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Bacalhau Ribeir'Alves. Bacalhau com Todos. Continuamos a nossa viagem pela história do bacalhau. Hoje recuamos no tempo e zarpamos até ao Atlântico Norte, à boleia das memórias de um antigo pescador. Para já, digo-lhe que a pesca do bacalhau pode ser feita recorrendo a várias artes. A mais usada é a pesca através de artes de rede, em navios de arrastão lateral ou na popa. E depois há a pesca à linha, executada por homens solitários em pequenos barcos a remos chamados dorys. Estas frágeis embarcações eram transportadas até às gélidas águas do Atlântico Norte, sobretudo em veleiros de três mastros. Junta-se ao Bacalhau com Todos de hoje Zé Miguel, antigo pescador de bacalhau à linha durante 15 anos. Bom dia, senhor Zé Miguel.
Bom dia, como está?
Tudo bem. Passou bem o Natal?
Olhe, graças a Deus tenho passado eles piores. Este foi melhor.
Muito bem. E houve bacalhau à mesa ou não?
Há! Sempre. Ainda hoje vai haver outra vez o resto dos grelos.
Muito bem. Olhe, vamos falar da sua experiência como pescador de bacalhau nos chamados dorys, aqueles pequenos barquinhos a remos.
Sim, andei lá 15 anos. De 1958 para lá.
Deduzo que não tenha saudades desses tempos. Foi uma vida dura.
Olhe, amigo, para lhe dizer a verdade, agora as pessoas trabalham de uma certa maneira, com um certo ordenado, que dizem muitas pessoas, mas não dá para nada. Eu não tinha ordenado e fiz as minhas casas e era tudo pobre. E essas pessoas hoje têm ordenado, não se atrevem fazer uma casa, não sei onde está a riqueza.
Senhor Zé Miguel, diga-me lá como é que começou a trabalhar na pesca do bacalhau? Conte-me a sua experiência.
Pronto, eu vou contar-lhe do início. A gente, no dia 1 de abril, toda a companhia, chama-se companhia ou campanha, como eram de dizer, partimos para Lisboa, para Belém.
De Ilhavo.
Partíamos de Ilhavo, da Aveiro, de Mira, da Murtosa, todos esses lados, para Belém, para depois no dia 3 saíamos. Mas a gente ia no dia 1.
Portanto, a campanha do bacalhau começava no dia 3 de abril. Era o dia de zarpar de Belém.
Sim, eu vou lhe dizer. Era o seguinte, lá em Belém havia o Papa ou o padre, dava uma missa ao ar livre. Para todos os pescadores antes partissem para a paina do bacalhau. Ora bem, o que é que acontecia? No fim da missa, havia um navio que davam o apito. A partir desse apito, podiam começar a ir para os bancos da Terra Nova primeiro e depois era para a Gronelândia. Davam um apito e começava a partir. E então o pessoal fica, filhos, noras, genros, todos os familiares, a dizer adeus para o navio com lenços brancos. E os navios a vir para cá, mas coitadinhos, quantos dizeram adeus para cá e nunca mais chegaram a voltar.
Já vamos falar sobre isso. Senhor Zé Miguel, tem 82 anos, foi uma vida difícil.
Sim.
Quantos dias ou quantas semanas demorava a viagem até aos bancos da Terra Nova?
O nosso navio era de Lisboa, de Elisabete. Demorava 10, 11 dias, não tinha muita andamento, não. E depois pescávamos ali um mês ou dois. E daí íamos a St. John's. Pertence ao Canadá, ele já foi português, mas os portugueses venderam tudo. De maneira que aviávamos lá, forneciam-nos umas batatas. E depois daí partíamos para a Gronelândia, era mais cinco dias.
Muito bem. E a sua função era ser pescador à linha.
Sempre ao anzol.
Saía do veleiro Elisabete dentro de um pequeno barco a remos e depois passava horas infinitas.
O dory.
Os dorys. E depois passava imensas horas, quase o dia inteiro, ali sozinho, no mar, à pesca do bacalhau. Foi assim?
