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Começa agora a comissão de inquérito. Esta manhã é nosso convidado Bruno Mascarenhas, candidato do Chega à presidência da Câmara de Lisboa e vereador eleito. Bom dia, bem-vindo!

Olá, bom dia.

Bom dia.

Bom dia.

Muito obrigado pela simpatia e pela boa disposição.

Obrigada. Há pouco dizia que tinha estado aos garfo de futebol e que estava assim um bocadinho dorido, partido.

A idade já não perdoa. Ainda por cima, quando ficamos uns tempos parados, isto depois mói.

Eu estou a dizer isto porque pode sair daqui a coxear e depois não vão dizer que a culpa é nossa.

Não, eu sei. Eu fiz judo muitos anos, sei cair e sei me levantar.

Isto tem estado perigoso para a profissão de políticos em estúdios, como sabemos.

Exatamente.

Sabe como funciona, Bruno. Cinco perguntas, cada resposta certa cinco pontos, se pedir a nossa ajuda e acertar, dois pontos.

Dois pontos.

Vamos lá. Esta é muito simples. Na corrida à presidência da Câmara de Lisboa, o cartaz do Chega tinha como slogan "Defender Lisboa". Então e o que dizia o da CDU do João Ferreira?

Dizia "Uma cidade da minha vida" ou "Por uma cidade da minha vida". Era uma coisa assim.

Era da nossa.

Era da nossa.

Era do coletivo.

Não, o que eu acho é que é a cidade da vida, porque é o que lhe dá a saída.

É Lisboa, cidade da nossa vida.

Cidade da nossa vida.

A questão do segundo vereador ainda está dependente da repetição da contagem dos votos, que acontece precisamente amanhã, na freguesia de São Domingos de Benfica. Como é que acha que isto se vai resolver? Na justiça ou na repetição das eleições em Lisboa?

Na justiça. Quando eu digo na justiça, ou seja, até ao final da semana, nós vamos ter isto resolvido, porque com certeza que o PCP não vai estar de acordo com aquilo que vai acontecer amanhã. Portanto, em São Domingos de Benfica já foram recontados e recontados os votos no dia 12. Foi exatamente a seção de voto onde ficaram até às duas da manhã. Havia ali uma questão clara da expectativa que eles tinham de virar o resultado e, portanto, precisavam de mais 50 votos, que não conseguiram, e fizeram recontagens e recontagens. E daí que depois eles vão com certeza amanhã protestar. Posso já dizer que duas das pessoas que estão naquela a contar votos são militantes e são candidatos do Partido Comunista, portanto, é a mesma coisa que, a nível do futebol, que termos dirigentes no VAR.

Mas não têm lá dirigentes de votos também? Representantes de votos?

Não há ninguém do Chega na contagem dos votos?

Não, atenção.

Como é que isso funciona?

Pois, isso é o admirável mundo novo.

Nas mesas de voto há representantes de vários partidos, sempre.

Sim, mas neste caso em específico, não. Neste caso em específico, foram pessoas que foram escolhidas, portanto, são duas professoras de matemática aqui perto do agrupamento de escolas aqui de Alvalade, e depois são quatro presidentes de secções de voto que são escolhidos e dos quais dois são exatamente do PCP.

Mas os outros dois não são de outros partidos?

Serão de outros partidos.

Do Chega também.

Do Chega, não.

Não?

Não, o que há é a possibilidade, e foi isso que nós fomos, no dia a seguir às eleições, naqueles quatro dias que houve a assembleia de apuramento, nós indicamos delegados. Esses cinco podem estar a assistir. Agora, pessoas que estão mesmo com acesso aos boletins e que são do PCP, estão lá dois.

Mas com muita convicção disse que isto vai ficar resolvido na justiça. Quer dizer que não vê, não coloca de todo a hipótese das eleições serem repetidas.

Quando eu digo na justiça...

É para ficar resolvido esta semana.

Nós temos claramente a vitória. Isto de um voto foi um conjunto de episódios que um dia depois havemos ter que te contar. Mas nós vamos com certeza ficar com a vantagem e vai haver um recurso, ou terá que haver um recurso para o Tribunal Constitucional, que se pronuncia num prazo de 48 horas. Eu diria que terça até sexta nós vamos ter isto resolvido.

E vai tomar posse.

Não, eu já estou.

Sim, o segundo vereador.

O segundo vereador do Chega, exatamente.

Muito bem, seguimos então. Cinco pontos.

Cinco pontos, sim. Minha, nossa.

Agora vamos sair de Lisboa e olhar para todo o país. E a pergunta é: quantos vereadores é que conquistou o Chega nestas autárquicas no país todo?

