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Começa mais um Caso ao Voto. É o último dia de campanha, hoje há pontos clássicos como arruadas no Chiado, há comícios com discursos de encerramento. São as últimas horas antes desse dia de reflexão. Neste Caso ao Voto fazemos a contabilização de quem está a ganhar e quem está a perder votos com Miguel Pinheiro, diretor executivo do Observador, também com o Rui Pedro Antunes, editor de política. Vamos também pra estrada, as caravanas vão já com três dias nas rodas. Temos hoje reportagem centrada na capital, em Lisboa. Escutamos também o meu primeiro voto. Vicente Figueira conversa hoje com Tânia Oline, que tem 21 anos e vota só agora pela primeira vez. É imigrante, chegou da Ucrânia há mais de 13 anos e depois de muita burocracia, tem agora autorização para votar. A fechar, Tiago Dores com as melhores minudências destas eleições. O Caso ao Voto começa agora. É o derradeiro dia, faltam poucas horas para terminar a campanha e para se silenciarem os microfones sobre tudo aquilo que é político. Os partidos fazem ginástica para encher a agenda, principalmente no fim do dia. Aqui nós vamos fazendo a contagem de quem está a ganhar e quem está a perder votos. Para isso contamos, claro, com o Rui Pedro Antunes, editor de política, e também com o Miguel Pinheiro, diretor executivo do Observador. Bem-vindos. Estamos no último dia. Rui Pedro, quem é que está a ganhar votos hoje?
Talvez se começasses por quem está a perder, que é sempre melhor. Ganhar votos, vou tentar não perder muito tempo pra termos mais tempo, que é sempre mais fácil. Mas eu tenho uma percepção, e acho que está relacionada também com as sondagens, que nós entramos pra esta campanha um bocadinho com a ideia que a Iniciativa Liberal era um partido nicho, que não podia crescer muito. Ao contrário do CHEGA, que almejava ser a terceira força, o próprio Bloco de Esquerda, que era uma força de terceiro lugar e que estava a consolidar esse terceiro lugar a nível nacional. E Cotrim Figueiredo conseguiu ir mais longe do que aquilo que seria o nicho da Iniciativa Liberal. Nós temos visto isso nas sondagens e consegue-o sem uma campanha que não tenha força, nem o aparelho, nem tampouco a implantação a nível nacional de estruturas que lhe permita fazer essa campanha. Portanto, há aqui muito o fator Cotrim, ou seja, a imagem. Antigamente dizia-se uma coisa até um bocadinho misógina, que era José Sócrates ou Pedro Passos Coelho entravam nas donas de casa. Hoje, felizmente, já não temos um país em que tenha muitas mulheres em casa e, portanto, felizmente, já não se diz das donas de casa. Mas ele consegue, de fato, entrar na televisão, ou seja, donos de casa, donas de casa, enfim, conseguem entrar na televisão e conseguiu conquistar um eleitorado através da televisão, onde ele não consegue chegar de outra forma. Não é pela rua, não é pelo Twitter só que se consegue mais de 1% e se passa de 1% para 6% e estar a discutir com o CHEGA e com o Bloco em algumas sondagens. E não estamos só a falar de sondagens diárias, mas daquelas que têm mais inquiridos e que são feitas com mais tempo. E, portanto, além disso tudo, parece-me ter aqui algum futuro este partido, no sentido em que há muito voto jovem, pelo menos há essa percepção de que há muito voto jovem. Nesse aspecto, é uma vitória pra Iniciativa Liberal, porque começou como uma espécie de underdog. Claro que há piores, Rui Tavares, enfim, o CDS a lutar pela sua sobrevivência. Mas a Iniciativa Liberal era um partido pequenino, de nicho, e agora já está ali, pelo menos na borderline pra passar pra um partido um bocadinho maior. E parece-me que isso é um ganhar votos de Cotrim Figueiredo. Hoje é um dia de balanço, falaremos aqui ao longo da tarde, numa emissão especial do Caso ao Voto, mais sobre isso, mas diria que Cotrim consegue chegar ao fim. Já não tem muita mensagem, já está a repetir as mesmas coisas. Ainda ontem o Miguel registou aqui ele já estar a ir àqueles temas que o CDS o acusa de ser do Bloco de Esquerda, temas do Bloco de Esquerda, e já se começa a repetir muito, mas tem sido eficaz. E de fato, as sondagens dizem isso e acho que há, de fato, essa percepção que ele deixou de ser um partido de nicho.
