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E quem era ao certo esta mulher? Contra um tempo e um país que não a quis ouvir. As boas meninas podem ir pro céu, mas são as más que mudam a história. Chegara o grande momento pelo qual se batera desde a adolescência. Ao cruzar o portão da Universidade de Coimbra, juntamente com meia dúzia de outras raparigas, custou-lhe acreditar no que os olhos viam. Um gigantesco cortejo de rapazes que lhes sorriam, aplaudindo-as vigorosamente e deitando por terra as capas negras para lhes dar passagem. Regina Quintanilha engoliu em seco e desfilou sentindo as pernas tremer, mas tentando fazer crer que encarava aquele gesto solene e respeitoso com naturalidade. Deus me dê forças e capacidades para ser capaz de dobrar este cabo. O lugar de uma mulher é na revolução, mesmo quando ela tem de ser feita no tribunal. Está no ar o caso número 11 das Desobedientes da Rádio Observador, também disponível em podcast. Comigo, Margarida Vila Nova, com Maria João Lobo de Carvalho e com Alexandre Borges. Senhores doutores, para defender a lei, por vezes, é preciso afrontá-la. E quem me apresenta esta nossa 11ª desobediente. Podemos dizer desta mulher inteligente, persistente, destemida, corajosa, brava. Maria João.
O que podemos dizer é que ela se chama Regina da Glória Pinto de Magalhães Quintanilha. Nasceu em 1893, é a 11ª desobediente deste livro, "As Revolucionárias: 12 Mulheres Portuguesas Desobedientes", e temos muito para contar. A primeira coisa é que é a terceira de três filhas, portanto três raparigas, e sem preconceitos, ela assumiu durante toda a vida. Não só nasce em Bragança, como num berço de ouro. E ela considera-se e sabe a que meio pertence, que é uma privilegiada, que vai ter toda a vida acesso a determinadas coisas, determinado estudo e determinadas oportunidades que as outras não têm, e assume-o com sentido de responsabilidade. Portanto, quanto mais privilégios tem, maior é a responsabilidade.
Descendente do Fernão de Magalhães.
E se fosse só isso, temos que ler aqui toda uma linha genealógica de Fernão de Magalhães e das casas de Adeganha de Saborosa pelo lado materno, e pelo lado paterno, não fica abaixo, Quintanilhas, enormes propriedades rurais do norte. O pai, membro do Partido Progressista e governador civil do distrito de Bragança. Tudo se passava bem no norte de Portugal.
Quintanilha acho que era até uma alcunha. Que ela depois assume como nome próprio, como nome de família.
Havia várias famílias Quintanilha.
Mas fazia questão de assinar unicamente Regina Quintanilha?
Pois.
Sim.
Sim, na altura deviam gozar, mas depois aquilo foi assumido e ela assina sempre Regina Quintanilha.
Exatamente. Entre os quais ias citar o cientista, não era?
Ia citar o cientista. Ah, o cientista! É da família também.
Talvez não sei dizer a alcunha.
Ia dizer o seguinte, ia dizer que ela era, ao contrário das irmãs, mal-pronta, desajeitada, sempre arrepiava o cabelo ao lado das orelhas em dois totós, dois bandós, como se chamava, e não totós. O cabelo muito crespo, escurinha, não gostava de se ver ao espelho, não se deslumbrava com a imagem, não se deslumbrava com os acessórios de beleza, achava tudo fútil. O que ela pretendia? Sendo invisível, tinha que puxar por outras luzes. Às vezes as feias é o que acontece. Como não se safam, têm que provar mais que as outras intelectualmente para verem a luz do dia. E foi o que ela fez. Não estamos aqui a fazer um concurso de beleza, naturalmente. E a nossa Regina começou os estudos em casa, como era da época, nas famílias privilegiadas. A mãe começou por ser a professora dela, das primeiras letras, dos primeiros números.
E tem uma mãe curiosa, porque é uma mãe com uma mente bastante aberta e ativa e que prepara as filhas para o trabalho.
Sim, mais uma vez, ficando o tema da beleza. A beleza é um embuste. Uma pessoa que nasce bonita, às tantas, com a idade, não chega só, não é suficiente.
Não me faças falar, é uma maldição.
É uma maldição. Tu, Alexandre, o belo.
Ter que provar sempre que também tenho ideias, que também consigo pensar.
Exatamente, estás sempre a provar. E ela não, percebes? A outra só tem ideias.
