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É a segunda edição especial do Café Espanha, neste domingo, 23 de julho, dia de eleições em Espanha. Já não são horas para o Jorge Fernandes beber café, que está noutro fuso horário, mas vamos contar com ele amanhã de manhã. Contamos com os outros dois comentadores deste programa, o Diogo Noivo e o João Diogo Barbosa, e também com a Filomena Martins. Filomena, eu estou a roubar o teu lugar, tu és a dona do café, mas eu também quero ter sociedade contigo.
Hoje só vim beber um golinho a esta hora.
É isso. E também é importante, sobretudo depois de tantas horas de emissão. E sei que amanhã também tens nova dose extra de Café Espanha.
Vim beber duas chávenas.
É isso, duas chávenas. Vamos começar pelo João Diogo Barbosa. João, isto vai para aqui uma trapalhada.
Exatamente, eu estava a ver como é que se dizia trapalhada em castelhano antes de começar o programa. É daquelas noites eleitorais em que nós começamos a dizer que precisamos de mais tempo para ver os resultados e formar uma opinião, mas agora no final da noite, acho que estamos exatamente onde estávamos quando começamos. Quase toda a gente ganhou e quase toda a gente reclamou vitória. A grande exceção é o Vox, que definitivamente perdeu as eleições e perdeu quase metade do seu grupo parlamentar. Quanto ao resto, o PP teve uma grande vitória, conquistou quase 50 lugares e hoje vale quase tanto sozinho quanto o PP e o Vox valiam na anterior composição do Congresso dos Deputados. O próprio PSOE, que todos nós esperávamos que fosse perder pelo menos uma dezena de lugares, acabou por ganhar dois lugares com os resultados que conhecemos e o Sumar, extraordinariamente, um movimento que não era um partido até há bem pouco tempo, conseguiu manter a representação de 2019. Portanto, acho que são resultados que mostram como está complicada a situação em Espanha e como há um grande incentivo para, se calhar, procurar o voto útil. Definitivamente, os partidos do centro são aqueles que ganham lugares, mas não é fácil perceber como é que o bipartidarismo se pode reconstruir já com uma coligação ou com uma tolerância do PSOE ao PP. Acho que este foi o primeiro passo para recuperar a tendência do centro. Vale a pena pensar que em 2019, PP e PSOE somados valiam menos de 50% dos votos. Hoje estão, provavelmente, um bocadinho acima dos 60%. Essa é uma grande evolução e parece-me que para um país como Espanha, que teve anos tão difíceis, uma evolução para o centro é uma notícia que vale a pena dar.
Diogo Noivo, temos aqui contas a fazer e tens feito essas contas ao longo desta noite. Temos aqui dois cenários possíveis para que tanto o PP como o PSOE possam vir a conseguir a maioria absoluta. Já percebemos que à esquerda é mais fácil, mas o PP pode vir a conseguir, por exemplo, o apoio do Partido Nacional Basco. Que contas é que andaste aí a fazer?