Sim. Miguel Pinheiro, nesta linha, e acredito também que hoje queiram dar mais tempo a quem está a perder votos, mas quem é que está a ganhar neste último dia de campanha?
Eu estive a ver os detalhes de uma das sondagens, da sondagem do Público, que mostra que o PSD está a conseguir fazer uma transferência de votos do CDS pro PSD e do CHEGA pro PSD, ou seja, está a conseguir que o apelo do voto útil funcione. Isso vai ser absolutamente fundamental para Rui Rio. Ele tem que conseguir, por um lado, ir buscar eleitores ao centro, que tem sido a sua grande bandeira e a razão pela qual se apresentou nesta campanha como o dono do Zé Albino, foi precisamente pra não assustar os eleitores de centro, que podem estar indecisos entre o PS e o PSD, mas ao mesmo tempo, tem que fazer uma movimentação que é mais difícil de fazer, que é esta de agregar o voto útil à direita. É mais difícil de fazer porque o discurso dele não está a ir pra aí. Noventa por cento do discurso dele está concentrado no centro. Ontem ainda disse assim umas coisas sobre subsidiodependência e tal, mas são coisas muito vagas que nem sequer passam nas televisões. Portanto, o mais difícil é conseguir, em silêncio, ir buscar este voto útil à direita. E esta sondagem do Público mostra que ele pode estar a conseguir fazer isso. E isso é uma das chaves pra ele poder, eventualmente, ganhar no domingo.
Vamos ver o que acontece então no dia 30. Vamos agora sim a quem está a perder votos. Estamos com poucas horas pro final desta campanha. Rui Pedro, quem é que anda a perder votos?
Acho que hoje, em específico, e ainda mais uma coisa do dia, para depois ser um pouco contraditório com o ganhar votos, que era mais uma espécie de balanço de campanha, porque esta pessoa que eu estou dizendo está em crescente face ao início da campanha, mas é Rui Rio. Por quê? Eu acho que Rui Rio já conseguiu conquistar uma parte do centro que quer alguma mudança, conseguiu arregimentar as pessoas do seu partido, aquele eleitorado típico PSD que vota sempre PSD, conseguiu em parte roubar algum voto útil, talvez ao Chega, que parece em alguns momentos estar a perder, embora nós não saibamos. Há uma teoria de alguns comentadores políticos que as pessoas têm vergonha de dizer que votam no Chega e, portanto, que a votação do Chega vai ser superior àquela que efetivamente sai nas sondagens. Mas à parte disso tudo, eu acho que Rui Rio hoje, em particular, elogiou Santos Silva. Disse que é uma declaração positiva, civilizada e faz algum sentido, porque o PSD diz que viabiliza um governo minoritário do PS, portanto, é natural que ele espere o mesmo do outro lado. Mas há precisamente um medo ainda de uma parte do eleitorado, e não é ao acaso que os adversários políticos de Rui Rio utilizaram o incidente do PSD, de Rui Rio dar a mão ao PS, dar a mão a António Costa. Isto pode afastar ligeiramente aquele eleitorado que está ali na borderline entre votar na Iniciativa Liberal ou votar no Chega ou votar no PSD cedendo ao voto útil, dizer assim: "Não, porque este vai dar a mão ao Costa." Elogiar Santos Silva no último dia, ele podia ter se esquivado a isto. Segundo ponto, voltou a falar de Ventura, a dizer que não queria o anel. Eu acho que isso até é positivo, porque também há uma parte do eleitorado que tem medo que ele dê a mão a André Ventura. Mas aí também deixa-me dizer que a falha é de André Ventura, porque a música diz que é para levar ao Revali e toda a gente sabe. Aliás, a antiga diretora artística do Revali, Isabel Alves Costa, escreveu um livro chamado Revali 1989-2006, e quando lançou o livro disse que o grande momento de desinvestimento no Revali e na atividade cultural foi quando Rui Rio assumiu a Câmara do Porto. Portanto, levar Rui Rio a um concerto no Revali, de certeza que não é a melhor das estratégias.
