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Uma semana de Joe Biden, dezenas de ordens executivas e a prova de como é bom ter boa imprensa. Mesmo nos planos pouco ambiciosos, o novo presidente é descrito como quem está a fazer muito melhor do que o anterior. Até já há quem lembra aos democratas que ganharam as eleições e controlam o Congresso, talvez seja uma boa ideia começar a agir como tal. Parte da maior atividade política dos últimos dias esteve concentrada no Senado, que começou a aprovar, sem grandes polêmicas, os elementos da nova administração, mas para onde já voltou a tensão partidária por causa de um novo pacote de estímulo à economia. E a Câmara Alta deve continuar a ser o foco das atenções a caminho de um novo impeachment a Donald Trump, aquele mesmo que ia ser completamente diferente do anterior, mas que afinal pode acabar com o mesmo resultado. Para uma conversa sempre nova e quase nunca com o mesmo resultado, no Café América desta semana temos a Madalena Meyer Resende, o João Diogo Barbosa, eu sou a Sara Antunes de Oliveira. Vamos aos prêmios. Começamos pelo mau da semana, o Frank Underwood. João Diogo, começamos por ti, por um despedimento de uma jornalista por causa de um tweet.
Vou tomar aqui a causa dos trabalhadores e falar da história de Lauren Wolfe, que era uma jornalista.
E dos jornalistas, eu agradeço, fico aqui caladinha.
Eu estou a tentar arranjar boa imprensa, tal como o presidente Biden. A jornalista Lauren Wolfe foi despedida do The New York Times depois de fazer um tweet, o que é algo infelizmente comum. O tweet era sobre a aterragem do avião do presidente Biden e descrevia a experiência como arrepiante. E eu acho que nós podemos discutir o gosto dessa publicação, que realmente entra naquela categoria de tweets pungentes e quase insuportáveis, mas tenho dificuldades em ver aí um motivo para despedimento. E eu acho que há uma lição aqui a tirar, porque, na verdade, a vida dos jornalistas que cobrem a política tornou-se muito difícil desde a eleição de Donald Trump. Por um lado, e isto importa dizer, tinham um presidente e seus apoiantes que os insultavam e até ameaçavam, e essa diferença é bastante substancial. Mas por outro, e que é o que me importa aqui, houve uma alteração de expectativas daquilo que se esperava dos jornalistas e da sua cobertura. Aquela ideia de que era preciso ultrapassar o paradigma dos dois lados e da alegada objetividade, porque desta vez tinham um presidente que era diferente do que alguma vez tinha existido, tinha sempre de parar aqui, porque os limites tornaram-se fluidos. Qual é que era exatamente a linha que separava a necessidade dessa jornalista fazer tweets negativos sobre Donald Trump e a proibição de fazer tweets elogiosos sobre o presidente Biden? E da parte das administrações, dos jornais e até das redações, que viram aqui um modelo de negócio, a ideia de ter um target mais definido dentro de um dos lados da disputa política, torna-se difícil também reagir à pressão midiática. Esta jornalista foi bastante atacada à direita pelo tweet que fez, apontaram-lhe a parcialidade e a injustiça, e as redações, e depois quem está por cima, os homens de negócios, têm muita tendência a aceder à internet. E eu acho que isso também é um mau princípio e era bom que o regresso à normalidade implicasse não só um regresso ao jornalismo do dois lados, mas também que deixássemos de ligar tanto à internet e a tweets que pedem despedimentos, porque acabam sempre mal.
Eu concordo contigo, João Diogo. Acho que esta hiperpartidarização de todas as facetas da vida pública é, de facto, em particular nos mídia, não só mal para o sistema, mas mal para os mídia. De facto, o que se tem visto nos últimos anos de faccionalismo de ambas as partes é sinal de um declínio intelectual, de um declínio também de ética, que não é nada bonito de se ver.
