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Este é o som da comissão de inquérito das manhãs 360. Hoje é nosso convidado Alexandre Abreu, do Bloco de Esquerda. Bom dia. Bem-vindo. Obrigada por ter aceitado o nosso convite.
Um gosto, muito obrigado.
O gosto é nosso. Sabe ao que vem?
Mais ou menos.
Já ouviu.
Já ouvi.
Então já sabe como é que funciona. Vamos lá, uma muito simples pra começar. Esta noite ficamos a conhecer mais uma sondagem que com que percentagem aparece Catarina Martins, a candidata apoiada pelo seu partido, o Bloco de Esquerda.
Nesta última?
Sim.
Três vírgula três? Comecei bem.
Para arrancar. Esta foi quase dada. Jorge Pinto aparece em último com 0,7. Ele que já disse várias coisas sobre uma possível desistência. Catarina Martins garante que vai até o fim, mas Alexandre Abreu, estas posições não fragilizam ainda mais a possibilidade de haver um candidato de esquerda na segunda volta?
Falo enquanto apoiante da Catarina. Não falarei pela campanha do Jorge Pinto, independentemente de todo o apreço que tenho político e pessoal por ele, mas falarei pela Catarina e também na medida em que sou mais próximo dela e estou mais por dentro. Eu acho que numa eleição com os contornos que contém a eleição presidencial, com duas voltas, a primeira volta deve apresentar-se quem tem ideias, quem tem um projeto próprio para o país, quem pensa que traz para esta eleição características pessoais, uma visão de país diferentes relativamente àquilo que já está presente entre o panorama dos candidatos. É o caso da Catarina Martins, traz uma visão para o país relativamente àquilo que pensa sobre o SNS, sobre a habitação, sobre o salário e o trabalho, sobre o cuidado, sobre a noção de bens comuns, que ela considerou, e eu concordo com ela, que não estava ainda adequadamente representada entre o panorama dos candidatos. Uma visão progressista, anticonservadora, que oferece essas garantias. Agora, cabe aos portugueses e portuguesas olhar para o panorama eleitoral, quem está no boletim, votar em consciência e depois numa segunda volta, em função de quem lá aparecer, havendo segunda volta, logo se escolherá o que houver a escolher.
Digamos que o primeiro voto ou a primeira volta é mais emocional e o segundo mais racional?
Não será emocional. Eu diria que o primeiro voto é seguramente convicto e numa segunda ronda, se o nosso ou nossa, no meu caso, candidato não estiver apresentado, aí sim, escolhe-se talvez o mal menor ou a escolha subótima.
Mas com 11 candidatos, não pode haver também um voto estratégico nesta altura?
Poder, pode, mas a mim parece-me perverso. Parece-me que é perverso, é uma forma de esvaziamento da democracia, porque acaba por tornar as sondagens, com todas as suas possibilidades de erro, numa espécie de profecia autocumprida. As sondagens acabam por ser o exercício que determina previamente, esvaziando a democracia, aquilo que vai ser uma orientação de sentido de voto estratégica, que em princípio, de acordo com aquilo que seria a lógica do nosso sistema eleitoral, deveria estar reservado pra segunda volta. Acabamos por então votar. Se assim fosse, e eu espero que não seja, e espero que os portugueses e portuguesas assim não o façam, mas votaríamos estrategicamente na primeira volta, estrategicamente na segunda volta, e quase precisaríamos de uma eleição a três voltas, que é pra garantir que tínhamos algum momento em que votássemos de forma verdadeiramente convicta, o que não me parece que seja desejável.
Seguimos para a segunda questão?
Vamos, sim.
Vamos lá.
Esta foi sempre só pra arrancar.
E agora, provavelmente vai continuar aqui com os cinco pontos. Alexandre Abreu.
Vamos ver.
Cinema, filmes, gosta?
Gosto, mas tenho filhos pequenos e não tenho ido muito ao cinema.