Não parece ser uma boa ideia.
Também André Ventura perde aí. Mas diria que este elogio a Augusto Santos Silva pode, para a tal elite, para o patrão dos patrões, como dizia há pouco Jerónimo de Sousa na noção que ouvimos no noticiário, pode ser um fator que valoriza Rui Rio. Para este eleitorado que tem medo que ele dê a mão a António Costa, não me parece que seja útil falar disto no último dia de campanha.
No último dia, sim. Miguel Pinheiro, quem está a perder?
Olha, quem está a perder eu poria o PS, porque eu fico baralhado às vezes ao ouvir algumas pessoas do PS. Ontem Manuel Alegre participou no comício do Partido Socialista e disse esta frase: "Somos da esquerda democrática e reformista, herdeiros de Blum e Olof Palme, não de Trotsky, nem de Lênin." Isto quando estava a falar dos parceiros à esquerda do PS. Mas então o PS esteve a governar com partidos que não são de esquerda democrática? Se Manuel Alegre faz questão de, como contraponto com os partidos à sua esquerda, dizer: "Somos da esquerda democrática." Ele não disse somos da esquerda reformista, disse somos da esquerda democrática e reformista. Portanto, não são democráticos os partidos com os quais o PS esteve a governar nestes últimos seis anos. É isso? E depois esses outros partidos, segundo Manuel Alegre, e bem, são herdeiros de Trotsky e de Lênin. Portanto, dois partidos que são herdeiros de dois dos responsáveis pela implementação de uma das mais sanguinárias ditaduras da história, foram os parceiros do PS durante estes últimos seis anos.
E foi mal então esse apoio de Manuel Alegre ao Partido Socialista?
Sinceramente, não entendo isto, porque depois ao mesmo tempo Manuel Alegre diz que a geringonça está toda muito bem, a única coisa que o preocupa é o PAN e a tauromaquia. Então não o preocupa estar a governar ao lado de partidos que são herdeiros de Trotsky e de Lênin? Isto não o preocupa? Isto não o leva a pôr as mãos à cabeça? Enfim, há uma desorientação total. Se há coisa que caracterizou estas duas semanas de campanha do PS, foi uma desorientação total, completa e absoluta. O PS não faz a menor ideia, ou melhor, sabe o que quer: ficar no poder. Como? Logo se verá. É indiferente como é que fica no poder. Logo se verá como é que isso se consegue, mas o importante é manter o poder. Tirando isso, não sabe mais nada do que quer fazer. Uma pessoa está a pedir votos e não sabe o que quer fazer com eles, mete uma certa confusão.
Temos os nossos perdedores neste caça ao voto, com a análise de Miguel Pinheiro, diretor do Observador, também Rui Pedro Antunes, editor de política. Já a seguir vamos avançar para a estrada. E hoje praticamente todos os caminhos vão dar ao Chiado. O PS tem uma arruada a decorrer neste momento, também vai lá passar o PSD, o PAN e o Chega também vão estar bem perto. Temos praticamente uma estrada concentrada no centro de Lisboa e, portanto, concentramos também as nossas atenções por Lisboa. Vamos ao encontro da repórter Rita Tavares, que está nesta arruada do PS, que está a decorrer neste momento, é a famosa descida do Chiado. Rita, acredito que haja muita confusão neste momento. Vamos tentar manter esta ligação. Como é que está a correr esta descida do Chiado? Muita mobilização, que já foi dito também por António Costa.
