns 10 anos, portanto, era uma aventura mesmo em cima de um ganso, e umas coisas estranhíssimas, que eu lembro de ter achado aquilo absolutamente maravilhoso. Mas foi o primeiro Prêmio Nobel feminino, e se contarmos quantos prêmios Nobéis, contam-se pelos dedos das mãos, os que foram atribuídos a mulheres. Esperemos que isto mude. E entretanto, ela, claro, na literatura infantil, à medida que ia escrevendo, ia implementando os princípios que ela defendia da pedagogia. Ia contando coisas muito vivas, coisas que se passavam mesmo, coisas imaginadas a partir do nada. Aliás, eu estive ontem à noite a ler aqui num livro que temos aqui.

Qual é?

Que é "Uma mão cheia de nada".

Está aqui.

Estive a ler um conto chamado "O Intruso". Para quem não sabe, nós estamos a gravar isto perto do Carnaval, e o intruso é uma personagem giríssima. E por que eu fui ler esse intruso? Porque o próprio Carnaval é uma pessoa Que é gozado por todos os outros. É uma personagem. Mas nesse livro, 23 linhas desse conto foram tiradas a surras.

Censura. Não é possível, ao que chegamos. Um conto infantil chamado "Intruso". Mas era absolutamente esmagador o nível de livros, poesia, de contos, novelas, coisas escritas pra infância, de lendas populares, etc., que ela reuniu neste livro que podemos pensar que é um romance ou que é um livro infantojuvenil. Não, é uma coletânea de contos com esta frase popular que é linda e que nós usamos muitas vezes sem saber de onde é que vem: "Uma mão cheia de nada, outra de coisa nenhuma". Talvez isso também fosse um espelho da Irene Lisboa.

Sim, este livro, na verdade, é o momento de algum sucesso literário dela, porque o último abandono que tem, de algum modo, não é um abandono, porque não é abandonada num determinado momento, é como se nunca tivesse começado. Ela é também muito esquecida, muito ignorada pelos leitores. Ou seja, esta ideia de que ela é uma espécie de filha ilegítima, esta filha bastarda também da literatura o tempo inteiro, é sempre uma pária. Porque aparentemente o estilo dela não era ainda uma coisa bem localizável na altura. Ela mistura gêneros.

Totalmente ambíguo.

Exatamente. Gosta de misturar o gênero confessional, autobiográfico, que ainda não é nada comum nesta altura, com a escrita realista, mas realista, como vamos ver, não alinhada com o movimento neorrealista, mas uma coisa a tentar, de fato, retratar a realidade. Abdicar dos artifícios, descrever a vida como ela é, falar como as pessoas falam, ter essa frescura, ter esse depuramento que funciona bem, particularmente no caso das crianças, que não se perdem em grandes ornamentos, nem podem ler muitas letras porque as assustaria, mas que também vai funcionar para a poesia dela. Fala simultaneamente dos problemas da identidade, da consciência, da memória e do tempo, que são tudo assuntos muito modernos, tudo fazendo pensar no Pessoa. Tudo coisas que ela acompanhava. Ela quer desliteratar, mas vai passando muito ao lado. Tudo isto, quer em termos de estilo, quer em termos de substância, é muito diferente daquilo que o público está habituado. Só este livro, "Uma mão cheia de nada, outra de coisa nenhuma", que sai já em 1955, é que finalmente lhe rende alguma atenção dos leitores, algum sucesso. E aparentemente ela encontrou conforto nisso.

Mas em relação aos seus pares, ela era respeitada.

Tal e qual.

Totalmente.

José Gomes Ferreira diz uma coisa muito engraçada, diz que a nossa Irene foi vítima da greve geral de leitores.