A levantávamos às 04h, que o capitão dava as ordens. Dava os louvados, que os louvados era assim: "Louvado e adorado nosso Senhor Jesus Cristo, filho da Virgem Maria, quem nos guardou de noite nos guarde também de dia. São 04h, ó mestre, dê o almoço. Ó moços, vão safar o isco", que eles safavam o isco para a gente cortar em pedacinhos, para depois dar a ordem ao capitão: "Olhe, vai arrear um Deus". E daí andávamos desde essa hora até às 18h, mais ou menos. Era assim a nossa saída fora do navio grande.
Sozinho dentro de um dory.
Cada um tinha o seu dory, cada dory só um homem.
Só a pescar bacalhau.
Sim. E depois de estarmos lá fora, ele dava a ordem para arrear os dorys. A gente pescava e depois eles içavam uma vela preta ao meio do navio, que era o fazer os chamados aos pescadores, e a gente íamos para o navio.
Isso era para quem via, porque muitos acabavam por se perder no nevoeiro.
Então, paciência, alguns perderam-se, sim. Na minha companhia, graças a Deus, não aconteceu isso, mas eles até morreram ao pé de mim.
Diz-se ainda hoje, senhor Zé Miguel, que o nevoeiro era o pior inimigo dos dorys, é verdade?
É, mas a gente tinha uma rosa dos ventos. Olhe, eu tenho até duas em casa, e este serviço é lá. E a gente regulava-se por aquela agulha, uma agulhazinha de marear O navio está tão em lado, o navio apitava assim para dar a indicação de onde ele estava. E às vezes também atirava um foguete grande, um morteiro grande, que era pra gente, quando visse isso, marcaramos o rumo da agulha.
Muito bem, então faziam depois o regresso ao veleiro, mas o dia não acabava aí.
Não. Depois de meter os barcos para dentro, a gente ia comer qualquer coisa e tínhamos logo o oficial ao alto: "gente, venha embora, venha safa". Íamos escalar o peixe, íamos salgar o peixe. E depois desse movimento todo, íamos descansar, mas àquela hora tínhamos a levantar outra vez.
Pois. Quantas horas trabalhava por dia?
Além disso, tínhamos ainda dois homens por dia a tomar conta do navio. Até isso era mau. Os homens ali, cansados, derretidos de tanto trabalho e ainda tinha perder uma hora da noite para ir tomar conta do navio. No meio do mar havia alguém que fizesse assim, mas não, eles queriam assim, era assim.
O que era mais difícil, senhor José Miguel, na pesca com dóris?
O mais difícil era quando dava ventos fortes. Olha, está a falar com um pescador. Estava a falar um mar num dia tanto, agarrado por um cabo, chamava a bossa, do dór ao navio. Tinha lá um moço que dava uma volta e segurava o bote. Não era só um, era três, quatro, conforme o comprimento do navio. E vim uma volta de mar que partiu o meu bote ao meio. Olha, o meu bote partiu ao meio. A metade foi pro fundo, a vela, o foquinho, que é onde a gente levava o merzito, o pão e peixe frito, mas tínhamos que ir apanhar. Foi pro fundo nunca e eu também ia aí pro fundo e um colega andava comigo. Como eu era o melhor pescador, pedi para andar e andava. A minha salvação foi esse rapaz. Foi à frente do barco dele e pelos cabelos, botou-me para cima e eu depois pro navio. Engataram um cabo, amarrado pela cinta e assim fui pro navio. O capitão telefonou pro comandante Julianos. Lá me deram tratamento. Tive uns dois dias a bordo. Gelado, pronto. Aquela água foi na Groenlândia, um mar chamado Barrinha, na Groenlândia. E as águas é baixo nível de frias, então fiquei assim congelado. Mas passou.
Foi o dia mais difícil que teve na campanha do bacalhau?
Foi.
Senhor José Miguel, o que é que comiam durante a campanha do bacalhau?
Homem, você não fale por amor de Deus. Era uma tristeza.
Então.