Então, a mãe, depois das primeiras letras, ela ingressa no Colégio das Franciscanas e é sempre a primeira a querer ir pra escola, é sempre a primeira a saltar da cama, é sempre a primeira a vestir o casaco. Imaginemos Bragança o inverno, os muitos graus abaixo de zero, por vezes. E de fato, ela destaca-se imediatamente das outras, vai somando classificações ótimas e com um ouvido musical muito forte. Isso é muito importante na formação da personalidade dela e depois nos filhos. O ouvido musical dela e a tendência, quer dizer, isto também se treina desde pequeno, mas como o Alexandre ia dizer, ela tem um bom mestre, já um bocadinho mais velha, mas tem um bom mestre de música.
O Vianna da Motta, o grande pianista, compositor e mestre português, que estudou muitos anos e viveu muitos anos na Alemanha, onde, entre outros, foi aluno do Franz Liszt. Foi um dos últimos alunos do grande compositor húngaro.
Deu mil concertos em todo o mundo, o rapaz Vianna da Motta.
Para reis, imperadores, na Europa, na América do Sul, nos Estados Unidos, e que é um pai, figura paternal da música culta, da música erudita.
Entrava para o currículo de qualquer rapariga ter sido aluna de Vianna da Motta. Isto acontecia. Era muito engraçado, que eles diziam, e não foi só esta aluna que eu estudei. Ele entrava com os dedos a tamborilar assim na secretária e sabendo as notas todas, igual a um teclado de um piano, já entrava nesta brincadeira. Imagina as alunas acharem aquilo, como é que ele tirava notas e sons De nada, só da posição dos dedos. Ia ser absolutamente fantástico. A seguir, no sexto ano do Liceu, hoje décimo ano, já tinha 16 anos, foi pro Porto, pra outro colégio católico, como era normal, Nossa Senhora da Conceição, e depois passou pro Liceu Rodrigues Ferreira. E foi das pouquíssimas a terminar o Liceu, o que ela custava a engolir. Como é que as mulheres não querem continuar os estudos? Ficam-se por aqui e não exigem delas próprias mais.
A curiosidade de estudar, de ir mais além.
Sim. Nem percebia as prioridades dos governantes em relação à educação das raparigas, nem as prioridades das raparigas em relação ao seu próprio futuro. Isso pra ela era estranho, não haver essa ânsia de conhecimento. Mas, de facto, ao longo da vida, como dissemos ao princípio, ela ia sempre agradecer à família, que tinha lhe dado essas oportunidades todas de crescimento intelectual, ao meio em que pertencia, nunca renegando. Muitas vezes acontece de as pessoas quererem esconder um bocadinho as origens, por serem exatamente privilegiadas. E ela sempre teve esta noção de que foi graças a isso que ela conseguiu chegar o mais longe que lhe foi possível. E então, o que ela deseja é tornar-se advogada. Aquela parte que a Margarida leu no início deste podcast, pra mim é absolutamente comovente. Eu não tenho autoconfiança nenhuma, e nesta altura ainda tinha menos. Isto é uma declaração de intenções. Entrar na Universidade de Coimbra, com um cortejo de capas pelo chão, passar pelas capas, batinas dos estudantes todos, todos a aplaudirem, e ela ser a primeira a estudar Direito, juntamente com outras duas, é de força.
Tal e qual.
E os rapazes a aplaudirem, isso é que eu achei bonito, não estava num ar de gozo, nem de discriminação.
Sim, é uma história muito bonita. E há que lembrá-la. Ela depois estuda no Porto, é uma miúda que nos vem de Trás-os-Montes, que era um lugar mais rural e remoto à época.
É preciso contextualizar.
Exatamente.
E assim se forma a primeira advogada, não só em Portugal, mas na Península Ibérica.
Que ela não tinha noção. Nada disso. Já em 1910, logo o pai teve que pedir esta autorização especial dirigida ao Conselho Universitário pra que aceitasse a matrícula da filha, antes da cena de passar por cima das capas. Ela é aceita, mas com um voto contra.
Com um voto contra.
E quando entra-
Há sempre um do contra, é impressionante.
Sempre um do contra. Mas quando entra em missão eletiva, aquilo era a bagunça total, 1910.
Ela matricula-se a 6 de setembro de 1910, e o pedido especial é aceito em 24 de outubro, porque aqui pelo meio houve a revolução republicana. É a mudança total desse paradigma. E é possível que, felizmente, o novo ar do tempo tenha favorecido, tenha facilitado a sua entrada. Mas houve esse tipo do contra, que ainda estava no 4 de Outubro.
Só um parêntese, em 1910, a escolaridade passa a ser obrigatória entre os sete e os 11 anos. Portanto, esta coisa do ensino superior, de uma licenciatura, estamos a falar de uma época em que a escolaridade obrigatória ficou aí estabelecida, que era entre os sete e os 11.