O seu filme não é recente.
Nanni Moretti.
Sim, conheço. Gosto. Já vi alguns. Vamos lá ver.
Sabe perfeitamente em que filme de Nanni Moretti é que o realizador se vira para o televisor em que aparece um político e diz aquela icônica frase: "D'Alema, diz qualquer coisa de esquerda".
É muito icônica a frase. Eu não estou lembrado do nome do filme. Não é o "Querido Diário". Eu penso que é aquele do polo aquático, mas não me estou a lembrar do nome.
Exatamente, o ambiente é esse.
Não me estou a lembrar do nome.
Quer que te ajude?
Vou precisar de ajuda.
Então o Quarto do Filho, o Palombella Rossa ou o Aprile, Abril.
É o Palombella Rossa. Falhei? Falhei.
Era o Abril.
Era o Abril, falhei.
Faz nada.
É o Abril. Mas de fato essa frase ficou icônica. Seguro já está a dizer coisas de esquerda ou não?
Não está a dizer muito. Não serei eu quem vem.
Não acompanha, é claro.
Acompanho, claro.
A conversa que estávamos a ter há pouco sobre uma convergência à esquerda passa também pela avaliação que fazem do quão de esquerda são os outros candidatos.
Certamente, ou seguramente, neste caso. O que eu ia dizer há pouco é que também não serei eu quem vai aqui fazer um ataque ao António José Seguro de alta a baixo. Eu tenho apreço por ele, é seguramente alguém com credenciais republicanas impecáveis e democráticas. Tenho certeza que é alguém que defenderá e defenderia a Constituição. Dito isto, seguramente é alguém que em termos do seu percurso passado, não apenas do posicionamento durante esta campanha, mas no seu percurso passado, é alguém que não tem uma visão do país próxima daquela que é minha. Não tem uma visão suficientemente progressista, não tem mostrado uma capacidade de estar ao lado de quem trabalha nas batalhas decisivas pelo salário, nas leis do trabalho, nas questões da habitação, nas questões do SNS. Sendo alguém seguramente respeitável, não tem a mesma visão que nós temos, que eu tenho, e nesse sentido acho que não é seguramente o presidente ideal em quem eu me revejo.
Essa avaliação parte, sobretudo, do momento, da altura em que ele foi líder do PS e no fundo, durante o período da Troika também. É sobretudo isso.
É sobretudo isso, até porque efetivamente ele, depois nos 10 anos subsequentes à sua saída da liderança do PS, acabou por ter um perfil público relativamente discreto. Ele assume, foi mesmo a sua opção.
Alexandre Abreu, numa segunda volta em que Seguro estivesse contra qualquer um dos outros adversários que neste momento
Dos candidatos que têm possibilidades de passar à segunda volta, custar-lhe-ia muito votar em Seguro, pensaria na abstenção?
Basicamente, todo o mundo quer saber qual é o tamanho do sapo.
É uma boa maneira de colocar a questão. Eu não sei bem quem são os que têm possibilidade ou não.
As sondagens são relativamente claras.
São relativamente claras.
Mas Seguro contra qualquer um dos outros quatro candidatos, teria alguma hesitação em votar em Seguro?
Parece-me que é um candidato preferível a qualquer um dos outros quatro que as sondagens têm apontado como estando à frente. Do meu ponto de vista, é um candidato preferível. Faço alguns deles largamente preferível.
Portanto, seria um sapo de média dimensão.
Sim, mas eu não quero entrar muito por estes exercícios, porque acho que nesta fase, neste momento em que estamos, antes do dia 18, este é um exercício perverso que esvazia a democracia. Quando isso tem apreço pessoal, político, pelo António José Seguro, mas representa uma visão para o país que é muito diferente da minha. Com certeza que há outras que são ainda muito mais diferentes, do meu ponto de vista, até verdadeiramente perigosas. Seguramente que se fosse esse o caso, não falharei no meu voto para tentar obstar que essas visões possam ascender à presidência, votando no António José Seguro, se for o caso, mas acho que é perverso fazê-lo neste momento, porque neste momento o meu voto convicto é na Catarina Martins.
