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Seja bem-vindo a mais uma edição de "Claro como Água", um podcast da iniciativa "Vimeiro Explica", onde vamos falar sobre a alcalinidade da água. E vamos receber não um, mas dois convidados. Conosco, na Rádio Observador, temos Rita Patarrão, professora da Nova Medical School, doutorada em Ciências da Vida e Bioquímica, com uma vasta experiência em áreas como endocrinologia, diabetes e metabolismo. Do outro lado, temos Pedro Carvalho, especialista em nutrição, doutorado em Ciências do Consumo Alimentar e Nutrição. Obrigada a ambos por terem vindo à Rádio Observador. Temos aqui uma equipe forte. Bem-dispostos?

Sim.

Muito bem. Rita Patarrão, sendo a sua área a bioquímica, se calhar interessa começar por perceber, de uma forma simples, o que é uma água alcalina.

De uma forma simples, nós sabemos que existe uma escala de pH, que vai de zero a 14, em que de zero a sete temos um pH ácido, superior a sete, um pH alcalino ou básico, e um pH sete é um pH neutro. Ora, o pH do nosso organismo, do corpo humano, é ligeiramente alcalino, normalmente ronda entre os 7,35 e os 7,45. No caso, quando falamos da água alcalina, estamos a falar de uma água que possui um pH superior a sete, tendo em consideração a escala de pH. O pH, portanto, é uma medida da acidez ou da alcalinidade de uma substância e no caso da água, um pH inferior a sete é considerado ácido e superior a sete é considerado alcalino ou básico. Outra nomenclatura que também, por vezes, pode ser utilizada. Portanto, quer dizer que uma água alcalina tem um pH que pode variar geralmente entre 7,5 e 9,5, e essa alcalinidade é normalmente alcançada pela presença de vários minerais. Nomeadamente o cálcio, o magnésio e o potássio, que tornam a água menos ácida em comparação à água comum, que tem um pH neutro, e portanto, daí a sua diferença de alcalinidade, devido essencialmente à presença destes minerais, especificamente.

Pedro Carvalho, o que significa alcalinizar e qual a sua importância para o organismo? Ou seja, em que situações é que é necessário alcalinizarmos o nosso organismo?

Esse controle dos níveis do pH do nosso organismo é algo que já é estritamente regulado pelos nossos pulmões, pelos nossos rins, e por isso o impacto que a nossa alimentação, seja através dos alimentos, seja através da água que bebemos, vai ter no pH do nosso organismo, vai ser bastante reduzido. Quando nós fazemos uma dieta mais alcalina, ou seja, com uma quantidade maior de alimentos de origem vegetal, mais fruta, mais legumes e com menor quantidade de proteína, o máximo que se consegue observar é um aumento do pH da nossa urina. E por isso o pH urinário pode ficar um pouquinho mais elevado.

Entre que valores, mais ou menos?

Mas o pH do nosso sangue, neste caso, fica muito estável, até porque é uma condição fundamental para a vida humana não existirem essas grandes flutuações. O pH, o máximo que se verificou em alguns trabalhos foi aumentar uma unidade do pH, e esse pH urinário, através de uma dieta alcalina. E por isso, mais do que isso será difícil. E do ponto de vista global da alimentação é assim, nós temos que ter uma alimentação saudável e existe essa coincidência dos alimentos nutricionalmente mais ricos e mais de origem vegetal, também são aqueles um pouco mais alcalinos. E por isso as vantagens de nós termos uma alimentação rica nesses alimentos vão muito além do impacto que depois é produzido no nosso pH, em qualquer fluido fisiológico. Estamos a falar do sangue que pouco mexe, e depois na urina, que pode mexer mais um pouquinho. Mas a principal relevância de uma boa hidratação e de uma alimentação equilibrada, são as muitas outras coisas para além dessas mudanças do pH.

Então diria, Pedro, que, por exemplo, uma urina saudável está mais ou menos entre que valores?

Não é um parâmetro ao qual eu, enquanto nutricionista, olhe. Ou melhor, até posso olhar para alguns parâmetros urinários, de facto, para ver se existe a presença de corpos tónicos ou não, se estiver a ser uma dieta muito pobre em hidratos de carbono, para ver, eventualmente, até a própria densidade da urina, porque é um indicador também do estado de hidratação, e por isso uma urina demasiado concentrada, com uma densidade muito alta, também acaba por ser um indicador de desidratação. Depois a questão do pH urinário, claro que se pode eventualmente inferir até a própria qualidade geral da alimentação, caso nós possamos estar perante um pH urinário um bocadinho mais baixo, mais ácido, mas para avaliar isso há muitas outras formas do ponto de vista clínico para avaliar a alimentação. Não é um indicador que eu considere fundamental.