170 vereadores?

Não foi tanto.

Vamos lá, está longe.

Não foi tanto. Tenho aqui três hipóteses. Quer a nossa ajuda?

Então vamos lá.

Então, 95, 137 ou 152.

Então 137.

137. Em Lisboa, já falámos disso, são dois, que se juntarem aos nove da coligação de Carlos Moedas.

Oito.

Aos oito, podem fazer a maioria.

Fazem maioria.

Fazem maioria. E a pergunta é, de facto, como é que o Bruno Mascarenhas e o outro vereador do Chega vão comportar-se perante esta geometria? Aceitam ser o parceiro recorrente da maioria PSD/CDSL?

O outro, que é uma outra, que é uma mulher, que é a Ana Simões Silva.

Ana Simões Silva, ok.

Eu gosto de fazer as coisas passo a passo. E primeiro é importante pra nós esclarecer esta questão e ficar este assunto completamente resolvido. Após, então, o que iremos ver o que é que queremos. É óbvio que do ponto de vista daquilo que são as políticas principais pra cidade, sobretudo naquilo que é mais importante e que o PSD tem vindo atrás de nós, que é na questão da imigração, da habitação, na segurança, eu julgo que o PSD tem interesse ou terá interesse em contar conosco. Agora, resta saber em que modelo. Há dois modelos aqui possíveis. Ou aquele que eu à partida poderia até agradar mais, que é o caso a caso, e nós aí teríamos uma influência muito importante em tudo que são as políticas da cidade, e aí não teríamos vereação. Ou então há outro aspecto, eu gosto também de dizer as coisas como elas são, que é se nós tivermos vereador, podemos, neste caso com pelouro, temos a possibilidade, naturalmente, de com o orçamento, fazer política real.

Algum pelouro que imaginasse que o Chega pudesse tomar conta?

Há pelouros que nós gostávamos, obviamente, tendo em conta aquilo que foram as nossas promessas eleitorais. Neste caso seria a habitação, obviamente muito importante. Há um pelouro que para mim também me diz muito, que é o pelouro do desporto, onde nós temos ali um Parque Tejo e onde podíamos fazer uma política para a cidade de dar apoio aos clubes e construir infraestruturas para o apoio aos clubes da cidade, que são altamente carenciados. Há outras situações, há a ação social, mas nós queremos cortar com muita coisa que infelizmente ainda vem da herança do Bloco de Esquerda do mandato anterior.

Como por exemplo?

Como por exemplo, foram criadas muitas incubadoras até ali na zona de Arroios e dos Anjos, que têm muitos apoios, inclusivamente até para efeitos de manter na cidade de Lisboa.

Incubadoras de projetos de negócio ou artísticos?

Não, incubadoras de todo o tipo, mas sobretudo que apoiam e que são instituições e que apoiam instituições ligadas supostamente aos mais desfavorecidos, mas que na realidade acabam por manter um sistema na cidade de Lisboa que me parece, como por exemplo os sem-abrigo, que não parece que seja o mais adequado. O objetivo é tirá-los da rua, não é mantê-los na rua e portanto ganhar subsídios com isso.

Mas voltando aos dois modelos de interação com a liderança da Câmara. Aceitam um acordo para a legislatura, entre aspas, para o mandato?

É isso que ainda vamos ter que discutir.

Mas há abertura do Chega para isso?

Eu julgo que há abertura de ambas as partes, até porque de facto aquilo que está aqui em causa é: ou fazemos uma alteração do paradigma, e no mandato passado o Engenheiro Moedas queixava-se que tinha só sete vereadores de um lado e tinha 10 da oposição do outro e portanto de alguma forma ele estava condicionado, ou pelo menos dizia que estava condicionado, porque acabou por ter sempre o PS a pôr-lhe a mão por baixo, como se costuma dizer. Neste caso, se ele realmente quiser mudar de políticas na cidade de Lisboa, tem a possibilidade de o fazer conosco, porque nós nesse aspeto somos muito mais assertivos, somos muito mais combativos e se calhar somos capazes de fazer algumas ruturas que ele que se considera extremamente moderado, acaba por não conseguir fazer.

Mas tem falado já com Carlos Moedas sobre essas possibilidades e esses cenários?

Já houve uma aproximação. Eu julgo que os contactos serão feitos daqui para frente. Resolvida esta questão, que acho que é importante, porque na realidade pode dar-se o caso ou oito, oito e um do Chega, portanto, que é o desempate, ou sete, dois e oito. Portanto, acho que é por aí. Nós ainda queremos primeiro resolver esta questão.

Primeiro fechar essa questão.

