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Bem-vindos ao Café Europa, como de costume, com o Bruno Cardoso Reis, o João Diogo Barbosa, a Madalena Resende e eu, Henrique Bourne. E este para ouvir com especial atenção, porque é o penúltimo antes do verão. E vamos falar sobre unanimidade ou não na União Europeia, como tratar a vizinhança, se estamos ou não preparados para as ondas de calor, que energia é que a Europa quer ter e qual é que consegue ter, e até um eventual efeito de Londres por oposição ao efeito Bruxelas. Mas já lá vamos. Arrancamos com os Átilas, o mau da semana. João Diogo Barbosa, o primeiro Átila é teu e é para o chanceler alemão que quer mais união e menos unanimidade na União Europeia.

É verdade, o chanceler Scholz publicou um artigo de opinião naquele jornal alemão que fica em Frankfurt e cujo nome eu não consigo pronunciar, deixo para a Madalena, que toda gente conhece.

Frankfurter Allgemeine Zeitung.

Podes dizer "Faktische".

Nem sei qual é que prefiro, Madalena, mas voltando ao tema. O chanceler Scholz escreveu esse artigo, que é um artigo importante na medida em que ele anuncia que nos próximos meses o seu governo vai propor uma série de reformas da União Europeia que vão desde a soberania digital até à política externa, e é na política externa que ele repete a sua grande bandeira, que tem a ver com o fim do direito de veto dos países e, portanto, o fim da unanimidade para tomar decisões relativamente à política externa. E parece-me que esse artigo tinha um pouquinho o propósito de recuperar para a Alemanha e para o governo de Scholz, a capacidade de liderar o debate público europeu, que tem fugido um pouquinho. O governo de Scholz não é propriamente forte, mas também teve um pouco azar de contexto e, portanto, não tem conseguido ser o grande governo alemão que toda a gente ouve. Mas parece-me que o grande erro aqui, nós já temos discutido o problema do fim da unanimidade, mas o grande erro relativamente a este artigo tem a ver com o contexto, precisamente. Porque eu acho que os alemães, e especificamente o governo alemão, ainda não percebeu muito bem o que é que se está a passar. Para a Alemanha, o problema da guerra da Ucrânia é verdadeiramente decisivo ao nível europeu. Neste momento, e ao contrário das crises que nós tivemos antes, não há grande paciência para ouvir as propostas alemãs, para submeter um grande número de Estados a tudo o que o governo alemão pretenda fazer. E eu acho que esta tentativa num governo normal, sei lá, em qualquer momento do governo da chanceler Merkel, teria sido notícia durante duas ou três semanas. Desta vez foi um artigo muito denso, com uma série de promessas de propostas que quase passou despercebido. E eu acho que tudo isso mostra não só a fraqueza das propostas, nomeadamente esta sobre a política externa, mas também uma certa fraqueza dos alemães, que não é apenas uma fraqueza deste governo, porque desta vez é uma crise em que a Alemanha já não lidera, já não tem sequer autoridade moral para liderar. Não é como aconteceu nas crises da dívida em que se foi a ver e os alemães tinham as contas certas.

Ó João Diogo, desculpa, deixa-me só perguntar-te uma coisa, que eu confesso que só tive tempo para ler o nome do jornal completo, mas não tive tempo para ler o artigo. Ele refere o fim da unanimidade, ou seja, isso também se aplica, por exemplo, ao orçamento ou é só em relação a certos temas escolhidos?

Não, aliás, um dos grandes problemas do fim da unanimidade na política externa é eu não imaginar alguma vez uma decisão que seja tomada contra o veto alemão. E, portanto, a Alemanha não quer mexer no orçamento, mas de maneira alguma eu consigo imaginar, quer na política externa, quer em qualquer ponto importante da agenda europeia, que se tomem decisões contra os interesses alemães.

É mais fácil aos países grandes proporem o fim da unanimidade, não é?

Claro.

Sim, mas isso já não é novo. Aliás, o chanceler Scholz todos os meses faz esta proposta e cada vez menos tem impacto. E esse também é um problema de comunicação deste governo. Mas para concluir, acho que neste momento os europeus estão muito mais interessados em ouvir, curiosamente, o que tem para dizer o governo polaco, do que o que tem para dizer o governo alemão, e essa é uma mudança muito importante e, vamos dizê-lo, estrutural.

Absolutamente de acordo contigo em vários aspectos. Para além da questão de fundo sobre a unanimidade e a maioria, que já aqui falámos tantas vezes, é a questão da oportunidade, ou seja, tu levantas a questão não é só da proposta, mas que revela o problema do proponente, isto é, o quão pouco levado a sério é o proponente neste momento. E eu acrescentaria, de facto, a falta de sentido da oportunidade, porque se houve alguma coisa que aconteceu à Europa durante esta guerra da Ucrânia, foi a importância europeia ser evidente e até uma noção de Europa que fez com que pessoas em Portugal percebessem que um problema na Ucrânia era um problema europeu e que uma resposta europeia já não era só para resolver o nosso problema, porque com frequência nosso sentimento de europeu é nós queremos que todos nos ajudem a resolver o nosso problema, seja ele o do Covid ou o da dívida, mas desta vez foi percebermos que a Europa desempenhava um papel. Isso é uma coisa que atravessou bastantes países. Ora, o país que se sentiu que foi um dos que esteve a ser mais arrastado foi precisamente a Alemanha. E é a Alemanha que vem dizer que um dos problemas é a unanimidade. Não é, a unanimidade não tem sido. Mostra-me onde é que a unanimidade...

Aliás, tu próprio, Henrique, já utilizaste aqui o melhor argumento para combater essa questão, que é Mas a NATO não funciona por causa da regra da unanimidade? A NATO, que é o pilar da nossa defesa, que é um instrumento fundamental para nos defender dos russos, está paralisada por causa da questão da unanimidade? Não está. Então qual é que é o problema? E portanto, nós temos de aplicar na União Europeia uma solução para resolver um problema, aparentemente uma ameaça à segurança europeia, quando toda a gente sabe que a organização que realmente responde às ameaças mais sérias à nossa segurança, funciona com base na regra da unanimidade.

Também tem lá a Hungria, nem sequer é por aí.