António Costa ainda não falou. Tem estado ali dentro daquele cerco que se cria à volta do candidato e a tentar chegar a algumas pessoas que estão na rua. Mas esta descida do Chiado é cada vez mais uma demonstração de força e muito pouco de contacto com a população Porque quem vê a turba a vir lá de cima, como eu neste momento estou a ver, só apetece fugir. Não apetece propriamente decorar para chegar ao candidato. Isto acaba por ser mais uma demonstração de força. Não diria que esteja a ser uma arruada muito potente do Partido Socialista. Já vi outras descidas do Chiado mais participadas. Não me parece que seja a mais significativa. Está a decorrer dentro da normalidade, não houve até agora nada de especial. António Costa está ali em silêncio, só a cumprimentar as pessoas a que consegue chegar. Papelotes, banda e agora houve um facto curioso: Inês Sousa Real, pouco antes de António Costa chegar aqui ao Chiado, passou pela arruada, passou por entre os socialistas que já se estavam a juntar para acompanhar António Costa nesta descida. Ela, que é a líder do PAN, que é um dos partidos que se pode entender com o PS, se o PS vencer as eleições. Essa mão já foi estendida por parte de António Costa nos debates. Foi engraçado, Duarte Cordeiro ainda a cumprimentou, o diretor de campanha de António Costa. Um cumprimento normal, eles que já trabalharam de forma próxima na Câmara de Lisboa, mas foi um momento curioso. Agora há aqui, de facto, um encontro junto aos armazéns do Chiado um pouco mais tenso, há alguma polícia aqui concentrada. A bolha de António Costa ainda vem um bocadinho antes deste encontro que vai haver aqui com o partido ADN, com o movimento ADN que está aqui junto aos armazéns do Chiado a gritar. É normal que haja aqui alguma tensão à passagem de António Costa.
Vamos continuar a acompanhar esse momento e vamos também perceber como é que correu toda esta arruada ao longo desta tarde aqui na Rádio Observador. Mas Rita, hoje ainda há uma viagem para o norte para fechar todo este dia de campanha.
Sim, esta arruada termina aqui na Rua do Carmo, no fim da Rua do Carmo, não vai até ao Largo da Rua Augusta, como é costume nas descidas do Partido Socialista. É nesta campanha que se decidiu encurtar esta arruada, porque António Costa tem de estar às 20h para alguns diretos televisivos já no Porto, onde ele vai encerrar a campanha no comício no Pavilhão Rosa Mota, onde também vai estar Francisco Assis, que é um dos oradores da noite. Ele que foi um opositor da solução da geringonça durante os anos em que ela durou.
Rita, estamos já a perder um pouco a tua ligação, mas queria só para rematar, quantos quilómetros é que tens neste momento, neste último dia de campanha?
Mais de 3 mil. Sem o Porto ainda, como é evidente.
Mais de 3 mil. Muitos quilómetros. Vamos continuar também a acompanhar este último dia do PS. Aqui contamos com a reportagem da Rita Tavares, que está nesta descida do Chiado por parte do PS, mas quem vai fazer também esta descida, quem vai também estar por esta zona de Lisboa é o PSD. Rui Rio também vai fazer esta famosa descida e portanto junta-se a nós Miguel Santos Carrapatoso, que está a acompanhar a caravana do PSD. Boa tarde, Miguel, já estás conosco?
Boa tarde, Miguel. Estou sim, senhor. Olá.
Queria, antes de olharmos para essa descida que está em agenda, olhar para o que aconteceu de manhã, para as ações de campanha da manhã de hoje, em que Rui Rio quis voltar a afastar-se do Chega.
Na verdade, nem sei se podemos chamar uma ação de campanha. O Rui Rio foi visitar os bombeiros, deu lá uma volta, depois os jornalistas fizeram-lhe perguntas. Inevitavelmente, o tema do Chega, depois dos ataques de António Costa, voltou a ser abordado. Também se falou do episódio de André Ventura e do anel e da música de Rui Veloso. Rui Rio divertiu-se, disse que o Chega não conta, está fora da equação. Logo se verá se é assim mesmo no caso do PSD vencer as eleições. Agora, nós próprios jornalistas já não temos outra forma de perguntar a Rui Rio sobre o Chega. O líder do PSD vai dizendo sempre que não, que não contou com o Chega, que o Chega é que tem de decidir o que fará se for confrontado com o orçamento do Estado do PSD. E portanto, Rui Rio não sai daqui e...