Isso é porque os leitores não percebiam, porque ela não tinha nada a ver com os cânones. Como o Alexandre estava a dizer, era prosa poética, era memória, era diário, era pensamentos, era ocorrida a pena, era poesia, era o que fosse. Nós estamos aqui a abrir o livro e isto podia ter sido escrito hoje. É totalmente moderno, é totalmente fora do que era na altura. As pessoas quando iam a uma livraria, e estou a ler aqui o "Solidão". Quando eles faziam uma livraria, o que é que procuravam na altura? Um livro pras crianças, tudo bem. Um romance.

Que tinha que ser uma coisa fantástica, que te levasse pra outro mundo.

Pronto. O que era isto? Isto eram pensamentos soltos. É totalmente moderno pra época, era a tal escrita modernista.

É uma mulher fora do seu tempo. Ou uma mulher à frente do tempo.

É isso, à frente, sem dúvida.

Não sei, o Proust fazia, Virginia Woolf fazia, Sartre fazia. Cá em Portugal ninguém fez.

Aparentemente, segundo Virgílio Ferreira, o "Solidão" é o primeiro diário.

Primeiro diário, depois houve o de Mia Couto, que aliás é belíssimo também, a Fernanda de Castro também. O próprio Virgílio Ferreira depois terá.

Mas todos esses são publicados depois. Este aqui é publicado ainda nos anos 40.

Imagina uma pessoa chegar: "Agora vou escrever o que é que me apetece aqui. Hoje está a chover".

As impressões, exato. É uma coisa muito relatada nos blogs.

Sim, era um tweet, como tu dizias.

Exatamente. Podia ser um tweet.

Estivemos aqui a ler, é amargo, é triste, é só, é bastante escuro, mas um espetáculo do que transmite de emoções.

Tal e qual.

E totalmente moderno. Se isto fosse escrito hoje.

Teria muito mais sucesso.

Eu encontrei uma citação a propósito do gênero literário: "Recolho neste volume umas tantas observações sobre casos que conheci, que me pus a desfiar e a reconsiderar tranquilamente. Tirei deles novelas? Creio que não. Fiz deles histórias pitorescas ou morais? Também não o creio. Pulo simplesmente em letra redonda, contei-os. Contar é ainda um meio de dar ao corpo um esboço de estrutura completa dos assuntos, mas tendo eu atualmente a curiosidade persistente do que me rodeia, em vez de tentar o romance, isto é, a sua amplificação, lembrei-me de narrar". Pronto.

E narrou o que lhe apeteceu.

Grande exemplo.

E quando nós hoje pensamos que estar ali no computador, fazer e apagar, delete, aquilo era escrito à mão, segundo contam as contemporâneas, as amigas dela, num belo documentário no YouTube. Contam que ela ia pra lá dizer que estava o texto já pronto e afinal dava a volta tudo e o texto mudava três horas.

Ia pra casa dela que tinha que pedir pra datilografar, era pra usar a máquina. Mas depois era isso, cada vez que pegava no texto, aproveitava pra tirar mais uma palavra, depurar um bocadinho mais.

Depurar, é o que nós fazemos. Mas nós fazemos hoje com facilidade, um delete. Agora imagina, era a folha pro lixo e fazia outro.

De novo.

Bom, mas a tal história dos pseudônimos, Alexandre.

Isso é muito giro.

Muito giro. O João Falco. Um pseudônimo masculino que ela usou pra vários textos, em particular pra "O Diário de uma Mulher".

Pra sua poesia. Até dai aquela poesia vai publicando sempre como João Falco.

Sim, mas "O Diário de uma Mulher".

Chama-se "Um dia e outro dia", subtítulo "Diário de uma Mulher". A provocação disto.

Sim, imagina.

Inventa um pseudônimo masculino pra depois poder dizer que o livro é o diário de uma mulher.

Sim, e era mesmo isso, era uma escrita sempre marcada pela solidão, mas sempre com aquele preconceito. Há uma arte feminina? Ou não há? Há uma escrita feminina ou não há? E tem uma discussão.

Já agora, há ou não. Nestes dias esbarrava numa citação da Susan Sontag, muito feminista. No entanto, ela disse que quando se sentava a escrever, desaparecia o género.