Madalena, e tu achas que isso contribui para aquele que é o Frank Underwood, que também trazes hoje, que é para a visão europeia em relação aos americanos?
Eu acho que os europeus, de facto, também estão bastante influenciados por toda a hype que o Trump fez à sua volta e parece que Trump se tornou quase sinônimo dos Estados Unidos e da América. E de facto, os mídia, os social media, as plataformas têm tido um papel amplificador muito grande nesse aspecto. E estes resultados às opiniões públicas europeias de que os europeus pensam que depois de Trump, os americanos já não são de confiança, isto eleva-se a 32%, é um estudo do ECFR, European Council on Foreign Relations. Na Alemanha, este número chega a 53%. É bastante preocupante e eu acho que apesar desta eleição de Biden, não vai ser fácil regressar ao status quo anterior. Muitas vezes diz-se que a política externa é isolada e que não tem a ver com a opinião pública. Eu acho que isso já não é tanto assim. E de facto, este inquérito que sugere que os europeus estão tão pessimistas quanto aos Estados Unidos e que o sistema político americano está falido, que a China é que vai dominar, isso vai ser particularmente mau para esta tentativa de retoma da relação transatlântica, em particular em relação à China. Se as opiniões públicas europeias, de facto, não acham mal que os políticos sejam muito ambivalentes em relação Ao regime chinês, eu acho que isso não vai ser bom para o que eu acho que é o essencial destes próximos anos, que é de facto reconstruir esta ideia do Ocidente e tornar muito mais clara a posição europeia face à China. E dado que os Estados Unidos estão tão determinados a mostrar, já ficou claro isso nas primeiras ações da administração Biden em relação à China. Vai ser difícil, de facto, alinhar os europeus com os Estados Unidos, mas vamos ver se isso consegue fazer no próximo ano.
Eu queria aqui concordar.
Muito rapidamente, por favor.
Sim, só concordar com a Madalena nesta questão da China e dos políticos europeus, porque boa parte dos sentimentos dos cidadãos depende dessas narrativas que os políticos insistem e na relativização do regime chinês, que é insuportável.
Eu vou ser aqui muito telegráfica para não perdermos muito tempo com o impeachment, até porque falaremos disso de novo na segunda parte, mas queria dar aqui um franco-andaruoso, de novo, a Mitch McConnell. Eu garanto que não é uma obsessão pessoal, mas não é a primeira vez que lhe dou o mau da semana. É que Mitch McConnell tinha vindo dizer que o presidente Trump tinha provocado os invasores do Capitólio e agora já se percebeu, por causa de um voto prévio no Senado, de que falaremos mais à frente, que provavelmente vai votar contra o impeachment, no qual Trump é acusado de ter provocado os invasores. Portanto, Mitch McConnell, diria eu, a ser Mitch McConnell, logo falaremos na segunda parte mais sobre isto. Vamos avançar para o donut, para coisas boas esta semana. João Diogo, tem muito açúcar a visão de Romney do futuro dos republicanos?