Sim, é possível. Antes de mais, cumprimentar o meu camarada e dizer que é enternecedora a vontade que ele tem de manter o bipartidarismo vivo. Estamos todos agarrados à calculadora a tentar fazer equilíbrios e perceber como é que se forma uma maioria, mas o meu camarada continua a acreditar no bipartidarismo. Acho que sim, acho que a fé é a última coisa a perder. Sim, a direita pode chegar a uma maioria absoluta, se conseguir somar Vox, Partido Nacionalista Basco, Coligação Canária e União do Povo Navarro. Isto dá 176 deputados. Agora, é uma equação praticamente impossível de fazer. Do ponto de vista matemático, existe, mas do ponto de vista político, talvez não. Desde logo, a começar pelo Partido Nacionalista Basco. Nós assistimos a uma coisa sem precedentes no País Basco, o Partido Nacionalista, que em boa verdade é o partido que inventou a ideia de nação basca. Não havia nação basca, nem tampouco essa ideia, antes da fundação do PNV há 130 anos. É o partido hegemônico na região e perdeu agora essa hegemonia para o Bildu, que é um partido nacionalista, separatista, herdeiro da ETA. Há alguns sinais de radicalização no País Basco, sobretudo junto dos jovens. Nunca pensei que isso se traduzisse num resultado tão bom do Bildu. Sabia que essa possibilidade existia. Bom, aconteceu. E portanto, o PNV vai medir muito as suas distâncias com o Bildu, tanto mais que próximo ano há eleições autonómicas no País Basco e estes dois partidos vão competir pelo Lehendakari, ou seja, pelo presidente da Comunidade Autônoma Basca. Portanto, a maioria à direita matematicamente é possível, mas politicamente é praticamente impossível. À esquerda, o PSOE pode-se juntar ao Sumar, pode-se juntar à Esquerda Republicana da Catalunha e ao Junts per Cat, a este Euskal Herria Bildu separatista basco, ao Bloco Nacionalista Galego e, porventura, dependendo de um conjunto de equilíbrios, o PNV e a Coligação Canária também não seria impossível. Estamos a falar de um governo ainda mais Frankenstein do que o governo que esteve em funções nos últimos quatro anos. Estamos a falar de um governo apoiado por partidos extremistas, no caso de esquerda, que em boa verdade seria reeditar o que já aconteceu nos últimos quatro anos. E uma das coisas que era preocupante nestas eleições era que ganhando de esquerda ou ganhando de direita, íamos ter sempre extremistas ou dentro do governo ou a apoiar o governo. Havia uma margem muito ligeira, se o PP conseguisse 160 deputados, ainda havia a possibilidade de haver um governo do PP sem o Vox, isso não aconteceu. E, portanto, confirmam-se os piores cenários, é que não há governo sem extremistas, nem à direita, nem à esquerda. Eu acho que isso tem um custo muito elevado para a democracia espanhola Aliás, há até um custo territorial. O governo de esquerda estará dependente dos partidos separatistas catalães, que são partidos que perderam votos e mandatos. Portanto, temos um país inteiro, 17 regiões, refém de uma, e em particular essa uma é representada por dois partidos que perderam votos e mandatos. Não me parece que isto seja muito positivo para a qualidade institucional e para a democracia espanhola.
Partidos que, de resto, já disseram que querem contrapartidas e, portanto, Filomena Martins, têm esse caderno de encargos e podem ser uma chave importante para aquilo que vai acontecer para esse novo governo em Espanha.
Sim, e na verdade disseram-no não só hoje depois da votação, como antes tinham dito. Disseram que claramente o preço a pagar seria outro para darem o apoio ao PSOE para um governo e se o apoio já foi muito, e eu acho que teve custos muito fortes para o PSOE nas regionais, durante as eleições de 28 de maio. Parece que entretanto os espanhóis se esqueceram. Eu acho que o grande problema de Pedro Sánchez durante as eleições de 28 de maio foi exatamente as listas que integraram alguns membros do Bildu condenados por crimes de sangue, ou seja, por assassinatos, por mortes, que os espanhóis jamais esquecem. Mas entretanto, parece que se esqueceram disso, apesar do Bildu ter dito que o preço a pagar por apoiar um novo governo do PSOE seria mais caro, seria um outro preço, e também quer do ERC, do partido da Catalunha, ter dito o mesmo, que qualquer preço seria outro. Era: "Vamos ver, vocês têm um partido e nós também temos. Vocês são um país e nós também somos um país". A frase foi muito forte, o que nos traz aqui um problema que é o PSOE ser governo em Espanha, dependendo do Puigdemont.
Um risco cada vez maior de desagregação em Espanha, João Diogo Barbosa.
