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Bem-vindos ao Café Europa desta semana, como de costume, com Bruno Cardoso Reis, João Diogo Barbosa, Madalena Resende e eu, Henrique Pornet. Na segunda parte, vamos falar precisamente sobre o que se está a passar em Moçambique e o que isso tem a ver com a Europa, ou o que a Europa pode ter a ver com isso. Mas na primeira parte vamos, como de costume, dar os prêmios a várias coisas que aconteceram na última ou nas últimas semanas. E começamos pelo que de mau aconteceu, os Átilas da semana. E o primeiro a entregar um Átila é o João Diogo Barbosa para o hábito da União Europeia recorrer a consultoras. É isso, João Diogo?
E para o custo, sim. É uma notícia que já tem algumas semanas, uma investigação do Euractiv, que notou, depois de uma análise à base de dados europeia, que a Comissão Europeia gastou 460 milhões de euros em serviços de consultoria prestados pelas quatro maiores consultoras mundiais, as chamadas Big Four, só entre 2016 e 2019, o que dá mais de 150 milhões de euros por ano. Isso parece-me, além de um número enorme, trazer quatro problemas. Eu vou tentar não me perder em todos eles, mas acho que, em primeiro lugar, há um problema de desorçamentação, porque muitos destes fundos eram aplicados em projetos nacionais dos Estados-membros e, portanto, não eram gastos em Bruxelas e desta forma podia haver um contornar da legislação em que a União Europeia contratava esta consultoria para ajudar os Estados-membros e os Estados-membros podiam escapar-se de o fazer por si próprios. Mas decorrente daí também há problemas com conflitos de interesse, isto é que tem sido o grande ponto da discussão, porque estas empresas trabalham com matérias de todo o tipo e trabalham com o setor privado, muitas das vezes em formas de aproveitar a legislação a seu favor e depois é perigoso se elas estiverem envolvidas no processo de criação da legislação. Por exemplo, uma delas tinha trabalhado com o governo belga num projeto de compliance fiscal e depois, evidentemente, o seu main business era trabalhar em formas de escapar à compliance fiscal e isso gerou problemas, gerou críticas até dos órgãos europeus. Mas eu acho que a intervenção das empresas privadas no processo legislativo, por si só, é um problema que merece discussão. E merece discussão não só por si mesmo, porque isso tem sido muito discutido na França e na América este ano. Na França houve até já um grande debate a propósito de uma outra empresa, que não é uma das Big Four, que este ano teve um contrato de, creio eu, meia dúzia de milhões de euros, e na América está a ser muito debatido a propósito do novo programa de infraestruturas do presidente Biden. Mas eu acho que, para além da questão moral, há aqui uma questão de dimensão. Nós temos Estados cada vez maiores, Estados cada vez mais despesistas e com grandes organizações, que ao mesmo tempo dependem de serviços externos e destes custos intermédios. Não podemos ter as duas coisas, ou temos Estados ágeis que quando precisam contratam fora, ou temos Estados enormes que conseguem por si só governar e fazer leis.
Obrigado, João Diogo. E agora temos os nossos Átilas mais internacionais ou de fora de portas. Madalena Resende, aí às portas da Ucrânia está a Rússia ou enfim, já portas adentro.
É verdade, é um desenvolvimento bastante preocupante. A Rússia deslocou tropas para a fronteira oriental da Ucrânia e para a Crimeia. E a NATO disse que não ia ficar de braços cruzados, portanto aqui estamos num verdadeiro standoff. É verdade que Vladimir Putin deverá ter visto aqui uma oportunidade, temos uma administração americana fraca, com uma estratégia de política um pouco confusa, ou seja, ainda não completamente definida, pelo menos, e a Alemanha está talvez menos ansiosa do que nunca entrar num conflito com a Rússia, portanto é uma boa altura para testar a unidade do Ocidente.
De resto, a propósito do que disse sobre a Alemanha, foi muito notado um comentário feito pelos governos alemão e francês, em que embora dissessem que reconheciam a soberania ucraniana, mas depois diziam que apelavam ambas as partes para se conterem. Portanto, parecendo que estavam a querer dizer que havia uma espécie de corresponsabilidade. Mesmo que não fosse isso, pelo menos a escrita não foi percebida como sendo da melhor maneira. Mas como o tema da União Europeia e do que pode ou não pode fazer à sua volta ou mais longe, vai ser o tema da segunda parte, eu acho que os nossos comentários sobre o assunto ficarão para a segunda parte e entregamos mais um Átila nesta primeira parte. Bruno Cardoso Reis, Irão e China a assinarem um acordo, isso é mau?
Bem, para eles é capaz de ser bom, mas eu acho que do ponto de vista da Europa e do Ocidente, mas aqui em particular da Europa, não são boas notícias. A China e o Irão assinaram agora um acordo de parceria estratégica com duração a partir de 25 anos. A China, uma das fragilidades que tem é que realmente não tem uma rede de alianças muito forte a nível global, ao contrário dos Estados Unidos. E, portanto, claramente está a tentar corrigir isso, conseguir também vantagens financeiras significativas, ou seja, o Irão está muito isolado, muito por força da pressão americana, e portanto os chineses conseguiram aqui uma garantia de abastecimento de petróleo a preços de amigo também durante um período longo. Mas eu acho que aqui o que mais nos importa é a dimensão também militar e de segurança deste acordo, ou seja, uma cooperação nessa área, uma presença que se diz será volta de 5 mil forças chinesas no Irão E, portanto, eu acho que nós conseguimos ver que depois da China ter estabelecido uma base no Djibouti, ou seja, naquele estreito que controla o acesso ao Mar Vermelho e, portanto, depois ao Suez e ao Mediterrâneo, à Europa, a partir da Ásia, agora está, no fundo, a completar o sonho do Afonso de Albuquerque e, portanto, a controlar o Estreito Ormuz, o outro grande choke point, o outro grande estreito de passagem obrigatória, no controle da navegação entre o Ocidente e o Oriente. E aqui, em particular, no período contemporâneo, não era assim no tempo do Albuquerque, no controle também do acesso ao petróleo dos países do Golfo e ao gás natural dos países do Golfo. E, portanto, acho que isso obviamente é algo que deve preocupar muito os Estados Unidos, mas também a Europa. Já agora, mostra também que é um disparate, o prémio não é do disparate, mas mostra também que é um disparate, uma tendência muito forte dos nossos amigos norte-americanos e que os europeus têm tentado contrariar, no sentido de dizer que eles devem abandonar o resto do mundo, e nomeadamente o Médio Oriente, o Mediterrâneo, a África, e devem deslocar-se para o mar do Sul da China, porque aí é que vão conter a ascensão global da China. Como se a ascensão global da China fosse contida no mar local da China e não no facto da China estar cada vez mais presente no resto do mundo. Mas acho que é realmente uma coisa a acompanhar com muita atenção por parte da Europa.