Uma tristeza, vou lhe dizer. Batatas eram cozidas, só quando ela estivesse negra, umas lenças da nossa mãe da cabeça, é que cozinham outras novas. Queríamos peixe, tínhamos que apanhar. A carne, vista lá nem havia uma carne, sim, senhora. Vinha da Argentina e essa carne vinha em barricas de madeira, salgada. Estava três dias de molho e depois ao fim de três dias de estar de molho, o cozinheiro preparava ele umas batatas. Era uma miséria. O meu primo gritava pra mim: "Zé, vamos embora. Vamos embora. Hoje é burro". Era a tal carne que vinha da Argentina. A gente comia era salgada, era o que havia. Porque seja de lá ao fim, ou depois no fim, é só batata. Isso dá pra rir, mas enfim, foi tristezas todas ali. E era assim, àquelas horas que lhe disse, que davam o isco, o capitão mandava arrear. Andávamos aquelas horas todas com pão, era um pão para um quarto quilo, mais ou menos, o cozinheiro fazia e dava um a cada um. E peixe frito ou umas azeitonas. Era assim a nossa vida durante o dia todo.
Passou fome?
Era uma vida muito escrava, passava-se muito mal. A verdade é essa.
Passou fome, senhor José Miguel?
Como?
Se passou fome na pesca do bacalhau?
Passamos fome. Passamos, sim, senhora. Ali não há feriados, nem dias santos. E até vou dizer a meu amigo, andei no Alentejo a cavar vinhas e arroz, na Herdade Izidor. Dantes havia uma chouriça em lata, não sei se ainda há ou se não, parece senhor. Tinha 25 léguas quadradas de terreno, esse senhor. Lembro-me como se fosse hoje, tinha 16 anos. E digo-lhe uma coisa, eu antes queria a parte mais para cima da Terra, quero ou queria, mas eu sempre era obrigado a querer, o dia melhor do mar. Acredita?
Acredito. Pelo que está a contar, acredito.
Não, se não passasse, eu não podia saber contar, por amor de Deus.
Muito bem.
E era assim.
Senhor José Miguel, olhe, muito obrigado pelo seu testemunho aqui na Rádio Observador. José Miguel, antigo pescador à linha de bacalhau nos dóris.
Se for preciso cantar um fado, eu até canto um fado.
Então, diga, mas diga, não se vai embora, mas por quê?
Não, eu estou assentado.
Mas tem vontade de cantar um fado?
Eu canto, se ficar gravado também não me importo.
Então vamos lá.
Eu tenho aqui um livro com a minha imagem e com o fado escrito e outra coisa. Eu não, foi os do rádio da Terra Nova. Vieram e fizeram e espalharam por aí, por a área toda da Beira. Então o fado era assim.
Vamos lá.
Pescador bacalhoeiro, e andas no mar altaneiro, no teu ritmo a levitar. Importa andar seis meses Se não ganhares mais dez vezes, para a família sustentares. Andas para aí destrado, às duas mil milhas afastado. Não passes de uma ilusão. Coitadinho de ti, bacalhoezinho, quando chegares a velhinho. E a reforma é um pau na mão. Foi o que me fizeram.
Muito bem, seu Zé Miguel, obrigado pelo seu testemunho neste Bacalhau com Todos aqui na Rádio Observador. Boas festas e olhe, já passou, já tem boas histórias para contar desse mundo misterioso chamado Gronelândia e também Terra Nova. Zé Miguel, muito obrigado e boas festas.
Antes não sabesse tanto. Olhe, da Barra de Lisboa ao primeiro pesqueiro é fis carnais na Gronelândia, são duas mil milhas e cada milha tem 1750 metros. Eu sei tudo, graças a Deus. Não vou me esquecer, eu tenho 80 anos, mas sou um rapazito novo.
Está muito bem conservado e tem boas memórias. Seu Zé Miguel, muito obrigado por ter estado no Bacalhau com Todos, na Rádio Observador. As memórias de um antigo pescador de bacalhau a fechar este Bacalhau com Todos. Agora temos a habitual manifestação artística, já ouvimos música. Na Austrália, Jake Codling, um dos mais famosos beatboxers do país, ou seja, um artista que faz hip-hop com a voz, adoptou como nome artístico Cod Fish, ou seja, bacalhau em inglês. Cod Fish tem mais de um milhão e 200 mil seguidores. Cod Fish a fechar este Bacalhau com Todos. Bacalhau com Todos.