Eu sempre quis dizer, isto tem um sabor agridoce, Sara. Também é sobre um republicano que costumamos falar muito, Mitt Romney, que tem aproveitado o espírito dos tempos para embarcar numa viagem de "eu bem avisei aos americanos". Sempre que tem a hipótese midiática para o fazer, eu acho muito bem que o faça, porque foi realmente uma voz que não esteve isolada, esteve atacada, até por partidários. E, portanto, tudo o que ele possa vir agora a dizer de "eu bem te avisei", tem toda a justiça. Mas isto porque há dias Romney aproveitou essa fase para tecer considerações sobre o futuro dos republicanos enquanto força política e enquanto partido. Ora, para além dos lamentos habituais, Romney avançou mesmo com nomes que lhe pareciam ser compatíveis com a tradição conservadora. Os senadores Tom Cotton e Ben Sasse e o governador Larry Hogan, que ele defendeu serem os nomes ideais para o futuro do partido e, percebeu-se, até para uma futura campanha presidencial. E eu acho que é muito interessante esta narrativa do esforço de reconstrução do partido depois de Donald Trump e que vai ser muito importante nos próximos meses e anos. Mas também arrisca-se a esbarrar na realidade. Isto porque também nos últimos dias ficamos a saber que Sarah Huckabee Sanders, a fogosa porta-voz de Donald Trump a certa altura, anunciou uma candidatura para governadora do Arkansas. E esse anúncio parece-me pode ser o princípio de uma torrente de ex-figuras do trumpismo que tentam agora uma nova carreira política com a única agenda de "eu conheci o presidente Trump". E da última vez que cá estive, eu disse que Trump podia ser uma figura tão forte fora da presidência como foi dentro, porque estava livre de amarras estruturais e institucionais. Eu acho que se estas figuras do trumpismo tiverem sucesso eleitoral, tiverem força nas urnas, os esforços de reconstrução do partido que Romney e outros conservadores têm tentado fazer, até de certa forma Mitch McConnell, podem ser absolutamente destruídos ainda antes de serem tentados. E, portanto, os republicanos estão ainda a lutar pelo seu futuro, mas eu não estaria assim tão otimista quanto Mitt Romney.
Madalena, tu tens também aqui um donut para a possibilidade de sanções revistas em relação ao gasoduto North Stream 2.
É verdade, havia esta grande, ou melhor, ainda está um bocadinho em aberto, mas cada vez acho que é menos em aberto, a questão de saber se os americanos ou a nova administração americana irá manter-se complacente em relação aos europeus e em relação às ligações económicas que os europeus têm para as autocracias que desafiam os Estados Unidos, nomeadamente a Rússia e a China. Ou seja, se eles continuam, como anteriormente algumas administrações fizeram, a proteger a Europa e a fornecer-lhe a sua segurança através da NATO, ao mesmo tempo que permitem que os europeus mantenham uma atitude ambígua face à sua tentativa de isolar um pouco e de tornar mais blindada, digamos assim, a sua política comercial. Aparentemente, a política comercial americana vai manter-se bastante bélica depois de Donald Trump, não vão alterar isso completamente. E o fato dos europeus, em particular a Alemanha, querer manter uma atitude absolutamente ambígua, no fundo, mantendo este projecto do Nord Stream, que é um gasoduto que liga directamente a Alemanha à Rússia, assim como outras questões, nomeadamente a assinatura do acordo de investimento com a China antes do Natal. Tudo isso não vai ser permitido pelos Estados Unidos. Eu penso que esta nova administração vai acabar com o blefe dos europeus. Não sei quanto tempo é que isto vai demorar, mas não lhes vai ser permitido ter uma atitude cooperativa na segurança ou receptiva na segurança e não dar nada de troca em termos comerciais. Não sei se lhe chamava um donut, mas chamava uma coisa da vida, daquelas coisas que vão acontecer aos europeus.
É um donut da vida. A vida também tem muitos disparates. Vamos avançar para o Sara Palin desta semana. João, tens um minuto para um disparate que eu partilho contigo, que tem a ver com esta meta incrível de 100 milhões de vacinas nos primeiros 100 dias de Biden.
É mesmo extraordinário. O presidente eleito Biden prometeu em dezembro vacinar 100 milhões de americanos nos primeiros 100 dias da sua presidência e depois da tomada de posse reafirmou essa promessa, só que pessoas foram fazer contas. E ao fazer contas perceberam que o presidente Trump já estava a conseguir com a sua administração mais ou menos esse ritmo e, portanto, a promessa não era nada de especial. E a presidência de Biden começou por ser muito defensiva e foi ajudada por alguns jornais e órgãos essencialmente democratas, mas acabou por ter de recuar e conceder que a promessa não era assim tão boa. E agora tem um novo objectivo: vacinar 150 milhões de pessoas em 100 dias ou 1,5 milhões de pessoas por dia, que é exatamente o resultado de muitos cálculos, no sentido em que 100 milhões mais 50 milhões, que é metade de 100 milhões, dá 150 milhões. E, portanto, foi assim que este grande plano de logística foi feito pela presidência Biden e eu acho que é um grande disparate, mas felizmente vão vacinar mais pessoas.