Sim. Isto ao mesmo tempo que os europeus e os americanos finalmente parecem estar a fazer passos mais concretos no sentido de reavivar o acordo nuclear de 2015. Mas no momento mau, ou seja, no momento em que os iranianos têm uma alternativa ao Ocidente, em termos de parceiro comercial e eventualmente de investimento.
Sim, isso não é certamente coincidência.
Não, obviamente. E nesta altura também, reagindo a isso, é que os diplomatas americanos se põem mais de acordo com os europeus no sentido da tentativa de restabelecer o acordo, o que mostra como esta saída foi, de facto, mal avisada. A saída por Trump do acordo foi mal avisada e agora deveria ser acelerada.
Deu aqui uma oportunidade ideal para a China, não é?
Bruno, pegando um pouco no que tu estavas a dizer e que a Madalena está agora a dizer, parece-me que há aqui duas questões que são interessantes de analisar. Uma é, tu falavas disso na questão da contenção global da China, é que com frequência olha-se para a China como não tendo uma estratégia militar evidente e, portanto, ser mais outro tipo de peças que avança.
Mais económica.
Exatamente. Mas aqui, como tu estavas a falar, há aqui uma questão que não é meramente económica, há aqui uma lógica de controlar regiões que, no limite, podem vir a implicar agir militarmente. E, portanto, isso é, se não uma alteração, pelo menos obriga a olhar de uma maneira diferente. O outro aspecto é que, se nós começarmos a olhar, enfim, não é tudo a mesma coisa, mas se nós olharmos para o que está a leste da Europa, de cima para baixo e, portanto, olharmos para o que se está a passar na Ucrânia, como a Madalena referiu no prémio anterior, esta questão no Irão, as tensões que temos com a Turquia. Ficamos com a sensação que, de facto, os problemas não estão todos nos mares do sul da China e, portanto, do lado onde com frequência tem havido conflitos, continua a haver problemas. Agora, coloca-se, se calhar isto é um tema que voltaremos mais adiante, mas coloca-se nova questão é se os americanos não olham tanto para ali, nós temos que olhar, porque o Irão não parece, mas está quase às nossas portas, porque é vizinho dos nossos vizinhos.
Sim, e sobretudo é vizinho de fontes importantes de energia, e que tem um impacto enorme no mercado de energia a nível global. Quer dizer, imagine-se, sempre que há conflitos entre o Irão e os Estados Unidos, o Irão ameaça bloquear o Estreito Ormuz. Mas ameaça de uma forma que não é assim muito credível, embora eles tenham umas capacidades navais interessantes, de tipo diferente, mas que são de minagem, enfim, lanchas rápidas. Mas imagine-se o que é que é essa ameaça ser agora suportada com algum tipo de presença naval chinesa naquela região. Isso realmente é algo que é muito preocupante. E é uma mudança estratégica fundamental.
Eu queria só acrescentar aqui um ponto, não querendo estragar a narrativa do abandono dos Estados Unidos, que a administração Biden anunciou o regresso às negociações para, de certa forma, voltar a obrigar o Irão a cumprir com os trâmites do acordo nuclear de 2015. E as negociações ocorreram em Viena num formato muito interessante de dois grupos, um deles só com os Estados Unidos, num hotel, e no hotel separado, um grupo controlado pela União Europeia, os representantes do Irão negociaram com o Reino Unido, com a França, com a Alemanha, com a Rússia e com a China. E, portanto, mais do que um abandono dos Estados Unidos nesta questão, parece estar a haver uma estratégia paralela que os isola, mas ao mesmo tempo reserva a sua força como grande potência e como potência decisiva, porque o acordo esteve parado enquanto os Estados Unidos o abandonaram.
João Diego, eu acho que tu não estragues a narrativa. Não há nada que simbolize mais esse abandono que o facto de os Estados Unidos literalmente não estarem na sala. Estão lá os europeus, estão os chineses, estão os russos, estão todos e os Estados Unidos estão num hotel à parte.
O facto de as negociações terem voltado apenas quando a administração Biden decidiu que era a altura, e um bocado tarde até, isso foi bastante criticado na América, mas as negociações terem voltado apenas quando a administração Biden decidiu que era a altura de elas voltarem, mostra que exatamente não houve um abandono e que de certa forma o poderio dos Estados Unidos continua muito forte e é muito fácil de ser entendido.
Acho que há aqui duas coisas que tu disse que são muito interessantes. Uma é o poderio dos Estados Unidos, como é evidente, e portanto, afastando-se ou não, quando estão, têm aqui uma influência que os outros parceiros não têm. E outra é o que tu estavas a dizer, quando estamos a falar de regresso, é que de facto houve uma perceção de afastamento, e não foi apenas perceção, houve as políticas desde Obama em diante, e aí Trump de uma maneira diferente, mas a sinalizar Uma mudança para outra geografia. E parece que quando Biden diz "America is back", também está a pensar na ideia de que tem que regressar alguns dos palcos que tinham saído. Portanto, esse abandono aconteceu. Ou essa saída foi acontecendo. Agora, o que não parece provável, veremos, é que uma administração Biden reverta integralmente aquilo que tem sido esta linha dos últimos anos e, portanto, mesmo que haja aqui alguma intervenção, ela não é total.
Até porque o regresso ao passado é uma impossibilidade, não é? Pelo menos enquanto não se inventar máquinas do tempo. Entretanto, as coisas evoluíram e obviamente, como disse a Madalena, o timing disso não é acidental. Agora, como diz o João Diogo, nesse ponto acho que estamos todos de acordo, não há substituto para o poderio norte-americano. Acho que ninguém está a por isso em questão. Ou seja, mesmo esta ideia de que a Europa deve se interessar por este assunto e vai ser muito afetada por estas mudanças, infelizmente, ou não, não sei, mas factualmente a Europa não tem capacidade. Tem alguma capacidade militar e alguma capacidade militar naval, mas obviamente não tem capacidade para substituir os Estados Unidos no Médio Oriente. Que também é outra versão desta ideia do abandono, que é não só os Estados Unidos não precisam de estar, mas na medida em que é preciso estar alguém, estão os locais, a Arábia Saudita, Israel e até os europeus que estão aqui muito mais perto. Ora, não há realmente substituto para o poderio americano.