Sim, eu acho que vai ser muito interessante acompanhar as negociações de Sánchez com os independentistas, porque a situação mudou e eu acho que a posição negocial de Sánchez é mais forte agora. Por um lado, porque pode usar o argumento de: "Bem, vocês não me apoiam a mim, vão ter um governo PP e Vox, que seguramente vai ser ótimo para os vossos interesses". E parece-me que as autonomias, aliás, os partidos independentistas não querem um governo do PP e do Vox e estão dispostos a negociar para o evitar, mas também porque a narrativa política em Espanha hoje alterou e parece-me que é hoje muito mais Sánchez que surge com uma dinâmica de vitória e de embalo, possivelmente numa repetição eleitoral, do que o bloco da direita. Feijóo surgiu cansado, abatido e um pouquinho chocado. O Vox acha que perdeu lugares porque as eleições foram feitas no verão. E há aqui uma hipótese claramente de Pedro Sánchez esticar a corda na negociação, porque sabe que com este ambiente pode ser bom para si ter uma repetição eleitoral. E, portanto, há o risco da fragmentação de Espanha, e esse parece-me relevante, mas há ainda o risco de a negociação ser muito pesada para os partidos independentistas. E neste momento, não me parece óbvio que as negociações cheguem a bom porto, sobretudo porque Sánchez tem agora uma posição que não tinha em 2019 e que este pode ser mesmo o momento ideal para tentar dar mais uma machadada no PP, que está perdido, claramente perdido. Sánchez conseguiu controlar a situação política ao marcar eleições para agora e se conseguir encaminhar as negociações para justificar novas eleições, parece-me que pode ter aí ganhos e mais uma vez reforçar a sua posição negocial.
Já vamos perceber quanto tempo é que pode demorar até voltarmos a ter governo ou termos um novo governo em Espanha, até porque, como dizias, as negociações devem ser difíceis. Vamos fazer só uma curta pausa neste Café Espanha para apanhar o ar das notícias. Fazemos um ponto de situação já a seguir. Olé! Toda a gente a proclamar vitória em Espanha. Toda a gente aqui, claro, PP e PSOE, grande festa nas duas sedes de campanha dos dois partidos, mas olhando para as contas, se olharmos só para o partido mais votado, quem ganhou foi o PP, com 136 deputados, mas nem com o Vox consegue a tal maioria absoluta. O PSOE fica em segundo, 122 deputados, mas com os partidos à esquerda conseguirá formar uma maioria absoluta. Falávamos na primeira parte deste Café Espanha que as negociações devem ser difíceis, era o que estava a apontar o João Diogo Barbosa. E Diogo Noivo, olhando aqui para o calendário, isto talvez nem em algumas semanas se resolva.
Provavelmente não. Do ponto de vista constitucional, um candidato a presidente do governo, em princípio, será primeiro Alberto Núñez Feijóo, pode se candidatar à investidura, não consegue maioria absoluta, vai a segunda votação dois dias depois, basta maioria simples Parece-me que a maioria do bloco é à esquerda. Portanto, será Pedro Sánchez a avançar para a investidura. E eu acho que aí na segunda votação com maioria simples, conseguirá ser investido o presidente do governo. Mas enfim, se nada destas contas saírem, Espanha tem essencialmente dois meses para tentar formar governo. Se não conseguir nesses dois meses, então teremos novas eleições. É claro que cada processo de investidura se pode arrastar um bocadinho e isto não são bem dois meses, mas enfim, o quadro constitucional são de dois meses. E, portanto, sim, teremos novas eleições. O que não deixa de ser bizarro, porque se nós pensarmos bem nos resultados da direita, PP teve um bom resultado, teve um crescimento muito significativo. PP e Vox juntos ficam apenas a sete deputados da maioria absoluta. Portanto, isto não é um resultado mau, de todo.
E o PP conseguiu três milhões de votos a mais.
Mais três milhões de votos, e ainda assim não vão conseguir governar. Eu acho que isso também é uma daquelas coisas que nos deve levar a refletir sobre o que é o estado da democracia parlamentar espanhola.
E percebemos, pelo que disse o líder do Vox, Santiago Abascal, também culpou o próprio PP por não ser possível formar uma maioria à direita, dizendo que o apelo ao voto útil acabou por contribuir para isso mesmo. João Diogo Barbosa, temos aqui um ajuste de contas dentro da direita. Começou esse ajuste de contas.