Sim, aliás, os mais críticos dizem que devia ser pelo menos o dobro. Joe Biden deveria estar a apontar para dois milhões de vacinas por dia, até porque nesta altura aquilo que está a acontecer já é acima de um milhão, portanto, já não está muito longe desse milhão e meio, e seria relativamente fácil. Eu acho que é um disparate, é um disparate que eu percebo que Biden até tenha cometido antes, quando era apenas presidente eleito, mas que não devia ter reafirmado agora. Devia ter feito as contas, seguramente terá alguém, sobretudo depois da nomeação, por exemplo, de Janet Yellen para o Ministério das Finanças ou para o Tesouro, tinha gente lá capaz de fazer contas que o ajudassem a não cair nesse disparate. Termina aqui a primeira parte do Café América, nós voltamos já de seguida. Segunda parte do Café América, João Diogo, vamos começar pelas perspectivas animadoras da recuperação da economia norte-americana, não tão animadoras para a Europa, em relação à China.
À China, sim. Foi um relatório do FMI que prevê que até 2022 a recuperação da economia americana consiga acompanhar a recuperação chinesa. Isso são ótimas notícias, porque claramente a China lidera na recuperação da pandemia e as economias ocidentais e desenvolvidas têm tido grandes dificuldades para ultrapassar esta situação. Mas também parece-me interessante aqui as razões da recuperação, porque são bastante diferentes no caso chinês. A recuperação deve-se a uma capacidade para conter o vírus com grande eficácia, que permitiu depois libertar a economia cedo e de forma bastante aberta. Na América, por outro lado, tem havido grandes dificuldades em controlar o vírus e o sucesso da recuperação parece estar no gigantesco esforço de estímulos à economia ainda durante a presidência de Trump e que se espera que possa aumentar durante a presidência de Joe Biden. Ora, isto é importante, desde logo, para destruir preconceitos sobre quem tem respondido melhor ou pior à pandemia. Muitas vezes põem-se os Estados Unidos numa posição muito desagradável nesse aspecto, que acho que é um bocadinho injusta, mas há perigos nesta resposta, porque conter o vírus, ainda que com medidas repressivas e antidemocráticas, é relativamente barato e é uma solução a longo prazo. Por outro lado, na América, a imunidade não está garantida e novas vagas podem sempre aparecer, até com novas variantes do vírus, e chegam a 2021 muito mais endividados, claramente onerando as gerações futuras. Os americanos endividaram-se mais do que qualquer outro povo durante 2020 e isso tem custos, a dívida tem de se pagar. E aliás, uma das grandes histórias da presidência Biden vai-se perceber exatamente a postura em relação à dívida, se vão ceder àquela ala esquerda que diz que a dívida é para se gerir, não é para se pagar, para citar outro filósofo, ou se vão voltar para o centro e para o conservadorismo fiscal de orçamentos equilibrados. E eu acho que isto tudo junta aqui um caldinho de narrativas que é muito interessante, mas no fundo são boas notícias, as notícias de que a economia americana está a recuperar, está a recuperar bem melhor do que a economia europeia, por exemplo, e isso é boa notícia até para nós.
Eu queria dar até aqui um bocadinho. Sim, desculpa, Sara, diz.
Força, força, avança.