Rita, qual a importância e o impacto das águas com equilibrada ou elevada mineralização para o organismo humano?

Ora, uma água com a mineralização equilibrada ou elevada vai desempenhar um papel importante na saúde humana e vai contribuir para diferentes funções essenciais do nosso organismo. Como já foi referido anteriormente Os dois principais órgãos que estão associados a esta regulação, este balancear do pH do nosso organismo, são maioritariamente os pulmões e os rins. Porque se houver alguma alteração, seja ela metabólica, seja ela respiratória, nós entramos em situações fisiopatológicas, em que estamos na presença quer de acidose metabólica ou alcalose metabólica, ou seja, quando há uma diminuição acentuada ou aumento acentuado do pH, em que os rins e os pulmões não conseguem responder e equilibrar esse pH do nosso organismo. Interessa também referir que um pH equilibrado também é importante para as diferentes reações bioquímicas essenciais para o bom funcionamento das enzimas. As enzimas são proteínas que existem em imensas quantidades no nosso organismo e que regulam muitas reações químicas e metabólicas. E, portanto, a ingestão de águas com elevada ou equilibrada mineralização para o organismo podem sofrer aqui algumas alterações. E nomeadamente, os dois maiores players nesta acidose ou alcalose metabólica ou respiratória são, ao nível da situação metabólica, é o íon bicarbonato, HCO₃⁻, e ao nível respiratório, é a pressão parcial de dióxido de carbono. E se houver um imbalance entre estas duas moléculas, poderemos então ter aqui estas situações de alteração da alcalinidade ou da acidez do nosso organismo. A água mineralizada, especialmente aquela que tem um elevado teor de bicarbonato, portanto, que dá a alcalinidade responsável, pode sofrer alguns benefícios. E, no entanto, se pensarmos que o bicarbonato tem sido associado à redução de acidez no organismo, se pensarmos relativamente à neutralização do ácido lático. Ácido lático este, ou lactato, que é produzido durante uma atividade física intensa e aí poderá ser importante alcalinizar o nosso organismo.

Equilibrá-lo.

Equilibrá-lo.

Com mais água.

Exatamente. Só que nós não nos podemos esquecer que esta utilização ou ingestão de águas com elevada alcalinidade tem um efeito minor comparativamente à nossa resposta imediata do organismo. O que isto pode querer dizer, e se calhar o Pedro do ponto de vista nutricional conseguirá dar aqui uma melhor achega também, que estamos a falar de pessoas que estão fisiologicamente bem.

E agora, desculpe fazer aqui um aparte. Está a falar, por exemplo, de dióxido de carbono pode mudar o pH do nosso organismo. Uma pessoa que fume poderá ter um pH diferente?

Obviamente, porque o nosso pulmão vai estar em esforço e podemos estar em hipo ou hiperventilação, e portanto a pressão parcial de dióxido de carbono vai ser automaticamente alterada.

Fica mais ácido?

Mais ácido. Sim. E portanto poderemos ter aqui uma oscilação, obviamente, mas lá está, vai depender muito da resposta fisiológica de cada um, tendo em consideração que os nossos rins e os nossos pulmões estão a funcionar de forma correta. Ou seja, quando falamos em rins, estamos a falar em termos de excreção também. Porque existem muitas substâncias que aquando da sua metabolização, e aqui a minha veia bioquímica a falar, que vão libertar determinadas substâncias mais acidicas ou mais alcalinas.

E agora vamos então direcionar para o Pedro Carvalho. Vamos falar sobre dietas. Qual a diferença entre uma dieta alcalina e uma água alcalina?