E isso foi uma vitória da República. Porque a Primeira República, como vimos ao longo destes podcasts todos, primeiro era preciso educar as mulheres. A educação acima de tudo. Foi uma batalha que elas conseguiram, que isso fosse obrigatório. Depois, com o Estado Novo, cresceu, mas não cresceu tão a pique como cresceu nestes anos. Isto foi absolutamente brutal. A história da República começou a dar mal quando o Marquês de Pombal expulsou os jesuítas.
Há quem tenha essa teoria.
Não, quando ele expulsou os jesuítas, de facto, podiam manipular a cabeça das crianças se quisessem, mas de facto, era uma escola que funcionava. Na altura, houve ali um impasse. Até que a Primeira República tomou.
Tal qual. E depois abrandou muito no Estado Novo.
Sim, abrandou.
Dizes tu e dizem as estatísticas, é isso que mostram.
Esta história começou a correr mal quando os jesuítas foram expulsos.
Pois.
Depende do ponto de vista.
Não, é verdade, eu concordo contigo, eu nunca tinha pensado nisso, até o livro "As causas do atraso português", que explora muito isso, de facto, como um dos grandes males da nação. Isto é, havia menos pessoas na agricultura no século XVI do que no século XIX, e isso é demonstrativo de como a economia retroceu.
E quem é que era colega de carteira da nossa Margarida Maia?
Só estrelas. Havia um António de Oliveira Salazar, havia um Cardeal Manuel Cerejeira, havia depois também figuras já como professores, a nossa Carolina Michaelis e o Sidónio Pais, e aliás, o Manuel de Arriaga, também. Acabei de me lembrar do Manuel de Arriaga. Porque é naquele momento, aqui na transição pra República, primeiro o Manuel de Arriaga e o Sidónio Pais são nomeados reitor e vice-reitor da universidade. Durante uns meses, no caso do Manuel de Arriaga, porque ele é nomeado em outubro e em fevereiro já vai pra presidente.
Presidente da República, e o outro presidente rei de um tempo.
E daí um tempo. É curioso, exatamente. Agora, o António de Oliveira Salazar está lá primeiro a estudar Direito, precisamente. E depois, mais tarde, vai ser professor de Economia e Finanças.
Só que ela podia matricular-se onde quisesse, porque era o regabofe.
Exatamente, acho que o nome técnico é regabofe.
Passagem administrativa.
Exatamente. Os alunos podiam compor o seu próprio currículo. Portanto, ela estuda Direito, mas indo buscar disciplinas a Letras, a Química, e é assim que conhece esta gente toda. Aliás, Química, por exemplo, ela estuda com o Charles Pierre, que vai dar nome ao Liceu Francês em Lisboa, e com o Sidónio Pais. E portanto, é assim que ela já fica familiar a estas figuras que mal sabia ela, vão ser absolutamente determinantes.
A Carolina Michaelis, que nós falamos, foi o nosso segundo episódio, tinha nada mais, nada menos do que 42 anos a mais do que ela.
Para nos situar na história.
Para situar, que foi a nossa segunda desobediente e agora estamos na nossa penúltima desobediente e continua a haver uma ligação. Portanto, isto continuavam a ser as mesmas a escreverem para as mesmas.
Isto está muito bem pensado.
E ela está sempre a elogiá-la, sobretudo quando foi a guerra. Eu acho que quando foi a guerra e a posição da Carolina com a história de ela ser alemã em Portugal e tudo isto, escreveu muitas cartas de apoio, porque a Carolina foi professora dela, seguramente, que ela esteve em-
Sim, nas cadeiras que ela frequentou em Letras.
Pronto, e vamos vendo que a Adelaide Cabeta também tem uma ligação, porque também passou pela Universidade de Coimbra. Então há sempre aqui uns cruzamentos interessantes, embora muitas vezes com ideologias diferentes e com lutas diferentes, mas de facto há um cruzamento e esta sendo uma das mais novas, acaba por ter referências nas que nós já fomos falando ao longo dos tempos. Pronto, em 1913, então é a primeira senhora licenciada em Direito no país e com classificações excecionais. Não nos podemos esquecer que as mulheres eram iguais na altura ou consideradas por muitos como menores não emancipados. Era igual a, mulher igual a menores não emancipados. Terminou o curso com 20 anos, mas qualquer coisa no Código Civil havia, muito grave, que não previa que as mulheres pudessem obter diplomas que lhes permitisse exercer como advogada. Estudar era uma coisa, outra coisa era ir à barra.
Portanto, não podiam exercer ainda que formadas.
Tivessem a formação para isso. Exato.
