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Esta é a comissão de inquérito das manhãs 360. Hoje, a nossa convidada Mara Lagriminha, jurista e antiga deputada do PS. Bom dia, bem-vinda.

Olá, bom dia.

Obrigada por ter aceitado o nosso convite.

Muito obrigada a vocês pelo convite que me endereçaram. Espero não se arrependerem imediatamente a seguir.

Nós ou a Mara?

Eu certamente. Eu certamente que sim.

São cinco perguntas. Cada resposta certa vale cinco pontos. Se pedir a nossa ajuda e acertar, são dois pontos. Não queremos causar nenhum tipo de pressão. Ontem a Lídia Pereira fez os 25.

Eu vi. Eu vi não, eu ouvi.

Ouviu.

Eu acompanho o vosso programa.

É, então sabe ao que vem. Vamos a isto, Mara?

Sim.

Vamos lá. Vamos ao cinema e à cultura pop ligada ao direito. Foi em 97, estreou um filme de Hollywood famosíssimo, em que um jovem e brilhante advogado, interpretado por Keanu Reeves, é contratado por uma firma de elite em Nova York e descobre mais tarde que o carismático chefe, interpretado por Al Pacino, é literalmente o diabo em pessoa. Como é que se chamava este filme?

Eu vou arriscar.

Keanu Reeves e Al Pacino.

E Al Pacino. Eu acho que foi "O Advogado do Diabo". Eu era jovem, mas eu sou fã do Keanu Reeves.

Exatamente. Um verdadeiro inferno, é o que diz grande parte daqueles que precisam da ajuda dos tribunais.

Sim, cada vez mais.

A reforma da justiça falhou nos governos do PS. O atual bloqueio do sistema deve-se à falta de coragem política de todos os partidos?

Em relação a essa matéria, eu arriscaria dizer que sim. Eu sempre defendi que em questões como a justiça, saúde e se calhar agora até a habitação, exigem haver um pacto de regime. Na altura, o Rui Rio defendia que deveria haver esse entendimento. Eu sinceramente acho que o Partido Socialista deveria ter feito esse entendimento, numa perspectiva de que é uma matéria que afeta os cidadãos. O acesso à justiça tem a ver também com a qualidade da nossa democracia e se há matérias que exigem um pacto de regime, na minha perspectiva, a justiça deve ser uma delas, naquilo que é também aqueles que foram os partidos construtores da nossa democracia. E se há matérias em que o PSD e o Partido Socialista devem, de alguma forma, debater, dialogar e chegar a uma proposta consensual, na minha perspectiva, deve ser a justiça, que carece efetivamente de uma reforma. Basta ver os processos mais midiáticos ou até aqueles do dia a dia dos cidadãos, que são menos falados, menos divulgados, mas que têm dificuldades, quer no acesso, quer nas custas, quer na forma como nos relacionamos com as instituições e eu diria que sim. Não tenho nenhum problema em assumi-lo.

Falou aí da proposta do Rui Rio, o PS perdeu uma oportunidade e agora já não dá.

Eu não sei se já não dá. Eu acho que há matérias que podem demorar o seu tempo a serem discutidas, debatidas e que por vezes tem que se deixar de lado as nossas divergências, que neste momento são muitas. Até porque estamos a falar atualmente de uma possibilidade de abertura de um processo de revisão constitucional, e onde o Partido Socialista está nos antípodas daquilo que é proposto por este governo, com o apoio do Chega. Mas eu diria que, pese embora essa situação, nas questões mais prementes, combate à corrupção, entre outras matérias, faz sentido haver esse diálogo.

E afasta a possibilidade desse diálogo se alargar também em matéria de justiça ao Chega?

Na minha perspectiva, sim. Em matéria de justiça, não vejo nenhuma convergência atual do Partido Socialista com o Chega, obviamente. Do governo já não podemos dizer o mesmo, até por aquilo que diariamente vamos ouvindo na comunicação social.

Muito bem. Mara Lagriminha, cinco pontos.

Começou muito bem. É manter os cinco.

Já não é zero, já não é negativo.

E agora também vai fazer os cinco pontos. No ano passado foi feito o ensaio à digitalização dos exames numa única disciplina. Que disciplina foi essa?

Filosofia.

Certíssimo. Já passou nesta pergunta.

Eu sempre fui fascinada por filosofia, portanto, é natural. Sempre gostei.

E pelo ministro da Educação também é fascinada ou acha que chumbou nos exames?