Perdemos aqui momentaneamente a ligação com o Miguel Santos Carrapatoso. Vamos tentar recuperar esta ligação.
Já me conseguem ouvir?
Agora sim, Miguel.
Estava a dizer, não sei em que parte é que fiquei exatamente, mas estava a dizer que Rui Rio parece finalmente ter enterrado de vez aquela ambiguidade que existia em torno da relação com o Chega. Agora, é sempre importante fazer esta salvaguarda. Logo se verá se a prática parlamentar vai provar ou não isso mesmo. Rui Rio, nesta campanha, disse as vezes que foram precisas que não, que não contou com o Chega e não perdeu uma oportunidade de ridicularizar André Ventura. Desta vez, até a propósito da música, disse que o líder do Chega tinha uma voz de cana rachada e portanto nem isso queria do líder do Chega.
Vamos ao que falta do dia. O PS está agora no Chiado, o PSD também vai passar por lá.
Sim. Ontem Rui Rio desceu a Santa Catarina no Porto, a Baixa do Porto, e descer aqui é um exagero da minha parte, porque Rui Rio, ao contrário do que se esperava, entrou a meio do percurso, andou a meio dos edmécios e exarpou. Não sabemos exatamente o que é que fará agora na Baixa Lisboeta, mas sim, vai tentar fazer mais uma demonstração de força. Rui Rio tem tido casas muito bem compostas. Ontem a Rua Santa Catarina no Porto estava apinhada de gente. É possível e é bastante provável que tenha existido uma grande mobilização também para compor o último boneco da campanha. Quando digo boneco, digo as imagens para a televisão. E portanto, o PSD está muito empenhado nestas demonstrações de força. Vamos ver como corre. Agora, de facto, já interessa muito pouco, já está toda a gente a pensar no dia 30 e já está toda a gente a olhar para as sondagens internas ou não, ou oficiais. Neste momento, há uma grande incerteza sobre o que é que pode acontecer. Vai ser até à última taco a taco
E o que marca neste momento o teu conta-quilómetros?
O conta-quilómetros parou finalmente. Chegamos a Lisboa depois de muito tempo fora de casa e ficamos nos 4020 km.
Muito quilómetro. Hoje é o último dia de campanha. Vamos ter uma cobertura alargada também aqui na Rádio Observador. Temos também um caça ao voto especial logo depois das 19h para acompanhar os últimos momentos da campanha. Obrigado, Miguel Santos Carrapatoso vai acompanhar também essa ação de campanha no Chiado por parte do PSD. Nós terminamos, por agora, a nossa viagem. Já a seguir temos o meu primeiro voto. Tânia Olinec tem 21 anos e vota pela primeira vez. Não é um erro nosso. Só com 21 anos é que esta jovem tem permissão para votar. Tânia é imigrante. Com sete anos, mudou-se da Ucrânia para Portugal com a família e depois de grandes voltas burocráticas, só agora tem autorização para votar. Este é o meu primeiro voto e a conversa com Vicente Figueira decorre em frente à Assembleia da República. Tânia Olinec garante que tem um nervoso miudinho quanto ao voto de domingo e começa por recuar no tempo para nos contar como chegou a Portugal.
Eu já estou aqui desde os meus sete anos. Cheguei assim um bocado de paraquedas, lembro-me perfeitamente, até que nem vim de avião, vim de autocarro. Ou seja, foi aquela viagem de quatro dias sem saber sequer para onde eu ia. Foi muito engraçado. Os primeiros anos digo que foram difíceis no aspeto de adaptar-se à língua, às pessoas, ao ambiente, às leis. Foi tudo um bocado complicado, porque era uma criança sem saber sequer o que estava a acontecer à minha volta. Depois acabei o meu secundário, fui estudar administração pública e atualmente sou promotora da UNICEF.
Muito bem, e há aqui uma questão que é: tens 21 anos, estás cá desde os sete, só agora vais votar pela primeira vez. O que se passou? Por que demorou tanto?