Sim, e Abascal será provavelmente a pessoa em pior posição para o fazer. A campanha do PP resultou. Vale a pena notar que todos estes indicadores de melhoria na situação do PP são impressionantes, mas não são suficientes para chegar à maioria, porque o PP partia de uma base muito baixa. Vale a pena recordar que o PP tinha 89 deputados, enquanto o Vox tinha 52. Portanto, o PP estava no osso, verdadeiramente, depois de 2019, ainda que um bocadinho antes tivesse tido um resultado pior, mas estava numa fase mesmo muito complicada. E o que Feijóo conseguiu trazer foi um PP normal. Um PP que está, juntamente com o PSOE, a representar a grande maioria dos espanhóis, mas que por si só não conseguiria formar maioria. E esse também pode ser um tema para discutirmos, porque no início da campanha havia a ideia de que se as coisas corressem bem, talvez fosse possível uma maioria absoluta do PP. Agora, o bloco de direita, por si só, não conseguir chegar à maioria, parece-me que diz qualquer coisa sobre o Vox mais do que sobre o PP. Eu não acho que a fragmentação seja necessariamente uma questão autofágica, ou seja, eu acho que o PP, mais do que o Vox, pode crescer para lá da direita e que se não foi possível, por exemplo, chegar ao número dos 150 lugares, foi porque falhou não o discurso do voto útil à direita, mas o discurso do voto útil em relação ao PSOE, e que falhou porque os eleitores do PSOE, tanto quanto conseguimos perceber, tiveram grande receio de um governo de coligação à direita. E aí, novamente, Feijóo, pelo fato de não ter tratado bem a questão do Vox durante a campanha, tinha um contexto muito difícil, tinha de estar a renegar o Vox a nível nacional, ao mesmo tempo que o PP fazia acordos ao nível regional. E isso tornou-se um grande incômodo para si, que culminou na semana passada no debate a três, em que Feijóo não apareceu porque não queria ser visto ao lado de Santiago Abascal, sem que Pedro Sánchez fosse visto ao lado dos independentistas. Mas há aqui uma lição a tirar e sobretudo importante, porque podemos estar apenas a dois terços do ciclo eleitoral, isto é, pode haver uma repetição das eleições nacionais. É necessário ser claro em relação ao Vox, parece-me. A ideia de que se pode demonstrar algum incômodo enquanto se aceita um governo, que foi a estratégia de Feijóo, ou seja, demonstrar sempre grande incômodo com a possibilidade de ter Vox no governo ou de ter o apoio do Vox, mas procurar não fazer disso um tema de campanha, não resulta para chegar à maioria absoluta. Acho que o PP vai ter sempre este tema e que enquanto não conseguir encontrar uma posição suficientemente equilibrada, que não é a de nós governamos primeiro com o apoio do PSOE e só depois vamos pensar no Vox, enquanto não for possível ter uma posição clara e que diga qualquer coisa aos eleitores da direita, o PP não vai ter grande facilidade em chegar à maioria absoluta. E com isso, o grande beneficiado é o PSOE, simplesmente porque tem mais opções para fazer maioria. E essa foi também uma grande lição das eleições de hoje. Se chegarmos a uma situação de bloqueio, de quase empate entre os dois blocos, o bloco da esquerda tem mais soluções e, portanto, estará naturalmente beneficiado. Há aqui muita coisa a aprender. O bloco da direita terá agora um tempo para conversar e eventualmente ponderar não só o que fazer para chegar a acordo para governar, mas também o que fazer em caso de repetição eleitoral. E acho que é preciso ajustar algumas agulhas na forma de fazer campanha e na forma de pensar no bloco da direita em relação ao bloco da esquerda.
E falando em clareza e ouvindo essas palavras do João Diogo Barbosa, Filomena Martins, será uma lição que estará também a ser aprendida por Luís Montenegro, em Portugal?