Este parece-me ser um dos aspectos, e aliás, insisto, na segunda parte voltaremos a esta conversa, mas é difícil seres responsável pela tua vizinhança, mas não teres o poder que tinha quem era responsável por ela antes. E essa diferença vai-se notando até na reação que os vizinhos têm. Tema que também parece que vai andar aqui nos prêmios daqui a pouco, porque essa é outra das questões. Mas vamos aos croissants, ao que de bom aconteceu na semana. E os croissants, na verdade, é um croissant, e depois de ter dado Átilas na expectativa que não aconteçam, agora uma espécie de croissant por não ter acontecido. Quem trabalha ou tem trabalhado à volta da política e da comunicação na política tem noção, e isso foi o meu caso, tem noção de que muitas vezes em política o importante não são só os sucessos que se conseguem, são também os problemas que não chegam a existir. E nesse aspecto, a presidência portuguesa nas últimas semanas, ou na última semana, tem estado bastante entusiasmada e bastante satisfeita com o que entende ter sido um problema que evitou e que conseguiu resolver. Para se ter alguma noção, isto tem a ver com a questão de um conjunto extra de vacinas que havia para distribuir e a maneira como se ia distribuir. E há aqui um detalhe que não tem sido contado, que é o seguinte: nesta discussão sobre por que em vários países, ou dentro da União Europeia, há velocidades diferentes de vacinação, uma das razões é que, para além de todas as outras questões, da organização interna, do que é que se irão fazer, os Estados-membros, cada um escolheu, digamos assim, dentro da sua cota de vacinas que tinha, de que farmacêutica que queria comprar as vacinas. E, portanto, houve alguns que, por razões várias, entre elas certamente do preço, se focaram sobretudo nas da AstraZeneca. O resultado disso, como é fácil de imaginar, é que esses Estados estão neste momento naquilo a que se pode chamar quase de pobreza de vacinas, isto é, de falta de vacinas, e portanto isso explica em parte o grande atraso na sua vacinação. E aqui o que aconteceu, havia uma espécie de dois grupos, os que estavam muito mal e os que estavam apenas mal. Os que estavam apenas mal, liderados pela Áustria, estavam a insistir que estas novas vacinas que havia, que estavam sendo negociadas agora, fossem distribuídas de uma maneira diferente e, portanto, que chegassem aos que estavam muito mal e aos mal, mais do que aos restantes. A presidência portuguesa acabou por, depois de não se ter conseguido resolver isto, nem ao nível do comitê que trabalha isto na Comissão Europeia, nem no Conselho Europeu, foi chutado para a diplomacia e os diplomatas acabaram por resolver a questão, dizendo que a solução passava por haver uma distribuição pro rata, ou seja, por população, e depois, cada Estado-membro, sobretudo os que estavam melhores, abdicaram da sua parte a favor dos países que estavam de fato muito mal por terem feito, digamos, más escolhas. Eu acho que há aqui duas notas a assinalar. Uma é, Portugal conseguiu evitar o problema. A segunda nota é que o primeiro-ministro austríaco, Sebastian Kurz, que foi quem liderou as reclamações dos que estavam mal, mas não muito mal, sai mal desta fotografia e sai mal desta relação, que seja com os alemães, seja com os restantes europeus. E, portanto, é uma nota positiva para a presidência portuguesa, por ter corrido bem, por ter evitado um problema que se tivesse acontecido, estaríamos todos a dizer que a falta de solidariedade é evidente e que os Estados-membros não se organizavam. Portanto, acho que há aqui um aspecto positivo a dizer a Portugal.
Henrique, só uma coisa telegráfica, que é aquilo que foi mais chocante foi que a Áustria é dos países que está melhor em termos de taxa de vacinação. E, portanto, isso também ajuda a explicar o facto de ter perdido em toda a linha nesta disputa.
É, justamente no fim, acabou por liderar um grupo de três, mas votou isoladamente contra esta solução. Bom, e este é o fim da primeira parte do Café Europa desta semana. Voltamos de seguida para a segunda parte. Entretanto, as notícias na Rádio Observador vêm já a seguir. E voltamos então à segunda parte do Café Europa, com Bruno Cardoso Reis, João Diogo Barbosa, Madalena Resende e eu, Henrique Pornay. Já de seguida iremos falar sobre o que se está a passar em Moçambique, ou o que se tem passado em Moçambique, e em que medida que a União Europeia pode ou deve ter alguma coisa a ver com isso. Mas antes disso, temos prêmios para os disparates da semana, os melhores disparates da semana, os "Dai se o Du".
"One cannot spend all the money in alcohol and women and then ask for help."
Madeleine Rezende, depois de eu ter falado e herdado um croissant a Portugal e a gestão de uma questão ligada a vacinas, agora o teu prêmio é para esta forma que se passa de melhor do mundo, a pior do mundo, a melhor do mundo, este vai e vem do país.
É verdade, esta pandemia é muito dada àquela expressão oriental, a roda da fortuna. Estamos sempre a ver rodar. Portugal começou bem na primeira parte, depois foi para pior do mundo e agora, por toda a Europa, especialmente na Alemanha, onde eu acompanho mais, é mais uma vez dado como exemplo do que se deve fazer para ultrapassar uma vaga mortífera como foi a nossa em janeiro e fevereiro. Estamos aqui de bestial a best and back. É interessante ver como é que estas percepções e estes exemplos são usados pelos políticos nos vários países para apoiar as suas próprias convicções. Agora que na Alemanha se quer um lockdown mais cerrado, chama-se o exemplo de Portugal para explicar como isso tem bons efeitos. E aqui vai o meu "dei-se o boom".
Um dia "faça-se como Portugal fez", no outro é "não façam como Portugal fez", e nós por cá também fazendo o mesmo gênero de coisas. Bruno Cardoso Reis: "E na Holanda diz-se não façam como Mark Rutte fez. Vergonha, mentir é feio, não se mente."