Exatamente. Ser imigrante obviamente não é muito fácil em todas as condições, ou seja, condições financeiras, sociais. E portanto, o que foi difícil? Foi difícil o facto de eu não ter condições para me tornar portuguesa, porque o problema da Ucrânia é que a partir do momento que nós queremos tornar-nos outra nacionalidade, nomeadamente portuguesa, eu tenho que desistir da minha. E para desistir do próprio país, e ainda por cima a Ucrânia, é toda uma justificação complicada. Portanto, foi um processo muito longo, muito difícil, porque no início foram as condições financeiras que não eram fáceis para conseguir, depois quando as consegui, já era a documentação, depois foi a pandemia, depois foi tudo um caos. Então só consegui ter nacionalidade há dois meses. Portanto, apenas com 21 anos, tendo em conta que já estou aqui há 13 anos, é que consegui ter nacionalidade portuguesa.
E por isso o voto tem especial importância para ti. Foi mais difícil de conquistar. Ganhaste-o bem. E tendo em conta se tens noção de como é que é a realidade de outras pessoas em situação de imigrante, que chegam e são imigrantes, conheces mais casos de pessoas que também passam pelas mesmas dificuldades e não têm a possibilidade de exercer este direito.
Conheço, sim, senhor. Até porque tenho muitos amigos meus que são imigrantes e às vezes nós falamos disto e falamos, por exemplo, da política. Porque eu tenho bastante interesse na política, no entanto, eu não cresci num ambiente político. Ou seja, obviamente que a minha família, por exemplo, não sabe o código civil, nem sabe sequer provavelmente os direitos que tem. Portanto, isto foi sempre um obstáculo na minha família, porque havia condições ou havia situações que eles tinham que fazer e não sabiam que leis ou que regras eles poderiam ter ou usufruir. As pessoas que mesmo já tendo a nacionalidade portuguesa, ainda não votam porque não têm conhecimentos para isso, não cresceram num ambiente em que isso fosse falado.
Falta informação.
Exatamente.
E como é que achas que isso podia ser resolvido?
Sinceramente, eu acho que a política não é abordada, por exemplo, nas escolas. Acho que falta muito o incentivo para os jovens de verem as notícias, de falarem disso. Por exemplo, a política apenas é abordada em casas de famílias, ou seja, se a família falar ou seguir as notícias, o telejornal ou algo do gênero, aí ok, o jovem também irá ouvir acerca disso. Agora, numa casa, por exemplo, eu nem sequer tenho a televisão portuguesa, ou seja, nem sequer vejo notícias portuguesas, portanto, não é um ambiente em que se fale política. Eu acho que é algo que deveria ser falado exteriormente, por exemplo, na escola.
E Tânia, agora que já conquistaste esse direito, com muita luta à mistura, como é que estás a aguardar o próximo dia, o domingo, dia 30?
Estou um bocadinho nervosa, porque é o primeiro voto. Obviamente que o primeiro voto traz um bocado de ansiedade e aquela ansiedade de querer ir e de pegar na caneta e estar ali. Estou a me preparar ligeiramente no aspeto de ver novamente os debates, por exemplo, ver novamente as coisas que eles têm para oferecer e as coisas que eles falam, uns toques ligeiros finais, mas obviamente que isto já é algo que tenho passado há muito tempo. Só agora é que posso usufruir.
O meu primeiro voto. Este e os restantes episódios estão disponíveis na íntegra, no Instagram da Rádio Observador e do Observador, no YouTube e também no site. E agora, um momento que até tem algum humor. Tiago Dores junta-se a este caça ao voto para revelar, com uma fina análise, os melhores tesourinhos da campanha.
Campanha eleitoral legislativas 2022. Minutâncias das bem parvas em torno das eleições.
Bem-vindo, Tiago.
Boa tarde, Miguel. Muito obrigado.
Viste que reparaste que eu disse que tem algum humor.
Arriscaste, é arriscado, porque eu estava a pensar como é o último dia, estava a pensar: "Epá, termos uma conversa séria". Afinal de contas, isto é uma coisa séria, votar.
Então, mas tens uma coisa séria.
Eu vou tentar improvisar qualquer coisa.
É isso. O que tens hoje para este último dia de campanha?