É preciso tirar as relações aqui, não é por acaso que todos os, pelo menos Montenegro e E André Ventura já se pronunciaram sobre isso, tal qual como Joana Mortágua também o fez, e o fizeram mais políticos portugueses sobre estas eleições. Aliás, havia dentro da direção do PSD quem considerasse que estas eleições espanholas eram uma espécie de laboratório para o que podia vir a acontecer em Portugal. E trouxido, as pessoas perceberam aqui que a ideia de poder governar com o Vox, diabolizada pelo PSOE, que é também uma das marcas que o PS português está a fazer, está a diabolizar claramente o Chega e faz questão de fazer isso, é uma espécie de dividir para reinar, tentar separar a direita e dividir os votos pela direita para poder ganhar mais votos para si, para António Costa, para o PS. Este diabolizar dos partidos extremistas de direita é uma forma de conquistar votos para o PSOE. Não sei se Sánchez foi com este método que conseguiu mais votos e estes mais dois deputados, mas se foi com este método, significa que o seu amigo António Costa, ou quem copiou a ideia de um para o outro, funcionou, a estratégia funcionou. E se é assim, esta é uma lição que tem de ser estudada por Luís Montenegro, sendo que, ao contrário de Espanha, Alberto Núñez Feijóo deixou claro que não seria a sua ideia preferida negociar com o Vox, mas que o faria se tivesse que fazer. Montenegro, tal como antes Rui Rio, fizeram sempre disso um tabu. Disseram sempre que o Chega não era uma opção para negociar. Deixaram sempre o Chega de parte. Feijóo fez questão de marcar só distâncias para o Chega nesta última semana de campanha, em que claramente pôs o Vox como uma opção a não levar em conta. Eu também não sei se isso lhe correu bem, acho que até lhe correu bastante mal. Portanto, há aqui também uma lição a tirar disso. Acho que as pessoas querem saber com o que contam e querem saber com quem vão governar ou ser governadas, e isso tudo aparece aqui junto. Portanto, sim, acho que é preciso olhar para o que aconteceu aqui ao lado e perceber se o país fica parado ou não fica, porque António Costa, ao contrário de Pedro Sánchez, acho que já não tem hipótese de fazer uma outra geringonça.
E António Costa ainda não se pronunciou sobre estas eleições espanholas. Estava aqui a espreitar o Twitter do primeiro-ministro e do secretário-geral do PS. Mas da parte do Partido Socialista, foi Carlos César quem se pronunciou dizendo que está à espera que Pedro Sánchez renove a coligação que tinha, portanto, está à espera de uma geringonça, mas desta vez, Diogo Nova à portuguesa, porque desta vez não é o partido mais votado que vai encetar uma coligação Frankenstein em Espanha. Desta vez, se acontecer, será mesmo uma solução como a que temos cá em Portugal.
Sim, será isso. Voltando só um pouquinho atrás, sobre as lições à direita, eu ainda não consigo tirar lições à direita, porque fazendo contas rápidas, vamos imaginar que o Partido Popular engolia o Vox. Ainda assim não chegava à maioria absoluta. E, portanto, a ideia de que o caminho para as direitas ibéricas é engolirem o partido à sua direita, que isso resolve o problema, com estes resultados não estou a ver isso. Por outro lado, o PP tem uma solução para a direita radical, e essa solução já funcionou na Andaluzia e já funcionou em Madrid. Em Madrid, o Partido Popular manietou por completo o Vox e tem maiorias absolutas. O caso da Andaluzia é especialmente importante porque a Andaluzia é uma região de esquerda há 100 anos, onde o PSOE governou ininterruptamente desde que há eleições livres em Espanha. E o PP hoje governa com uma maioria absoluta depois de um acordo pontual com o Vox. Portanto, eu acho que a direita espanhola tem soluções para o Vox. Desta vez não funcionou, importa perceber por quê. Achar que engolir o Vox resolve o problema, pelas minhas contas, não, não resolve o problema.
O que é que falhou na estratégia de Feijóo?
