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Bacalhau Ribeir'Alves. Bacalhau com Todos. E no Bacalhau com Todos de hoje vamos até Ílhavo e Gafanha da Nazaré, importante centro da história da epopeia do bacalhau em Portugal. Talvez o mais importante, já vamos saber se sim, com o antropólogo Nuno Miguel Costa. Antes digo-lhe que o consumo de bacalhau em toda a época natalícia deverá atingir as 20 mil toneladas em Portugal. É um dado impressionante. Só na noite da Consoada terão sido consumidas entre 4 a 5 mil toneladas do fiel amigo. São estimativas do Conselho Norueguês dos Produtos do Mar e que demonstram a apetitosa relação que os portugueses têm com o bacalhau. É convidado do Bacalhau com Todos de hoje, Nuno Miguel Costa, antropólogo e membro da direção do Museu Marítimo de Ílhavo. Bom dia, Nuno, bem-vindo à Rádio Observador.

Bom dia. Obrigado, Ricardo.

No início deste Bacalhau com Todos, dizia que o eixo Gafanha da Nazaré-Ílhavo é provavelmente o mais importante centro da pesca de bacalhau em Portugal. Isto é verdade?

Sim, é verdade. Neste momento é o único porto que arma navios pra pesca do bacalhau. São cerca de 10 navios.

Mas tem sido sempre assim? Este eixo Gafanha da Nazaré-Ílhavo tem sido o mais importante centro e porto de saída de navios para a pesca do bacalhau?

Não era o único. Durante o período do Estado Novo, não era o único porto bacalhoeiro. Havia Lisboa, Figueira da Foz, Viana do Castelo e também o Porto.

E há alguma razão histórica para Ílhavo ter resistido aos tempos e ser hoje o único porto bacalhoeiro do país?

É lá que se concentra a indústria, principalmente. Só uma empresa que não está sediada ou não tem um interposto comercial na Gafanha da Nazaré. E isto advém da importância que o porto teve durante o período do Estado Novo, dos tempos áureos da pesca do bacalhau, essencialmente. Há uma complementaridade geográfica que faz com que este porto seja muito importante. Primeiro, o espelho d'água da ria de Aveiro, que permitia aos homens trabalhar o mar, a água, durante todas as épocas do ano, o conhecimento da navegação, das técnicas de pesca, depois o trabalho do sal, das marinhas, embora o sal de Aveiro não fosse o mais utilizado ou não seria de todo utilizado na salga do bacalhau.

Qual era, já agora?

Daqui de Setúbal, do Algarve também, principalmente.

Qual é a razão pra isso acontecer? Por que não se salgava o bacalhau com sal da ria de Aveiro? Se estava ali à mão, não é?

Era considerado muito arenoso, não era tão cristalino como o sal mais do sul.

Contaminado, talvez, pelas dunas de São Jacinto, será?

Não, tem a ver com os lodos da ria, principalmente com isso. Depois há um fator muito importante que é a construção naval em madeira, com os Estaleiros Mónica, que foram dos principais estaleiros da indústria nacional de construção em madeira, que foram ali construídos também no porto. Portanto, há ali uma complementaridade de construção, de conhecimento das técnicas de navegação e depois o espaço amplo e ventoso da nossa zona, que permitia depois a secagem do bacalhau ao tempo.

Fez-se seca do bacalhau, a chamada cura portuguesa, em Ílhavo?

Sim, fez-se.

Mas é uma tradição que não se manteve?

Tem mais a ver com-

Ou uma técnica.

A cura tradicional portuguesa está certificada e é aquela que nós consumimos, o salgado seco. Porém, de alguns anos esta parte passou a ser feita em câmaras de secagem, não deixou de ser permitido fazê-la ao tempo.

Portanto, estavam reunidas as condições geográficas e também físicas para o eixo Gafanha da Nazaré-Ílhavo manter-se como eixo principal da pesca do bacalhau. No seu auge, quantos navios e quantas pessoas estiveram envolvidas na pesca do bacalhau?

No máximo de navios, chegou cerca de 80. Em termos de homens, à volta dos 5500.

Em que período?

Em 58. 58 foi o ano em que teve o maior número de navios na pesca do bacalhau.

Portanto, temporalmente, terá sido esse o pico da chamada campanha do bacalhau promovida pelo Estado Novo.

Sim, porque a partir daí, depois também os navios começaram a ter maior capacidade, houve mais renovação também da frota pra navios com mais tonelagem, mais capacidade de carga. E a partir do final dos anos 60, deixou de haver o mercado regulado pelo Estado e incentivos à Construção de novos navios deixou de ser tão apelativo economicamente.

Portanto, a nossa frota entrou em declínio e quase desapareceu por volta de 1975.

Foi mais nos anos 90. Agora, a partir de 74, deixa de haver um controle do Estado Novo, mas tem a ver essencialmente com o fim das políticas protecionistas desta atividade.

Muito bem. E hoje temos as tais cerca de dezena de embarcações em Ílhavo que se dedicam ainda à pesca do bacalhau e temos um importante centro de resgate da memória do bacalhau, que é o Museu Marítimo de Ílhavo, do qual o Nuno é membro, coordenador científico também.