Sim, hoje é o último dia da campanha, mas convém não esquecer que o facto de este ser o último dia de campanha faz dele, em simultâneo, o dia de pré-reflexão. Amanhã é o dia de reflexão. Hoje é o dia de pré-reflexão.
Nunca tinha ouvido falar.
Não?
Mas o que se faz neste dia de pré-reflexão? Pré-reflete-se, é isso?
Miguel, eu agradecia que mantivéssemos um nível de conversação consentâneo com a relevância democrática de que se reveste este ato eleitoral para o nosso país.
Desculpa, esqueci-me que eram coisas sérias hoje.
Exatamente. Eu tive o cuidado de salientar isso de início.
Tiago, podes então, por favor, explicar-nos o que devemos fazer enquanto cidadãos cumpridores dos deveres cívicos neste dia de pré-reflexão?
Basicamente é pré-refletir, Miguel. Estás a perceber? Basicamente é isso.
E em que consiste a pré-reflexão?
No fundo, a pré-reflexão funciona com base no mesmo princípio da pré-fritura, que se usa, por exemplo, nas batatas fritas congeladas. Fazes uma reflexão prévia e depois quando fores refletir amanhã, a reflexão já é muito mais rápida e mais crocante. Além de que assim te sobra tempo para o que é realmente importante amanhã: ver de enfiada na Netflix tudo o que é série Nordic Noir.
Certo.
Acertou.
Podemos, se faz favor, voltar aqui ao ato eleitoral.
Por que Nordic Noir se se está a falar de séries escandinavas? Se calhar não é Nordic Noir.
Pois, mas temos certamente tema para um outro programa.
Para outras eleições.
Para outras Minudências. Mas eu queria voltar ao ato eleitoral, é isso que nos traz aqui.
Vamos voltar, mas vamos com calma, Miguel. Noto-te um bocadinho tenso. Também não vale a pena, são só mais umas eleições. Temo-las tido com fartura e já deu para perceber que não é por isso que vamos a lado nenhum. Portanto, eu pedia alguma calma a ti, Miguel, e ao pessoal do Chega de Santarém.
O Chega exige a prisão perpétua para os homicidas, para os violadores, para os terroristas e para os pedófilos. Chega de impunidade em Portugal.
Não é preciso ouvir. Acho que vou ter que ir buscar um bocadinho de algodão, que estou a sangrar dos ouvidos. Desagradável isto. Se bem que este tempo de antena acaba por revelar uma vertente programática do Chega muito importante, que eu desconhecia, confesso, nomeadamente ao nível da inclusividade. Não te parece?
Da inclusividade?
Inclusividade, sim.
Não será dos temas que mais depressa associamos ao Chega, a inclusividade.
Pois não, mas a verdade é que este género de tempo de antena é extremamente inclusivo, na medida em que é o garante de que nenhum português, por mais grave que seja a sua perda auditiva, deixa de ficar informado acerca das propostas do Chega.
Digamos que não é o tipo de tempos de antena mais discretos.
Pois não. Discreto, Miguel, é Francisco Rodrigues dos Santos. E para confirmá-lo, basta atentar nas declarações perentórias do líder do CDS acerca do fato de vários líderes partidários terem exposto publicamente os seus animais de estimação.
O Francisco não aderiu às publicações nas redes sociais que os líderes partidários fizeram com os animais de estimação. Tem animais?
Eu não percebi porque é que os partidos políticos nesta altura, os principais líderes, dedicaram à política um período a que eu chamo o fungaga da bicharada, quando há tantos assuntos importantes para tratar na vida do país. Pelo visto, o que é importante é a tal justificação dos animais de estimação dos líderes partidários.
Finalmente, alguém com bom senso a denunciar esta parvoíce de se perder tempo precioso de campanha com conversetas parvas sobre cães e gatos, nem mais. Mas eu quero lá saber se o Francisco Rodrigues dos Santos tem animais de estimação.
Eu tenho dois gatos com a minha mulher, o Tico e o Piki, que foram dois gatos que nós tirámos da rua. E no início desta campanha eleitoral, logo na primeira ação de campanha na Feira de Santana, encontrámos um outro gato que estava perdido debaixo de um carro e também já o adotámos. Portanto, agora temos um terceiro elemento também da família, a que chamámos Floki. Portanto, neste momento eu e a minha netemos três gatos.