Sim, aqui o disparate obviamente é para este moralismo holandês, que tem esta espécie de posse de superioridade moral na Europa, que tem estado muito em vista, muito destacada, muito visível desde, pelo menos, a crise do euro e que se voltou a manifestar agora na crise pandémica. Esta ideia de que realmente os holandeses é que falam a verdade, gostam de dizer realmente as verdades duras, doa a quem doer, isso é uma característica holandesa. Aqui, primeiro descobriu-se, e já falámos, o governo do Mark Rutte, aliás, as eleições antecipadas tiveram a ver com isso, foi apanhado num escândalo em que defraudavam famílias pobres de imigrantes, de forma deliberada, de apoios às suas crianças para elas ultrapassarem situações de pobreza, subsídios a que tinham direito, portanto, eram defraudadas deliberadamente. Isso de facto foi denunciado, causou um escândalo e levou à demissão do governo. Um dos principais deputados, aliás, democrata cristão, talvez convenha dizer, que foi o responsável por denunciar esse caso e que inclusive cunhou esta etiqueta magnífica que é: "Este escândalo revela que a Holanda, que os Países Baixos, são uma monarquia das bananas." Aliás, é factualmente verdade, eles têm umas ilhas nas Caraíbas onde há mesmo bananas, mas independentemente disso.
Era isso que eu queria dizer.
O último escândalo, sequência disso, é que de facto neste processo de formação de governo descobriu-se que o Mark Rutte, uma das suas prioridades era afastar, punir este deputado prevaricador. Afinal, parece que dizer a verdade pura e dura não é assim tão popular na política holandesa. E depois ainda por cima mentiu a esse respeito, o Mark Rutte. Politicamente, isto pode não ter tido um impacto tão grande, ou seja, para já, o primeiro-ministro não foi alvo de uma moção de censura, ela foi derrotada, mas foi pessoalmente censurado por ter mentido ao Parlamento. Agora, aqui eu espero, sobretudo, é que pelo menos esta posse de prioridade moral talvez seja um bocadinho atenuada. Acho que isso era um bom contributo para a política europeia.
Isso, aliás, é um tema que te é caro. Já não é a primeira vez que trazes aqui a questão da superioridade moral dos holandeses. E aqui com esta história-
Do governo holandês, não de todos os partidos holandeses.
Que, aliás, deixou de ser muito popular agora depois de liderar os frugais. Esta atitude veio a ser menos popular depois da adoção do fundo de recuperação e resiliência, onde os alemães abandonaram Rutte com a sua posição muito dura e austera. Eles estão um bocadinho nas ruas da amargura, digamos assim, em relação a essa moral estrita da austeridade.
Bom, sacrificados os holandeses, os neerlandeses, nestes prêmios. Passamos a mais um, e o meu agora vem a propósito de um artigo na Economist, que chega à conclusão que a Europa cultural se criará pela Netflix. Enfim, é um exagero, nem o artigo diz exatamente isso, mas diz uma coisa que é interessante, que constata que de facto a realidade europeia são 27 realidades muito díspares, nomeadamente quando toca a um dos instrumentos mais importantes na vida das pessoas e no dia a dia, na construção de percepções culturais, que é a televisão. E depois diz: "Mas de repente a Netflix pôs os europeus todos a verem a mesma televisão, a verem os mesmos programas, e afinal isso pode ser o que vai construir ou ajudar a construir uma Europa comum." Eu devo dizer, tenho algumas dúvidas, até porque a Netflix pôs os europeus e outros a verem a mesma coisa, e todos a verem o "The Crown" e não me parece que seja por aí que fazemos uma Europa. Mas há um aspecto que para mim é importante daqui. É que esta questão de vermos todos televisões diferentes e lermos todos jornais diferentes na Europa é de facto importante, inclusive na questão da política europeia. É uma das coisas que eu costumo dizer em Bruxelas, é que os únicos jornais pan-europeus, no sentido em que acompanham a política europeia e as políticas nacionais, na verdade, são jornais locais em Bruxelas. Nós falamos aqui várias vezes do Político ou do Euractiv. São jornais locais na medida em que são lidos por aquela bolha. E ao contrário Não há, de fato, um órgão de comunicação social qualquer que seja comum a todos os europeus, ao contrário do que apesar de tudo acontece, por exemplo, nos Estados Unidos. E isto ajuda a demonstrar que são realidades substancialmente diferentes de um lado para o outro, e que dificilmente nós lemos sobre o que se passa na Suécia ou acompanhamos o que se passa na Grécia, mas a nossa relação é pouco íntima e é pouco partilhada. E, portanto, não acreditando que seja a Netflix que vai fazer a Europa cultural, acho que apesar de tudo, a Economist tem razão quando chama a atenção para esse fato. E é por aqui o meu "Dai sul lume".
Enrique, eu não sei se temos muito tempo, mas acho uma discussão, um tema fascinante e muito importante. Eu acho que, aliás, um dos paradoxos é que uma outra imprensa que tem um certo impacto pan-europeu é muito a imprensa anglo-saxônica, e nomeadamente inglesa. Eu acho que até no contexto do Brexit, isso também tem um impacto interessante, ou seja, o Economist, o Financial Times, sobretudo, são muito lidos por todo lado. E também é interessante a comparação com os Estados Unidos, porque realmente nos Estados Unidos, as televisões são muito nacionais, os canais de cabo são muito nacionais, mas durante muito tempo, realmente a política americana foi menos federalizada do que talvez nós pensemos, tendo aqui uma visão anacrônica, ou seja, a grande força da imprensa americana realmente eram os jornais, e grande parte dos jornais eram jornais locais até há muito pouco tempo. Mesmo o Washington Post ou o New York Times, que são um bocadinho os jornais de elite que os europeus conhecem, os nomes dizem alguma coisa. Eram realmente essencialmente jornais locais de Washington, que é a capital, claro, e de Nova York, que é a capital econômica. São jornais com alguma penetração um pouco maior, mas isso é até relativamente recente e não deixam de ser, apesar de tudo, jornais relativamente locais. Agora, de fato, na Europa, não há sequer ao nível da televisão, e enfim, o Euronews é uma tentativa respeitável, mas que não parece realmente alterar no essencial os dados da análise. Talvez o Netflix pudesse fazer em colaboração aqui com o Politico, ou com o Vox, ou com algo assim, uns programas sobre a política europeia que fossem realmente atrativos, não sei, no modelo do Café Europa, no fundo, diria eu.
Exatamente. Ou então uma série dramática passada em Bruxelas.
Convidem-nos.