Desaparece o género, eu estou completamente de acordo. Um bom escritor consegue perfeitamente pôr-se na pele de quem quiser.

Exato.

És um cisne.

Exato. Até é um cisne. Eu gosto dessa opinião também, porque contradiz uma ideia muito contemporânea, que é: "Não, tu tens que ser deste sexo ou desta cor para conseguires saber o que é." Eu acho que não.

Era o que diziam.

Aliás, como nos autores. Desculpe.

Sim.

Também há isso.

Sim, muitas questões levantadas em torno disto tudo.

Isto é um programa que dá pano para mangas, mas enfim, ela usava este pseudônimo masculino para pedagogia, para diários e para versos, e usava, por exemplo, a Irina Mara, Maria Moita ou Irene Lisboa para os seus contos infantis.

Eu não percebo porque ela se escondeu atrás destes. Não sei se estava a esconder, por que razão que usava. Quando assina como um homem, eu percebo, até porque já vimos em episódios anteriores algumas razões pelas quais elas assinavam como homem e não como mulher, para poderem dizer um sem número de coisas que de outra forma seriam condenadas à partida. Mas por que tantos pseudônimos femininos?

Femininos ou masculinos? Os femininos, não percebo.

Eu acho que era um desdobramento.

É porque os femininos estão, reparem, na literatura infantil. Portanto, isso seria já mais bem aceito, porque já havia uma série de escritoras infantis.

Mas por que a necessidade de tantos nomes?

Ariana, Mara, Maria Moura.

Talvez seja moderna como pessoa é. Portanto, ela tem vários eus dentro dela.

Vários heterônimos.

Exato.

Podia ser ou para desdobrar ou não sabemos. Temos que perguntar em espírito.

É isso, em espírito.

Mas é bom que ela levante estas questões, porque ainda hoje, aqui passado tanto tempo, estamos a questionar uma data de coisas.

Estamos a ver. A parte de assinar com o nome masculino, eu percebo, já discutimos anteriormente. Agora, tantos nomes femininos, eu pensei: "Mas quem são estas mulheres que ela assina? Quem são estas personagens que ela inventa? Quem são estas mulheres que estão por trás destes textos que ela escreve?"

Sim, até podia ser que não se soubesse que era a Irene Lisboa que escrevia, tentar outra sorte com outros nomes, acharem que era uma escritura nova.

Também podia ser.

Pelo fato de não estar a vender.

Isso, exato.

Não sabemos.

Isso tem graça também. Nós não sabemos quem é a Elena Ferrante. A Elena Ferrante pode ser um escritor muito fracassado durante muitos anos e que depois se tornou um best-seller.

Mas eles na altura ficaram estupefactos com a história do João Falc. Isso causou um burburinho, e se calhar esse burburinho também foi benéfico para ela. Mas foi uma grande conversa. E depois temos a outra questão também engraçada, que é a revista "Siarra Nova". Aqui parece-nos só mais uma revista das 1001 que nós já falámos. Ela publicou nada menos do que 234 textos entre 1919 e 1955, que era uma publicação totalmente contra o Estado Novo, totalmente contestatária. E foi muito importante. Todos os biógrafos de Irene Lisboa dizem o mesmo: a participação na "Siarra Nova" provou que ela não tinha medo de dizer o que pensava.

Vi uma questão que é: ela foi a única mulher a assinar o manifesto do MUD original, isto é, do Movimento da Unidade Democrática, onde estão figuras como Mário Soares, o Salgado Zenha, o Otávio Pato, o Júlio Pomar, o grande cartunista João Abel Manta, grandes figuras, o António Ramos Rosa, o Ferreira de Castro. Só há uma mulher entre as pessoas que subscrevem o manifesto original, é a nossa Irene Lisboa. O MUD representa um início de oposição ao regime salazarista, criado em 1945 e logo ilegalizado no ano seguinte, sob a acusação de que seria uma espécie de braço intelectual do PCP, o que não é verdade. Havia aqui imensa gente que nada tinha a ver com o PCP. Esse foi um movimento que juntou muita gente importante, muitos artistas, muitos intelectuais.