E ainda a Turquia, mas ainda assim funciona. Até porque todos os Estados sabem que quando é questões um bocado politiquice, é uma coisa. Agora, quando se trata de realmente defender um ou outro Estado-membro, não costuma haver problemas, porque todos sabem que esse é o pilar do artigo quinto, e é aquilo que garante que quando eles tiverem chatices e problemas, e a Turquia de vez em quando tem, se forem realmente sérios, também ninguém vai levantar essa questão, nem pôr problemas. E depois, com esta falta de seriedade de se aplicar só a certas áreas, ainda por cima, uma coisa bizarra, porque se há áreas onde uma instituição que não é uma federação, obviamente não deve entrar federalizando, é a defesa e a política externa, são os últimos redutos da soberania em qualquer contexto, até em termos de filosofia política, em termos de ciência política. Mas depois quando se trata daquilo que é o core business da União Europeia, por exemplo, a questão monetária, aí já não se aplica uma unanimidade. É uma federalização completamente bizarra, mas sobretudo eu acho que quem se deve estar a rir é o presidente Macron, que tantas vezes foi criticado pelos alemães pela sua falta de prudência e de sentido de oportunidade e por fazer propostas excessivamente ambiciosas. E de facto, isto é uma coisa delirante neste contexto. Até porque como tu dizes, Henrique, aqui no fundo estamos a fazer uma prova prática de união. E com este problema, que é o que desacredita este tipo de propostas da Alemanha neste contexto, que é a Alemanha, infelizmente, de facto, não tem sido o melhor aluno exemplar nessa questão. Mesmo a questão da energia, que iremos falar em mais detalhe. A Alemanha apela agora de forma patética à união e à solidariedade no campo da energia, quando ignorou durante duas décadas os apelos, por exemplo, de Espanha e Portugal, porque obviamente eram países do Sul que não percebiam nada do assunto, para se investir nisso, na prática.

Ou os apelos dos países da Europa de Leste e do Báltico para que não se dependesse tanto da Rússia. E era praticamente direto ao tema, não é, Madalena?

Não, eu acho que esta é uma discussão que está realmente a vir no momento. Enfim, eu não sei se isto não é de certa maneira uma maneira de pôr alguma pressão em Orbán, dados os últimos usos do veto por parte do líder húngaro, mas de facto, no seu conjunto, não parece a melhor quando a casa está a arder, não parece o melhor momento de se discutir este gênero de questões estruturais.

E renovações da casa, e como é que se vai fazer a decoração. É capaz de ser melhor apagar o incêndio.

Com um aspecto que tu referiste, agora que me parece importante, mesmo em relação ao Orbán. Está tudo a querer incomodar, porque a Hungria está a usar o veto para impedir alterações em matéria de soberania fiscal. Mas, como diz o Bruno, não ocorre a quem acha que os países não devem poder concorrer uns com os outros em termos fiscais, mas já não aceitam que a decisão sobre quanto é que cada um paga para o bolo da União seja por maioria.

Ou seja, eu nem sequer percebo se esta solução resolvia esse problema. Aparentemente não, porque é uma área em que a Alemanha não quer que haja unanimidade.

Nem sei se iria aí. Agora, há aqui um outro aspecto, ao contrário. Eu acho que de facto este é o pior dos momentos para andar a discutir questões institucionais. Pelo contrário, há uma discussão institucional que tem começado e que eu acho que é interessante e que é útil ter, que é a questão de saber se, e esta semana com o início das negociações com a Macedônia e com a Albânia, e antes com o se ter aberto a porta a negociar no futuro com a Ucrânia, levanta-se para mim uma questão que me parece interessante, que é de discutir, aí sim, parece-me razoável discutir se haverá que pensar ou repensar formas que permitam à União Europeia continuar a crescer, mesmo que não estejam todos dentro da mesma maneira. Ou seja, haver fórmulas diferentes. E há a ideia do Macron da comunidade política europeia. Há agora uma versão de alguns Estados-membros que sugerem que os países candidatos, antes de chegarem a ser membros, pudessem já beneficiar de algumas vantagens acrescidas, inclusivamente participar em alguns financiamentos e participar em algumas instituições. Eu acho que se é para discutir alguma coisa, então sim, prefiro discutir algumas ideias à volta de como é que se pode alargar se houver dificuldades. Eu essa discussão acho razoável e interessante, e até, Madalena, por exemplo, eu lembro que tu e eu não teremos eventualmente a mesma abordagem a esta ideia da comunidade política europeia. Mas acho que é um assunto que faz sentido discutir, não a questão da unanimidade.

Zé Henrique, deixa-me voltar à questão da unanimidade só para dizer que a Alemanha não sabe a sorte que tem, porque apesar de tudo, a unanimidade permite que nós agora possamos olhar pra Hungria. A Hungria gosta de ter um direito de veto porque permite fazer o país crescer e dar-lhe uma dimensão que em termos relativos não tem, de população, de economia, etc. Mas eu não sei se seria do interesse da Alemanha, por exemplo, ser vista a votar ao lado de Órban em relação a sanções contra o gás russo, que a Polônia pudesse ter vindo a propor muito mais cedo. E a verdade é que os países europeus ainda não se aperceberam que aquilo que fazem no Conselho, que é dizer: "Bom, de fato, eu não concordo aqui com a forma de falar do meu colega húngaro, mas temos que ter mais cuidado, não pode ser assim à balda." Eu acho que se a discussão passasse para a maioria qualificada, os alemães e muitos outros Estados que às vezes se escondem atrás do Órban, iam precisar de votar ali e não sei se eles iam querer votar ali. E portanto, de certa forma, isto acaba por ser uma armadilha em si mesmo.

Absolutamente de acordo. Mudando de dáttila, Bruno, a onda de calor pela Europa afora é evidente. Nós em Portugal sentimos e depois vieram os fogos. No resto da Europa, em Bruxelas, por exemplo, tem estado temperaturas absolutamente insanas e improváveis. E tu perguntas sobre se estamos ou não preparados. É o teu ato.

O Átila é um pouquinho para este discurso que é: não estávamos preparados. Isso é um argumento aceitável, quer dizer, não ouviram falar no aquecimento global, estamos a falar de que há para aí 20 anos. Portanto, a questão é por que de fato não há maior preparação. Eu aí acho que há muita responsabilidade dos Estados nacionais e acho que também é justo reconhecer que tem havido algum esforço para melhorar as coisas, inclusive ao nível de Portugal, por exemplo, no campo da proteção civil, maior profissionalização, etc. Eu continuo a achar que no caso de Portugal, continua a faltar um verdadeiro sistema nacional de gestão de crises, que é uma coisa que não por acaso, a maior parte dos países têm. Espero que talvez esta experiência acumulada de pandemia, vá permitindo perceber que isso é realmente indispensável. Não é o almirante Couveiro Melo para a vacinação, é o almirante Couveiro Melo e o quartel-general da Força de Reação Rápida para organizar as coisas, porque as coisas não estavam organizadas.

