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Começa agora mais uma Comissão de Inquérito das manhãs 360. Hoje é nosso convidado Duarte Marques, o diretor de campanha de Luís Marques Mendes. Bom dia, bem-vindo.

Olá, bom dia.

É a sua 14ª Comissão de Inquérito. Como esta não há nenhuma.

Agora no lugar do réu, é a primeira.

É a primeira. Sabe como funciona: cinco perguntas, cada resposta certa vale cinco pontos, se pedir a nossa ajuda e acertar, recebe dois.

Não posso usar o telefone, certo?

Não pode usar. A ajuda somos nós.

De nenhuma maneira. Nem ligar pra casa.

Nem consultar o telemóvel.

Já houve inquiridos a usar tecnologia.

Sim, era um da casa. Duarte Mendes, vamos ver se conhece bem o seu candidato. Duarte.

É uma mistura, uma boa mistura.

É Marques Mendes. Duarte Marques, vamos ver se conhece bem o seu candidato. Qual é o signo de Luís Marques Mendes? Quando é que faz anos?

Fez anos no meio da campanha, no dia 25. Estávamos em Loures.

No meio da campanha?

Da pré-campanha, talvez.

Quando é que lhe deu os parabéns, não se lembra que roupa é que tinha vestido? Tinha uma T-shirt ou tinha uma camisola graça?

Telefone. E nesse dia tivemos que adiar um evento que tínhamos, porque houve alguma coisa nesse dia que impediu que se realizasse o que estava previsto. E acabou por se fazer até no dia seguinte e teve a surpresa, fomos uma IPS e um selinho em Loures. Não, cantaram-lhe os parabéns e deram-lhe um bolo de surpresa que era gigante.

Isso foi quando?

Isso foi numa sexta-feira.

Faz anos numa sexta-feira.

Um ponto.

Mas foi agora, foi em novembro, outubro.

Talvez seja um cadinho antes.

Setembro?

Setembro, é capaz. Se foi em setembro, que signo é?

Não faço ideia. Eu só sei o meu.

O senhor é Touro.

Eu sou Touro. Dia da Europa.

Então vamos lá. Touro, Leão ou Virgem?

Deve ser Leão. É Virgem. Touro não é de certeza.

Mas tem razão, foi mesmo numa sexta-feira.

Foi 5 de setembro.

A minha memória é muito fraca em algumas coisas. Eu sempre tive um pânico de comissões de inquérito, sempre disse: "Se algum dia me sento ali, estou lixado, porque eu não tenho memória de nada".

Não seria o primeiro.

Não, mas eu sou sincero. Uma coisa é por tática, como nós assistimos muitas vezes, mas eu sou muito mau com números. Eu pra pensar qual é o ano que entrei pra faculdade, tenho que fazer contas.

Pronto, é que era só mesmo o dia.

Quando é que fui pra Bruxelas, quando é que voltei.

Eu não sei se o horóscopo dizia que o resultado ia ser o que vimos no domingo, mas o que correu mal a Marques Mendes?

Eu acho que o que correu mal foi que as pessoas preferiram outros candidatos, no fundo. O povo tem sempre razão. E nós temos que ter a humildade de reconhecer os resultados. Marques Mendes era pra mim, eu acho que pra muitos portugueses, seria um grande presidente da República. Houve alguém que disse, eu acho que foi o Martin, no Expresso, na SIC.

Martin Silva.

Martin Silva, que disse no final dos primeiros debates: "Não há dúvidas que o melhor presidente, o mais preparado, é Luís Marques Mendes. Resta saber se será o melhor candidato". E foi o que aconteceu. Uma direita muito dividida. Marques Mendes começou muito cedo a campanha, obviamente. Nós não sabíamos que íamos ter as legislativas.

Mas também pra ocupar aquele espaço de Gouveia e Melo, de alguma maneira.