Uma série dramática passada em Bruxelas. Bom, e eu passo ao próximo prêmio "Dai sul lume", que é dado pelo João Diogo, mas o interesse é partilhado por todos no tema, e que diria que vai também depois, enfim, na parte mais séria, abrir um pouco pra conversa seguinte, mas antes de mais nada, João Diogo, conta-nos o que é o Sofagate.
Exatamente. Finalmente mobiliário na discussão europeia. Não, isto é porque houve ontem um encontro dos presidentes von der Leyen e Charles Michel com o presidente Erdogan na Turquia. E o encontro foi muito publicitado como a grande oportunidade de viragem nas relações com a Turquia. Na semana passada falamos da publicação da proposta de estratégia da Comissão Europeia e esta visita, que era ao mais alto nível das instituições europeias, devia servir para provar que realmente a União Europeia está disposta a cooperar com a Turquia, se a Turquia estiver disposta a cooperar com a União Europeia. E a visita, do ponto de vista do conteúdo político, correu bem. Houve uma conversa até que se prolongou mais do que o esperado. Os líderes europeus, e sobretudo a presidente von der Leyen, conseguiu passar uma mensagem crítica daquilo que de pior há no regime turco e ficou claramente a ideia de que pode haver cooperação, pode haver melhores relações, mas que isso não virá de graça pra Turquia. No entanto, esse aparente sucesso acabou engolido por mais um sinal de desrespeito à União Europeia e às instituições europeias em especial. Isto porque tanto o presidente Michel como a presidente von der Leyen foram recebidos numa sala, imagino eu, do palácio presidencial turco, e nessa sala, curiosamente, havia apenas duas cadeiras. E o Politico hoje de manhã lembrava, e bem, ao publicar uma lista de regras para receções de delegações europeias, quando se convidam dois presidentes, convém ter três cadeiras. E portanto, gerou-se ali um pequeno incidente diplomático em que a presidente von der Leyen ficou a olhar para os dois homens que rapidamente se apossaram das cadeiras disponíveis e exprimiu o seu desagrado e a sua surpresa. Acabou por se sentar num sofá, tal como o ministro dos Negócios Estrangeiros turcos, e isso é um claro desrespeito. Podíamos entrar aqui na discussão se é um desrespeito sexista ou não. É claramente um desrespeito político e que vem depois do que aconteceu com o alto representante Borrell na Rússia, e que mostra claramente que quando as instituições europeias tentam agir por si e agir fora da cobertura dos Estados-membros, têm grandes dificuldades para serem respeitadas pelos poderes externos. E, portanto, a grande dificuldade da Comissão Geopolítica continua a ser o fato de ninguém fora da Europa a levar a sério, e depois temos estes episódios caricatos e muito tristes para o espírito europeu.
Sim, até estou espantada de tu não teres dito nada sobre o presidente Michel. Quer dizer, disseste, mas ele nem sequer quando voltou a Bruxelas disse que alguma coisa teria estado errada. Foi um bocadinho estranho.
Não, o presidente Michel é um homem que vem da Bélgica, e como sabemos, a Bélgica é um país muito fragmentado politicamente, e ele sabe perfeitamente que quando há poucas cadeiras, é preciso ser rápido a ocupá-las, porque senão alguém vai ocupá-las no seu lugar. Portanto, a presidente von der Leyen, que vem de um país mais estável, acha que tudo funciona com regras e good manners e tipos.
Os meus dois contributos, um é histórico. Os turcos otomanos são os grandes inventores do sofá, da sultana, e o sultão costumava sentar-se no sofá. Portanto, eu não sei se até não terá sido ao contrário, ou seja, não seria uma prova de respeito pela presidente da Comissão. Depois, o outro curto-circuito pra mim é toda esta discussão do gênero e isso tudo, porque eu achei que
Pelo menos nesta versão mais radical do feminismo, os homens não é suposto terem nenhum tipo de deferência para com as senhoras, porque isso seria estar a demonstrar que acham que são superiores ou que as senhoras precisam de ajuda, sentar-se, abrir portas, etc. Portanto, eu pensei que o Charles Michel estava, no fundo, a ser aqui um emancipado, um feminista, quer dizer, não quero saber da senhora, a senhora sabe perfeitamente onde é que se há de sentar e o que é que há de fazer. Mas depois foi muito criticado por isso.
Bruno, e não querendo ocupar muito mais tempo com este tema pra depois podermos ter algum tempo, que mesmo assim vai ser curto, para o tema seguinte, só para uma nota histórica, só a propósito da história dos três lugares. É porque quando eu vi aquela imagem, lembrei-me de uma outra, de 2008, quando a presidência-turno da União Europeia era francesa e na altura Sarkozy foi a Camp David encontrar-se com o presidente Bush e o presidente da Comissão também foi na altura o presidente Barroso. E há uma imagem, aliás, era capa do DN, mas é uma imagem que esteve em vários jornais, em que aparece o presidente Bush naqueles carrinhos de golfe em Camp David, como é costume, com o presidente Sarkozy ao lado e no banco de trás, virado assim como uma espécie à pendura, aparecia o presidente Barroso. Eu lembro me na altura ter reparado nessa imagem.
Portanto, era o caddy.
Havia ali uma coisa que se percebia um pouco, que era o presidente Barroso estava ali um pouquinho a tentar colocar a Comissão num lugar que é tipicamente dos Estados nas relações entre Estados. Aqui não foi o presidente de turno, ou seja, não foi António Costa, mas foi o presidente Charles Michel. E aqui, do lado do protocolo, apesar de tudo, não sei qual é que é a regra, parece-me de facto que a maneira como a coisa aconteceu não foi bonita, mas não há dúvida que é no Conselho que está o centro da política externa, sem prejuízo da Comissão olhar para o mundo com uma perspectiva geopolítica, o centro da política externa da Europa ainda está nos estados membros. Isto dito, não deixa de ser notório, de facto, que os vizinhos, sejam os russos, sejam os turcos, não hesitam em ser ostensivamente desagradáveis, nomeadamente para a Comissão Europeia, e já não é a primeira vez. Mas vamos ao nosso tema da segunda parte, vamos ter pouco tempo. Bruno Cardoso Reis, peço-te a ti para abrires o tema de Moçambique e do que se passa em Cabo Delgado, até porque de entre nós, és o único que tem uma formação em War Studies e que estudaste precisamente este tipo de conflitos. E portanto, Bruno, o que se passa e podia a União Europeia ter algum papel no que se está a passar em Moçambique ou devia?