Cada vez que há uma emergência, chama-se a tropa.

É, e não podemos estar a multiplicar estruturas de coordenação para os incêndios, para a pandemia, para um terramoto, e depois ter que estar a coordenar todas essas estruturas de coordenação entre si. Mas apesar de tudo, eu acho que ao nível da União Europeia, a responsabilidade principal aqui é dos Estados, mas ao nível da União Europeia também já se podia ter feito mais. Já há um mecanismo de coordenação de proteção civil, também há uma série de tempo. Espero que todas as indicações de anos recentes, de que a resiliência vai ser uma prioridade, por exemplo, aparecia naquele famoso documento, a função estratégica orientadora pela primeira vez para a segurança e defesa. Portanto, a resiliência é uma das componentes fundamentais, é precisamente a capacidade de resposta a este tipo de choques. E isso, de fato, eu acho que tem que passar pelos Estados, mas tem que passar por melhor coordenação dentro dos Estados, mas também entre os Estados, ao nível da União Europeia, e se calhar por testar mais vezes, usar mais vezes estes mecanismos de compra conjunta, de aquisição conjunta e se calhar alguma reserva conjunta. Por exemplo, de aviões para apagar fogos, por exemplo, de aviões com capacidades médicas para permitir evacuações. Enfim, aqui obviamente estou a dar exemplos um pouco avulsos. Obviamente, isso tem que ser muito mais trabalhado, mas eu espero que esteja, de fato, a ser trabalhado a fundo e que não continuemos a ter ano após ano ondas de calor em que toda gente diz completamente inesperado, não estávamos à espera que isto acontecesse.

Faz lembrar aquela coisa muito portuguesa de ali por volta de dezembro, quando se está a tratar de alguma coisa e as pessoas dizem: "Agora mete-se o Natal." Uma espécie de surpresa.

Faz lembrar um restaurante no Algarve, que vai ficar assim meado genericamente, que ficou muito surpreendido de ter imensos clientes em agosto. Não estava à espera. Aconteceu naquele ano.

Exato. "Então não estão a ver isso aqui? Dura duas horas a ter o prato."

Mais uma exceção no Algarve em agosto, mas de vez em quando ainda acontece.

Mas eu, apesar de tudo, diria só duas coisas, que é, apesar de tudo, acho que se há uma instituição que tem contribuído para o tema da discussão das alterações climáticas se traduzir em políticas, tem sido a União Europeia, pelo menos em alguns países onde isso talvez fosse menos evidente. E, portanto, eu acho que apesar de tudo, esse crédito à União Europeia se dá. O outro é o tal risco de muitas vezes os Estados deixarem para a ideia de que isto tem que ser resolvido pela União Europeia e se desresponsabilizarem um pouco. Mas quer dizer, concordando contigo, acho que-

Claro, isso não pode acontecer, exato. Tem que ser esforço aos dois níveis, não é? Ao nível nacional, mas também ao nível europeu. Diz, desculpa, Henrique.

Não, era isso. Ainda temos um bocadinho de tempo e eu queria só trazer um tema que não é completamente original, mas cruzando com uma notícia de há dias, lembrando de conversas que já aqui tenho tido, que tem a ver com o problema dos auxílios do Estado e o que isso exibe sobre os países. Desta vez era uma notícia de que França tinha aprovado 5.000 milhões de euros para um apoio às indústrias que usam energia intensivamente para a sua produção industrial e, portanto, França pôs de lado dinheiro para ajudar estas empresas que têm, obviamente, um aumento enorme. Se nós temos em casa estas empresas que têm um aumento enorme e se não forem apoiadas, eventualmente esse custo vai ser repercutido nos consumidores dos produtos que eles fazem ou na ausência de consumidores. A discussão aqui pra mim não é se isso deve existir ou não, é só perceber que quando começa a desaparecer, e tem estado a desaparecer, o equilíbrio do mercado através de uma concorrência que seja equilibrada e, portanto, impedir auxílios de Estado que distorçam a concorrência, e por razões várias, se começam a autorizar auxílios de Estado, porque distorcem a concorrência, mas porque se acha que se beneficia outras coisas, começa-se a destapar os desequilíbrios entre os países e, portanto, começamos a descobrir que os que podem, têm dinheiro ou têm fundos europeus para usar e fazer auxílios do Estado, e os que não podem, não têm e o desequilíbrio aparece. E, portanto A história do Chips Act, que eu já falei aqui em tempos, que é uma autorização para dar auxílios do Estado para atrair produção de chips, de microprocessadores na Europa, e que para além de França, Alemanha, Itália, agora a Espanha também está no concurso, mas é preciso ter dinheiro para estar nesse concurso para atrair esses investidores. Se não há essa capacidade, o fim das regras da concorrência, a suspensão das regras da concorrência, não só põem em anulo os desequilíbrios financeiros entre os vários estados, como agravam os desequilíbrios econômicos. E depois, traz-me para outro tema, mas talvez já não tenhamos tempo aqui, mas isso levanta o problema de que se não deixamos os países que não têm essa capacidade de ser competitivos de outra maneira, nomeadamente por via fiscal, então de fato, há países que vão ter uma enorme dificuldade em concorrer com outros estados membros da União Europeia. Não é novidade, mas as notícias que têm estado a aparecer exibem à exaustão esse problema.

Henrique, se me permites, sei que não temos muito tempo, mas não é só uma questão de país, nós temos discutido muito essa perspectiva de concorrência entre países e de distorções do mercado, mas a certa altura vai ser também uma questão de empresas e de termos um sistema econômico que a certa altura não permite o falhanço, sobretudo de grandes empresas. Qual é o risco e recompensa, qual é a punição para empresas que não foram bem geridas e que provavelmente nunca vão ser. França é um ótimo caso por causa dos problemas da EDF, e acho que nos próximos meses vamos ter muitas vezes a discussão sobre se vale a pena nacionalizar ou apoiar empresas do setor de energia. Mas é preciso encontrar, e eu acho que a pandemia foi desastrosa em relação a isso, um equilíbrio que permita a certas empresas falhar, novas empresas surgirem no seu lugar e, de certa forma, a economia melhorar um pouquinho, porque há empresas que são mal geridas e que vão sendo mantidas através destes apoios, às vezes até apoios à escala europeia. E eu acho que na Europa perdeu-se a ideia de deixar algumas empresas falir, porque têm mesmo de falir e às vezes não é possível mantê-las sem grandes custos que superam seus benefícios.