Não sei se de Gouveia e Melo, mas ele levou de uma altura que estava muito incomodado com o fato de ser comentador e poder continuar e ser candidato. Ele quis resolver esse assunto, porque não era sério da parte dele estar a comentar quando já tinha a convicção que ia ser candidato. Quis arrumar esse assunto rapidamente. A partir disso tinha que se apresentar, não podia ficar em casa. A principal razão da minha ideia da decisão mais cedo foi essa, por uma questão de transparência e de honestidade com quem está a ver. Nós não podemos estar num dia a entrevistar pessoas e no dia a seguir apresentar o nosso apoio. Não faz muito sentido. Mas depois houve outros candidatos que surgiram, que foram agradáveis pras pessoas. Eu acho que Gouveia e Melo foi ali um bocadinho também um kamikaze. Ele é da Marinha, mas foi um kamikaze quase da Força Aérea.

Já vamos falar da questão de Gouveia e Melo, mas deixe-me perguntar, no caso de Marques Mendes, não conseguiu convencer nem o eleitorado da AD?

Nós apostamos, e foi a estratégia desde o início, era não vamos fazer uma campanha, nem apresentar um candidato que não é aquilo que as pessoas conhecem. E a grande mais-valia que ele tinha pra dar era a experiência. E alguém poderia dizer: "Muito bem, mas isso as pessoas estão fartas e querem mudança". Tá bem, mas o que ele tem pra dar é isto. Se querem um candidato com estas características, é isso que nós vamos dar às pessoas. Se querá jogar um bocadinho contra ele, o facto de as pessoas estarem a querer mudança, também a fragmentação que houve à direita. Nós quando vemos pessoas como Rui Rio e Isaltino Morais na mesma mesa, houve ali uma espécie de vingança pessoal contra Marques Mendes e isso dividiu e, sobretudo, desfocou o partido, de alguma forma, e o nosso eleitorado. Houve muita gente também que se juntou a determinadas candidaturas pra fazer pirraça. E depois houve uma campanha, eu diria que nós se calhar fomos um bocado naïfs na campanha do ponto de vista da contrainformação e tudo isso. Eu nunca vi uma campanha com tanta desinformação. E depois tivemos da parte de Cotrim Figueiredo também um conjunto de insinuações e de campanhas nas redes sociais feitas com agentes de AI, com fakes, com coisas que eu nunca tinha visto. Nós não preparámos, eu sei perfeitamente.

Se o Duarte Marques pudesse retirar a campanha, mudava muita coisa?

Não mudava nada disto, porque eu acho que não ia fazer desinformação como os outros fizeram contra nós. Marques Mendes não quis nada disso. Nós não contratamos pessoas pra andar a pesquisar outras pessoas.

Mas aconselhou Marques Mendes a responder da mesma moeda a Gouveia e Melo, por exemplo. Houve ali um momento de um tom muito alto entre os dois. Aconselhou a fazer isso?

Não, o doutor Marques Mendes é o candidato mais experiente em campanha eleitoral, apesar de não ser uma pessoa que tenha muitas campanhas eleitorais feitas, nem muitos debates feitos. Eu acho que ele é um profissional Da política a sério. Ele preparava tudo com uma antecedência que vocês nem imaginam, o nível de detalhe. E contra aquele tipo de atoarda não há muito a fazer. O que se faz? Dá-se-lhe um murro? Não se pode.

O senhor optou por não comentar.

Explicar, mas não dava. Vocês próprios foram atrás daqueles temas todos. Por mais que ele explicasse, ele explicou mais do que alguma vez alguém explicou e mesmo assim nunca ninguém estava satisfeito. E as pessoas encurralaram-no naqueles temas da transparência, e que ele foi transparente, o que ele fazia e não fazia. E isso marcou muito a campanha eleitoral e durante uns tempos só se falou disso.

Mas não devia estar preparado, um candidato com a experiência política de Marques Mendes, estar preparado para essas questões sobre a sua vida profissional.

Claro que estava e respondeu. Só que as pessoas podem querer ouvir as respostas e ficar satisfeitas ou não. Reparem os debates com o André Ventura. Quando ele começa a mandar lama para cima de alguém, não há muita forma, num espaço de 20 minutos, de responder àquilo. Se virem o debate André Ventura e Marques Mendes, até 70% do debate foi 20 a zero. Marques Mendes respondeu-lhe bem, gozou com ele, deu-lhe na cara à sério, sempre com argumentos válidos, surpreendeu e com o Cotrim foi igual. Nos últimos 10 minutos do debate, foi o André Ventura a descarregar para cima dele coisas que não davam para explicar. Não dá, mas o que é que ele faz? Levanta-se e dá-lhe um murro? Não pode. Ignora? Ignora, dá ideia que não quer responder.