Quando estamos a falar da água, falamos sobretudo pelo pH da mesma. E nós podemos ter até uma dicotomia, que é alguém que não tem uma dieta propriamente alcalina, no sentido dela ser mais equilibrada, com muitos cereais processados, com muitas carnes processadas, queijo, marisco, ou seja, alimentos com potencial ácido maior, e que depois ingere a água alcalina, só que isso vai ser um fraco consolo, por assim dizer, porque não é assim que se equilibram as coisas. Aliás, esse equilíbrio tem que ser mesmo feito no prato, com um enfoque maior na ingestão de outros alimentos mais alcalinos, como já falamos. Estamos a falar sobretudo da fruta e dos legumes e luminosas também. Até porque nós temos de conjugar não só do ponto de vista de macronutrientes, onde aí podemos conjugar os hidratos de carbono com as proteínas, com as gorduras, como é lógico, mas quando falamos deste ponto de vista mais minor, por assim dizer, temos de englobar o claro que precisamos dos hidratos de carbono, das proteínas e das gorduras, como é lógico, mas aquilo que precisamos mais, quando falamos da proteína e dos legumes, são de todas as vitaminas e fitoquímicos que ela tem, com o seu potencial antioxidante, até para fazer esse equilíbrio. E lá está, isso são coisas que vão muito mais além do que apenas essa manutenção ou equilíbrio daquilo que é o pH.

Isso quer dizer que uma dieta alcalina é benéfica, não é?

Exatamente. Quer dizer que uma dieta alcalina é alcalina pelo fato de uma maior proporção de alimentos de origem vegetal, da fruta e dos legumes, estar presente na nossa alimentação. E por isso é quase um indicador, por assim dizer, da qualidade da dieta, o fato de, depois de fazermos essa avaliação, nós vermos que o pH médio da nossa dieta é bastante mais alcalino.

E ser depois complementado com uma água alcalina também.

A questão da água ser alcalina ou não é completamente decisivo. Eu trabalho bastante com atletas e uma das coisas que agora estávamos a falar era da quantidade eventualmente até do próprio bicarbonato para que pudesse servir quase como um tampão para essa acidose metabólica que se pode criar em atletas até a seguir a esforços de alta duração. E só para nós termos um pouquinho a noção da quantidade e da ordem de grandeza que estamos a falar, nós no máximo aquilo que podemos ter das águas presentes no nosso mercado, estamos a falar em cerca de 400 mg de bicarbonato por cada litro de água. As doses que são utilizadas como suplemento, porque o bicarbonato de sódio é mesmo um suplemento dado a atletas, nós já estamos a falar em 20 g só de uma vez. E estamos a falar em 20 g uma a duas horas antes do esforço. Ou seja, porque é uma estratégia aguda de alcalinização metabólica para melhorar essa performance, que é feita apenas em momentos de provas, não é feita diariamente, como é lógico.

Lá está, é feita no prato.

Neste caso é feita através de uma suplementação, mas voltamos à questão do impacto que a água, por mais alcalina que seja, ou até por maior quantidade de bicarbonato que possa ter, depois vai ter naquilo que é a alcalinização do nosso organismo, acaba por ser bastante residual.

E o pH alcalino da água ajuda a lutar contra o cancro, por exemplo?

Não há evidência nesse sentido. Porque nós estamos aqui a falar de uma mudança muito ténue que o próprio pH da água pode ter no nosso organismo e por isso podemos estar a falar de cancro e muitas outras patologias. É praticamente impossível que exista essa mudança e que ela seja providenciada pela água.

E Rita, as águas com pH ácido, por exemplo, até sete, se não estou em erro, são prejudiciais para o organismo?

Ora bem, as águas com o pH ácido podem ser prejudiciais para o organismo em determinadas situações fisiológicas, embora este impacto possa depender de vários fatores. E nomeadamente estas águas com um pH mais ácido, sabendo nós que o pH do estômago é demasiado ácido, portanto chega a ser inferior a dois. Estas águas com pH ácido podem causar mesmo um desconforto gastrointestinal bastante acentuado. Mas isto mais uma vez poderá haver aqui efeitos negativos. E por quê? Porque novamente o nosso organismo tem mecanismos fisiológicos de compensação, de tamponamento do nosso pH do organismo. Portanto, aqui o pH demasiado ácido pode ser prejudicial nesse sentido se nós novamente não tivermos um mecanismo de compensação para tamponar o pH do nosso organismo entre os 7,35 e os 7,45.

Então, e agora lanço a pergunta aos dois. Se o pH alcalino da água afinal não é relevante, por que razão acham que existem profissionais de saúde que o defendem? Vamos primeiro ao Pedro.