Vamos sair do país, Alexandre Abreu. Qual é a capital da Gronelândia?
Tuuk, será assim?
É parecido.
Truk. Falta uma letra.
Tuk.
É o T que não está bem. Mas acho que parece.
Será com N?
Nuuk. Nuuk, é isso.
Estava a bater no microfone, era o Tuc, não era o seu.
Estava a pensar nas bolachas.
Nuuk. Nós perdoamos aqui o sotaque, aliás, porque não sabemos qual é. Será que um dia a capital pode ser Washington? Acha que isso é possível? A ameaça é para levar a sério.
A cada semana que passa, aquilo que nós dávamos por adquirido nas relações internacionais e no mundo à nossa volta altera-se de forma radical. A história está a acelerar de uma forma extraordinária e infelizmente num sentido muito preocupante. Toda a ordem liberal internacional do pós-Segunda Guerra Mundial tem vindo a ser desmantelada de forma muito acelerada, substituída verdadeiramente pela razão da força, pela lei do mais forte. É extremamente preocupante. Parece-me, agora até colocando-me enquanto analista, muito irracional do ponto de vista das elites norte-americanas que desmantelem um conjunto de sistemas de alianças que foram tão laboriosamente construídos ao longo de décadas, em particular a NATO, relativamente à qual eu me oponho, porque acho que é fundamentalmente um instrumento do imperialismo norte-americano. Agora, precisamente do ponto de vista do imperialismo norte-americano, acho que é muito irracional desmantelar este sistema de alianças, quando os Estados Unidos têm toda a possibilidade de articular e negociar com a Dinamarca todo o tipo de utilização, parcerias, mas utilização da Gronelândia para estabelecimento de bases, que aliás já lá têm, e feito outro tipo de acordos de defesa, atividades de defesa, etc., e até exploração de recursos. Nesse sentido, parece-me que é apenas uma afirmação de poder nu e cru, mas que me parece que é irracional do ponto de vista dos próprios interesses das elites norte-americanas. Mas racionalidade é algo que me parece que neste momento já não sei se é um critério muito importante para nós analisarmos estas questões.
Temos a questão da NATO, mas temos também a questão da União Europeia. Está a fazer o que pode? Qual deve ser o termo da discussão com que a União Europeia olha para este parceiro histórico que é os Estados Unidos?
Na minha opinião, o que a União Europeia devia fazer e os seus vários Estados membros deviam fazer, seria, de forma muito mais categórica e veemente, afirmar a necessidade de preservarmos o respeito pelo direito internacional.
Não tem feito?
Não tem feito. Com uma ou outra exceção, tem feito de forma muito débil, com grande tibieza, até com grande cobardia, nalguns casos. Não deixarei de dizer, no caso do nosso ministro de Negócios Estrangeiros, a afirmação no próprio dia de que as intenções norte-americanas na agressão, no ataque, na invasão e no rapto de Maduro, na Venezuela, que as intenções eram benignas, quando o próprio Trump não se deu ao trabalho de ocultar que o que estava em causa era o petróleo, parece-me de uma cobardia extraordinária e não meço as palavras, acho que esta crítica é merecida. Tem havido uma ou outra exceção.
Onde é que tem havido essas exceções?
Espanha, por exemplo, o primeiro-ministro espanhol, eu acho que no contexto europeu, foi dos poucos que teve alguma espinha dorsal, digamos assim.
Este contexto todo não deve acelerar mais ainda a ideia de ser necessário um braço armado na União Europeia?
