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Seguimos viagem nas manhãs 360 através dos códigos postais dos atletas olímpicos. Hoje com o João Filipe Cruz. João, vamos até Setúbal, ao código postal 2900, à cidade que acolheu o mais recente campeão olímpico por Portugal.
Bom dia, estamos a falar, obviamente, de Pedro Pablo Pichardo, que conquistou o ouro no triplo salto. O Pedro, sabemos, nasceu em Cuba, mas escolheu o nosso país para prosseguir a carreira e beneficiou do estatuto de refugiado. E escolheu também Setúbal como refúgio, propriamente dito. Falámos com José Pereira, o chefe da divisão de desporto da autarquia, que nos explica como foi o primeiro contacto.
Pela simplicidade do Pedro e, obviamente, do seu treinador e pai, o senhor Jorge, logo aí surgiu esta empatia e pessoalmente disponibilizei-me logo, como chefe de divisão desta grande casa que é a Câmara Municipal de Setúbal, para qualquer apoio que pudesse dar para que o Pedro pudesse ter as melhores condições para o seu treino diário.
José Pereira tem três irmãos de sangue e garante que agora tem mais outro, este que chegou do lado de lá do Atlântico.
O Pedro, confesso que, com todo este orgulho que tenho de o Pedro ter sido campeão olímpico, considero-o quase como um irmão, e percebendo, na relação diária com o Pedro. Fazia sempre questão de todos os dias, sempre que possível, ir visitá-lo ao nosso Complexo Municipal de Atletismo. Fiz sempre questão de, nestes momentos, estar próximo do Pedro.
Com 52 anos e há 11 como responsável pelo desporto em Setúbal, José Pereira tem a certeza que não vai passar pelo mesmo. Um convívio tão forte com uma superestrela.
João, mas nem tudo deve ser assim tão rosas. Um medalha de ouro não tem os seus caprichos, não tem umas ideias mais esquisitas?
Ao que parece, Carla, o Pichardo é bastante simples e humilde, pelo menos pelo que o José Pereira nos conta, mas tem aqueles dias, como todos nós.
Houve momentos que bastava eu chegar à pista e perceber, só pelas expressões exteriores que ele pudesse apresentar, que naquele dia não valia a pena nós, ou eu, dizer olá, bom dia, boa tarde. Não valia a pena. Então falava com o pai e vinha-me embora.
Tem mau acordar, às vezes. O José também nos contou que de vez em quando o Pedro Pichardo deixa-se dormir um bocadinho mais.
Ora bem, e se o medalha de ouro o faz, ficar aqueles minutinhos mais na cama, quem somos nós para o contrariar e para andarmos aqui a levantar cedo? Nós aqui na equipa da manhã. Isto é para vocês também. João, fala-se de Setúbal e é impossível esquecer o choco frito. O Pichardo já experimentou?
Paulo, eu tinha de fazer essa pergunta, nem vinha para aqui sem resposta.
Eu julgo que o Pedro já comeu, não foi comigo, com certeza. Mas com certeza que ele já experimentou e fez referência a isso numa conversa que o meu pai teve com o Pedro Pina. O prato preferido dele era choco frito e ele disse: "Já provei", numa expressão.
Se é o preferido ou não?
Não, não sei. Eu julgo que sardinhas ele ainda não comeu.
Faltam as sardinhas.
Não sabe o que perde.
É verdade.
Mas está aqui pelo menos mais uma lição de normalidade do superatleta.
João, li aí algures que havia uma viagem prometida e até acho que envolvia mesmo o José Pereira.
Leste bem, Júlio. Parece que o Pichardo queria levar o José a Miami se ganhasse a medalha de ouro, e aconteceu, mas parece que o setubalense não quer aproveitar.
Foi uma brincadeira. Eu tenho família em Miami e disse: "Epá, vamos a Miami os dois". Disse: "Não, vou-te convidar a ti e à família". Não, eu digo, claro que isso foi uma brincadeira, julgo que nem pouco mais ou menos eu iria aceitar. Isso foi uma brincadeira de ambos naquele momento. Não, nunca iria aceitar.
Uma viagem a Miami, o José diz que não é capaz de aceitar, mas entretanto tem mais um par de tênis.
Foi uma brincadeira, apenas aceito o carinho e a amabilidade do Pedro quando ele me oferece uns tênis. "Ó Pereira, tens aqui uns tênis". Eu estou agora com uma fischita no plantar, por exemplo, e ele disse: "Eu vou arranjar-te uns tênis bons". E digo-lhe: "Os tênis que estou a usar agora na corrida nem sinto o chão, de tão bons que são". Portanto, você veja esta relação de grande proximidade que eu tenho com o Pedro e eu sem lhe pedir o que quer que seja, ele faz-me este carinho, digamos assim, que eu não consigo retribuir.
Um bom gesto do medalha de ouro. Não que José Pereira precisasse e fez questão de o dizer. Ele que não consegue esconder a emoção ao falar da conquista de Pichardo e da gratidão que sente.
Quase que me emociono, porque nunca lhe dei os parabéns em qualquer prova que ele fez, apenas desejei que Deus o acompanhasse, porque os parabéns dão-se depois. Pessoalmente, depois das conquistas, e julgo que ter alguma palavra a isto terei presente, obviamente. Ele já me disse que eu é que o trarei para sua casa, mas apenas isso, um agradecimento e um dever de grande gratidão.
A medalha de ouro já tem boleia para Setúbal e quem melhor do que o irmão português de Pichardo, José Pereira.
João Filipe Cruz e o Código Postal Olímpicos. João Filipe Cruz que regressa depois das 10h30 com as outras histórias do desporto. Até lá.
Até já.
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