Eu acho que Feijóo, uma das coisas, e aliás, aqui para o Observador, até tive a oportunidade de escrever isso, Feijóo apostou nos dois tabuleiros, a favor e contra a esquerda radical. Portanto, foi um equilíbrio difícil. Porventura, devia ter sido mais claro, e eu acho que devia ter sido mais claro. Mas Feijóo pôs em marcha uma dinâmica de voto útil à direita. Ou seja, Feijóo foi buscar mais votos e mais mandatos, mas fê-lo esvaziando o único partido no qual se podia apoiar. E, portanto, o Vox é sobretudo vítima do PP. O Vox não é vítima de mais nada, é do PP. E, portanto, daí achar que há aqui um erro estratégico do PP, que nós em Portugal devemos aprender com isto, talvez. Acho que é demasiado cedo para estarmos a tirar essas conclusões. A esquerda vai fazer uma geringonça à portuguesa, ou vai tentar, pelo menos, o segundo partido mais votado liderar um governo, o que em si eu acho que não constitui nenhum problema, acho que é uma solução perfeitamente legítima, constitucional.
Mas não é historicamente o que acontece em Espanha.
Não é historicamente o que acontece em Espanha. A Espanha é uma democracia parlamentar e, portanto, o que importa são os equilíbrios feitos no Parlamento e, portanto, não é uma solução que me pareça ilegítima ou que seja vista como ilegítima. Eu acho que a gravidade da solução à esquerda Está no tipo de partidos nos quais o Partido Socialista se vai apoiar. Se estamos no momento em que entendemos que é importante defender a democracia e as suas instituições, acho que devemos olhar com muita atenção e com muita preocupação para o tipo de equilíbrios de poder que o PSOE se prepara para fazer.
João Diogo Barbosa, olhando para o que disse o Diogo Noivo.
Sim, eu queria discordar do Diogo em relação à questão do Vox, porque eu acho que os blocos não são estancos e, portanto, se o PP, por hipótese, engolisse o Vox, eu acho que o PP tinha boas possibilidades de ir buscar também votos ao PSOE. Aqueles dois lugares que o PSOE hoje conquista vêm de algum lado e não vêm só da Catalunha.
Desculpa, João Diogo, vêm dos cidadãos.
Exatamente. E os cidadãos poderiam perfeitamente integrar a grande coligação do PP. Aquilo que eu quero dizer é que há muita gente a votar no PSOE com receio do Vox. E, portanto, a falta de clareza do PP tem um efeito não só no bloco da direita, mas também no grande centro que o PP necessita, e isso hoje ficou claro, para governar com maioria. Eu acho que a questão não se pode ver apenas no que a direita vale hoje, que vale muito mais do que valia em 2019, mas também no bolo completo e naquilo que o PSOE faz hoje, que é um resultado extraordinário, em que passa de arriscar perder 10 ou 20 lugares para conquistar dois. Eu acho que vem muito daí. E o facto de o PP ter conseguido uma estratégia de voto útil à direita, que funcionou bem, porque o Vox, de facto, perdeu lugares perante a força do PP, não explica tudo. O PP ganha 47 lugares, eles não vêm todos do Vox.
O que mostra é que o PP com a postura que tem, ainda consegue ir buscar votos ao centro, é isso?
Exatamente, mas não os suficientes para formar a maioria. E esse é o ponto.
João Diogo, mas mostra que a relação que o PP tem com o Vox não impede o partido de ir captar votos ao centro.
Mas impede, aparentemente, até agora, pelo menos, impede de conseguir uma maioria absoluta.
Mas ficaram a sete deputados da maioria absoluta. Não é muito relevante, não é?
Do ponto de vista das coligações, é mais ou menos o mesmo que ficar a 20 lugares, porque não há grandes caminhos. Haverá um caminho e, portanto, não é indiferente estar a sete lugares. Mas parece-me que é daí. Eu acho que a grande notícia e a grande derrota para o PP vem do facto de o PSOE ter conseguido não só conter os danos, como ainda ter crescido. E cresce, até porque nós acompanhamos a campanha, sabemos o que foi discutido, cresce com receio da coligação PP-Vox. O que Feijóo poderia ter feito era ter assumido uma posição em relação ao Vox. Há as posições radicais de "nós não governaremos em caso algum com o Vox" ou "nós governaremos obviamente com o Vox que vai entrar no nosso governo".
Desculpe interromper outra vez. Não quero mesmo ser chato, mas a postura clara do PP já foi tomada pelo Pablo Casado. O Pablo Casado fez um cordão sanitário ao Vox. Recorda-se que foi posto na rua porque não foi capaz de ganhar uma única eleição, não é?