Sim. Um bocadinho para contrariar esta posição do FMI. Também esta semana saiu um relatório de outro Noutra unidade das Nações Unidas, a UNCTAD, que diz que os novos investimentos directos estrangeiros caíram nos Estados Unidos 49% em 2020. Durante décadas, os Estados Unidos tiveram sempre a posição número um como receptores destes investimentos diretos. E quem ganhou, obviamente, foi a China. A China, que sempre foi classificada como número dois, vê-se agora altamente beneficiada pela crise do Covid, que se prolongou na América e na Europa, e que reforça assim brutalmente o seu lugar como a fábrica do mundo, como se diz, e aumentou, obviamente, a sua percentagem no comércio internacional. Foi o único país do mundo em que o Produto Interno Bruto não caiu, mas cresceu. E eu acho que é muito enganosa esta previsão do FMI. Ok, podemos até crescer, mas se é tudo à base da dívida, não é muito bom sinal. Não é sustentável, pelo menos a longo prazo. E estou aqui um bocadinho cética em relação a isso.
Estás a dizer, Madalena, que o FMI pode errar? Historicamente.
Estás a me querer pôr numa posição complicada.
Sobretudo na zona americana, mas enfim.
Sim. Se calhar contra exatamente um filósofo que tu agora aqui citaste. Não sei bem onde é que me hei de posicionar.
Já nem me recordo do que disse.
O tal filósofo.
É para ir pagando, Madalena. A verdade é que este relatório não fala só dos Estados Unidos e da China, e tem ali também conclusões preocupantes em relação à Europa. Enquanto que os Estados Unidos e a China ficam ali nesta recuperação, talvez 1,5% abaixo do que tinham no período pré-pandemia, a Europa fica 2 a 2,5% abaixo, com desempenho francamente pior. Mas não fala só desses desempenhos. Também alerta que perto de 90 milhões de pessoas provavelmente cairão abaixo da linha da pobreza extrema durante esta pandemia e até este ano de 2021. E eu também não sei bem como é que países como os Estados Unidos, a China também, grandes potências e até mesmo a Europa, podem olhar para isto que está a acontecer e continuarem tão focados apenas na sua própria recuperação. Nós temos ouvido ao longo deste período de pandemia que temos todos de agir em conjunto, temos todos de estar unidos, e este é um problema do mundo inteiro. E agora que nos aproximamos da resolução, vemos os países ricos a tratarem das suas vacinas, vemos países ricos a criticarem outros países ricos por estarem a açambarcar vacinas. Continuamos a pôr as fichas todas em experiências e em associações de países que supostamente têm a missão de garantir que os países pobres tenham vacinas, mas não temos bem a certeza de quando e como é que isso vai acontecer. E depois temos este problema acontecer. Nós temos economias que vão ser absolutamente atropeladas por isto, e não vejo bem como é que a recuperação para essas economias pode ser possível.
Sim, não há dúvida que esta crise veio acelerar tendências que já estavam em curso, nomeadamente a ascensão da China. E parece-me que, à luz desta realidade, os europeus deveriam tomar mais a sério a posição americana. Face ao grande objetivo chinês de se tornar predominante no sistema internacional, não só do ponto de vista económico, mas também como ator securitário.
E curioso, porque já percebemos que é precisamente quando os Estados Unidos abre brechas e deixa espaços vazios, que a China os ocupa. E se grandes crises econômicas e grandes dificuldades nos países o que abrem são precisamente brechas e espaços vazios. O que está a acontecer nos outros países não é, seguramente, ou não deveria ser indiferente à Europa e aos Estados Unidos. Por causa desta questão econômica e por causa da própria recuperação, já se discute um novo pacote de apoio econômico e de recuperação econômica nos Estados Unidos, mas João Diogo também não está a correr assim espetacularmente no Senado.