Em primeiro lugar, é importante perceber em que tipo de conflito é que estamos. Uma velha máxima do Clausewitz. E portanto, nós estamos aqui, de facto, perante uma insurreição armada, com uma componente também ideológica forte, religiosa, se quisermos, ou seja, desta corrente salafista, takfiri, jihadista, ligada ao Estado Islâmico, não é comandada pelo Estado Islâmico, mas procura essa ligação para efeitos de legitimação e, por sua vez, o Estado Islâmico usa estas filiais, vamos dizer assim, para mostrar que está vivo. E aqui há um aspecto crucial que é esta filiação, uma das coisas em que se traduz é numa enorme vontade de atacar interesses europeus e de atacar europeus. Portanto, por exemplo, esta ideia que às vezes se ouve que aqui o fundamental é o desenvolvimento, é a ajuda ao desenvolvimento. Bem, isso a Europa faz muito. Em África, em geral, metade da ajuda ao desenvolvimento é dada pela União Europeia ou por estados europeus, é muito mais do que, portanto, sozinha a Europa dá tanto como o resto do mundo combinado. Isso também acontece em Moçambique. Há a questão da ajuda de emergência, que também é importante. Agora, é preciso ser muito claro que sem uma resposta militar eficaz a estes grupos armados, não se consegue fazer nem ajuda ao desenvolvimento, nem investimento. Obviamente, há aqui um investimento, aliás, em parte também europeu, bilhões de euros, dezenas de bilhões de euros no gás natural nesta zona. Nada disso se consegue fazer enquanto há este conflito armado. E portanto, aqui há uma componente realmente indispensável que é a resposta militar. Aqui qual é que é o problema? A União Europeia já está a dar ajuda ao desenvolvimento, está a dar alguma ajuda também de emergência, por exemplo, em termos de ajuda alimentar, alguns milhões de dólares. Se calhar podia ser mais estratégica nesse uso da ajuda. Agora, em termos militares, realmente o que a União Europeia pode fazer é uma missão de treino e portanto é aparentemente isso que está a ser preparado, obviamente com o acordo de Moçambique. Eventualmente, o que se pode discutir é se isso será suficiente. Esta missão de treino será certamente útil, está aparentemente orientada, como aliás a ajuda bilateral portuguesa também para o apoio às forças especiais, que têm um papel muito importante neste tipo de conflito. No fundo, são essas forças especiais que estando a funcionar bem, com base em boas informações, em bons sistemas de comunicações, conseguem rapidamente, quando há um ataque, mesmo que as forças militares locais não tenham grande capacidade de resposta, rapidamente darem uma resposta muito mais robusta, muito mais eficaz. Portanto, isso está bem. Agora, a questão é se não será necessário, obviamente, mais uma vez, com o acordo de Moçambique, que para já não existe, Moçambique tem sido muito claro que aceitará eventualmente este tipo de ajuda, não aceitará a presença de tropas estrangeiras em missões operacionais, em missões de combate. E aí o ponto final é, de facto, a União Europeia não está apta a fazer esse tipo de missões. Não tem o comando operacional, não é esse o tipo de missões que a União Europeia faz. A existir, terá de ser de outras organizações regionais e até organizações regionais africanas, terá de ser no modelo de uma outomigação ad hoc, não será por via da União Europeia.
Bruno, é exatamente isso que eu queria, é talvez o meu único comentário antes de passar ao João Diogo e à Madalena, tem que ver com isso. É que a União Europeia é Assumidamente, uma potência económica não é uma potência militar. E a sua componente militar está assente na NATO, ou seja, a componente militar europeia é a Aliança Atlântica e é por aí que está, sem prejuízo de haver políticas ligadas à defesa. Agora, é difícil ser-se um ator global quando assumidamente, porque não é só por não ter exército, que é uma questão não esta, é que mesmo no âmbito da NATO, os exércitos da União Europeia não estão habituados a ir para combate. Portanto, mesmo que Moçambique pedisse, não há muitos exércitos europeus, exceção talvez feita ao francês, disponíveis para fazer isto.
Bem, Henrique, aí não estou inteiramente de acordo. Temos de lembrar que há muitos contingentes europeus no Afeganistão, no Iraque, com baixas significativas, até portugueses. Agora, a questão é, até se está a trabalhar nesse sentido, de tornar as missões europeias muito mais robustas, até este treino. Mas, por exemplo, a União Europeia não tem, é uma herança britânica, mas entretanto os britânicos já se foram embora, portanto a desculpa já desapareceu, esse veto britânico, a União Europeia não tem um quartel-general realmente operacional, que comanda operações no terreno, como tem a NATO. Até esse ser criado, não vale muito a pena estarmos com essas ilusões. Agora, isto tudo não invalida o teu ponto principal, que é a Europa tem de dar muito mais importância a esta dimensão da defesa, porque infelizmente o mundo não parece estar a ir no sentido de se tornar mais pacífico ou menos conflituoso.
Mas a minha questão é essa. Apesar da União Europeia em si não ter todos esses instrumentos que tu mencionaste, há formas de cooperação bilateral, trilateral, várias formações de exércitos de vários países, que poderiam eventualmente ser usadas, não sei se neste conflito particular, mas que poderiam ser desenvolvidas à margem, eventualmente, das instituições europeias ou em articulação. E aqui é que é a minha dúvida em relação se, de facto, no contexto da União Europeia, se tem dado, ou no contexto dos países europeus e das suas relações diplomáticas, se tem dado suficiente ênfase à possibilidade dessa intervenção ou dessa ajuda mais rápida.
Sim, ó Madalena, essa é uma questão muito especial das comunicações.
Sim, mas é só telegráfico, é só para dizer. A questão aí é que o Estado moçambicano não está a pedir essa ajuda. E ao contrário da lenda, que aparece muitas vezes nos meios de opinião, não é verdade que a maior parte dos Estados ocidentais estejam desejosos de fazer intervenções militares pelo mundo todo.
Bruno, deixa-me só trazer aqui o João Diogo Barbosa, antes de fecharmos esta segunda parte e depois no prolongamento certamente voltaremos aqui. Mas João Diogo.