Eu acho que ele chumbou nos exames. Aliás, ele foi cabeça de lista pelo distrito de Santarém. Nós neste momento sentimo-nos um bocadinho envergonhados. Mas a questão dos exames é uma questão complexa. Eu acho que a forma como tem vindo a ser debatida e encarada até pelo próprio ministro não tem sido séria. Nós começamos por vê-lo numa audição a dizer que se não cumprisse o prazo dos exames, iria assumir responsabilidades. A verdade é que só recentemente veio pedir desculpas, que deveria ser a coisa mais básica a fazer depois da forma como bloqueou também a vida dos pais e destes jovens. Todos os dias estamos a ouvir factos novos que nos arrastam para o caos que a questão dos exames tem vindo a ter. Ouvimos situações em que podem haver provas perdidas, desculpas como QR code ou os agrafos dos agrupamentos de escolas que agrafaram mal. Entre aquilo que nada tinha a ver com a plataforma no início e depois, entretanto, já passou da plataforma para as questões da transição digital. Isto não teve nada a ver com transição digital, isto teve a ver com mau planeamento, má organização, numa área que tem a ver com o futuro dos nossos jovens e as responsabilidades, na minha perspectiva, devem ser assumidas.

E é uma situação suficientemente grave para conduzir à demissão do ministro?

Eu não sou radical na forma como facilmente hoje em Portugal se pede a cabeça dos ministros ou a demissão dos ministros. Mas nesta matéria, a forma como o ministro encarou com alguma leviandade inicial a forma como estavam a conduzir o processo dos exames nacionais, as explicações que ao longo do tempo, contraditórias entre si, que veio a dar, até chegarmos ao estado atual, em que temos professores completamente exacerrados por trabalho, a terem corrigido disciplinas, temos ouvido esses relatos, que muitas delas nem sequer são da sua disciplina que lecionam. E, portanto, o caos como este tem que ter alguma responsabilidade e se for a demissão do ministro, não tenho nada a opor, mas não sou, volto a dizer, não gosto de ser radical na forma como-

Nos pedidos de demissão.

Nos pedidos de demissão, sim.

Muito bem.

Muito bem. Muito bem para a Mara, porque está aqui a seguirem muito bem. E a próxima pergunta tem a ver com os conhecimentos que tem sobre a história do seu partido, o Partido Socialista, mas escolhemos uma fácil também. Quem substituiu António Guterres na liderança do PS?

Deixe-me aqui sincronizar um bocadinho.

Vamos até ao final do século XX.

A seguir a António Guterres, se eu não estou em erro, Ferro Rodrigues.

Muito bem, fez bem. Não errou. É normal que já ouçamos tantos socialistas a pensar na sucessão do José Luís Carneiro?

Isto é mais difícil.

Eu não sei se é normal ou não. Os partidos como o Partido Socialista são partidos livres, plurais, com muitas correntes dentro daquilo que é o Partido Socialista.

Há muitos "ismo", "istas".

Exatamente. Mas neste momento, o que eu sinto é que o Partido Socialista está focado em voltar a obter a confiança dos portugueses. O atual secretário-geral tem feito esse esforço de focar os assuntos naquilo que diz respeito à vida dos portugueses, como temos nos focado muito naquilo que é o custo de vida, os assuntos que têm a ver com a realidade da vida das pessoas, a habitação, o emprego, os direitos laborais, voltar a reposicionar o partido naquilo que tem efetivamente a ver com a realidade diária das preocupações diárias dos portugueses. E, portanto, eu acho que em primeiro lugar, nós temos que nos focar em recuperar a confiança dos portugueses para podermos voltar a ser uma alternativa e, portanto, não está em causa, neste momento, qualquer tipo de desafio à liderança.

Então é um dispêndio de energia, alguma discussão que está a ser feita?

Eu acho que é um bocadinho a bolha, não é, mediática, que faz parte.

Que alimenta.

Que alimenta. Acho que o Partido Socialista está unido à volta do seu secretário-geral, mas sobretudo unido à volta da ideia de que temos que recuperar a confiança dos portugueses. Eu acho que isso é o essencial.

E isso deve passar por viabilizar o próximo orçamento de Estado.

Eu acho que é prematuro estarmos a retirar conclusões ou a fazer algum tipo de palpite. Depende de muitas circunstâncias.

Das sondagens também?