Eu sou um pacifista, mas também não sou um pacifista ingénuo. Penso que Portugal necessita de ter as suas Forças Armadas com uma política assente na cooperação internacional, nos valores da Constituição, na Carta das Nações Unidas, mas ter as suas Forças Armadas e ter depois acordos de cooperação com as outras nações, em particular com as nações europeias que nos rodeiam e com as quais temos relações históricas. Essas relações de cooperação devem ser aprofundadas, até em vista de um contexto da NATO, que neste momento está absolutamente fora do controle e é liderada por um lunático, verdadeiramente. Não parece que deva passar por um exército europeu. Isso não parece que seja uma ideia.
Mas como é que a Europa pode reforçar a sua autonomia na defesa, sem reforçar o investimento na defesa?
Do meu ponto de vista, aquilo que deve reforçar são os acordos de cooperação que garantam uma maior autonomia face aos Estados Unidos e que garantam algumas das coisas-
Acordos de cooperação com quem?
Com os restantes membros da União Europeia, questões como as de interoperabilidade, aquelas questões que quem percebe mais tecnicamente destes assuntos tem falado, para garantir uma maior agilidade em termos de atividades de defesa conjunta. Isso parece-me fazer sentido. Também uma maior autonomia relativamente aos Estados Unidos, que neste momento seguramente Será difícil contar enquanto aliado. Tudo isto dentro de um quadro que, para mim, deve ser sempre o quadro do direito internacional das Nações Unidas.
Mas isso implica ou não um aumento do investimento da defesa?
Não me parece que seja. No mundo em que nós vivemos, já existem armas a mais e não me parece que seja através de uma escalada belicista que nós caminharemos para a paz. Caminharemos para a paz com maior firmeza na defesa da diplomacia, das soluções negociadas, dos acordos entre países, entre nações, procurando a paz e procurando a cooperação.
Mas sem o apoio dos Estados Unidos e sem capacidade de defesa autónoma, não fica vulnerável, por exemplo, à Rússia?
Os estados da União Europeia têm uma capacidade de defesa, uma capacidade bélica enorme, neste momento, absolutamente enorme. Seguramente é inimaginável um conflito direto entre a Rússia e a Europa, posto nestes termos. Seguramente que a Rússia, que tem as suas próprias pretensões imperialistas, aliás, é isso que nós assistimos, Chechénia, Geórgia e Ucrânia, mas não tem seguramente intenções de invadir a Europa, vir para ali fora. Acho que isso é uma visão irrealista e que não faz sentido. É necessário que a Europa acautele as suas capacidades de defesa de uma forma geral, relativamente aos imperialismos russo, norte-americano também, já agora, porque neste momento parece mais provável uma invasão da Gronelândia do que uma invasão da Polónia.
Vamos avançar para a quarta pergunta e vamos regressar a Portugal. Vamos cá para dentro, vindos lá de fora. Que lugar ocupa o Bangladesh na lista de países com mais imigrantes em Portugal?
Difícil.
Eu sei, este é um pouquinho diferente.
É difícil adivinhar mesmo. Ainda por cima estas estatísticas normalmente são produzidas com algum tempo de trás. Dados recentes da AIMA, será?
São de outubro do ano passado.
Se calhar temos que considerar o ali de ser. Ali para...
Ali por volta de...
Eu diria entre o quinto, sexto lugar.
Está certo, muito bem. Está em sexto lugar. Primeiro Brasil, Índia, Angola, Ucrânia, Cabo Verde e então o Bangladesh com 55 mil imigrantes. As políticas de imigração dos governos de António Costa foram um dos principais falhanços.