Já não tenho tempo para ser telegráfico. Eu diria que nasci demasiado tarde para ser neoconservador e, portanto, não acho que a democracia se possa alcançar na ponta de uma espingarda e acho que a União Europeia não tem essa vocação, nem sequer tem essa força política neste momento. Sabe Deus arranjar uma cadeira, quanto mais arranjar um regimento que consiga tomar Moçambique. E preocupa-me um bocadinho que ainda se ache que por ser em África e por termos laços coloniais antigos, se possa simplesmente intervir contra a vontade do governo moçambicano e que haja um dever até de ultrapassar o governo moçambicano. Ao mesmo tempo, sempre que ouvimos falar de Moçambique nas notícias, são notícias de falhanço do Estado, falhanço do governo, desta situação em Cabo Delgado de que já ouvimos falar há três ou quatro anos, o caso das dívidas ocultas, aquele caso de cooperação muito mal feita com Portugal quando foram raptados empresários portugueses. E portanto, eu acho que há aqui um problema político local que deve ser tido em conta e que a União Europeia não pode resolver.
No prolongamento para quem estiver a ouvir no podcast, vamos voltar certamente a esta questão, seja de Moçambique, seja até onde é que a Europa pode chegar na defesa ou na intervenção, na defesa dos seus interesses ou não e nas intervenções militares ou não, mas isso fica para o prolongamento. O "Café Europa" desta semana acaba aqui. Bem-vindos ao prolongamento do "Café Europa", com Bruno Cardoso Reis, João Diogo Barbosa e eu, Henrique Porné. A Madalena Resendes não nos está a fazer companhia desta vez, volta para a semana no prolongamento. E a propósito de faltar, vamos voltar ao tema onde estávamos. João Diogo Barbosa, à saída da segunda parte, estavas tu a falar sobre as limitações e o que se espera ou não da União Europeia. Isto vinha a propósito do nosso tema que começámos em Moçambique e prolongámos para onde é que a Europa pode ou deve querer estar. Volta a ti, João Diogo.
Sim, eu tenho sempre dificuldade em aceitar aquelas grandes teorias que não levam em conta especificidades locais. E, portanto, eu acho que vale a pena falar um bocadinho de Moçambique e do que temos sabido, sobretudo nos últimos três, quatro anos, desde que esta situação começou. E o que sabemos é, sobretudo, notícias do falhanço do Estado, não só em geral e não só em abstrato, naquele sentido mais vago de "é um Estado pobre e a pobreza deixa cidadãos e territórios mais vulneráveis", mas também muito em concreto pela forma, eu diria Quase inábil e certamente opaca, com que o governo tem tratado o problema nos últimos anos, sempre a recusar ajuda, sempre com muita parcimônia nas informações que revela e que deixa passar para fora do território. E eu lembrava que Moçambique nos tem aparecido nas notícias sempre, ou quase sempre, através de histórias de falhanço. Aquela situação da dívida é muito caricata, mas demonstra exatamente os problemas do país. A certa altura, a dívida escondida representava metade da despesa do Estado com dívida, vale esclarecer. E, portanto, acho que em um Estado que está tão fragmentado que não consegue por si só controlar aquela parte do seu território, é muito difícil dizer que a União Europeia deve ir, deve avançar, seja por si própria, seja, como é mais natural, através dos exércitos dos seus Estados-membros, para um sítio onde não parece ser bem-vindo, onde o governo não tem tido grande vontade de chamar a União Europeia, de chamar ajuda. E aliás, eu diria que o governo português até tem sido dos primeiros e dos que estão em linha da frente a falar do problema e a denunciar o que se vai passando, e isso vale a pena saudar. Mas aqui também temos outra perspectiva e que tem a ver com o facto de Moçambique pertencer, por um lado, à CPLP e, por outro lado, também à Commonwealth. E não se vê aqui ninguém a chamar os britânicos para defender o território. Portanto, apesar do passado colonial, não acho que deva existir uma obrigação portuguesa de enviar tropas, muito menos quando o governo não as pretende.
Antes do Bruno voltar a esta conversa, queria aqui dar duas notas, uma a propósito especificamente da questão de Moçambique, e ficou para concordar contigo, que o primeiro critério é saber se o governo de Moçambique quer ou não quer ajuda e que tipo de ajuda quer, independentemente de podermos achar que deveria querer ou deveria ter capacidade para governar melhor. Mas enfim, não há possibilidade de intervir contra a vontade. O segundo comentário, ainda sobre Moçambique especificamente, é que com frequência há uma discussão sobre a questão da herança colonial. E eu acho que quando há uma espécie de reação emocional imediata a estas circunstâncias e achar que Portugal se deve preocupar, isso é o reverso da moeda, ou seja, há de fato laços, há pessoas em Portugal que nasceram em Moçambique, há pessoas que viveram em Moçambique ou as suas famílias viveram em Moçambique, portanto, nós temos uma relação que não é apenas aquela que algum retrato dos que olham para tudo como sendo uma história do racismo querem desenhar. E, portanto, há aqui uma sensação de maior responsabilidade, como é em Portugal, que se fazem mais recolhas de fundos quando há acidentes naturais.
Mas neste assunto, Henrique, desculpa, neste assunto foram muitas vezes essas pessoas que insistem na tecla do colonialismo que disseram: "Não, Portugal tem uma obrigação de enviar tropas". Desta vez houve aqui uma inversão do discurso e viu-se muito em Portugal, não tanto lá fora. A França também tem lá grandes interesses. O campo da petrolífera estatal parece o centro das operações, mas em Portugal, desta vez, a questão do colonialismo já funcionava em reverso de nós termos uma obrigação de mandar pelas próprias pessoas que acham que nós temos uma grande mácula colonial.