E neste caso em particular, é curioso como elas não podem nem exercer como advogadas, nem serem testemunhas de um caso. Como mulheres, à época. Segundo o Código Civil, equiparava as mulheres aos menores não emancipados, impossibilitando legalmente que exercessem o ofício de advocacia ou que se apresentassem como testemunhas.
Que não eram confiáveis.
Não eram confiáveis. Estavam feitas com alguém. Entretanto, ela é convidada, e isso lembra-nos também outra história antiga, para o Liceu recém-aberto feminino de Coimbra, esperando que ela ficasse toda contente com o honroso convite. Mas tal como a nossa outra desobediente, humilha, mandou toda às malvas, a mandou com a porta e disse: "Vão falar com outras, isto não é para mim". Claro que foi logo acusada de impertinente, malcriada, mal-agradecida, mas ela não queria ser professora de liceu, ela queria exercer advocacia.
Regina não perde tempo e, nesse mesmo dia, escreve uma carta ao Supremo Tribunal de Justiça para que considere o seu caso. É da mais elementar justiça que a deixem exercer a profissão para a qual se preparou em igualdade de circunstância com os colegas do sexo masculino. Demora uma eternidade, mas a decisão assinada pelo juiz conselheiro Abel Correia de Pinho acaba finalmente por sair. Está autorizada a exercer livremente a profissão de advogada, a primeira em Portugal. Ninguém está acima da lei, nem abaixo, mas a injustiça tem sempre direito a mais um recurso. Para ouvir na segunda parte das desobedientes.
E quem era ao certo esta mulher?
Contra um tempo e um país que não a quis ouvir. As boas meninas podem ir para o céu, mas são as más que mudam a história.
E quem era ao certo esta mulher?
Contra um tempo e um país que não a quis ouvir. As boas meninas podem ir para o céu, mas são as más que mudam a história. Estamos de volta para a segunda parte das desobedientes. Processo número 112026. Ordem no tribunal, vai entrar a doutora Regina Quintanilha, primeira advogada portuguesa.
A 14 de novembro de 1913, vai-se estrear no Tribunal da Boa Hora, em Lisboa. Maria João.
Primeiro tenho que dizer uma coisa que era uma verdade que ninguém pode contestar, é que ela tinha que provar que era capaz, coisa que não era exigida aos homens.
Mas isso já fomos vendo ao longo de vários episódios com todas as nossas.
Como sempre, ela tinha que provar que a estreia ia ser uma estreia em grande. Como uma peça de teatro. Então ela ia defender duas pobres mulheres acusadas de agredir uma terceira, mais velha, no dia de Natal, numa esquina da Rua da Rosa, em Lisboa, no Bairro Alto. Não sabemos o que é que a senhora fez, a terceira, mas tem aqui os nomes das defendidas. É Dona Ludovina Pereira e Dona Guilhermina Maria, portanto.
Em plena Rua da Rosa.
Em plena Rua da Rosa. A nossa Regina vai defendê-las oficiosamente, é advogada oficiosa, mas é muito giro porque aquilo é no mesmo dia em que sai a autorização do presidente do Supremo, ela aparece ao tribunal. Portanto, é muito simbólico, da atitude dela. Ela não perde um minuto a ir exercer esse direito revolucionário. A sala do tribunal enche-se de gente curiosa por ver o resultado, por ver o espetáculo, no fundo. Está cheio de jornalistas, da República, do Diário de Notícias, do Século, da Luta. A Luta escreve que a atrente e simpática jovem, envergando a toga de advogado, inquiriu as testemunhas e apanhada de surpresa, mostrou as suas faculdades de inteligência, enunciando em favor das réis, todas as circunstâncias favoráveis à sua defesa. O próprio juiz, aparentemente, é surpreendido também.
Dom Miguel Porta e Costa.
Exatamente. Mas vai felicitá-la, de algum modo, pela sua...
Só, pequeno pormenor, já tinha a toga pendurada no armário há não sei quantos anos. Já passadinha a ferro, tudo preparado, tinha por vestir a toga, estava à espera do momento e foi impressionante ver uma mulher com uma toga vestida entrar ali e toda aquela malta, os correios da manhã, toda a gente, o observador, tudo lá à espera de fazer.
Nós éramos os piores, estávamos lá.
A ver.
Mas estavam lá todos.
Estavam lá todos.
A República, o Diário de Notícias, Ilustração Portuguesa, o Ocidente, o Século.
Isto lembra-vos algum episódio já aqui falado?
O voto.
O voto da Beatriz Ângelo.
Da Beatriz Ângelo, exatamente.
