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E continuamos a nossa viagem pelo país, à boleia dos atletas olímpicos portugueses. Hoje vamos até à Damaia, às portas de Lisboa, conhecer as origens do judoca Jorge Fonseca. Uma vez mais, bom dia, João Filipe Cruz.
Bom dia.
João, vamos à Damaia, freguesia do concelho da Amadora, arredores de Lisboa.
Vamos lá, mas olha que este até podia ser o Código Postal mais longínquo de sempre, porque se fôssemos precisos, teríamos que ir até São Tomé e Príncipe, que foi onde Jorge Fonseca nasceu. Mas como se mudou novinho para a Damaia, para a Amadora, para Lisboa, com 11 anos, preferimos ir até Lisboa, que é aqui bem perto. E vamos até onde tudo começou, na escola. Jorge Fonseca começou a fazer judo na escola, espreitava pelas janelas para ver umas aulas de judo que havia lá e um dia decidiu entrar, não pela janela, mas foi definitivamente uma janela que se abriu. E aí o nosso judoca mostrou logo ao que vinha, até porque, fala quem o conhece, quem o conheceu lá, já em miúdo, o Jorge impunha respeito.
Era um rapaz traquina. Além de ser traquina, era bom miúdo, mas sempre dessa forma.
Então ele agora, além da estampa física que tem, ainda por cima é bom em desportos de combate. Não havia quem se metesse com ele, não?
Não, mas ele também não se metia com ninguém. Olha para o Jorge Fonseca, a gente a brincar, eu às vezes até dizia que ele era só músculo, parecia um King Kong. Eu ao lado dele ficou-me só uma miúda pequenina. A gente brincava sobre isso.
Esta é a voz de Bela Lopes, entrevistada pelo nosso colega André Maia. Ela que é funcionária da escola Dom João V, onde o Jorge Fonseca estudou e começou a fazer judo. Pelos vistos, não havia quem se metesse com ele.
Pois, mas ela também disse que ele não se metia com ninguém. Isso é bom. Mas agora até falando um bocadinho mais a sério, João, a Damaia é muitas vezes uma zona problemática, sabemos disso. Saber judo podia dar alguma sensação de segurança.
Sim, e nestes casos até daria para, no judo ou em qualquer outro desporto, quando os miúdos se ocupam verdadeiramente, até dá para escapar um bocadinho a outros caminhos que podem ser bem piores. E era difícil não ser tentado, e isso diz-nos a lenda do judo português, Nuno Delgado. Houve vezes em que isso aconteceu a Jorge Fonseca.
Coisas tão simples como fugir ao elétrico e depois partir um braço e desaparecer durante um mês.
Isso aconteceu?
Sim. Aconteceu ao Jorge.
Fugiu ao elétrico, como assim?
Ou seja, para apanhar o elétrico sem bilhete. Coisas de juventude. Havia ali muita oferta para sair do caminho certo. Mas a verdade é que com muito esforço esses episódios foram todos muito bem ultrapassados.
Esperemos que este gigantesco crime do Jorge Fonseca, que eu também nunca cometi, já tenha prescrito.
Quem nunca? E quem nunca o fez, pelo amor de Deus, há vezes em que tem mesmo de ser, quando mais não seja porque estamos efetivamente atrasados e não dá tempo para comprar o bilhete. Não te desculpes, João.
Mas o Jorge Fonseca sempre quis, e bem sabemos que ainda quer ser polícia, mas já agora fica a curiosidade. O Jorge já foi detido duas vezes, e adivinhem onde? No Japão. E se eu fosse a ele, tinha cuidado por lá.
Mas foi detido no Japão por quê? Vou usar a velha graça do: "Não me digas que não pagou bilhete no rickshaw."
Não, foi ainda melhor. A primeira foi porque passou um sinal vermelho com o treinador. A segunda foi por correr em tronco nu na rua.
A sério?
Bem, pelos vistos no Japão essa modalidade não é muito bem vista. Ao Observador, numa entrevista em 2017 ao nosso editor de desporto, Bruno Roseiro, o Jorge contou que no Japão não há multas nem condescendência, logo detenção.
É bom que a polícia não ouça este Código Postal, senão lá se vai o sonho do Jorge ser polícia. Mas João, o principal sonho agora deve mesmo estar relacionado com o judo, não é?
Ora pois, é ser campeão olímpico o sonho de Jorge Fonseca e quem o conhece no mundo do judo, o David Reis, colega e judoca no Sporting, não tem dúvidas. Ele tem tudo para triunfar, principalmente pela garra e pelo espírito animado.
Eu lembro-me numa situação de treino que temos que executar o maior número de repetições num curto espaço de tempo, e ali são situações de muito cansaço. Por exemplo, à oitava ou à décima série, já é só mesmo na garra. E eu lembro-me de inúmeras situações em que o Jorge está ali e está a puxar por nós e a mandar assim uns: "Bora, vamos".
E se ainda temos dúvidas sobre o empenho, a garra de Jorge Fonseca, está aí uma prova mais do que suficiente. O Jorge teve um cancro na perna esquerda em 2015, fez um ippon à doença, ganhou e diz-nos o David Reis que não demorou a voltar.
Alguns meses depois do Jorge ter o ok para voltar aos tapetes, estava o Jorge na Áustria, em 2015, a lutar como se nada tivesse passado. Depois daquele dia eu fiquei: "Bem, isto parece que ainda voltou melhor".
É arrepiante, não dá para ficar indiferente da história de Jorge Fonseca. E são todos estes pedaços, bem como o filho que teve aos 17, bem novinho, que lhe deram força para que hoje seja bicampeão do mundo de judo e esperemos, campeão olímpico.
É verdade, e esperemos que dance. Eu quero vê-lo dançar.
É já daqui a meia hora que vamos saber se Jorge Fonseca consegue ou não arrecadar uma medalha olímpica para Portugal. João Filipe Cruz, o jornalista que apanha boleias de elétricos com códigos.
Sem bilhete.
Sem bilhete.
Só quando está com pressa.
Sim.
No Código Postal de hoje, onde fomos até à Damaia, freguesia que viu crescer o atleta Jorge Fonseca. Até já, João.
Até já.
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