Mas eu tinha dito explicitamente que queria lá saber se o Francisco Rodrigues dos Santos tem animais de estimação. E o próprio Francisco Rodrigues dos Santos tinha condenado este fungaga da bicharada. E no entanto, já sei que o Tico e o Piki têm um novo companheiro de seu nome Floki, que estava perdido debaixo de um carro e foi recolhido pelo Chicão e pela esposa na primeira ação de campanha na Feira de Santana. Mas qual é a relevância disto, senhores?
Mas enfim, eu não acho que seja de grande relevância política pública estar a fazer como os outros líderes partidários, a anunciar os nomes dos meus gatos e a dizer que também tenho uns animais de estimação.
Mas foi exatamente o que acabaste de fazer, Chicão. São o Tico, o Piki e o Floki.
Calma, Tiago.
Desculpa, Miguel.
E tendo em conta que querem estar esclarecidos os pontos-chaves desta campanha, acho que agora sim conseguimos chegar aos pontos-chaves.
Eu creio que sim, também.
E agora que já te acalmaste também em relação a isto.
Um bocadinho, sim, já me acalmei um pouco.
E ao fungaga, eu queria agradecer-te, despedir-me até para uma próxima oportunidade.
Pronto, caro Miguel, foi um gosto. No entanto, não posso ir embora. Peço desculpa, mas não posso ir embora sem solicitar a tua ajuda. É só uma ajuda que eu preciso, que é o seguinte: eu tenho ouvido com atenção a rubrica A Última Chamada, em que vocês telefonam aos líderes partidários a perguntar como correu a campanha. O problema é que vocês ligaram à André Ventura, mas eu não recebi o áudio da chamada completo. Está cortada a chamada que eu recebi. Repara, eu só tenho isto.
E de manhã, quando se levanta, qual é a primeira tarefa do dia?
De manhã, quando levanto, a primeira tarefa do dia é tocar no...
Cá está, percebeste? De manhã, quando me levanto, a primeira tarefa do dia é tocar no... Fiquei sem saber qual é a primeira coisa em que André Ventura toca assim que se levanta. Será no despertador? Ou talvez no interruptor da casa de banho? Como dizer isto de forma elegante e aqui na rádio? Será que a primeira coisa em que André Ventura toca assim que se levanta é no...
Acho que estamos bem assim. Porque a verdade é que eu até tenho aqui a chamada telefónica completa.
Podemos? Ok.
De manhã, quando levanto, a primeira tarefa do dia é tocar no crucifixo.
Muito obrigada, André Ventura. Boa noite.
Obrigado, boa noite.
No crucifixo, era isso, claro. Tinha a palavra debaixo da língua, no crucifixo. Agora sim, que sabemos qual a primeira coisa em que André Ventura toca assim que acorda, temos toda a informação de que necessitamos para votar em consciência.
É verdade. E estas chamadas estão todas publicadas em observador.pt. Podem ouvir estas chamadas com os líderes partidários.
Para ver em que é que os líderes tocam. Qual a primeira coisa em que tocam de manhã.
Mas fica aqui a faltar uma informação.
Que é qual?
Falta dizer que este espaço é da exclusiva responsabilidade da organização interveniente. Tiago Dores.
Campanha eleitoral legislativas 2022. Minudências bem parvas em torno das eleições.
Foi uma bonita viagem, Tiago.
Obrigado, Miguel.
Termina mais um Caça ao Voto.
Não teve 4 mil km como a dos repórteres do Observador, mas foi o que se arranjou.
Mas foi a viagem possível. Termina mais um Caça ao Voto aqui na Rádio Observador, está sempre disponível em podcast. A sonorização foi do Diogo Casinho e do Bernardo Almeida. Eu sou o Miguel Cordeiro. No dia 30 há eleições legislativas.
Obrigada por ter ouvido este podcast. Se gostou, pode subscrevê-lo, pode partilhá-lo e também pode ouvir a Rádio Observador online em 98.7 em Lisboa e em 98.4 no Porto.