Foi, exatamente. É muito parecido, tantos paralelos que já estamos aqui a fazer ao fim de quase 12 episódios, porque de facto, repetem-se.
Mas já o seu adversário não foi Tão delicado quanto o juiz.
O que é que ele diz?
"A senhora doutora é um rebento da burguesia vaidosa."
Eish, rebento da burguesia vaidosa.
Rebento da burguesia vaidosa.
Mas esta malta tinha jeito com as palavras, há que dizer. Os bons, os maus.
Os insultos eram bonitos.
Bonitos.
Os insultos eram elegantes.
E os piropos também.
Até se dava alguma para a troca, Maria João Paulo.
Não, mas é assim, agora já não se pode dizer piropos, as mulheres já não ouvem piropos, mas pronto, olha, temos pena, nesta altura ouviam. Bom, neste caso, foi um insulto mesmo, mas o que é que acontece? Ela acaba por perder a causa. E elas foram condenadas a...
A pagar uma multa de €0,10 durante cinco dias.
Exatamente. Cinco dias seguidos.
Mas segundo consta, perdeu o caso, mas foi bem defendido.
Sim, ninguém contestou.
Foi elogiada a forma como o defendeu e não era tão grave a pena quanto isso. De certa forma, safou as duas.
Tal e qual, as duas senhoras. E é bonito, ela é uma advogada oficiosa, ou seja, ela enterou-se do caso naquele dia. No primeiro dia em que é autorizada a isso, ela apresenta-se ao tribunal e certamente ofereceu-se para defender as primeiras pessoas que apareceram e eram duas mulheres. Portanto, se calhar, até escolheu ser.
Três. Duas contra uma.
Contra uma. Mas ela foi defender duas mulheres, ainda por cima, isso também parece simbólico. Tentou fazer alguma coisa por elas, provavelmente não havia grande salvação para o caso.
E depois deste grande caso, o que se segue?
Segue-se que ela teve que esperar cinco anos até à presidência de Sidónio Pais para ver a lei promulgada no Diário do Governo. Então, a partir daí, as mulheres munidas de uma carta de formatura em Direito podiam exercer a sua profissão de advogada, ajudante de notário e ajudante de conservador. Só não podiam exercer cargos de chefia, não podiam ser chefes de nada.
Tal e qual, mas já viste como é, mais um paralelo com a questão do voto, porque a Carolina também vota e logo a seguir retrocedem. Ficam anos e anos sem poder votar. E aqui ela tem esta audácia, consegue aquela autorização especial, mas logo a seguir fecham-se as portas outra vez, cinco anos lá está, até vir o Sidónio e o seu antigo professor de faculdade.
O que tem graça, agora fazendo aqui um paralelo com o presente, é que a Regina mandou gravar a data num medalhão de ouro que traz sempre consigo, e a data era 1918. Isto lembra-me a Isabel Moreira.
Ah, é verdade.
Que gravou a data da aprovação do casamento homossexual, 2010, lutando sempre pela igualdade de género, como lhe é característico, mas nem tatuagem, não foi um medalhão.
Mas a Regina...
Quem sabe, ela sabia destes casos.
A Regina pensou, Helena, confessou aos mais próximos que se pudesse teria inscrito a ferro e fogo na própria testa.
Sim, lá está.
Se ela houvesse uma Bad Bones ali ao pé, ela tinha lá ido.
Não, 100 anos depois, a Isabel Moreira vai fazer isto, tem graça, estes paralelos. Bom, e aí ela conhece o amor da sua vida. Eu acho que não foi bem um amor.
Achas que não?
Acho que não. Aqui uma pequena intriga caseira para os nossos ouvintes.
Achas que foi interesse.
Acho que foi interesse. Acho que casou por interesse.
Portanto, este subtítulo que pusemos no guião, sim, senhora ouvinte, este programa tem um guião. A justiça é cega e o amor também, achas que não...?
Acho que não. Pronto. Acho que não foi por amor. Estás chocado? Estão chocados? Acho que foi o entendimento.
Aquilo, pelo menos, parece ter funcionado.
Podia não ser uma paixão louca.
Eles percebem muito mais de amor do que eu.
Mas havia um entendimento intelectual para duas pessoas que entendem tanto de ciência. Sim, de respeito, admiração e às vezes um casamento. É feito disso.
Aqui está.
Para quê complicar?
Consentimentos e quê? Para quê?
Mas o rapazinho tinha um belo nome, Vicente Ribeiro Leite de Souza e Vasconcelos.
O rapazinho tinha mais 20 anos do que ela.