Esta é uma questão complexa, que tem que ser discutida e debatida com calma, com muitos aspetos, com várias questões distintas. Aquilo que me parece que é fundamental que o nosso país tenha é uma política de acolhimento humanista, que permita a quem cá está e quem cá está a trabalhar, fazê-lo de forma regular, que desincentive a irregularidade. Nesse sentido, a eliminação da solução das manifestações de interesse, sem substituição por outro tipo de solução que permita uma regularização a posteriori, vai, a meu ver, tender a fomentar a irregularidade e nesse sentido vai criar um conjunto de problemas, em vez de resolver os problemas, vai fomentar e intensificar a exploração dos próprios migrantes e criar problemas de concorrência acrescida relativamente aos trabalhadores nacionais. Mas eu acho que a montante de tudo isto está uma questão mais importante, que raras vezes é discutida quando falamos destas questões, que é: qual é que é o modelo de especialização produtiva que nós queremos para o nosso país? Enquanto for um modelo de especialização muito assente em baixos salários, em particular na monocultura do turismo, mas agora também na generalização da agricultura intensiva assente em mão de obra de baixos salários, é esse modelo de especialização que eu não estou a ver nenhum dos governos sucessivos, nem o atual governo da AD, mas na verdade também não o governo anterior do PS, a fazer nada para desencorajar ou sequer orientar noutro sentido. É esse próprio modelo de especialização produtiva que encoraja a imigração de um grande contingente de pessoas que legitimamente vêm procurar melhorar a sua vida, mas que acabam por criar o conjunto de situações com a qual o país depois tem alguma dificuldade em lidar.
O Alexandre Abreu, economista de formação, não está a ser otimista demais quando diz que isso é uma escolha de Portugal. Não é uma escolha, as coisas acontecem assim, sem escolha dos governos, de alguma maneira. O modelo de baixos salários.
Não estou a dizer que a margem de manobra de decisão política é plena. Não é, claro que não. Não podemos decidir tornar-nos a Finlândia ou a Suíça ou a Dinamarca instantaneamente, com certeza que não. Mas há opções que tomamos relativamente ao que é que incentivamos, o que é que penalizamos, o que é que encorajamos, que tipo de benefícios fiscais concedemos para determinadas atividades, em detrimento de outras. Isso é muito claro, por exemplo, na política para a habitação. É muito claro, por exemplo, na política de atração de nômades digitais, residentes não habituais, com todo o conjunto de efeitos que isso teve, por exemplo, ao nível do mercado da habitação, da pressão no mercado da habitação, as questões da regulação ou não do alojamento local. Isso é todo um conjunto de exemplos de questões em que a política e as políticas, não tendo uma capacidade total para influenciar ou definir o desenlace das situações, mas seguramente podem influenciá-los. Então, nesse sentido, acho que os governos portugueses podem e devem fazer bastante mais para guiar noutro sentido aquilo que é o nosso padrão de especialização produtiva.
Há pouco o Alexandre Abreu falava da capacidade de acolhimento e de como isso é importante também nas políticas de imigração, mas com o aumento tão significativo da população imigrante em tão pouco tempo, a capacidade de acolhimento não ficaria, de qualquer forma, sempre comprometida?
Aí há outra questão que também me parece importante chamar a atenção, que é, não menosprezando a necessidade dos ajustamentos que é preciso fazer, mas a questão é que também muitas vezes o aumento do fluxo de imigração e o aumento do estoque de imigrantes em Portugal tem também sido muito utilizado como desculpa ou como justificação para aquilo que é a degradação da resposta em áreas como a habitação ou o Serviço Nacional de Saúde, que na realidade tem, a meu ver, outras causas e outras causas mais importantes, nomeadamente em termos das opções políticas e também do investimento ou falta dele, que são feitos em cada um destes setores.
Mas falando especificamente do acolhimento, da capacidade de acolhimento dos imigrantes, na perspectiva de integração desses imigrantes.
