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Olá, seja bem-vindo a um novo episódio do "Claro como Água", o podcast da iniciativa Vimeiro Explica, em parceria com a Rádio Observador. Eu sou a Maria João Simões e nos próximos minutos vou estar à conversa com o neurologista Pedro Nascimento Alves. Doutor, bem-vindo. Muito obrigada por ter aceitado o nosso convite.

Obrigado e obrigado também pelo convite que me fizeram.

Obrigada nós. Hoje, excepcionalmente e por razões de agenda, estamos a ter esta conversa à distância. Todos sabemos que a água é essencial para o corpo, mas o que muitos desconhecem é o papel fundamental que a água desempenha no nosso cérebro, ou não fosse este constituído por cerca de 75% de água. É por isso que vamos dedicar este episódio à importância de manter o nosso cérebro bem hidratado para que possamos ter uma vida mental saudável. Doutor Pedro, gostava de começar precisamente por aí. De que forma é que uma boa ou má hidratação pode influenciar o funcionamento do nosso cérebro?

De facto, a água é fundamental para o funcionamento do nosso corpo como um todo e o cérebro, sendo um órgão muito especial, a água é fundamental para o seu funcionamento. Não só a água, como os iões, ou do ponto de vista prático, também chamados minerais que existem na água, são muito importantes para a regulação das células do nosso cérebro, nomeadamente os neurónios, que são as células primárias ou mais fulcrais para o funcionamento cerebral.

E podemos afirmar que manter uma boa hidratação com água mineral natural afeta positivamente o nosso estado de espírito, ou seja, o nosso humor, reduz os níveis de estresse, de ansiedade?

Sim, de facto, existem vários estudos que demonstram isso. Nós aqui temos de distinguir duas situações. Por um lado, o funcionamento de um cérebro saudável, de um cérebro que tem alguma patologia neurológica. Mas mesmo para o funcionamento de um cérebro que é saudável, está demonstrado que a desidratação aumenta a ansiedade, a sensação de fadiga e pode também interferir, inclusivamente, com a alteração de algumas funções cognitivas, como a nossa capacidade de concentração, a nossa capacidade de memória, e acho que todos nós subjetivamente já nos apercebemos disto. E isto acontece mesmo para níveis de desidratação ligeiros. Não estou a falar de níveis de desidratação graves, em situações extremas, que a maioria de nós não passará por elas. Essas ainda poderão ter implicações bastante mais graves para o funcionamento cerebral.

Muitas vezes recorremos à medicação para melhorar funções cognitivas como essas que descrevia: a memória, aprendizagem, o raciocínio, a concentração, mas quando se garante uma hidratação adequada do corpo, isto refletindo-se depois numa boa hidratação do cérebro, estamos a contribuir de alguma forma para evitar ou reduzir a utilização de químicos, doutor?

Aqui acho que é muito importante novamente fazer esta distinção. Por um lado, entre um cérebro que é saudável e um cérebro que tem uma doença neurológica, ou seja, o cérebro de uma pessoa que sofre de alguma doença neurológica. Portanto, os medicamentos usam-se para tratar doenças. E nesse sentido, quando existem doenças da memória, como a doença de Alzheimer ou outro tipo de demências, de facto, não é o consumo de água, certamente, que substituirá a utilização de medicamentos, que tem um efeito comprovado para a melhoria dessas condições de doença. Num cérebro saudável, isso sim é verdade. Como falámos, uma pessoa que não tem uma doença neurológica pode ter pequenas variações, quer da sua condição de atenção, de concentração, de memória, dependendo se está num estado de hidratação ótimo ou se está num estado de desidratação.

E doutor, aqui no nosso podcast "Claro como Água", gostamos sempre de falar da importância dos minerais específicos da água mineral natural. E assim sendo, como especialista, qual é a sua opinião sobre os minerais como o magnésio e o cálcio na saúde neurológica?

De facto, como disse, os neurónios são as células principais para o funcionamento cerebral e todos esses iões ou minerais, o cálcio, o sódio, o cloro, o potássio, são muito importantes para a regulação do funcionamento das células neuronais. O que é bom nisto é que, sendo estes iões tão importantes para o funcionamento do cérebro, o cérebro por si próprio tem mecanismos de autorregulação. Ou seja, nós podendo beber água com diferentes concentrações destes minerais, o cérebro vai aproveitar a quantidade que precisa e vai promover, através de outros órgãos, nomeadamente através do rim, que outros minerais que possam estar em excesso sejam expelidos. Há um mecanismo que nós chamamos fisiológico, ou seja, um mecanismo que nos permite ter este equilíbrio natural da concentração dos iões e que permite um funcionamento adequado das nossas funções mentais.

Doutor, há relativamente pouco tempo recomendaram-me tomar magnésio para dormir melhor. Isto faz sentido?

Eu penso que cada caso é um caso.

Não é?

Exatamente, é isso mesmo. Em primeiro lugar, cada caso é um caso e volto a referir que estamos a falar em condições de um cérebro saudável. Por vezes também podem surgir alguns mitos associados a estes conceitos. De facto, estes iões são fundamentais para o funcionamento do cérebro. Fazer uma associação direta entre um determinado ião, como o caso do magnésio que referiu, ou qualquer um outro, como o sódio, potássio, e uma determinada função cerebral, no fundo, muitas destas associações acabam por ser mitos sem uma evidência científica sólida por trás.

E quais são os mitos mais comuns, doutor? Quer partilhar conosco?