Não. Eu não sou nada pró naquilo que tem a ver ação política com sondagens, até porque nós já percebemos ao longo dos últimos anos e das últimas eleições que as sondagens obviamente refletem o momento e esse momento não quer dizer que daqui a dois dias seja igual. Sondagens servem para medir parâmetros, mas não para daí retirar eleições eleitorais e, portanto, eu acho que as sondagens são importantes, sim, mas não devem guiar aquilo que é a orientação de um partido político e muito menos do Partido Socialista. E portanto, não, sondagens não é por aí. Acho que se deve de avaliar o documento que vai ser proposto, que impacto é que tem na vida das pessoas, se efetivamente há ou não um esforço do governo para dialogar com o Partido Socialista, porque o que nós temos visto até agora é que não tem havido esse esforço de diálogo com o Partido Socialista. Tem havido um esforço de diálogo com o partido que na campanha eleitoral Montenegro dizia que não é não e que nunca faria qualquer tipo de acordo, seja parlamentar, seja de governação. E recentemente o que temos visto é o contrário. Aliás, eu ouvi declarações do senhor primeiro-ministro recentemente a dizer que temos que desdramatizar essa ideia que ele próprio disse que não faria. E, portanto, eu acho que depende exatamente disso. Mas eu não estou no Parlamento, portanto o meu voto não conta.

Nem põe a hipótese de uma abstenção violenta?

A abstenção violenta é uma frase que, se me perguntassem, eu diria que foi uma frase que eu não gostei nada na altura, também por um ex-secretário-geral do PS, atual nosso presidente da República. Eu acho que não há abstenções violentas, nem menos violentas. Acho que uma abstenção é uma abstenção. Independentemente dessa circunstância, eu acho que tem que ser lido ao momento, de acordo com o documento que nos é apresentado. Acho que seria irresponsável estar a dizer que o PS deve estar contra ou a favor, sem conhecer aquilo que é o documento.

Muito bem. E já que falou no atual presidente da República.

Só por isso.

Oh, meu Deus!

Penamacor é uma vila de que distrito?

Eu sou tão má em geografia, sempre fui. Então deixem-me lá sintonizar outra vez.

Vamos lá.

Ir no meu mapa. Então, Penamacor. Castelo Branco?

Espetacular, essas antenas funcionam que é uma maravilha. Mas diga-me onde é que eu sou GPS. Onde é que comprei o GPS?

Eu sempre fui muito má em orais, portanto não sei. Sempre me deram problema.

Está muito bem, está com 20 pontos.

Já passei, não é? Pronto, já me posso desleixar.

Dá-me ideia que esta semana vai ser gloriosa aqui na emissão do "Q". Já me posso desleixar um pouquinho. Já não passo vergonha.

António José Seguro é natural de Penamacor. Que balanço faz da presidência de Seguro? É possível fazer já um balanço ou ainda estamos naquela fase das primeiras impressões?

Eu diria que, em primeiro lugar, o facto de António José Seguro ter sido eleito Presidente da República com a votação que teve já é de salientar e de saudar, o que mostra que o povo português também está atento àquilo que são os candidatos que são apresentados.

Votou convictamente em António José Seguro ou ainda estava a pensar na abstenção violenta?

É como lhe digo, eu não gosto muito de abstenções violentas. Não, votei convictamente, quer na primeira, quer na segunda volta, em António José Seguro, porque efetivamente acho que o país precisava ter um presidente da República com as características de António José Seguro, nesta altura da vida do país. O balanço que faço é positivo. Aliás, nós já tivemos um primeiro exemplo, um veto do presidente António José Seguro, e que já demonstrou que está atento àquilo que se passa e, portanto, o balanço que faço até ao momento é positivo. É um presidente que vai dar uma outra índole àquilo que é a instituição Presidência da República, mais institucionalista.

Isso em comparação com Seguro.

Com o anterior presidente. Isso não significa ser menos próximo das pessoas, pelo contrário, acho que também será um presidente que também pela origem que tem e do local de onde vem, terá um grande foco também no interior e na coesão territorial, e isso também é aproximar das pessoas.

E o pacto para a saúde também era.

E o pacto para a saúde.

Acha que isso não é uma competência do governo?

Nós já tivemos alguns presidentes da República que fizeram, não lhe quero chamar jornadas, mas debates temáticos. E ter um presidente da República que tem uma consciência daquilo que é as necessidades do país não é interferir, na minha perspetiva, naquilo que são as competências do governo, é ter um alerta. É um pouquinho aquilo que nós chamamos magistratura de influência, e saber usá-la também é uma arte. E portanto, eu acho que sim, acho que deve usar essa magistratura de influência naquilo que realmente é importante, e o pacto para a saúde é uma delas. Ele também não teve problemas em dizer que num pacote laboral, se fosse aprovado nos termos em que estava, também retiraria daí as suas ilações. E portanto, ter um presidente da República que usa de facto o instrumento da magistratura de influência para o bem das pessoas, parece-me bem.