O rapazinho, mais 20 anos do que ela, era um distinto cavaleiro com porte digno, um pedaço de homem. No entanto, às vezes não é suficiente, como nós sabemos, para ela, pelo menos. Ele juiz, ela advogada. Conheceram-se nos bastidores dos tribunais, a Margarida saberá falar muito melhor disso.
A justiça, a advocacia, as leis, os juízes, os procuradores, as advogadas perseguem-me nos últimos personagens que tenho interpretado nos últimos anos, mas de facto nunca me cruzei assim, nunca privei assim com um advogado no corredor.
Nos bastidores.
No bastidor, não.
Casaram em Bragança e foi tão engraçado que esta pesquisa que eu tenho é uma testemunha ocular que a conheceu, que é engraçado, que dizem que ela acabava às vezes por ser multada. Houve uma vez que o marido lhe passou uma multa por uma questão alfandegária, como competia ao marido, e ela acatou e teve que pagar a multa posta pelo marido, o que tem graça. Portanto, ela sabia como é que a lei funcionava e pagou sem pestanejar. Entretanto, ele ocupa N cargos, muitos cargos mesmo. Juiz conselheiro do Supremo Tribunal de Justiça, ela acaba por exercer funções de procuradora judicial e conservadora do registro predial e mais, que os cargos multiplicam-se. O que tem graça é que há uma deslocação geográfica sempre, porque se ele é colocado em Mação, vão para Mação, Albergaria-a-Velha, vão para Albergaria-a-Velha. E portanto, estão sempre a deslocar-se enquanto casal, cada um nos seus cargos. Portanto, ela faz uma teia de conhecimentos no país inteiro.
E de salientar que foi a primeira conservadora do Registro Civil, a primeira conservadora do Registro Predial. Foi a primeira a notar em Lisboa. Foi acumulando, ou segunda, mas foi acumulando. E foi desbravando caminho para que outras mulheres seguissem.
Sim, e era uma questão de conveniência, o marido era colocado como juiz, ela ia com ele, portanto, era preciso estes cargos aos quais ela tinha habilitações para os cumprir. Então tem dois filhos, a Regininha e o Vicente Fernando, e tem graça que ela vai socorrer de Adelaide Cabete, que conhecera provavelmente em Coimbra, porque ela não sabia ser mãe e a Adelaide Cabete ter-lhe-á dito, que eu acho uma frase linda: "Quando nasce um bebê, nasce uma mãe. Não precisa se preocupar, porque é a ordem natural das coisas." Nós não sabemos ser mãe antes de sermos mães. Não sei se isto aconteceu contigo.
Até hoje não estou a aprender.
Tens que ir ao curso.
Mas é uma coisa natural.
Uma licenciatura em maternidade.
Aparece no dia em que o bebê nasceu. Ficas logo licenciada ali. E era esse instinto quando nasce esta criança que a Adelaide Cabete quis passar à Regina pra ela não se preocupar, porque realmente a vida dela era de loucos, não só andando de terra em terra, como todas estas frentes de batalha que tinha pela frente. E o que ela aprendeu desde logo, acho eu que isto é notável, é juntar o doméstico e o público sem perder nenhum deles. Claro que tinha, não podemos deixar de dizer, ao contrário de muitas outras que falamos aqui, ela tinha posses pra isso.
Claro.
Não é? Não havia nenhum problema.
A ter amas e empregadas.
Tudo fosse pra ajudar. Mas de fato era uma mãe presente e como vamos ver na formação e no desenvolvimento dos dois filhos, que ela foi sempre muito presente, sobretudo na parte musical, acadêmica da filha mais velha.
A par e passo do trabalho dela como conservadora do Registro Portugal, civil, por aí afora, ganha uma voz inicialmente junto do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas.
Aí entra outra frente de batalha.
Sim, entra aqui pelos direitos das mulheres, não sendo ela uma ativista.
Exato. É aqui que a história dela aí, talvez, primeiramente, é que encontra. Exato. Sim, ela não é toda uma feminista, não está nos movimentos feministas, não está nessa primeira linha, mas aqui nos anos 20, aproxima-se realmente dessas instituições das nossas protagonistas anteriores. Do Conselho Nacional das Mulheres Portuguesas.
Do discurso no primeiro Congresso Feminista de Educação em Lisboa, mas são coisas pontuais.
Ela foi lá presidente da Assembleia Geral, teve lá assim uns cargos, mas dá muito tempo, é verdade.
O que ela dizia, que tem graça, é que cansava-se da conversa sempre frequente, que fazia do homem sempre aquele que age e da mulher sempre aquela que ama. Ora, em casa dela não era bem assim que se passava. Os dois agiam, os dois amavam, dizemos nós. Em relação à questão da prostituição, Alexandre, queres aqui dar uma achega, porque sabes bastante bem explicar este assunto.