Exatamente. Eu acompanho essa nota. Agora, deixem-me só passar ao tema, à questão europeia onde eu estava a querer ir há pouco, Bruno, a propósito de se a Europa tinha ou não condições de intervir. O que eu estava a querer dizer há pouco é que a Europa, normalmente, não é e os exércitos europeus não são chamados a intervir de forma primária, liberando todos estes exemplos do Afeganistão, do Iraque, há a participação das tropas europeias, mas normalmente vamos em apoio, e não a liderar uma intervenção internacional. E, portanto, era aí que estava a minha referência para dizer que eu acho que em primeiro lugar, entre os europeus, entre os cidadãos europeus, há pouca disponibilidade para que isso acontecesse. Mas para onde eu queria ir um pouco, divergindo agora aqui da questão de Moçambique e voltando ao que falámos antes sobre Turquia ou sobre a Ucrânia, sobre a Rússia e a Ucrânia, é que há aqui um problema na União Europeia que na década de 90 nós acreditávamos, a Europa acreditou muito que podia ser uma potência normativa. Isto é, funcionava por dando exemplo e eventualmente financiando quem estava à sua volta para se aproximar e ser mais semelhante da União Europeia. Isso foi a doutrina, inclusivamente, defendida pelo então presidente da Comissão, Romano Prodi, de que a Europa devia ter à sua volta um círculo de amigos que ia conquistar porque era um exemplo que os restantes queriam seguir. Não é isso que está a acontecer. E a verdade é que o mundo multipolar não é mais seguro, nem mais pacífico, nem mais previsível do que o mundo com duas grandes potências. E eu acho que a Europa ainda não sabe onde é que está. E a verdade é que onde a Europa de fato é geopolítica é no comércio. O problema é que querer manter o comércio ou fazer do comércio o critério de todas as suas intervenções, levanta problemas sérios, porque não é necessariamente orientada por princípios, ponto um. Dois, com frequência vai preferir manter boas relações e manter o comércio a ter alguma intervenção de influência. E era por aqui que eu estava a ir mais do que outra questão. Mas Bruno, voltando a ti para fecharmos este prolongamento.
Eu estou muito de acordo com as vossas observações. Acho que, em todo caso, talvez a crítica que se possa fazer à União Europeia, o deputado Paulo Rangel já fez, era no sentido de que pelo menos ao nível da ajuda humanitária, talvez poderia ter sido um caminho mais célere e preventivo, mas eu também não tenho dados suficientes para validar isso. Pegando um pouquinho nos vossos pontos, o ponto que o João Diogo refere da fragilidade, dos problemas de legitimidade do Estado moçambicano, da falta de eficácia, de todas as alegações de corrupção, etc., são realmente um problema muito grande. E uma chave para uma resposta mais eficaz a este tipo de ameaça tem que ser necessariamente militar, e haver também uma perceção de eficácia militar, que também tem faltado, mas tem de haver também uma resposta política e econômica. Uma coisa que seria fundamental era o governo moçambicano conseguir passar a mensagem, talvez também com alguma ajuda externa, alguma ajuda europeia, por exemplo, de um novo plano estratégico para desenvolver aquela zona do norte de Moçambique. A ideia é que pelo menos uma parte destes bilhões que virão do gás natural vão ser aplicados ali com algum escrutínio internacional que dê alguma credibilidade a isso e que o grande obstáculo ao desenvolvimento do norte não é o governo, não são os ocidentais, não é a Europa, são estes grupos terroristas. A questão da negação é realmente um ponto crucial. O governo moçambicano está em negação há muito tempo. Mas diga-se a verdade, com base nos meus estudos desse tipo de conflitos, isso é um padrão que se verifica sempre. Se nós pensarmos, por exemplo, no Iraque, os Estados Unidos passaram mais de um ano a dizer que não havia nada, que não havia guerra de guerrilha nenhuma. Em termos de casos históricos, a mesma coisa. A ideia que é o banditismo, que são pessoas infiltradas de fora, que não são moçambicanas, tudo isso são coisas que são muito frequentes na reação a uma insurreição armada, que é sempre, de facto, uma coisa muito frustrante e muito embaraçosa para qualquer governo. O grande problema aqui é que estamos num ponto em que essas negações são cada vez menos credíveis. Isso deu margem também a que o grupo fosse ganhando experiência, fosse recrutando, fosse se tornando mais eficaz e portanto temos aqui uma situação realmente especialmente perigosa. Agora, dito isto, um ponto crucial que vocês também referiram é que não se pode impor a Moçambique uma intervenção, como é evidente. Tem de ser Moçambique a querer, mais politicamente, até do ponto de vista da eficácia deste combate, que também é muito um combate político, e seria muito bom para os jihadistas a ideia de que eles é que estão a defender Moçambique, ou pelo menos este território, contra uma intervenção internacional forçada. E diga-se também, em África, infelizmente, o que mais falta são missões, por exemplo, das Nações Unidas, com milhares e milhares de tropas estrangeiras no Congo e noutras zonas, que depois são completamente ineficazes militarmente, não conseguem resolver o problema e muitas vezes também criam problemas. Eu admito que seja necessário algum tipo de presença militar estrangeira, mas seria desejável que fosse africana. A organização regional com a principal responsabilidade nesta região é a comunidade regional a que pertence Moçambique, da África Austral, a SADC, que até tem algumas capacidades militares, nomeadamente a África do Sul. Mas mesmo admitindo que Moçambique não queira isso, eu acho que uma presença estrangeira muito seletiva, muito minimalista, poucas tropas, eventualmente até pegando nesta ideia da missão de treino, mas uma missão de treino mais musculada. Por exemplo, é algo que os americanos têm feito muito em África, no Níger, noutras partes. No fundo, é fazer treino não só no quartel, mas também no terreno. Portanto, haver um acompanhamento destas forças especiais que estão a fazer treino depois ao terreno, ajudar também a montar comandos conjuntos que deem uma resposta mais eficaz, fornecer apoio aéreo, fornecer apoio em termos de informações. Se calhar, isso será muito mais eficaz, quer militarmente, quer politicamente, do que realmente uma grande missão internacional com muitas tropas, que depois muitas vezes não são muito eficazes. Agora, em última análise, os países europeus podem contribuir alguma coisa. Em África, por exemplo, a França tem feito operações deste género com a ajuda de outros países europeus, por exemplo, no Mali. É verdade que em missões mais musculadas ainda, como dizia o Henrique, tem sido sobretudo através dos Estados Unidos e através da NATO, até porque nós não temos essa capacidade de comando a nível europeu, mas, por exemplo, a NATO aqui também não seria politicamente muito desejável. Até tendo em conta o perfil desta insurreição e tudo isso. Portanto, acho que há que fazer um esforço para fazer realmente mais, para reforçar o diálogo com Moçambique e perceber realmente como se consegue acomodar estas preocupações, sem deixar de dar resposta à dimensão da eficácia militar, que tem claramente de ser melhorada, e também a estas outras dimensões mais políticas, mais econômicas, de resposta às queixas legítimas das populações daquela região.
E com isto, Bruno Cardoso Reis e João Barroso, chegamos ao fim deste grande prolongamento do Café Europa desta semana. O Café Europa e o prolongamento do Café Europa regressam na semana que vem.
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