E com o Almirante foi parecido.

Com o Almirante foi, em vez de ser 10 minutos disto, foi o debate todo. O Almirante foi usado, de alguma forma, por algumas pessoas para denegrir Marques Mendes. Depois seguiu uma lógica de debate, que depois vê-se de onde é que vem. Nós vemos os dossiês todos que circularam, eu disse aqui várias vezes, todos tinham a mesma origem. Cotrim Figueiredo tirou partido disso, eu acho que não esteve na origem disso, atenção. Nós sabemos qual é a origem de tudo isso. E a maior parte das coisas eram manipuladas, eram contratos falsificados. Alguns eram verdadeiros, mas havia muita informação que circulou que era aldrabice pura.

Mas sabe a origem e vai revelar?

Não vou revelar, não preciso, já chega. Eu voltei à política durante uns meses, apesar de ter continuado sempre a trabalhar e vou voltar a trabalhar no privado novamente. Este período para mim foi uma interrupção por amizade pessoal e também política, porque achava que dos candidatos todos. O Vale Rei que dizia aqui há uns tempos: "Eu vou apoiar o Marques Mendes porque sou amigo dele, mas depois de o ter ouvido a falar hoje aqui num jantar com pessoas, eu percebi que tem que ser ele a ganhar, porque ele é de longe o mais preparado para esta função." E era o mais preparado para esta função. Eu acho que foi atropelado pelos acontecimentos, mas não tenho dúvidas que pela pessoa que é, pela experiência que tem, pela simpatia e pela abertura que tem para toda a gente, do político e pessoal também, era um candidato que daria um presidente perfeito para o país. Eu acho até que é um bocadinho prejudicado por aquela comparação com a imagem de Marcelo Rebelo de Sousa, que são muito parecidos, embora quem o conheça no papel de presidente sabe que não é nada disso, é muito diferente. Eu hoje já posso dizer isto, eu acho que ele se fosse presidente nalguns pontos, seria muito mais parecido com o Jorge Sampaio. Eu fiz alguma preparação para esta campanha e li as memórias de Sampaio e reconheço muito do que ele diz hoje, eram atitudes que Sampaio tinha como presidente, de reunir as pessoas, de chamar, de sentar, de fazer tudo antes de ser público, porque ele achava muitas vezes que depois das coisas serem públicas, não temos a mesma liberdade para decidir.

Já que fala em campanhas antigas, vamos avançar para mais uma pergunta para cinco pontos.

A primeira.

Vamos às primeiras presidenciais que elegeram Cavaco Silva. Não as primeiras que perdeu.

Das primeiras que ele perdeu, até me lembro da música, se quiserem. É um, dois, entra na onda, Cavaco presidente.

Cantar pode ser. Como é que era?

Um, dois, entra na onda, Cavaco presidente. Um, dois, entra na onda. Era muito gira a música, não lembro de mais nada.

Em 2006 não houve essa música. Cavaco foi eleito. Em que lugar ficou o segundo candidato? Ou quem era o segundo candidato nessas eleições que Cavaco Silva venceu?

Quem foi o segundo?

Quem ficou em segundo?

A história é mesmo só dos vencedores, não é?

Não, eu andei na campanha.

Foi numa altura em que a esquerda estava muito dividida nessa altura.

Não, na primeira.

Em 2006.

2006 é de Manuel Alegre com Maria de Belém?

É com Manuel Alegre.

E Maria de Belém. Ó Soares.

Soares.

Quem ficou em segundo?

Eu acho que foi Manuel Alegre.

Pois foi. Muito bem. Teve mais de 20% Manuel Alegre, Maria Soares teve 14. Marques Mendes não devia ter endossado já o voto a alguém para a segunda volta?

É óbvio o que é que Marques Mendes vai votar. Eu acho que é óbvio, até pela sua postura, por tudo aquilo que ele disse na campanha eleitoral, não tenho dúvidas do que irá dizer. Eu acho que não o disse na noite eleitoral, porque se o dissesse, estaria a dizer que os meus votantes devem votar ali. E ele não é dono dos votos de ninguém, e isso poderia ser, de alguma forma, até mal interpretado. Eu acho que ele quis reservar para um momento mais tarde, revelar, se quiser revelar, onde é que vai votar.