Das eleições. Então agora vamos passar para o império midiático, o meio midiático sair de Lisboa. Como se chama o fundador do canal televisivo CNN?

O internacional.

Internacional. Criado em 1980.

Ted Turner.

Ted Turner. Certíssimo. No passado sábado, André Ventura abandonou o estúdio da TVI CNN quase no final de uma entrevista conduzida por um jornalista e por dois comentadores políticos. Acha que o líder do Chega é vítima da perseguição dos jornalistas ou beneficia claramente de uma excessiva mediatização e presença mediática? Todos os meses tem sido entrevistado pelos principais canais televisivos.

Eu quero antes mais dizer que conheço os dois entrevistadores.

Pedro Costa e Francisco Rodrigues dos Santos.

O Pedro Costa no mandato que passou, foi deputado municipal e estive com ele em alguns debates. Ele é um rapaz que sabe falar bem, mas tem alguns vícios de ser filho de quem é. E eu não costumo misturar planos, a família deve ser colocada sempre à parte da política, mas ele vem com alguma soberba que não sei por quê. E acho que foi escusada aquela forma dele realmente se dirigir ao presidente do Chega. O Francisco Rodrigues dos Santos ainda tem umas contas a ajustar a ter não sido eleito nas eleições de 22 e portanto, sobretudo porque ele perde e o CDS da altura perdeu muito para aquilo que foi o crescimento do Chega.

Mas André Ventura sabia ao que ia e sabia com quem era, conhecia as regras da entrevista, seguramente.

Sabia seguramente, mas as pessoas são sempre crédulas. Todos nós achamos que acaba sempre por correr bem.

E corre. Tem corrido bem.

E tem corrido bem pelo mérito dele, é sobretudo por isso. Mas tenho pena que estes formatos sejam feitos e parece que as pessoas o objetivo é, em vez de esclarecer, estarem ali num combate. Quer dizer, parece que vai tudo para o combate e não é isso que se pretende. Deve haver, sobretudo a tal urbanidade que tantas vezes é apregoada, nós devemos realmente é ter a capacidade de discutir ideias e posso-vos dizer, até no meu caso, eu no princípio do meu mandato em 2021, quase todos os deputados, eu não digo que me cuspissem em cima, porque é muito forte a expressão, mas havia uma rejeição enorme e ao longo dos tempos, independentemente do meu discurso, eu quis explicar às pessoas o que é que estava a acontecer na cidade e no final tinha propostas aprovadas, até do ponto de vista técnico. Portanto, eu acho que nós podemos realmente crescer e discutir pela positiva.

Isso é um recado para a bancada do seu partido no Parlamento. Às vezes portam-se assim um bocadinho fora do normal.

Eu acho que a realidade da Assembleia da República é diferente das autarquias. Até por causa, precisamente como estava a dizer, da midiatização. A midiatização muitas vezes prejudica aquilo que nós queremos tratar.

Há uma outra postura na política local.

Acaba por haver uma espécie de um teatro. Não digo um circo, mas tantas vezes se diz a questão do circo, e as pessoas fazem ali uma atuação que acaba por depois passar para a opinião pública.

Muito bem. Então vamos a mais uma pergunta. Vamos a mais cinco pontos.

Está com 12 pontos, Bruno Mascarenhas.

Com os 10 já os 15 com esta. O Bruno fez o curso de formação de oficiais do exército, até terminou em primeiro lugar, segundo consta. Então sabe qual é o lema da Marinha Portuguesa? Mudamos de ramo de Forças Armadas.

Não, eu sou do exército.

Eu sei, mas é um homem das Forças Armadas. O lema da Marinha Portuguesa.

Preciso de uma ajuda.

Vamos lá. A pátria honrai, que a pátria vos contempla. Nem quero ouvir as outras. Pronto, muito bem, é mesmo esse o lema da Marinha Portuguesa. E os almirantes devem ficar no quartel ou podem concorrer às eleições presidenciais?

Eu acho que os almirantes, se nós tivéssemos bons barcos e tivéssemos uma boa frota, deviam estar era no mar.

E os que estão na reforma?

No mar e sobretudo não os mandar de qualquer maneira para cima dos russos. Os que estão na reforma ou não estão na reforma, têm a possibilidade de fazer aquilo que eles entenderem.

Sim, portanto não é por aí que vê um problema na candidatura de Henrique Gouveia e Melo às presidenciais, que é disto que queríamos falar agora.

Não, o problema não é esse. O problema é quem o segue e quem o aconselha. E esta deriva que ele está a fazer para a esquerda, eu acho que ele está a ser mal aconselhado.