Sim, uma das prioridades para a esquerda mais aguerrida era a de acabar com o filibuster, que é uma manobra de bloqueio parlamentar que, no Senado, garante a necessidade de 60 votos para aprovar boa parte da legislação. Ora, durante um tempo, pareceu possível que os democratas fizessem valer a sua maioria técnica para alterar as regras, o que estava a chocar os republicanos, que estavam muito preocupados. No entanto, esta pequena batalha acabou mal para os democratas mais aguerridos, porque dois moderados, diria assim, acabaram por chumbar esta ideia e o filibuster mantém-se a necessidade de 60 votos para aprovar grandes peças de legislação continua. Isso vai ser muito importante na questão dos estímulos. Curiosamente, Mitt Romney, voltando a ele, disse há dias que era cedo para falar num novo programa de estímulos, porque ainda há pouco tinham lançado um e era preciso ver o que é que estava a resultar e o que é que não estava, e era cedo para contrair mais dívida junto dos chineses e, portanto, o voto dele, para já, não estava.
Lançaram um de 900 mil milhões.
Exatamente. Não é coisa pouca, tendo em conta que o plano europeu ainda está preso em parlamentos nacionais, por exemplo. Mas eu acho que esta pequena derrota para os democratas não é definitiva. Eu acho que com o passar do tempo, se a oposição dos republicanos for consistente e bem organizada para derrotar as grandes prioridades da presidência Biden, mais tarde ou mais cedo, esta barreira vai ser derrubada e isso não é uma boa notícia para os democratas também, porque nós ouvimos durante quatro anos histórias sobre a injustiça do Senado, que neste momento, em termos demográficos e até aritméticos, concede quase que automaticamente uma maioria aos republicanos. É muito difícil, atendendo à distribuição dos americanos pelo seu país.
Mas é muito curta.
Exatamente. E por isso mesmo, é muito difícil para os democratas conseguir uma maioria, porque o Senado e a população orienta-se para uma maioria republicana. Ora, se forem os democratas a derrubar esta forma de proteger minorias, se calhar durante dois ou três anos são eles a beneficiar e conseguem aprovar uma série de pontos da sua agenda, mas a longo prazo, isto pode ser uma grande vitória para os republicanos, que durante a presidência Trump resistiram sempre a derrubar completamente o filibuster e agora têm aqui uma hipótese, se mexerem bem as suas peças, de fazer com que sejam os democratas a acabar com este direito das minorias e a poder governar calmamente para o futuro em maiorias mais pequenas. Isso aconteceu, por exemplo, o derrube do filibuster durante a presidência Obama para nomeações judiciais, todas exceto as do Supremo Tribunal, depois durante o mandato de Trump derrubou-se o filibuster para as nomeações para o Supremo Tribunal e parece-me claramente que a história está a derrubar o filibuster, o que não é necessariamente mau, porque o Senado é uma instituição que tem estado muito parada e é muito culpada da estagnação americana, da estagnação política, sobretudo. Mas eu acho que os democratas deviam gerir esta questão com algum cuidado, porque é verdade que o Senado se inclina para os republicanos quase por defeito e a longo prazo esta estratégia pode ser realmente muito prejudicial.
Sim, aqui é uma questão de curto, médio prazo versus longo prazo. O facto de os republicanos terem historicamente beneficiado mais do filibuster não quer dizer que os democratas, no longo prazo, não tenham conseguido preservar alguma da legislação e dos seus valores, exatamente por estarem defendidos, de certa maneira, por uma supermaioria em algumas questões essenciais. Portanto, eu acho que aí estou contigo, João.
Mas ao mesmo tempo, e defendendo aqui os democratas, nada impede depois-
A questão é se o filibuster se devia aplicar a temas como este. Que aqui não estamos a falar de proteção de nenhuma minoria. E o filibuster voltou ao debate por causa de um pacote de auxílio nacional.
Minorias do Senado, mas o que há aqui também a dizer a favor dos democratas é que nada impede os republicanos de no futuro ter uma presidência e uma maioria curta no Senado e eles próprios derrubarem o filibuster e aproveitarem.