Acha que vai aparecer ainda?

Eu diria que sim, e não tenho dúvidas nenhumas onde é que ele vai votar. Acho que os candidatos também não têm dúvida onde é que ele vai votar e vai ser coerente, imagino eu.

Só para verbalizar em seguro.

Não, não vou verbalizar nada. O Paulo pode fazer isso, claro. Eu diria assim, o Paulo vai ficar surpreendido se ele votar no Ventura, porque vai ficar desiludido. Mas também acho que há aqui uma espécie de polícia do voto, que é hoje nas redes sociais, toda a gente querer forçar, e depois não ajudam nada. Vejo muita gente de esquerda a querer forçar os apoios. Tenham calma, as pessoas não são tontas, mas há uma polícia do voto em Portugal, querem sempre saber: "Votas em quem? No Bolsonaro ou no Lula?" É tudo preto e branco, mas não é.

Eduardo Marques, então se calhar conseguimos todos perceber em quem vai votar Marques Mendes. E conseguimos perceber o mesmo do primeiro-ministro, do Luís Montenegro.

Também não tenho dúvidas sobre isso, mas isso é uma questão muito do próprio. Agora, lembre-se, Luís Marques Mendes terá a sua posição, Luís Montenegro terá a sua. Agora, não tenho dúvidas. Para mim, o mais importante para o Luís Montenegro não é quem ele vai votar, é ter estabilidade E se a opção dele de ficar em silêncio é boa para a estabilidade do país, deveríamos todos agradecer isso, porque se ele fizesse o que todos estamos à espera ou todos queríamos, teríamos eleições daqui a seis meses. Isso era mau para o Montenegro, era mau para o PSD, mas sobretudo era mau para o país. Portanto, às vezes precipitamo-nos com a nossa vontade e com a paixão que temos nas coisas, mas o mais importante é dar um passo atrás e pensar o que é que garante maior estabilidade. Não é a sobrevivência do governo. Os portugueses estão fartos de eleições, não tenho dúvidas nenhuma sobre isso. Portanto, eu diria que aquela que será ou que foi a posição de Luís Montenegro, foi com certeza aquela que foi mais importante para garantir estabilidade nos próximos tempos. Até porque nós temos provas cabais da personalidade dos dois candidatos. E não nos podemos esquecer, António José Seguro, no período mais difícil da troika, contra o Partido Socialista, contra todos aqueles que tiveram papéis ativos na bancarrota do país, tomou uma posição muito difícil, que foi viabilizar um orçamento de Estado. Vocês já não se lembram, mas quem escolheu o presidente da CReSAP na altura, Passos Coelho, pediu a António José Seguro que escolhesse ele. "Olhe, você é que escolhe, que é para não haver aqui margem para dúvida." Ele escolheu. Já não se lembram o professor Vinho, que foi uma pessoa popular.

E o acordo que fizeram para a descida do IRC, por exemplo.

Sim, por exemplo, que assim que António Costa tomou posse, acabou logo com aquilo. O IRC ia cair, apesar da troika, e o Partido Socialista virou aquilo ao contrário. Portanto, não devem confundir o Partido Socialista.

Portanto, António José Seguro não assusta o PSD. Duarte Marques já sabe o que é que vai fazer no dia 8 de fevereiro?

Eu já tenho a certeza do que vou fazer no dia 8 de fevereiro e direi em breve. Não quer dizer já hoje, por razões pessoais, mas direi, claro que sim.

Também fica mais ou menos óbvio.

Depois do que disse.

Os votos à partida parecem deixaram de ser secretos, mas qualquer pessoa de bom senso toma essa posição.

Duarte Marques, vamos passar à terceira pergunta: qual a terceira patente ativa mais alta na Marinha? Ou seja, alguém que chega ao topo da hierarquia é-

Comodoro? Não.

O mais elevado.

Não, o mais elevado é o almirante.

E abaixo do almirante?

O vice-almirante.

E abaixo?

Contra-almirante.

Que domínio!

Muito bem.

Até vos explico que almirantes não há muitos. Almirante só pode ser o que for chefe do Estado-Maior da Marinha ou das Forças Armadas. Todos os outros são tratados por almirantes, não são almirantes, só se já o tivessem sido.