Sim, aparentemente, a Regina terá estado na luta do lado da regulamentação da prostituição, isto é, de ser uma profissão protegida, com aquilo que nós chamamos hoje os profissionais do sexo terem uma matrícula, terem um registro. Chamavam-se as toleradas, era o termo utilizado. E isso permitia-lhes, entre outras coisas, terem outras condições de higiene e segurança, que sem a regulamentação não teriam. Mas a verdade é que a maior parte dos movimentos feministas está do lado oposto, digamos, está do lado abolicionista. Então tu vais andando, tens aqui no início do século, havia 1217 toleradas em Lisboa, fora as menores de 16 anos.
Regulamentadas.
Exatamente. Estes números foram crescendo, depois destas pressões, destes movimentos, começaram a ser mais fiscalizadas pela polícia, sobretudo a preocupação era com a saúde pública. Começam a haver os autos por transgressão dos regulamentos, das obrigações que tinham, vai levando à prisão de muitas destas mulheres, chegam a ser presas 350 num ano. É engraçado que a amiga Adelaide Cabete, dirige o movimento que leva, por exemplo, ao recrutamento, à abertura da polícia. É engraçado, a polícia.
Estão a falar da polícia feminina.
São as primeiras forças de segurança a admitir mulheres entre os seus.
A Adelaide Cabete, a preocupação dela era a saúde, a higiene, a puericultura, tudo isso. Não era essa guerra.
Exatamente.
Era mais a regra da lei.
Isso. Pra Adelaide Cabete era mais essa questão, mais do que uma questão moralista. Os movimentos feministas, por que queriam a abolição da prostituição? Porque viam aí um eternizar de uma superioridade dos homens e de um uso das mulheres.
Uso das mulheres.
Mas de qualquer modo, há essa questão de quando são ilegalizadas, torna muito mais difícil protegê-las e regulá-las. Portanto, apesar desta luta, a verdade é que depois em 54, vai ser proibida a prostituição nos territórios ultramarinos, e depois em 1963, enfim, uns aninhos depois da morte da nossa Regina, vai ser proibido em Portugal. É curioso, só pra deixar essa nota. Portanto, foi permitido durante muitos anos e depois é proibido em 63, que em 1974, também se esperava muito, no 25 de abril, já não é a primeira vez que temos este tema, aí era a descriminalização da homossexualidade. Também se esperava a descriminalização da prostituição, mas ela também só vai acontecer em 1982. Só na revisão constitucional de 82. De fato, é uma coisa muito visionária, muito liberal, é que há a descriminalização da prostituição, que dura até hoje. Ou seja, a prostituição não é legal, mas não é criminalizada. O ato do proxenetismo é que é criminalizado. É interessante.
Regressando aqui à nossa Regina e à nossa Regininha, a filha da nossa Regina Quintanilha. A filha desta nossa desobediente também vai desobedecer às tantas na vida dela e ter algumas questões com o PIDE. Eu, por acaso, acho este episódio delicioso.
Sim, e é contado também de viva voz, mais uma vez. O que era engraçado é que ela queria que a filha estudasse medicina. Medicina era um figurão, ser uma filha médica, uma mulher à altura, como havia tão poucas. E então traziam os esqueletos pra casa, ela e a amiga Joana. Não sei como é que elas traziam ossadas ou o que é que elas traziam, punham na mesa da casa de jantar, tinham os esqueletos à volta e eu analisando o esqueleto e os ossos.
Mala de anatomia em casa.
Mala de anatomia em casa. Tudo se passava nesta casa, que já vamos ver que casa que era esta. E entretanto, a par com este curso de medicina, que era tirado pela filha e pelas amigas no Campo de Santana, a Regina era uma fera a mandá-las Para os concertos, para a ópera, para o Coliseu, para São Carlos. Isso é que era importante e ela abria portas por todo lado. Era uma autêntica facilitadora de negócios, mexia-se em todas as direções, era hiperdesembaraçada, conhecia todos os meandros para conseguir arranjar bilhetes, arranjar o passaporte, arranjar um visto, tudo o que fosse possível. Vinham falar com a Regina Quintanilha e ela conseguia arranjar uma maneira.
Até que um dia a PIDE bate à porta.
Até que um dia a PIDE bate à porta, porque a menina Regininha andava a desobedecer e andava com um tipo contra o regime, arranjava-lhe casas em nome dela, Regininha, que era um salvo-conduto para nada se passar. E de repente aquilo foi tudo apanhado. A PIDE chega à casa para levar a menina. A menina supostamente estava em casa da amiga. A mãe foi a correr para o aeroporto arranjar um voo para ela ir para Itália, enquanto a PIDE, os agentes foram almoçar. Quando voltaram, ela já estava no avião a caminho de Itália, onde viveu durante muitos anos.