Muito bem. O que está a correr muito bem é isto. Está a uma pergunta de fazer o pleno.

Oh, meu Deus. Agora estou-me a sentir pressionada.

Mas esta vou pressionar, é obrigada a sabê-la.

Será?

A Mara Lagriminha nasceu em Coruche.

Ui!

De certeza que sabe. Mas de certeza que sabe Coruche.

Acho que esta não sei.

Já deve ter ali na agenda quem são os cabeças de cartaz da Festa da Senhora do Castelo deste ano.

Está a ver? Vou passar muito mal.

Não vai nada.

Na minha própria terra.

Ainda não consultou o cartaz.

Eu ainda não consultei, é um facto. Nem sabia que já estavam conhecidos e, portanto, estão a dar-me aqui uma novidade em primeira mão.

14 a 18 de agosto.

14 a 18 de agosto, mas ainda não.

Começa daqui a um mês, precisamente.

E, portanto, vou precisar da ajuda.

Não quer arriscar?

Não sei, deixe-me pensar.

Quem é que gostava?

Quem é que eu gostava?

Os cabeças de cartaz.

Os cabeças de cartaz, não faço ideia. Sus.

Então vamos à ajuda. Serão os Chutos e Pontapés, o GNR ou os Delfins?

Ai, meu Deus!

Quem é que gostava? Se não sabe, diga assim.

Quem é que eu gostava?

São os repetentes.

São os repetentes?

São.

Diga lá novamente, por favor. Chutos e Pontapés, Delfins.

E GNR.

E GNR. É assim, quem eu gostava, na verdade, eu sou muito fã de GNR. Mas acho que vai ser os Chutos e Pontapés.

Ainda por cima tem intuição. Serão de facto os Chutos e Pontapés. Isto para dizer que tem experiência em política local, também já esteve no Parlamento. Isto são dois amores, tem alguma preferência?

Eu costumo dizer, e já mesmo na Assembleia Municipal onde faço parte desde 2005, eu sempre tive um amor muito especial pela política local e nunca deixei de estar na Assembleia Municipal, mesmo quando estava no Parlamento, e hoje continuo ainda na Assembleia Municipal. Porque a política autárquica tem uma característica que a mim sempre me deslumbrou, que é poder, de facto, de uma forma mais rápida e eficaz, poder intervir.

Resolver problemas.

Resolver problemas. E isso faz muita diferença. E, portanto, sim.

Mas a política é um bichinho.

Isso foi sempre.

É porque da forma como estava a falar no seu, sobre a ideia de este ano não votar o orçamento, por exemplo, a proposta do orçamento. É um bichinho que fica ali, é um mundo em que depois é difícil sair.

Nós temos que encarar as funções públicas, e eu sempre as encarei assim, com essa abnegação também, mas não estar a exercer um cargo da dimensão de estar na Assembleia da República não significa deixar de ter atividade política. Essa parte ficará sempre, e continuo a fazê-lo. Agora não terei as funções, mas sim, a política pra mim foi sempre uma forma de poder ter uma ação direta sobre aquilo que eu acho ou achava que podia ajudar a modificar. E sempre numa atitude cidadã também, porque fazer política também é um ato de cidadania em primeiro lugar. Algumas vezes corre mal, porque a política como qualquer outra atividade é feita por pessoas, e portanto, algumas vezes-

E a política local também tem a vantagem da proximidade, mas também vemos muitas vezes muitas quezílias pessoais.

Até mais, sim. Sobretudo quando toda a gente se conhece, e eu sou de um concelho que não chega a 20 mil habitantes, e portanto, toda a gente se conhece. Os atores locais que estão na atividade política estão lá há muitos anos e, portanto, toda a gente se conhece, também tem essas quezílias, mas também é fácil gerar entendimentos, porque no fim do dia, lá está, é um pouco a lógica do nosso concelho e de poder fazer melhor pelo nosso concelho e gerar esses entendimentos. Agora, até porque, por exemplo, no caso de Coruche, não há maiorias absolutas, portanto, deixou de haver nas últimas eleições. Um pouco por todo o país foi assim, deixou de haver maiorias absolutas. E, portanto, também é um ato de aprendizagem local nos vários concelhos aprender a fazer esse diálogo e esse consenso.

A fazer política dessa forma.

E eu gosto de consensos também.

Mara Lagriminha, isto correu muito bem, 22 pontos.

Espero sim, já não saio daqui envergonhada.

Como assim 22? Foi ótimo.

Fiquei na última, obrigada eu.

Obrigada por ter aceitado o nosso convite. Um bom dia. Obrigada.

Obrigada.