Muito bem. Estamos impressionadíssimos.

Isto só passa a 10 pontos.

Tinha um almirante que gostava muito, já faleceu, que era o almirante Reis Gorrinhos, que era um daqueles almirantes que entrava nos navios e navegava, não era um almirante de papel, nem nada disso. Eu fiz muitos anos um seminário da NATO que organizávamos cá em Portugal.

Então não devia ter feito esta pergunta, eu estou a ver que era muito fácil.

E foram para aí 15 anos seguidos lá feito na Escola Naval.

Mas com esse conhecimento todo da Marinha, acha que a campanha de Marques Mendes começou a correr mal a partir do debate com o Gouveia e Melo?

Eu acho que começou a correr mal com as primeiras insinuações cobardes por parte de Cotrim Figueiredo. Acho que sim. Isso desfocou a campanha.

Mas o debate foi um momento marcante? Muito se discute sobre a importância e a relevância dos debates nas campanhas.

O debate foi um momento marcante, sim, mas o que eu acho que atropelou a campanha, de facto, foram as tracking polls. Porque as tracking polls o que é que fazem? Medem aquele sentimento de tendência nos dias, só que tiveram um efeito na campanha brutal. Eu acho que ele foi o que mais resistiu àquilo, mas os mesmos factos na rua, eu costumo dizer que as sondagens são um vento que sopra por trás. Ou sopra por trás a favor, ou sopra por trás contra. Neste caso, não é por trás, é pela frente. E aquilo que se via na rua, imagine, o jornalista do Observador via uma coisa na rua antes das sondagens, dizia uma coisa. A mesma coisa depois das sondagens era completamente diferente. A nossa perceção e o nosso filtro mudam completamente. E portanto, aquelas tracking polls foram desastrosas.

Mas não estiveram muito mal.

Não estiveram muito mal, mas aquilo mede uma tendência diária, não é?

Certo.

E não as ponho em causa. Na altura, até fiz um comentário para não fazermos tudo em função daquilo, até precisava tirar pressão e motivar as pessoas, mas aquilo teve um efeito na campanha dantesco.

A campanha tinha sondagens internas?

Não havia tempo para isso. E hoje em dia já não se faz assim com tanta frequência, mas nós não tínhamos nada disso. Tínhamos alguma experiência e alguns estudos que fomos vendo também. Eu percebi animicamente. Aquilo que mais nos revolta é perceber que na rua a sensibilidade era enorme. Vocês não se esqueçam que o Marques Mendes é das pessoas mais simpáticas que o país tem. Toda a gente tem um carinho por ele enorme. E nós na rua sentíamos o contrário das tracking polls, ou seja, ele continuou a ser muito bem recebido. Houve sinais que às vezes percebíamos na mobilização interna que não era tão fácil como noutras vezes.

Houve o famoso congresso do PSD.

Não, isso não. Isso foi lá muito atrás. Naquela altura, isso foi antes das autárquicas, ou foi depois. Não é por aí.

Não teve valor isso.

Não, isso tem sempre valor. O partido andou, repare, o partido andou nas legislativas, autárquicas, estava toda a gente cansada e as pessoas empenham-se muito mais nas suas eleições, onde têm alguma coisa para eleger, só um é diferente. As presidenciais, eu lembro quando era miúdo em Mação, nas presidenciais, em todas as eleições, os partidos localmente faziam campanha porta a porta. Hoje em dia já não se faz isso. Hoje em dia há a volta nacional. Talvez na Madeira se faça ainda campanha própria nestas coisas, mas já não há aquele trabalho das concelhias porta a porta, fazendo o trabalho pelos candidatos. Isso já mudou um bocadinho. E nas presidenciais ainda mais.

Ainda mais. Então vamos aqui debater um bocadinho o que são os bastidores das campanhas com um filme que se calhar viu, o "Wag the Dog", 1997, já tem uns anos. A história de um spin doctor e um produtor de Hollywood que fabrica uma notícia sobre uma guerra para distrair sobre uns problemas que envolvem o presidente dos Estados Unidos. Esse spin doctor era e é interpretado por Robert De Niro. Quem é que fazia o produtor? Meio excêntrico.

Acho que até com rabo de cavalo, estranhamente.

Rabo de cavalo?

Sei. Acho que não.

Não?