Sim. Neste momento a água alcalina virou-se uma espécie de moda e até quase que um símbolo de status. Eu brinco muito com os meus alunos a dizer que nós não vemos às vezes uma garrafa d'água alcalina sair fora de uma carteira assim muito fraquinha. Por isso eu acho que já existe quase uma brincadeira, mas que acaba por ser uma brincadeira real. E por isso eu considero que não existe nenhum problema em nós olharmos para algumas modas, como neste caso a água alcalina, e tentarmos retirar o melhor dela. E se o fato de alguém considerar que bebendo uma água alcalina é mais saudável e isso for o mote para que a pessoa ingira mais água, nesse caso não há problema rigorosamente nenhum, porque se calhar as outras estratégias comuns de "beba apenas mais água" podem ser insuficientes, a mensagem pode não passar de forma tão fácil e se calhar o fato de existir uma propriedade quase que mágica associada a uma água pode fazer com que a pessoa ingira mais água. Logicamente que depois existem alguns profissionais de saúde que tentam surfar essa onda. E isso é válido para as águas alcalinas e para muitas outras estratégias cuja substanciação científica não é assim tão forte, mas que acaba por ser mais uma vez também uma questão de status e de posicionamento no mercado, estarem associados a essas águas e outras práticas que não têm uma grande base científica, mas que os torna diferenciadores e tornando-os diferenciadores, depois conseguem se calhar atingir outro tipo de público.

Parece funcionar como algo mais atrativo, mas na prática é indiferente.

É mais marketing.

Sim, é mais marketing do que outra coisa. Rita, concorda, não é?

Concordo plenamente. Acho que isto é uma questão de marketing e aqui eu acho que as indústrias das águas têm aqui um grande poder nesse sentido. Embora já existam alguns resultados, embora que preliminares, cientificamente falando, em que algumas pessoas que, lá está, devido ao déficit hídrico da ingestão de água. Mas os estudos ainda são um pouco preliminares, ainda não são conclusivos Porque poderá melhorar a pressão arterial, a função endotelial, principalmente em idosos. Pessoas, por exemplo, com diabetes, já começam a ter alguma alteração ao nível da parede dos vasos sanguíneos. No entanto, eu acho que, e era aquilo que o Pedro dizia, é um pouco de modas, eu acho que as pessoas vão um pouco atrás dessas modas. E também eu acho que acima de tudo, o marketing. Aquilo que passa na rádio, na televisão, nas redes sociais, as pessoas estão sistematicamente a ser bombardeadas por informação não muito de fonte segura pelas redes sociais. E se uma pessoa disser que beber cinco litros de água alcalina vai reduzir o peso corporal num curto espaço de tempo, há imensas pessoas que estão a seguir essa dieta só porque nas redes sociais isso foi transmitido.

Sem provas científicas.

Sem provas científicas, exatamente. E, no entanto, eu acho que se ainda não existirem provas científicas e relatos científicos que demonstrem que realmente a ingestão da água alcalina é realmente uma melhoria significativa para a saúde da população, acho que isto é um pouco deixar andar.

É um mito.

É um mito.

É um mito urbano.

Eu acho que é um pouco um mito hídrico.

Um mito hídrico, exatamente. Curioso. Antes de terminarmos este episódio, partilho apenas uma curiosidade sobre a água, desta vez com a ajuda do Pedro Carvalho, que escreveu num artigo no Público, deu uma boa dica para perceber e avaliar o nosso estado de desidratação. E através da cor da urina, não é assim, Pedro?

Sim, é o indicador mais prático que nós temos à nossa disposição. É olhar para a nossa urina diariamente e tentar que ela seja um amarelo muito clarinho, praticamente transparente e inodoro. E, sobretudo, se nós bebermos em resposta à sede e se a nossa urina for assim, nesse caso, está tudo bem. Se caso o nosso mecanismo, o nosso reflexo da sede não estiver assim tão bem otimizado e nós nunca tivermos sede para beber e depois chegarmos à conclusão de que, de facto, estamos cronicamente desidratados, então, nesse caso, temos que forçar um pouco e beber acima daquilo que a nossa sede já nos pede para beber.

Exatamente. Uma urina, então, amarelo clarinho. Muito obrigada aos dois, Rita Patarrão e Pedro Carvalho. Foi um gosto ter vocês aqui na Rádio Observador, neste podcast da iniciativa Vimeiro Explica. Quanto a si, se procura perceber tudo sobre a água que bebe, há muitos episódios sobre este tema nas plataformas digitais e em observador.pt. Basta procurar por "Claro como água" ou pelo explicador "Saiba o que realmente importa na água que bebe". Até ao próximo episódio e obrigada aos dois.