Certo. Aquilo que eu estava a dizer em relação às minorias é: foi possível chegar a um consenso para o pacote anterior. Por que que num caso destes, numa situação destas, creio que, aliás, esse é um dos argumentos de Mitt Romney. Por que em uma discussão destas faz sentido recorrer ou não recorrer ao filibuster, ou faz sentido reacender a discussão sobre se ele deve existir ou não? Aliás, os republicanos, os tais moderados que vieram dizer: "Vamos lá com calma", também são alguns deles aqueles que dizem: "Nós não estamos contra um pacote de auxílio, mas se calhar, como dizia Romney, vamos avaliar primeiro o primeiro." Aquilo que me parece é, por um lado, não sei se faz muito sentido os democratas colocarem essa questão, neste caso especificamente, em que não vejo como é que é uma coisa tão necessária, que para isso vamos eliminar aqui um instrumento que lhes pode vir a ser útil no futuro. Acho que estou a gastar aqui um crédito.
Eliminar agora esta barreira, por exemplo, para tomar medidas que são muito populares, como a de entregar cheques aos americanos e depois beneficiar dela para aprovar planos de proteção ambiental, por exemplo, ou até de continuar a expandir a dívida e o déficit, do que esperar por esses assuntos que são potencialmente divisivos e depois ter que passar por todo aquele spin, toda aquela narrativa de estão a ver estes radicais agora até derrubaram o filibuster e para proteger pássaros aqui e ali. E portanto, eu acho que do ponto de vista político, pode fazer sentido pegar num assunto que é relativamente popular nos americanos e menos popular para os senadores republicanos, porque depois vai funcionar melhor em termos eleitorais, do que esperar por esses temas mais divisivos que estão nas prioridades da presidência Biden e depois assumir com toda aquela pressão midiática que certamente aparecerá.
Sim, eu acho que a questão vai ser, se não for agora, que é provável que não seja, e sendo mais tarde, poderá tornar-se ainda mais controversa. Mas eu não vejo muito como é que poderá ser muito mais controversa, uma vez que já agora é considerada como
Enfim, é posta pelos republicanos como um sinal da agenda radical do Partido Democrata e da administração Biden. Acho que vai ser de facto hiperdivisivo, como já é divisivo, digamos assim, ainda não tendo acontecido.
Mas ao mesmo tempo, parece-me que é divisivo também o papel que o Senado tem tido, porque o Senado não foi feito para o papel que tem desempenhado nos últimos 10 anos de ser uma câmara de bloqueio à governação. Era antes uma câmara alta de representação dos estados para ajudar a diluir os espíritos da Câmara Baixa. E agora é apenas um sítio de bloqueios, em que os democratas usam filibuster para bloquear grandes legislações dos republicanos. Os republicanos fazem o mesmo aos democratas e o Senado deixou de servir algum propósito positivo. É apenas uma câmara negativa de chumbo, de ajuda à estagnação americana. E eu acho que esse ponto tem claramente peso aqui nesta decisão e deixa-me até um bocadinho com simpatia por esta ideia de derrubar o filibuster.
Sim, até porque já há senadores a dizer: "Não voto durante dois anos. Ficam já a saber que durante dois anos não vou votar." O que é uma coisa-
Isso respeita ainda mais . São uns anarquistas.