Concordo contigo. E repara, não me opondo eu aqui aos auxílios do Estado, eu acho que isto mostra os buracos, e aqui que estou. Mas como disse, eu acho que vamos voltar a este tema várias vezes. Vamos agora para os croissants, o bom da semana. Madalena, diria que é um pouco a tua vez de trazeres um tema que te é caro e recorrente, mas que foi atualizado recentemente. Revisão do tema sobre a energia nuclear e não só.

Exato, é uma tendência que estamos a ver acelerada desde a guerra da Ucrânia, este regresso à energia nuclear, não só na Europa, temos na Bélgica, na República Checa, na Polônia, em França, todos os governos a planear não só a construção de novos reatores, mas também na Alemanha, e aqui era o teste último desta eventual reversão desta política, os próprios partidos verdes, para a qual a energia nuclear era um assunto fundacional, que fazia parte da própria identidade do partido, a começarem a mostrar sinais de que estão preparados para reverter a sua posição de fechar os últimos reatores nucleares, e aparentemente estarão à espera de uma crise aguda que poderá vir muito rapidamente, se realmente a Rússia não reabrir o gasoduto Nord Stream 1 durante as próximas semanas, depois de duas semanas de manutenção. É esta a grande expectativa, deveria acontecer na quinta-feira, e já há sinais de que isso não irá acontecer, mas enfim, eles estão à espera de uma crise aguda para fazerem esta reviravolta, que obviamente é uma reviravolta que faz todo sentido para qualquer ambientalista que esteja preocupado com as alterações climáticas, porque sem os reatores nucleares vamos voltar ao carvão. Mas de fato, será apenas com drama, choro e ranger de dentes que isso poderá ser feito no Partido Verde.

Deixa eu trazer dois aspectos, um em relação ao que tu dizias sobre ser necessário a iminência de uma crise. A comunicação esta semana da Comissão Europeia, precisamente sobre medidas de emergência que pode ser necessário tomar durante os próximos meses para responder precisamente a essa emergência, revelam bem tudo o que se tem andado a falar. Nós aqui já tínhamos conversado a certa altura. Há um limite a partir do qual só há uma maneira de responder à falta de gás russo, que é consumir menos gás. E consumir menos gás, se não for substituído, e nem todo vai ser substituído em tempo útil, significa muito provavelmente ter que escolher quem ou o que não consome gás. Se são as indústrias, as tais que falávamos na primeira parte, as indústrias que usam energia intensivamente, se vão ser as casas que deviam ser aquecidas a mais baixa temperatura de inverno, se outras soluções, mas parece que no fundo, uma espécie de condicionamento energético está previsto e isso não me surpreende Porque era previsível e está a ser discutido. A outra peça, Bruno, eu sei que tu queres entrar aqui, mas sobra acrescentar outro tema, que é: isto cola bem, Madalena, com a discussão que houve no Parlamento Europeu, em que se tentou evitar que o ato delegado da Comissão, na sequência de uma diretiva, que a Comissão, através de um ato próprio, considerasse os investimentos no gás e no nuclear como podendo ser incluídos nos investimentos que têm um carimbo verde. E isso deu discussão. Eu creio que todos os deputados europeus portugueses, se não me falha a memória, creio que quase todos, se não todos, pelo menos os que estavam presentes, votaram a favor dessa exclusão, portanto, não queriam o gás e o nuclear. Mas a verdade é que se não for possível tratar dessa maneira alguns dos investimentos que vão ser feitos, eles não vão ser feitos e nós vamos ter maiores dificuldades em responder. Esse é um dos pontos. E última nota, Bruno, nós temos ainda um problema acrescido, é que nós vamos precisar, para além da possibilidade do nuclear, vamos precisar de gás e de petróleo de países terceiros, a quem aqui há uns tempos dizíamos: "A nossa expectativa é deixar de vos encomendar, mas agora se não se importam, esforcem-se para produzir mais". E nós somos capazes, inclusivamente, de termos que ser nós a gastar dinheiro a garantir que esses países produzem mais, porque não vão ser eles que vão investir agora, investimentos colossais, que depois daqui a dois ou três anos, nós dizemos: "Agora já não queremos, porque já não estamos tão dependentes, já conseguimos substituir".

Pelo menos tem de se alterar esta lógica, que foi promovida durante muito tempo, de recusa de contratos de longo prazo. De facto, ou se investe diretamente nas infraestruturas ou então garante-se um período longo, de facto, em que elas são usadas e rentabilizadas. Eu percebo, enfim, tudo isto são questões muito complicadas. Agora, o que eu não percebo é haver gente muito chocada com: "Mas então agora o Biden foi à Arábia Saudita, então agora o Scholz foi ao Egito, então agora a von der Leyen foi ao Azerbaijão com o Draghi". O Azerbaijão foi uma boa notícia hoje, o Azerbaijão vai passar a fornecer diretamente energia à Itália, através de um novo gasoduto que tem sido construído nos últimos anos. O problema é que também tem de passar por zonas um pouquinho instáveis, tipo a Geórgia, a Turquia, mas a verdade é que sim, como é evidente, qual é que é a alternativa? Quer dizer, temos notícias, por exemplo, também há conversações com a Venezuela. Sim, tudo isso num mundo ideal seria evitado, mas de facto nós estamos longe de viver num mundo ideal e que eu me lembre, na Segunda Guerra Mundial, também se teve de falar com o Stalin, que era um ditador totalitário terrível que matou muitas pessoas.

E não deixou de o ser, curiosamente.