Quem é que disse que era? Não, não tinha rabo de cavalo.

Não tinha nesse filme, não?

Eu acho que não.

Sim, mas não é conhecido por ter.

Eles são da mesma geração, não é?

São da mesma geração.

Não é conhecido por ter.

Robert De Niro.

Sim, e já interpretou presidentes com problemas. Presidentes americanos.

Kevin Spacey?

Não.

Não, é mais antigo.

Vamos dar ajuda.

Isso é a série.

Al Pacino, não sei.

Vamos dar ajuda. Tom Cruise, Dustin Hoffman, Robert Redford.

Nesse papel via mais o Dustin Hoffman.

E vem muito bem.

Envia muito bem.

Grande ator. Eu tenho três: o De Niro, Al Pacino e o Dustin Hoffman.

São muito bons.

Claro, são muito bons. Nesta altura, as pessoas que estão nas duas campanhas, que não tiveram tempo nenhum para descansar, o que estarão a preparar? Como é que está a ver que se estão a preparar as campanhas?

Eu sei o que é que tinha preparado. Eu tinha preparado uma campanha, uma segunda volta diferente da primeira, ou seja, sem tanto trabalho de rua e mais temático. Apesar de ter sido uma campanha muito longa, é frustrante, nós tínhamos imensos recursos bons para usar.

Já agora, Duarte Marques, estava à espera de uma segunda volta contra quem?

Com o Ventura ou com o Seguro. Sim, claramente.

E como é que seria? O que é que tinha preparado?

Por acaso, organizámos um conjunto de reuniões de causas, que o Luís Marques Mendes escolheu, com pessoas espetaculares. Até com não apoiantes dele. A ideia era definir um conjunto de posições para o seu mandato. E agora era aquela fase em que nós íamos buscar essas causas para as debater. Nós apresentámos alguns mandatários setoriais, da igualdade e dos direitos humanos, da inovação e da inteligência artificial. Tinha pensado agora pôr isso no terreno para podermos também ter mais conteúdo, porque se vocês repararem, e isso é um bocado frustrante, a campanha durante muitos meses com Marques Mendes, ele foi sempre apresentando propostas concretas sobre o que é que faria como presidente, iniciativa aqui, iniciativa ali. E quando esses temas vêm, os temas polêmicos, a campanha presidencial acabou. Acabou sendo um lavar de roupa suja.

Claro, deixou de ser política.

Deixou de ser política. E muitas vezes, é engraçado, eu faço sempre este tweet a seguir às eleições, e agora para os senhores jornalistas, é que passam a campanha a fazer perguntas sobre outras coisas, e no dia a seguir às eleições, lá estão os comentadores. Não sei se o Paulo já fez isso ou não, mas se calhar também já fez.

É possível.

"Esta campanha não se falou disto, não se discutiu aquilo que é importante." Eu digo: "Olha, estás certo, é muito verdade." Então, nas europeias isto aqui é limpinho.

Isto é verdade.

É limpinho. "Não se discutiu os temas europeus, só se falou do país."

O que se vai discutir agora nestas duas semanas?

Acho que se vai discutir os problemas da saúde, do pacote laboral, o que cada um faz.

Mais as polémicas do dia a dia que vão aparecer.

É, as polémicas do dia a dia. Por quê? Porque depois o jornalista diz: "Mas vocês também podem falar sobre os temas." Podemos, mas não passam. Se vocês forem ver os discursos do Marques Mendes. "O Marques Mendes está cansado, está muito afetado." Se vocês virem os discursos dele na campanha eleitoral, com uma energia brutal. Mas como é que este homem tem 68 anos? Não pode ser. Uma campanha todos os dias, para discursar em grande forma. Isto não passou na televisão.

O que passava era o soundbite.

Era, claro. Por exemplo, uma coisa que eu não disse há bocado. Nós tivemos uma dificuldade muito grande, tem a ver com as redes sociais. Marques Mendes não tinha redes sociais na campanha eleitoral. Não andámos a comprar bots no Bangladesh, nem em lado nenhum. Não usámos inteligência artificial.

As outras campanhas fizeram isso claramente. Algumas delas, António José Seguro, por exemplo, transformou um perfil de Facebook que tinha de uma associação, no seu perfil de campanha.

E já partiu com a embalagem.