Mas André Ventura chegou a ponderar apoiar Gouveia e Melo. Disse isso. Se André Ventura não estivesse nesta corrida presidencial, votaria Bruno Mascarenhas em Gouveia e Melo?

Não, não votaria em Gouveia e Melo. Sinceramente, não votaria. Não me parece que seja pelo discurso errático que tem tido, pela deriva que ele está a fazer exatamente para a esquerda, pelas calinadas que entretanto já foi dizendo relativamente à questão dos portugueses, quer dizer, que não faz distinção entre portugueses e estrangeiros. Um presidente da República tem que ser aquela pessoa que naturalmente defende em primeiro lugar, intransigentemente, os portugueses. E daí que eu não estou nada de acordo com isso.

Gouveia e Melo é o candidato, neste momento, que disputa mais eleitorado com André Ventura, o mesmo eleitorado, digamos.

Não. Gouveia e Melo percebeu que não conseguia ir buscar eleitorado ao espaço da direita.

Espaço da direita ou espaço de anti-sistema, talvez?

Não, espaço da direita. Não me parece que quem seja convictamente conservador, que tenha aquela trilogia Deus, pátria, família, se reveja em Gouveia e Melo. E eu acho que ele precisamente está a ser, eu diria, até aconselhado por quem já puxou o PSD para o centro-esquerda. Eu estou convencido que o objetivo agora é tentar conquistar o eleitorado do centro para ter o ticket para a segunda volta e a partir daí, disputar com André Ventura a vitória na segunda volta.

Então quem é o principal concorrente de André Ventura na primeira volta das presidenciais? Onde é que acha que o eleitorado está a ser mais disputado?

Eu diria que a esquerda está muito fracionada. E eu até consideraria que António José Seguro pudesse ser agregador em termos daquilo que é a esquerda, porque me parece uma pessoa moderada, me parece uma pessoa que não está preso tanto ao sistema, até porque ainda vimos esta última entrevista de Marta Temido, que é uma costista ferranha, dizer que não vota nele. Mesmo dentro do PS, ainda há quem tenha bastante resistência a António José Seguro. E eu diria que Gouveia e Melo pode, neste momento, como dizem as sondagens, é o principal candidato. Marques Mendes tem o apoio oficial do PSD e é preciso não pôr isso em causa, apesar de também não ser o meu candidato, mas há que ter isso em consideração. Estão três de um lado e André Ventura do outro.

Muito bem, vamos avançar para a quinta e última pergunta, e essa também tem a ver com o sistema. Em que ano Bruno de Carvalho foi eleito presidente do Sporting Clube de Portugal?

Em 2013, no dia 23 de março de 2013.

Os cinco pontos são dados.

O Bruno Mascarenhas foi vogal na direção de Bruno de Carvalho. Mais tarde demitiu-se, já em 2018. Bruno de Carvalho chegou ao futebol com vontade de derrubar o sistema. O que é que falhou?

Não, ele derrubou o sistema. E nós vemos hoje os clubes, o Porto ainda durou algum tempo, mas tem um novo presidente com novas ideias e com uma noção de gestão diferente da anterior, assente mais no mérito desportivo, e é isso que está aqui em causa, é apostarmos no mérito desportivo. O próprio presidente Frederico Varandas, que esteve conosco aqueles anos todos, embebeu essas ideias e hoje, apesar das críticas que lhe fazem, tem uma nova noção do desporto baseado no mérito, também em capacidade de gestão. Eu não fui um apoiante inicial dele e hoje em dia tenho que reconhecer-lhe o mérito. E mesmo no Benfica, também a queda do vieirismo acaba por ser positivo, no meu entender, para o próprio clube.

Mas Bruno de Carvalho derrubou o sistema e também caiu. Pode haver aqui alguma lição para a política?

Não acho que haja uma lição para a política na forma como a quer colocar.

Se há parecenças, se há semelhanças entre o Chega e o seu líder e Bruno de Carvalho.

Não, o que acontece é que nós muitas vezes a função, e é isto que é um exemplo para nós todos e para mim próprio, e falo por mim, é nada nos pode deslumbrar. Temos que ter os pés na Terra, porque hoje estamos no local, numa determinada função, e no dia seguinte podemos não estar. E isso não nos pode fazer achar que somos mais do que somos. Fizemos o nosso caminho, fizemos o nosso trabalho.

Então está aí uma lição.

Está aqui uma lição: não nos deixarmos deslumbrar pela função.

Bruno Mascarenhas, sai daqui com 19 pontos e sem dores musculares.

Sem dores musculares.

Provocadas por nós, não.

Obrigada por ter aceitado o desafio.

Muito obrigado.

Foi um gosto. Obrigada, um bom dia.

Obrigado.