E não deixou de o ser, mas é assim, quando há uma ameaça mais iminente, que já se está a manifestar com tropas a invadir países soberanos, etc, é isso que se tem de fazer. Eu acho que apesar de tudo, é péssimo que a Europa se tenha posto numa situação, e isso tem sido dito pela Comissão, a Comissão acha que é provável, e vários responsáveis europeus acham que é provável que a Rússia não retome o fornecimento de gás através do famoso Nord Stream 1, que tenha interrompido esta pausa técnica para parar de vez. Eu não sei se isso é exatamente assim, acho que a Rússia pode precisar desse dinheiro e pode ainda acreditar que há razões para esperar depois manter alguma relação com a Alemanha no futuro ainda. Agora, de facto, acho que teria sido muito melhor do ponto de vista estratégico, do ponto de vista também do controle da agenda política, explicar às pessoas que era preciso fazer estas opções muito difíceis, muito complicadas, mas passando a ideia de que éramos nós que estávamos a controlar esse processo e a preparar e tentar atenuar esse processo, do que entregarmos a iniciativa à Rússia e isto ser apresentado um pouco como a derrota da Europa. Agora, eu acho que é completamente irresponsável não preparar o mais possível todas as eventualidades, inclusive que muito rapidamente, numa questão de dias, fique claro que a Rússia não vai continuar a fornecer gás à Europa, ainda é responsável por praticamente metade do abastecimento de gás para a Europa. Em oito países, mais de metade do seu abastecimento vem da Rússia e isso implica usar todos os meios disponíveis, em termos de parceiros e de países que não seriam os ideais, em termos de métodos de produção de energia que já não são também os ideais. Apesar de tudo, o nuclear tem esta virtualidade, por exemplo, em relação à alternativa que está em cima da mesa pra Alemanha, que é o carvão. É que apesar de tudo, o nuclear tem os seus problemas, mas há uma coisa que não faz, não contribui pro aquecimento global. E portanto, acho que há que ser realista nestas questões e ser sério também nas discussões. Ou seja, no fundo, pedir às pessoas que dizem: "Não se pode fazer isso", então qual é a alternativa? É as pessoas morrerem de frio no inverno, é fecharmos a economia europeia. Portanto, acho que de facto, por um período que se espera transitório, há que aceitar todo o tipo de opções para lidar com uma situação que é claramente de emergência em termos de segurança energética. Claro, seria muito bom, apesar de tudo, acho que podemos dizer isso aos nossos amigos alemães, teria sido muito bom se eles tivessem ouvido aquilo que os desgraçados do sul andam lá a dizer há 20 anos, que é: era muito importante termos um mercado de energia realmente integrado, era muito importante termos uma rede de gás natural realmente europeia. Dava-nos bastante jeito agora.

A falta de contrarição na Alemanha, aliás, não tem ajudado nada esta ideia de agora vir reformar os tratados, em vez de estar calminha, pedir um bocadinho de gás, não é uma boa estratégia política. Mas eu não desvalorizaria tanto a dissonância que até se sentiu aqui no programa, porque na primeira parte nós estávamos a dizer que realmente é incrível que não se tenha feito mais para agir decisivamente em relação às alterações climáticas e agora estamos aqui a dizer: "Pois, é verdade, vamos ter que, se calhar, investir fortemente em combustíveis fósseis, porque é a nossa única alternativa e vamos ter de gastar muito dinheiro com os contratos de

Quando se falou da onda de calor, nós estávamos a falar de uma coisa que é a resposta às alterações climáticas. Não era prevenir ou evitar, ou seja, é admitir que já fizemos tanta asneira, que pelo menos vamos tentar atenuar um bocadinho os maus efeitos disso.

De qualquer maneira, eu diria que a guerra na Ucrânia tem sido uma boa notícia pro ambiente, provavelmente. Em relação à produção, os números são impressionantes e a verdade é que a União Europeia não podia fazer muito mais. Eu tenho elogiado aqui a comissão neste assunto, não só a presidente von der Leyen, mas até a comissária Simpson, que é uma pessoa que está há vários meses a insistir não só na necessidade de aumentar as reservas, mas também de ter planos nacionais para o consumo responsável, vamos dizê-lo assim, durante o inverno. Seria dramático ter racionamento na Europa, seria até algo que poderia mudar a opinião pública em relação à Ucrânia e esse é um risco sério. Aliás, e a Rússia também, parece-me que, como intuía o Bruno, tem de digerir a questão com calma, porque neste momento o gás é a única coisa que afasta uma unanimidade contra a Rússia em termos muito abrangentes. E, portanto, esta questão também tem que ser decidida com grande dificuldade dos dois lados, mas em geral não há muito mais a fazer. É preciso aceitar o custo, não é só o custo da inflação e o custo de investir em armamento. Vai ser provavelmente preciso falar com pessoas desagradáveis. Em alguns casos, eu acho que isso até é capaz de ser boa estratégia de política externa. O caso do Azerbaijão é paradigmático. O Azerbaijão tem ali uma relação complicada com a Rússia e, de certa forma, isolar o país não era uma boa ideia, apesar do regime não ser propriamente dos mais amigos e dos mais amigáveis para os seus cidadãos. De qualquer maneira, acho que não se preparou ainda o suficiente a opinião pública para o que pode acontecer no inverno. Esse é o grande risco. Do ponto de vista prático, não há muito mais que se possa fazer. O coitado do senhor Habeck, na Alemanha, tem ido ao Qatar, tem aligeirado requisitos para construir terminais de LNG. O senhor é verde, mas só por fora. E acho que essa é a grande solução aqui, é fazer o que podemos, mas ter cuidado com aquilo que não podemos fazer, que é ter casas a zero graus durante o inverno.

Mas é por aí que eu queria só entrar. Uma coisa que tu disseste e o Bruno também já tinha levantado, que é melhor começar a explicar isto às pessoas. Não só explicar por que temos os aliados que estamos a ter ou os parceiros que estamos a ter que ter, como as consequências que nós vamos ter. É melhor ir preparando para esse discurso, e tu há pouco falavas que não haja racionamento. Eu acho que a possibilidade do racionamento é muito real. E é bom que se comece a explicar e a preparar uma opinião pública, sob pena de, adiante, a opinião pública, quando estiver frio ou estiver a pagar caro alguns produtos, começar a mudar de opinião sobre a resposta à Rússia na invasão da Ucrânia.

A história mostra-nos isso, que é muito diferente a reação das pessoas quando o Churchill lhes diz: "Eu só vos posso prometer sangue, suor e lágrimas." Ele não está a prometer um futuro radioso, mas pelo menos está a transmitir a ideia de que ele tem uma noção do que é que vai acontecer.

Do que ele está a fazer, exatamente.

Aquelas desgraças, aqueles sacrifícios, não são porque a gente nunca pensou no assunto. São inevitáveis. E vamos aqui apelar à vossa coragem, digamos, não só física, mas moral também e política.