Também foi posto na rua por motivos mais políticos.
Não, porque objetivamente não ganhou eleições. Depois criou um disparate tremendo que foi tentar queimar Isabel Díaz Ayuso. Mas antes disso, Pablo Casado perdeu tudo o que havia para perder e tinha um cordão sanitário claro ao Vox. Daí esta minha dúvida de querermos insistir, estou a falar de Espanha, num cordão sanitário que já foi tentado e não funcionou. E agora não se fez esse cordão sanitário e o resultado foi manifestamente melhor.
Mas eu nem ia defender o cordão sanitário. Acho que é tarde demais para ir por aí. E seria estranhíssimo e muito difícil de explicar aos eleitores ter o PP nacional a não fazer qualquer acordo com o Vox ao mesmo tempo que o fazia nas comunidades. Mas Feijóo podia ter tido uma linha de campanha clara, e acho que tentou fazer-se isso, mas depois abandonou-se, que era de nós vamos fazer um acordo com o Vox apenas e só se o PSOE não nos tolerar o governo e sempre com a linha vermelha de não ter membros do Vox no governo. Esta parece-me que seria a única posição possível, atendendo às circunstâncias do PP e de Espanha, e que teria a vantagem de, como dizia a Filomena há pouco, explicar às pessoas o que é que vai acontecer. Feijóo foi sempre muito pouco claro e notava-se que ele tinha um verdadeiro incômodo em relação ao Vox, mas como não tinha suficiente abertura para explicar o que ia acontecer, temia-se o pior e abria todo o tipo de questões sobre o que ia acontecer, facilitava a campanha do PSOE até ao demonizar um eventual governo do PP apoiado pelo Vox, e acho que foi aí que falhou. O cordão sanitário poderia ter sido implementado e mantido ferreamente há uns anos. Hoje em dia parece-me que já não é o caminho, tal como seria um péssimo caminho eleitoral para o PP dizer: "Nós vamos governar com o Vox e se necessário teremos membros do Vox no nosso governo". Acho que essas duas posições hoje são eleitoralmente difíceis de sustentar pelo PP. Há uma posição intermédia que Feijóo chegou a explicar ainda durante o debate a propósito das comunidades, mas que não conseguiu sustentar suficientemente durante a campanha. E se houver uma repetição eleitoral, parece-me que tem de ser por aí. O PP não pode continuar a fazer de conta que o Vox não existe. Se calhar isso resulta ao nível das comunidades, não resulta seguramente ao nível nacional e ao nível nacional tendo do outro lado Pedro Sánchez e Yolanda Díaz todos os dias a fazer campanha sobre isso.
Começamos esta noite eleitoral aqui na Rádio Observador dizendo, foi o Miguel Videira, que este era o dia de todas as decisões, mas não é.
Talvez não. Ainda há que esperar um pouco mais.
É, um pouquinho mais.
Dois meses, talvez.
Talvez. Mas amanhã temos novo Café Espanha. És tu que vais abrir o café, o café é teu, Filomena Martins.
Sim, mas abro um bocadinho tarde, é para aí às 9:00, 9:00 e pico.
Ia perguntar-te a que horas é que nós podemos contar convosco.
Temos um cafezinho curto às 9:10, depois da edição do jornal das 9:00, e depois um mais longo, mais assim com uns bolinhos a acompanhar depois do jornal da 13:00.
Está combinado. Gostei muito de estar aqui no teu balcão, no balcão do teu café, Filomena Martins.
Custou um bom contrato.
Pronto, ainda bem.
Temporário.
Temporário, porque o programa é teu e do João Diogo Barbosa, do Diogo Noivo e do Jorge Fernandes, que amanhã vão estar os quatro, vão dormir pouco, mas vai valer a pena para quem está a acompanhar esta noite eleitoral. Como percebemos, não há desfecho para já, não há solução ainda definida para aquilo que vai acontecer em Espanha. Ponto final neste café. Café tomado, até amanhã.