E já partiu com a embalagem. E por cima a Meta e António José Seguro têm um grande gestor de redes sociais, trabalhar com ele, que eu conheço bem, é gente boa. Mas isto para dizer o quê? Que Marques Mendes, hoje em dia já não se pode comprar. Não é comprar seguidores, atenção, não é isso. Patrocinar, para ter mais exposição nas redes sociais. A Meta não deixa.

Comprar tráfego, claro.

Não é comprar tráfego, no fundo, é expor o nosso candidato a mais tráfego para as pessoas poderem seguir. Isto já não se pode fazer. E depois Marques Mendes também não quis fazer o papel de palhacinho das redes sociais.

Como muita gente fez. Muito bem. Vamos à última questão, Duarte Marques. Agora recuando um pouco também na sua carreira, em que ano foi fundada a JSD?

Isto é uma vergonha.

O que não quer dizer que tenha sido o fundador.

Não, não foi o fundador.

Vocês sabem quem são os fundadores? Quem foi presidente da JSD nessa fase, vocês vão ficar surpreendidos, porque quem não conhece a história não sabe, mas um deles foi o irmão do Marcelo Rebelo de Sousa, militante do Partido Socialista. O António, foi meu professor da faculdade, e o outro foi o Guilherme Oliveira Martins, ministro socialista.

Não sei contas.

Sim.

Mas sabemos quem foi o presidente do PSD que fundou a JSD. O presidente do PSD, quem era o líder do partido nessa altura.

Então foi no tempo de Sacristan.

Certo, e em que ano?

Já tem uma pista.

Isto é uma vergonha, vou ser chumbado. Deve ter sido por aí em 1976, 1975, 1978.

Então, diga uma. Antes.

1974 mesmo?

1974. Foi logo ali.

Foi sem ajuda esta.

Isto para acabar, até porque o Duarte Marques já estudou este tema. Políticos mais jovens têm políticas diferentes ou é um mito?

Isso é um mito, completamente. Eu conheço muitos jovens que têm cabeça de velhos e velhos que têm cabeça de jovens. Marques Mendes é um desses. É uma pessoa com uma certa idade, mas tem uma mente muito mais jovem que muitos jovens. Eu hoje em dia acho que a malta mete um fatinho, uma gravata e acha que já é um tipo muito experiente. Isto é agora com mais novas tecnologias. A malta vai logo ao perfil do LinkedIn pôr logo lá que é especialista nisto e naquilo e no outro, e aquilo é tudo bucha chitada que não interessa a ninguém. E não é por se pôr um blazer ou uma gravata que se é mais inteligente ou mais experiente, nem é por ser mais novo ou mais velho que se é pior. Agora, há uma coisa que é verdade: nós temos que deixar de ter medo de pôr gente mais nova em lugares de liderança, porque acarreta muita coisa diferente, porque tem outro ritmo. Não podemos olhar para os jovens como menores por serem jovens. Isso é outra coisa. Acho que não devemos é olhar para os mais idosos como menos capazes ou menos jovens só pela idade. Infelizmente, havia um tipo do PSD, até foi sobre o Passos Coelho, engraçado, não concordo, mas ele dizia assim: "Temos que saber se é o primeiro dos jovens ou o último dos velhos." Isso às vezes coloca-se muito na cabeça das pessoas. Isto foi antes de ser primeiro-ministro. E depois fez um excelente, notável trabalho, mas não quer dizer nada. E portanto, eu diria que a idade é uma marca, é um prazo, é uma validade. Mas infelizmente, a idade não é sintoma de modernidade.

Não é sinal, a partir da maioridade em concreto.

Nada em concreto. Há tipos que enganam. O Coutinho ninguém diria que ele tem a idade que tem.

É verdade.

Deve ter um elixir qualquer que engana muita gente.

Vamos descobrir. Duarte Marques, muito obrigada por ter aceitado o nosso convite. São 17 pontos em 25, não foi nada mal.

Se quiser dizer alguma coisa lá para casa, ainda pode.

Não, o meu filho Henrique está quase a ir para casa, está à espera.

Vai descansar. Obrigada por ter aceitado o nosso convite.

Muito obrigado.

Amanhã é nosso convidado Paulo Lopes Silva, diretor de campanha de António José Seguro.