Que é um problema, repare-

Eu vejo aqui uma possibilidade de exportação para Portugal em escafetas, braseiras e coisas do gênero. Nós que estamos tão habituados a baterias e energia elétrica.

Não estávamos à espera desta.

Ficá aqui a ideia para um start na startup. Não sei, Madalena, se queres pegar nisso.

É que para o ano, nós já sabemos como lidar com casas frias há muito tempo.

É verdade.

Ou então faz-se aquela coisa, aquecer as casas para as pessoas não apanharem frio quando vão pra rua, que é uma coisa que os europeus do norte não conhecem, mas que é uma solução muito portuguesa e funciona há vários anos.

Está mais gente lá fora.

Exatamente, que é pra não haver aquela diferença de temperatura, que é conhecido. Além de concordar com esse negócio e estar disponível, obviamente, para participar numa startup que queira vender escafetas, acho que este ponto que tu disseste, Bruno, é francamente importante, que é ou se explica às pessoas que há um preço a pagar, mas que é importante pagar, mas que sabemos porque se está a pagar, ou nós corremos o risco de ver erodido o apoio. E atenção, há países onde há partidos nas assembleias que não podendo dizer que o que gostavam mesmo é que a Rússia ganhasse, estarão disponíveis para dizer que até não era isso que queriam, mas enfim, está a ser caro demais e portanto temos que ter outra solução.

Aliás, o governo de Draghi quase caiu por causa disso.

É um bom exemplo, exatamente.

Vamos ver se não cai. Temos que esperar mais uns dias pra ver se não cai. Foi certamente um fator bastante importante. O líder do Cinco Estrelas, enfim, tanto quanto os movimentos Cinco Estrelas, este movimento populista tem um líder, o Conte, foi um dos pontos em que criticou a coligação que faz parte, foi precisamente o excessivo apoio à Ucrânia e os excessivos sacrifícios que estavam a ser pedidos, quando ainda não estamos no ponto de racionar o gás.

E ainda estamos a falar do Conte, ou melhor, já estamos a falar do Conte, já não estamos a falar dos que eram os radicais. O Conte até há pouco tempo era um exemplo de-

Por outro lado, os radicais estão nos negócios estrangeiros e ficaram bastante chateados com essa discussão. Itália é muito complicada. O ministro Di Maio era um radical e agora chateou-se bastante com o senhor Conte. Mas é complicado. E a verdade é que Itália nem sequer era dos países que estava mais do lado da Ucrânia. Até várias vezes foi o país que tentou arranjar escapatórias. Draghi falou muitas vezes com o Putin, havia aquela célebre isenção para os Ferraris num dos primeiros pacotes de sanções e mesmo assim o governo está frágil.

Os Ferraris era para os motores a combustão.

Não, aqui também.

Eu estava querendo dizer aqui uma coisa, que é: nós somos muito críticos da política italiana, mas eu adoro a Itália, é um país espetacular, que funciona espetacularmente apesar de todas estas coisas.

Tirando a recolha de lixo em Roma, que de facto é diário.

E Roma em geral. Tirando Roma.

Não, tirando Roma é que nunca. Bom, João Diogo, a propósito não de Roma, mas de outra capital europeia, nós já temos falado aqui, os europeus falam muito do efeito de Bruxelas, mas tu disse que agora pode ser que haja um efeito Londres?

Sim, depois de escalfetas um bocadinho de rácios financeiros, tem a ver com o governo britânico, mais um prémio para o Reino Unido, desta vez não sobre a corrida à liderança dos conservadores, que me tem deixado muito triste, mas porque é esperado que o senhor Zahawi, que é agora o responsável pelas finanças, venha apresentar esta semana um grande pacote de reformas financeiras, que se destina a afastar muitas regras que estavam previstas em diretivas europeias para tornar o Reino Unido mais ágil e a City de Londres ficar a funcionar de forma mais ágil, sem tanta regulação e tanta supervisão direta do Banco de Inglaterra. E parece-me que este assunto é importante não pela questão técnica de saber o que os reguladores podem fazer ou quais é que são os melhores rácios legais, mas porque durante muito tempo se esqueceu que a grande vantagem do Brexit era precisamente poder escolher optar entre toda a legislação europeia que foi adotada pelo Reino Unido, qual é aquela que faz sentido, qual é aquela que serve um determinado modelo de país, e acho que esse foi um erro palmatório do governo Boris Johnson, não ter tido uma visão para depois do Brexit, ainda que ter conseguido o Brexit já seja uma grande vitória. E parece que isso está a mudar e gostava de perceber qual é que é a dissidência que vai funcionar melhor e acho que este é um bom ponto de partida.

Eu acho que é assim, vamos lá ver. Muitos desses famosos regulamentos, o red tape, os britânicos descobriram que afinal precisavam dele, porque tinha a ver com coisas como ambiente, defesa do consumidor, saúde. Portanto, ele vinha de Bruxelas, mas na verdade, a gente também não quer beber água envenenada, nem respirar ar poluído, nem ter um sistema de saúde privatizado.

O que seria um péssimo manifesto eleitoral, aliás.

De facto, a Grã-Bretanha, há séculos, é uma espécie de condomínio entre o resto da Grã-Bretanha e a pequeníssima City de Londres, que é uma pequeníssima parte da cidade de Londres. Chama-se City de Londres, mas na verdade é só um enclavezinho, uma espécie de Vaticano financeiro com um grande grau de autogoverno.

É boa.

E portanto, em relação a favorecer a City de Londres, quase todos os governos, mesmo os mais socialistas, sempre estiveram de acordo. Apesar de tudo, convém recordar a crise financeira de 2011, em que a desregulação não funcionou assim tão bem. Vamos lá ver se os britânicos não vão ter problemas.

Ah, a desregulação. Saudades.

Estamos longe de estar de acordo, mas ó Bruno, apesar de tudo, atenção, eu aqui estou alinhado com o João Diogo e mais, o problema para mim é que a saída dos britânicos da União Europeia retirou da mesa das negociações à volta do Conselho e no Parlamento Europeu, quem se esforçava bastante para reduzir a dita red tape e para muitas vezes tornar a legislação um pouco mais aberta ao mercado e mais competitiva.

Aí estamos de acordo, esse papel era útil.

E segundo fontes do Eurogrupo, é só por causa da saída do Reino Unido que ainda não temos uma união bancária. Recordam-se dessa? Que mais ninguém na União europeia percebe de finanças.