Sim, coordenador da direção.

Para quem nos ouve, de que forma é que o museu resgata essa memória desses tempos áureos da pesca do bacalhau em Portugal e também em Ílhavo?

Bem, o museu é um dos principais centros da memória da pesca do bacalhau, juntamente com o navio Gil Eanes, em Viana do Castelo.

Gil Eanes, que foi navio-hospital que ajudava nos mares da Terranova e da Gronelândia, a frota bacalheira portuguesa.

Exatamente.

E dizia-me há pouco também que também foi navio-prisão.

Servia.

Como assim?

Os capitães, os líderes dos navios tinham a autoridade do Estado no seu navio, portanto, tinham a autoridade para mandar prender, se assim fosse necessário, e era para o navio Gil Eanes que os pescadores seriam mandados se incorressem em alguma incorreção ou tivessem algum problema.

Não sei se sabe a resposta a esta pergunta, mas há registo de motins e de sublevações a bordo dos navios portugueses ou não, na pesca do bacalhau?

Houve uma grande greve em 1937.

Portanto, logo no início da campanha.

Sim, logo no início da organização corporativa do Estado Novo e da organização corporativa das pescas. Porque a pesca não estava regulada, funcionava de forma espontânea. As companhas eram arregimentadas por vontade dos capitães. Umas vezes os navios iam à pesca do bacalhau, no ano seguinte pediam não ir, mas isso não permitia que houvesse uma continuidade que o Estado Novo queria que existisse.

E o que é que aconteceu em 1937 com essa greve?

Houve uma rejeição a estas políticas de controle. Portanto, os homens teriam que se inscrever obrigatoriamente no Grémio dos Armadores de Navios da Pesca do Bacalhau, teriam que embarcar nos navios que lhes eram indicados e não naqueles que eles queriam ir. Não houve uma boa aceitação e houve uma greve ao embarque e há relatos, até num artigo do professor Álvaro Garrido, de homens que saíram diretamente das carrinhas da GNR para os navios, foram obrigados a embarcar naquele ano.

Eram tempos difíceis esses, imagino. Então vamos voltar ao museu. Quem visitar o Museu Marítimo de Ílhavo hoje pode encontrar o fundo museológico, um aquário do bacalhau e o navio Museu Santo André.

Sim, o museu tem no seu edifício uma sala de exposição dedicada à pesca do bacalhau à linha. Temos um lugre bacalheiro, uma réplica de um lugre bacalheiro construído no centro da sala e celebramos esta atividade.

Para quem nos ouve, um lugre é um veleiro de três mastros.

De dois a quatro mastros, construído em madeira, depois também mais tarde em aço, como o Crioula, o Santa Maria Manuela e o Arcos, os mais emblemáticos. É uma pesca que era feita à linha, com recurso a dórís de um só homem. Cada pescador era largado no mar, onde pescava entre oito a dez horas.

Ouvimos ontem aqui um relato de um pescador de dórís.

Pronto, e depois para além dessa sala sobre a pesca de bacalhau à linha, temos também o navio Santo André, o navio museu, um arrastão clássico que foi musealizado para ser um complemento a este discurso e a esta memória sobre a pesca do bacalhau.

Entre os trabalhos que executam nesse resgate da memória e da importância da pesca do bacalhau em Portugal e sobretudo na região de Ílhavo, está o Festival de Gastronomia de Bordo.

Sim, temos algumas.

Que festival é esse?

É um festival de celebração da gastronomia relacionada com o bacalhau, mas de hábitos mais relacionados com a comunidade, mais com os pescadores. Portanto, bacalhau come-se em todo o país, nas mais variadas formas, mas bacalhau ou subprodutos de bacalhau como línguas, caras, samos, há mais tradição de serem consumidos, ou a famosa choira, a sopa de cabeças frescas de bacalhau que os pescadores comiam como refeição quente ao final do dia. Estes hábitos estão mais enraizados nas comunidades, principalmente em Ílhavo, e é uma forma de dar a conhecer estas novas tendências da gastronomia.

É um festival que acontece tradicionalmente quando, em que época do ano?

Em novembro.

Portanto, já passou.

Já passou. Para o ano volta a haver.

Muito bem, Nuno Miguel Costa, obrigado por ter vindo ao Bacalhau com Todos de hoje. Nuno Miguel Costa, coordenador do Museu Marítimo de Ílhavo, com enquadramento histórico sobre a pesca do bacalhau em Ílhavo e também na Gafanha da Nazaré. Bacalhau que surge pela primeira vez na literatura portuguesa em 1521, num auto de Gil Vicente intitulado As Cortes de Júpiter. Mais de 100 anos depois, no final do século XVII, é que um bacalhau salgado terá aparecido numa pintura de José Fadóbitos. É o que defendem os acadêmicos José Manuel Sobral e Patrícia Rodrigues no artigo publicado na Revista Etnográfica, editada pelo Centro em Rede de Investigação em Antropologia. É longa, aliás, a relação dos portugueses com o fiel amigo. Bacalhau com Todos. Este programa