Foi pianista e diretora do Centro de Cultura Musical.
Sim, foi muito importante. A formação musical dela já vinha da história do Viana da Mota. Agora, fundamental para a nossa desobediente hoje, foi o Brasil. Isto foi mesmo a pedra de viragem, porque ela integrava uma comitiva diplomática que ia contribuir para as reformas da lei brasileira, o que se aplicava. E ali ficou, abriu o escritório no Rio de Janeiro, outro em Nova Iorque, fartou-se de fazer negócios, fartou-se de arranjar clientes e uma das coisas que ela fez, muitíssimo importante, foi ajudar a irmã Júlia, que vivia no Brasil, farmacêutica e casada com um ricaço do Visconde de Santa Maria. Também tinham um filho, o Fernando, que foi sempre muito próximo deles todos. E então a Júlia, ao conseguir ter acesso à herança que lhe era devida, oferece à irmã uma série de terrenos, hortas e edifícios, como por exemplo, metade da rua Castilho, aqui em Lisboa, que nós conhecemos, que faz esquina com a rua Braamcamp. Todo aquele quarteirão era a casa onde se passavam as aulas de anatomia que contámos há bocado. Era na casa da rua Castilho.
Sabes qual era? Porque esse cruzamento é famoso.
É mesmo na esquina.
É o da Enron.
É mesmo na esquina, onde era a antiga loja das meias.
Sei perfeitamente. No edifício Castilho.
Aqui o edifício Castilho. Era mesmo aqui. Quando ela regressa a Portugal, tem n negócios imobiliários em mão, trabalha no registo predial, trabalha no notariado, faz investimentos enormes e é claro que também ajuda a resolver estes problemas todos que nós dissemos, burocráticos, profissionais, sociais, tudo isto. E a rua Castilho era um centro de receber pessoas, e de receber pessoas influentes. E o que tinha graça é que ela era muito mal-amanhada, não se arranjava, andava de saiote, o saiote todo velho, andava de pantufas quando ia para o carro, para o automóvel com o seu chauffeur. Ia de pantufas, esquecia-se de tirar as pantufas, as filhas ralhavam que ela não podia ir assim, que tinha que arranjar o cabelo. Andava-se marimbando, como sempre esteve, para o físico.
A nossa desobediente deixa a advocacia em 1957, já com 63 anos de idade. Foi homenageada e intitulada como o sol da advocacia, acho que diz bastante sobre ela. E vai morrer. Parece agora que vai ali ver um caso, vai ali resolver um problema.
Não morrem nunca estas mulheres.
Parte a 19 de março de 1967, aos 73 anos. Deixa-nos com-
Uns números absolutamente extraordinários.
Exatamente.
Em 1927, no levantamento feito pela Ordem de Advogados, havia apenas seis mulheres entre os 1700 inscritos. E agora, Margarida, queres dizer o número?
Em 2025, 38.581 advogados, dos quais, ou das quais, 55% são mulheres.
Tal e qual. Os números dos juízes, os últimos que são de 2022, dizem também que 61% dos juízes são mulheres em Portugal. E já agora, já houve três bastonárias da Ordem dos Advogados mulheres, quase todas nos últimos anos.
O que diria Regina Quintanilha destes números?
Exatamente. As portas que ela abriu, de facto, felizmente, nunca mais se fecharam.
Nunca pretendeu criar nos próximos grandes expectativas a seu respeito. Considerava-se absolutamente vulgar. Uma mulher cujo destino ou hereditariedade havia dotado de uma virtude, a força de vontade. Mas quando soube que Maria Lamas, a ativista com quem concordava em discordar, fora presa, lamentou já não exercer advocacia. Pela liberdade física ou de pensamento de uma mulher, nunca virava costas. Argumentos e truques eficazes para iludir a PIDE, ninguém tinha tantos como ela, mas seriam suficientes para a tirar de Caxias? Ou será que Maria Lamas pretendia continuar a desobedecer? Não perca o último episódio destas 12 meninas más que mudaram a história. Se gostou deste episódio das Desobedientes, pode seguir-nos nas plataformas de podcast, no YouTube e no site do Observador. O podcast As Desobedientes tem o alto patrocínio da Toyota. E quem era ao certo esta mulher? Contra um tempo e um país que não a quis ouvir. As boas meninas podem ir para o céu, mas são as más que mudam a história.