Pronto, eu serei provavelmente um terrível socialista aqui, mas eu diria que alguma regulação na banca e nas finanças, talvez as últimas décadas tenham mostrado que há alguma necessidade.

Quem está a dizer que não era preciso. Ninguém disse não. Ó doutor, olhe que não. Bom, Dyson Blooms vamos dar no prolongamento. O Café Europa desta semana, o penúltimo antes das férias de verão, acaba aqui. Voltamos já de seguida, na versão só podcast, para o prolongamento, com Dyson Bloom e tudo. E é o prolongamento do Café Europa. Continuamos com o Bruno Cardoso Reis, o João Diogo Barbosa, a Madalena Resende e eu, Henrique Borné. Ainda não tínhamos chegado aos Dyson Bloom, onde o Bruno até tem um prémio que mete Boris Johnson e o Reino Unido, mas estávamos animadamente no final da segunda parte, só para provocar, Bruno, se o Reino Unido é o paraíso da desregulação ou se afinal, apesar de tudo, é apenas um pouco mais simples e mais competitivo do que a Europa. Veremos. Eu acho que o João Diogo e eu estamos mais na versão, não é tanto da desregulação, mas é alguma legislação que bem falta nos fazia por cá. Mas vamos ver.

Sim, eu espero que vocês tenham razão, até porque haver uma crise financeira na City de Londres, mesmo com a Grã-Bretanha fora, na verdade, como o próprio Boris Johnson reconheceu, não foi por sair da União Europeia que o Reino Unido deixou de ser europeu. E economicamente, em termos de geoeconomia, continua muito ligado à Europa, portanto, algum efeito de contágio provavelmente teria para estes lados.

Mas entretanto, disto tudo, suponho, João Diogo, o que tu estavas a querer dizer era que o croissant era porque tu esperavas que estas alterações em Londres contaminem a União Europeia. Era esse o teu

E nem são especificamente sobre estas. A verdade é que o Reino Unido tem uma grande oportunidade. O Bruno dizia bem que há diretivas e há regulamentos que são úteis, e agora o Reino Unido tem todas essas diretivas transpostas e todos esses regulamentos ainda em vigor, creio eu, e pode agora escolher o que faz sentido para si. E essa experiência, a que os conservadores não deram suficientemente valor, pode ser muito útil para a União Europeia, não só para o Reino Unido. Ou seja, eu acho que não podemos achar que só porque vem de Bruxelas, só porque tem muitas páginas, está bem feito e que é a melhor solução. E o fato de termos ali ao lado uma pequena sandbox, literalmente, a tentar coisas novas, pode ser bom para os dois lados e pode haver, era daí que vinha o efeito de Londres, uma contaminação positiva.

A minha desconfiança é que vai ser pouca coisa. Mas enfim, vamos ver. Então, se caso, deixa-me só introduzir esta nota, Henrique, que é em relação à política britânica, estamos num momento bastante interessante com a saída do Boris Johnson.

Já lá vai o teu prémio. Temos de partir o prémio.

Triste, não é interessante também, é triste.

Mas eu acho que também aí há que ter prudência sobre os eventuais efeitos positivos na relação com a Europa, com o resto da Europa, com a União Europeia.

Com a Europa continental. Bom, vamos então dar o prémio que ficou por dar na primeira parte, vamos dar o da Diesel Blue.

"One cannot spend all the money in alcohol and women and then ask for help."

Bruno, e é exatamente à volta das expectativas quanto ao efeito, não de Londres, mas o efeito de Boris, se o bater das asas de Boris vai provocar várias maravilhas. A imagem não é fabulosa, mas olha, foi como ocorreu.

Sim, Bruno, por um lado, eu tenho esta coisa um pouco paradoxal, que eu sei que tenho sido muitas vezes bastante crítico do Boris Johnson, da sua postura em relação à União Europeia no programa, sendo que ao mesmo tempo eu lhe acho piada, quer dizer, como um ator político, e portanto ele de facto tem um estilo engraçado, bem-humorado. O problema é que me pareceu, e acho que isso se confirmou, e que até os próprios conservadores acabaram por chegar a essa conclusão, realmente, ao contrário, por exemplo, do que aconteceu quando ele foi presidente da Câmara de Londres, ele não conseguiu complementar isso com uma boa equipa, com uma equipa que o soubesse travar também muitas vezes, e de facto com políticas interessantes. Ficou só esse lado mais caótico.

Deixa-me só, antes de tu continuares com a parte mais séria do prémio não sério. Mas o que é um bocado pena, porque se tivesse resultado, teria provado que é possível ser-se um primeiro-ministro fora da norma, mas depois governar-se dentro da norma.

Eu até tenho um interesse pessoal.

Também tens um pentelhado próprio.

Exatamente, ele podia demonstrar que de facto a pessoa ser um bocado despenteada não quer dizer que não seja uma pessoa séria e capaz de fazer coisas.

Eu achei que estava aqui o lançamento de uma candidatura a primeiro-ministro.

Vou ter de continuar.

É só ser uma pessoa séria.

Vou ter de continuar a combater esse preconceito, mas sozinho.

Sozinho. Eu ajudo.

O Boris a piorar as coisas. Mas pronto, o ponto é, eu até reconheço que obviamente uma mudança de liderança é sempre uma certa oportunidade para algum reajuste nas relações, política interna, mas também política externa. Sobretudo, como é o caso na Grã-Bretanha e genericamente também, cada vez mais elas assentam muito fato no chefe do Executivo, no chefe do Governo, e não apenas ou não principalmente nos diplomatas ou no Ministro dos Negócios Estrangeiros. E portanto, ainda por cima, quando temos uma personalidade tão marcante como Boris Johnson, de facto uma mudança é possível que tenha algum impacto. Agora, eu acho é que é excessivamente otimista achar que vai haver automaticamente uma espécie de lua de mel nas relações entre a União Europeia e o Reino Unido, pós-Brexit, por um lado, razões estruturais, ou seja, eu acho que objetivamente esta é uma relação difícil de gerir, pelo menos nos próximos anos, mesmo que houvesse a melhor das intenções dos dois lados, o que eu acho que não tem sido o caso, tem havido aqui uma excessiva politização para ganhos internos, sobretudo do lado britânico, mas não só. Mas há estruturalmente problemas em fazer um divórcio com tantos problemas para gerir, desde logo o mais complicado é o da Irlanda do Norte, portanto há objetivamente problemas. E depois também porque nós não sabemos ainda quem será o sucessor, só saberemos a 5 de setembro, e vários dos sucessores prováveis, de facto não dão nenhuns sinais de quererem abandonar esta retórica muito hostil em relação à União Europeia, de utilizar um bocadinho o papão de Bruxelas para ganhos políticos internos. Uma das candidatas, ou duas das candidatas que têm muitas hipóteses, a Liz Truss, que foi como Ministro dos Negócios Estrangeiros, caracterizou-se por ser sempre muito pouco diplomática nas relações com a União Europeia. A outra, a Penny Mordaunt, na campanha do Brexit, foi a responsável por difundir esta ideia completamente falsa de que a adesão da Turquia à União Europeia estava iminente e que se viesse a acontecer essa possibilidade, o Reino Unido não tinha hipótese de bloquear essa adesão, como nós sabemos, estamos fartos de saber e fartos de ver, qualquer país pode bloquear a adesão de qualquer país, ainda mais um grande tratamento.