De facto, às vezes surgem essas associações que vão surgindo ou com alguns iões que são importantes para a memória ou para a concentração. Eu diria que o principal mesmo é mantermos uma hidratação que nos permite um funcionamento saudável do cérebro. Depois, qual é a quantidade de magnésio ou de sódio que a célula usa? Isso, felizmente, o cérebro tem a capacidade de se autorregular e de manter o equilíbrio.

E doutor, se calhar explicar-nos aqui muito resumidamente de que forma é que a desidratação afeta o cérebro, ou seja, a que níveis? Fadiga mental, irritabilidade, diminuição das habilidades cognitivas.

De facto, a desidratação tem influência numa série de estados do humor, como por exemplo, esta questão da irritabilidade que me disse, de haver maior tendência para alguns sintomas ansiosos e também para o que se chama as funções cognitivas, a concentração e a memória. Isto verifica-se em todas as faixas etárias e é particularmente relevante nos extremos de idades, ou seja, nós sabemos que crianças, em particular os recém-nascidos e os idosos, têm mecanismos de regulação da sede e da quantidade de água que têm no organismo, mais frágeis do que um indivíduo adulto saudável. Portanto, embora estes sintomas de desidratação se possam manifestar em qualquer idade, sintomas como irritabilidade, prostração, as chamadas confusões mentais, podem ser particularmente evidentes quando existe desidratação nos idosos e nas crianças, em particular nos recém-nascidos.

E doutor, em termos práticos, esses são os sintomas mais comuns de desidratação para os quais todos devemos estar atentos?

Sim, para uma desidratação.

Ou esse já é um nível extremo de desidratação?

Não, estamos a falar de níveis de desidratação ligeira a moderada, porque quando existe uma desidratação extrema, de uma pessoa que por uma condição ambiental muito particular está muitas horas ou vários dias sem beber água e as consequências neurológicas no cérebro ainda podem ser mais graves, com crises epiléticas, estados de coma. Aqui estamos a falar de alterações que podem surgir em situações de desidratação ligeira a moderada e que de alguma maneira podem afetar a nossa qualidade de vida.

Eu sofro muito com enxaquecas e a minha médica disse-me que beber muita água mineral natural pode ajudar na prevenção. Concorda, doutor? E ajude-me nisto, isso tem a ver com o que falávamos há pouco, da água mineral preencher as necessidades diárias recomendadas de magnésio, potássio, cálcio e sódio?

Sim, de facto, a desidratação é um desencadeante muito importante da enxaqueca. A enxaqueca é a doença neurológica mais frequente, é uma doença muito frequente na população, com diferentes níveis de gravidade. Felizmente, muitas enxaquecas têm uma gravidade relativamente ligeira, mas existem enxaquecas muito incapacitantes e muito limitadoras da qualidade de vida. Sim, é verdade. E de facto, a desidratação é um dos desencadeantes mais comuns para as crises da enxaqueca. Portanto, a desidratação não provoca a enxaqueca, isso depende de outros fatores, genéticos, muitos deles, mas pode ser um fator desencadeante para uma crise da enxaqueca. E a enxaqueca não é a única doença neurológica afetada pela desidratação. Como falámos há pouco, pessoas que têm doenças neurológicas como uma demência ou outra condição que dá uma maior fragilidade cerebral, a desidratação pode ser uma causa para a descompensação dos sintomas dessas doenças. Portanto, mais uma vez, a desidratação não provoca a doença, mas pode ser um fator para descompensar a doença.

Doutor, estamos prestes a terminar este nosso episódio. Alguma mensagem que gostasse de deixar aos nossos ouvintes sobre a importância de beber água para a saúde do nosso cérebro?

Sim, uma mensagem que queria passar é que para qualquer um de nós é importante nós termos atenção à nossa hidratação, irmos bebendo água durante o dia e para mantermos o nível de hidratação adequado e evitarmos aquelas coisas que já falámos, como maiores níveis de irritabilidade, de cansaço, de prostração, dificuldades de concentração. E depois é importante nós preocuparmos não só com a nossa hidratação, como também com a hidratação dos outros. E como disse, aqui existem grupos particularmente vulneráveis, quer por dificuldades na regulação da água no organismo, quer por dificuldades de expressão e da sede se manifestar. E aqui eu diria mais uma vez que são os recém-nascidos, os idosos ou as pessoas que têm doença e, neste caso muito particular, doenças do cérebro.

Doutor Pedro Nascimento Alves, muito obrigada pelos seus esclarecimentos e por ter aceitado o convite para estar conosco no "Claro como Água". Foi um gosto, muito obrigada, doutor.

Obrigado, espero que tenha sido útil.

A terminar, e como já é hábito, partilho a nossa curiosidade. À semelhança do que acontece, por exemplo, com o vinho e o queijo, cada água mineral pode acompanhar comidas diferentes. Por essa razão, a escolha deve estar em conformidade com a intensidade dos aromas da comida. Quanto mais forte for a água, mais forte deve ser o sabor dos alimentos. Esperamos que tenha gostado de mais um episódio do podcast "Claro como Água", da iniciativa Vimeiro Explica. Sugira aos seus amigos, já vamos na segunda temporada e todos os episódios estão disponíveis em podcast, nas várias plataformas digitais e claro, no site do Observador. Eu sou a Maria João Simões, espero por si daqui a 15 dias. Até lá, nunca é demais lembrá-lo: pela sua saúde, beba água todos os dias e de preferência, mineral. Até daqui a duas semanas.