Pegou moda, porque agora também há disso.

Também, mas naquela altura devia ser mais difícil estar na moda.

Era difícil, era perigoso. Aliás, depois ela vai viver aqui para Lisboa. Quando dizemos que ela vivia na Lapa, para as pessoas perceberem, aqui em Lisboa tem o estigma de ser um bairro chique. Na altura, não era de todo um bairro chique, era um bairro até bastante popular, onde ela vivia nada bem. Ela, entretanto, concorreu para uma bolsa da Gulbenkian para receber um empréstimo para poder sobreviver e que depois seria pago. Não lhe foi concedido, porque não entrava nos regulamentos dos empréstimos da Gulbenkian e portanto viveu muito aflita no fim. Aliás, o último livro dela tem um título lindo: "Voltar atrás para quê?"

Oh!

É. São sempre muito literais e é interessante.

E se ela nasceu no dia de Natal, morreu no dia 25 de novembro de 58, antes ou nas vésperas de completar a módica quantia de 66 anos.

Sessenta e seis anos. Ali no fim da vida, ainda foi uns tempos para a Serra da Estrela.

Ela adorava a Serra da Estrela, e muito com a Hilda.

Com a Hilda, e ia visitar o Virgílio Ferreira.

Virgílio Ferreira. Era amiga desta geração toda. A Matilde Rosa Araújo dá um depoimento lindo sobre ela e diz que ela merecia tudo e muito surpreendentemente acabou tendo tão pouco.

É verdade. Sim, foi isso. Passou muito ao lado. Chega a haver anos em que só vendeu dois, três livros por ano. Ela sentia-se injustiçada por isto, porque tinha a consciência do seu valor e não mudou por isto, não se tentou tornar mais fácil de ler, mais palatável. Manteve-se fiel a isso até ao fim. E alguns livros dela são publicados postumamente.

Anos 90, a última edição, e aí já vendeu. Não estava cá para ver, mas já vendeu, porque este livro que temos aqui no estúdio, "Uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma", é uma edição Bem moderna. Por isso queremos que ela continue a ser lida. As Crónicas da Serra também foi um dos últimos livros, que era uma passagem pela Serra da Estrela, onde ela vai contar muitas coisas interessantes.

Onde aparentemente ela era realmente muito feliz. O Vergílio Ferreira diz que parecia que mais pessoas conheciam a Irene lá e falavam com ela na rua do que ele, Vergílio, que era dali.

Que era da terra.

O que é engraçado, que ela pelo menos aí finalmente tivesse sido de parte e não de parte.

Boa. É isso mesmo. O resto era de parte.

Irene Lisboa foi irreverente, subversiva, inconformada. Perante um regime opressor, trouxe para Portugal as ideias que julgou úteis à revolução. Ignorada pelo público, sujeita à hesitação dos editores, os seus livros foram, em geral, bem acolhidos pela crítica. Mas de que serviam a nova pedagogia e a escrita moderna se tudo embatia num muro de silêncio? Outra mulher, porém, batia-se pelas mesmas ideias. Regina Quintanilha era uma antiga professora do Liceu Maria Pia, onde Irene estudara, e a primeira mulher a formar-se em advocacia em Portugal. Na escola e no tribunal, defendia que sem educação não havia progresso, enquanto lutava contra as injustiças e desigualdades entre sexos e classes sociais. O seu caso era o caso de todas as mulheres. Conseguiria Regina ganhá-lo? Venha ouvir. Venha ouvir a sentença no próximo episódio. Se gostou deste episódio das Desobedientes, pode seguir-nos nas plataformas de podcast, no YouTube e no site do Observador. O podcast As Desobedientes tem o alto patrocínio da Toyota. E quem era ao certo esta mulher? Contra um tempo e um país que não a quis ouvir. As boas meninas podem ir para o céu, mas são as más que mudam a história.