Além disso, a da Turquia não está iminente e se alguém puxou para a continuação das negociações com a Turquia, foi o Reino Unido.

Exatamente, e havia vários outros Estados que iriam bloquear. Mas isto para dizer, eu acho que há aqui uma certa oportunidade para alguma melhoria, alguma normalização, que eu espero que se concretize, porque acho que continua a haver interesses muito convergentes. Temos uma guerra às portas, a coesão do Ocidente não se constrói, de facto, com este tipo de tensões e de guerras nos tabloides Mas eu acho que isso está longe de estar garantido, em parte porque não sabemos quem será o novo líder, o novo chefe do governo britânico, e em parte porque há aqui algumas dificuldades de fundo. Nem tudo era causado pelo estilo de Boris Johnson ou por um certo descrédito de Boris Johnson na Europa.

Eu antecipo que o João Diogo quer aqui entrar. Deixe-me só dizer uma coisa, João Diogo, que é: há uma vantagem que eu vejo neste processo. Parece-me que a dúvida sobre o Brexit morre nesta sucessão. Isto é, a sucessão já não é entre quem acha que se calhar não se devia fazer o Brexit ou o Brexit teria que ser negociado de outra maneira. Não, acho que é uma coisa que ficou resolvida. O Reino Unido fez o Brexit e neste momento não há ninguém que esteja a dizer que é para voltar atrás. Esta discussão fica encerrada e isso parece-me que pode ter duas vantagens. Primeiro, desaparecem os equívocos e as versões alternativas e, por outro lado, pode reduzir a utilização para efeitos de política interna, na medida em que isso já não seja uma discussão, é agora como é que isto se gere e não uma espécie de competição em "eu é que disse que queria fazer, portanto, eu vou fazer melhor do que isso, não fizeste o suficiente." Na medida em que isso desapareça, talvez seja o único elemento de descontaminação que me parece que pode acontecer.

Os próprios trabalhistas também já vieram dizer isso. O líder trabalhista atual, o Sir Keir Starmer, também vem dizer não está em concreto.

É isso.

Não, de todo.

Não é novo. Já era a política do Labour. Mas deixe-me dizer, em relação à Europa, eu percebo a hesitação para achar que sem Boris Johnson, sem esse impedimento, as relações podem melhorar. Mas se virmos isto do ponto de vista do Reino Unido, Boris Johnson sempre teve uma vantagem nas relações com a União Europeia, que era um pouco baseada naquela ideia de Nixon vai à China, ou seja, Boris Johnson podia ser visto a fazer cedências à União Europeia sem perder a retaguarda, sem perder o apoio da ala mais radical do partido, porque reconheciam ali alguém que tinha um alinhamento de ideais e que me parece que não é repetível agora. Aliás, foi o problema que Theresa May teve, mesmo negociando acordos.

Um acordo substancialmente igual.

Estou muito de acordo contigo. O mais moderado de todos este, o Rishi Sunak, apesar de também apoiar o Brexit, não sei até que ponto é que ele terá grande margem de manobra.

O Liz Truss, por exemplo, não apoiou o Brexit. É curioso ver isso, porque se tornou um grande apoio.

Perfeitamente para o outro extremo.

Mas para dizer que do ponto de vista das relações, eu acho que nós caminhamos há muito tempo para o inevitável, que é a renegociação no que tem a ver com a Irlanda. E aí, quer seja Boris Johnson, quer seja um sucessor qualquer, vai ter que continuar a insistir que a União Europeia se senta à mesa para negociar e a União Europeia eventualmente vai ter que aceitar negociar, porque o acordo não funciona e não me parece até proveitoso para nenhum dos lados estar 10 anos a discutir se funciona ou não, se está escrito ou não está escrito. E, portanto, a partir daí, depois entramos nos detalhes e a dificuldade de vender esses detalhes ao grupo parlamentar vai ser uma questão que até já se pode pôr ao líder trabalhista e não necessariamente ao líder conservador que sai em setembro.

Mas a União Europeia já aceitou o princípio e já fez até muitas propostas concretas para se rever e melhorar o acordo, o protocolo. O que não aceita é que o Reino Unido diga, passado dois anos de assinar um acordo, que ele afinal não serve e quer outro. Isso não é sério.

Quer dizer, não deveria, mas tem estado. Eu acho que o problema da Irlanda parece bastante mais difícil de resolver, porque acho que é uma quadratura do círculo. Bom, mas também não consigo resolver o problema do tempo.

O que me faz lembrar, pronto, já não temos tempo. É uma anedota, mas verdadeira, que me foi contada pelo embaixador Cutileiro quando ele era o número dois do Lord Carrington, que é um grande político britânico do século XX, e que uma das últimas coisas que fez foi tentar negociar a paz na Jugoslávia. E quando os líderes sérvios lhe perguntaram: "Imagine que lhe diziam que a Irlanda do Norte tinha deixado de ser britânica. Como é que você se sentia?" E o Lord Carrington respondeu: "Otimamente. Era a melhor notícia que podiam dar". Porque realmente é uma questão que dura séculos e dura de resolver há séculos para Londres.

Não era manifestamente primeiro-ministro britânico.

Mais difícil dizer isso.

Com este toque de independentismo.

Chega aqui, ao fim, o prolongamento do Café Europa desta semana, o já disse, penúltimo antes das férias do verão. Não sei se nota que estou a mencionar isto bastante. Voltamos para a semana para o último antes das férias do verão. Até lá, boa semana.