Certo. Bom, no Senado, não quero brincar mais convosco. Nós no Senado também vai voltar a estar dividido, seguramente por causa do impeachment. O artigo para impeachment já lá está. O julgamento só começa depois de 8 de fevereiro, mas houve aqui uma votação prévia por causa de uma objeção colocada por Paul Rand, que questionava a legitimidade de um impeachment a um presidente que já não está no cargo, a constitucionalidade de avançar com um instrumento desses, lembrando que o impeachment serve para remover presidentes do cargo e Donald Trump já não está nesse cargo. E pelo voto a essa objeção, percebeu-se que foram poucos os republicanos que se mantiveram do lado dos democratas, apesar de haver a expectativa de que este impeachment seja, ou fosse, se calhar é melhor começar já a mudar os tempos verbais, completamente diferente daquele que aconteceu há um ano, que terminou com a absolvição de Donald Trump. E por isso é que eu tinha escolhido Mitch McConnell pro Underwood na primeira parte, porque entre os senadores republicanos que apoiaram esta iniciativa de contestar já e colocar aqui uma objeção à constitucionalidade do impeachment, lá estava Mitch McConnell. Não posso garantir que ele não o tenha feito porque se calhar concorda com a questão da constitucionalidade ou da inconstitucionalidade. Mas quero dizer, andámos aqui a ver Mitch McConnell durante demasiado tempo, parece-me a mim, a suportar e a sustentar Donald Trump, protegendo-o do impeachment anterior e depois não o contrariando nas alegações de fraude eleitoral. Depois vemos aqui um enorme volte face e de repente, Mitch McConnell, em público e em privado, já se juntava aos indignados contra aquilo que aconteceu no Capitólio e assumia que não tinha havido fraude nenhuma eleitoral. E mais do que isso, em relação ao ponto do impeachment, dizia que Donald Trump e outras pessoas no poder tinham provocado aquelas pessoas que invadiram o Capitólio, ameaçaram e sequestraram durante algum tempo os congressistas naquele episódio lamentável do início de janeiro. E agora, afinal, ele próprio acha que o impeachment não deve avançar. Portanto, parece-me que vamos de novo ver, imagino eu que desta vez de uma forma mais rápida, com muito menos procedimentos, a partir de 8 de fevereiro, um impeachment com uma razão com a qual aparentemente quase todos concordam, mas que afinal vai acabar por cair sem grande auxílio dos republicanos a esta questão. Sim, parece-me que este volte face de Mitch McConnell já era visto como a pedra de toque se isto iria realmente para frente ou não, e parece estar em maus lençóis depois da sua tomada de decisão. Enfim, mesmo politicamente, este impeachment de Donald Trump é sempre um pau de dois bicos. Há quem diga: "Ótimo, ele assim não se pode candidatar segunda vez em 2024, portanto, vemo-nos livres de Donald Trump." Outros dizem: "Mau, porque sem Donald Trump e sem ele se poder candidatar, pode-se candidatar um substituto de Donald Trump, que venha ocupar o seu lugar sem haver necessidade realmente de uma mudança no Partido Republicano, uma mudança profunda." Portanto, eu aqui, apesar de, em princípio, não estar contra o impeachment, acho que politicamente pode não ser totalmente nocivo que o Partido Republicano tenha que lidar com o trumpismo de uma forma mais radical, no sentido em que se tem que ver livre de Trump e dos seus lookalikes. E está isto aqui em aberto. Não é óbvio que fosse também para o Partido Republicano, particularmente bom ver-se livre de Donald Trump desta forma.
João Diego, em 10 segundos.
Ainda tenho tempo? Boa. Dizer só que se em Trump era tudo intuição e quase nada estratégia, em Mitch McConnell é quase tudo estratégia e muito pouca intuição. E, portanto, eu acho que ele geriu este assunto com pinças e a pensar nas eleições intercalares de 2022 e a ter cuidado com a força eleitoral dos trumpistas e o que é que podiam fazer à sua maioria do Senado, que ele muito estima e muito orienta. E, portanto, eu acho que ele pode ter feito aqui uma boa jogada de tentar unir o partido e conseguir controlar toda a gente. O impeachment é um processo mais teatral neste momento, o presidente do Supremo Tribunal rejeitou presidir, porque alegou também que fantochadas não é com ele, e portanto acabou por ser um senador a aceitar presidir o processo. Eu acho que isto tudo se vai resolver com mais um impeachment derrotado no Senado, porque o Senado é uma câmara de bloqueio e pouco mais.
Ultrapassaste os 10 segundos, mas mesmo assim, no meu cálculo político, eu vou permitir que voltes na próxima semana, se quiseres, tal como o Café América, que estará de volta daqui a uma semana. Até lá.