O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, rejeitou esta quarta-feira fazer um ‘mea culpa’ às pessoas cujas tragédias a ONU não conseguiu impedir, atribuindo responsabilidades à comunidade internacional que “muitas vezes foi indiferente ao sofrimento desses povos”.

“Culpa significa que sou responsável pelo que lhes aconteceu. Por isso, não creio que a pergunta seja uma expressão de ‘mea culpa’, porque tenho lutado consistentemente pelos direitos destes povos”, respondeu Guterres, ao ser questionado por um jornalista sobre se sente que deve um ‘mea culpa’ às pessoas cujas tragédias não conseguiu impedir e que depositaram todas as suas esperanças na ONU, desde Gaza ao Líbano, passando pelo Sudão.

‘Mea culpa’ é uma expressão em latim que significa “minha culpa” usada para admitir um erro ou assumir a responsabilidade por uma falha.

“O que eu poderia dizer é que, em nome da comunidade internacional, sim, em nome da comunidade internacional, há um ‘mea culpa’ que é preciso exprimir, porque a comunidade internacional tem sido muitas vezes indiferente ao sofrimento destes povos. E isso é absolutamente intolerável”, sublinhou o líder da ONU.

Numa conferência de imprensa antes da Semana de Alto Nível da Assembleia-Geral das Nações Unidas, em Nova Iorque, Guterres alertou para uma tendência da comunidade internacional “para esquecer” os conflitos em curso sempre que um novo emerge.

“E vemos, por exemplo, como aconteceu com os desenvolvimentos da crise no Golfo, uma tendência para esquecer o que se passava em Gaza ou na Cisjordânia. E a nossa posição tem sido muito clara: não haverá paz no Médio Oriente sem uma solução para a crise israelo-palestiniana, e não haverá paz no Corno de África se a crise do Sudão não for resolvida”, insistiu o antigo primeiro-ministro português.

António Guterres deixará o cargo de secretário-geral da ONU no final de dezembro, após completar dois mandatos consecutivos de cinco anos na liderança da organização.

Os últimos meses de Guterres no cargo decorrem num contexto mundial complexo, marcado por tensões geopolíticas e conflitos crescentes, pressão sobre o financiamento do desenvolvimento e da própria organização, rápidas mudanças tecnológicas e o aquecimento global, fatores que continuam a testar o sistema internacional.