Nessa perspectiva, Portugal tem sido ao longo dos anos elogiado e nos vários índices comparativos, por exemplo, o MIPEX, que é um índice comparativo de integração de imigrantes, Portugal tem estado sucessivamente ao longo das décadas nos primeiros lugares, senão mesmo no primeiro lugar entre os países da OCDE. Portanto, Portugal é até um exemplo de boas práticas no acolhimento, na integração, em termos da prestação de serviços de atendimento aos migrantes, em termos do ensino da língua. Em todas essas áreas, Portugal, na verdade, tem sido exemplar. Não estou a dizer que faça tudo bem, mas tem sido um caso de boa prática. Agora, quando nós olhamos, por exemplo, às questões da habitação, quando nós olhamos, por exemplo, às questões do SNS, seguramente que são domínios em que a população, os portugueses e as portuguesas sentem que a qualidade das respostas tem vindo a deteriorar-se E quando olham para o aumento da imigração em paralelo, são facilmente presos de um discurso que procura explorar a relação entre as duas coisas, quando na verdade, são muito mais outros tipos de questões. Por exemplo, na habitação, ao meu ver, é muito mais a questão da financeirização da habitação, a transformação da habitação num ativo financeiro e a forma como isso tem conduzido a uma excessiva escalada especulativa dos preços da habitação. É muito mais essa a raiz do problema do que a questão dos imigrantes.
Alexandre Abreu.
Restou uma questão, não é?
Quinze pontos. Quinze pontos. Pode chegar aos 20.
É honroso. Ainda falta uma.
Ainda falta uma. E agora vamos ali a finais de janeiro do ano 2000, onde é que se realizou a primeira convenção nacional do Bloco de Esquerda?
Essa é realmente difícil.
Onde é que estava em janeiro de 2000?
Eu já não era uma criança, mas só entrei para o Bloco de Esquerda 11 anos depois.
Onze anos depois. Tu imagina onde é que poderia ser. Ou pé de ajuda, ou pensa onde é que poderia ser. Ou arrisca com os cinco pontos ou pé de ajuda. Com Francisco Louçã.
Sim, bem sei. Miguel Portas, João Fazenda, Fernando Rosas. Vou pedir ajuda.
Terá sido em Lisboa, no Porto ou em Coimbra. Se calhar não ajuda muito.
Realmente não é a ajuda mais esperada, mas vou arriscar Coimbra.
O Bloco teve mais expressão em Lisboa, foi em Lisboa mesmo, na Aula Magna. E o Bloco cresceu muito, foi um partido com altos e baixos, mas teve um momento, de facto, muito importante. Agora, onde é que o coloca? Está num momento particular de prova de vida neste momento.
Está num momento desafiante, em que nós sabemos que os resultados eleitorais nos últimos anos não têm sido aqueles que gostaríamos, em que mesmo ao nível da militância temos perdido alguma da força e do enraizamento que tínhamos no passado. Acho que cabe-nos também ter a humildade de reconhecê-lo, de percebê-lo e de procurar corrigi-lo. É o desafio que temos pela frente. Eu, na medida em que integro a atual direção, cuidada pelo Jamil Odeh Pureza, mas muitas e muitos outros camaradas militantes do Bloco têm muita vontade de garantir que este partido, que é bastante único naquilo que representa, no tipo de propostas e de valores que traz para o debate político, que já tanto fez para mudar a sociedade portuguesa para melhor, a meu ver, em tantas áreas, dos direitos civis e sociais às questões económicas, à justiça fiscal, em todas estas áreas, na exigência relativamente à qualidade da governação, um partido que já tanto fez, eu acho que tem ainda muito para dar e cabe-nos garantir.
O LIVRE não é uma ameaça grande que o Bloco tem neste momento?
Essa é uma pergunta que é muitas vezes colocada, mas eu já respondi no passado e vou voltar a responder, que eu acho que o nosso grande problema neste momento não é tanto a dispersão de votos ou a fuga de votos dentro de um polo eleitoral e político à esquerda. O grande problema é a grande diminuição do peso conjunto daquilo que é a esquerda em Portugal e no mundo, já agora, mas de uma forma geral em Portugal. Penso eu, mais do que andar a procurar ir buscar votos, competir por votos com o LIVRE ou com o PCP, que têm os seus próprios eleitorados. Claro que existe alguma permeabilidade, mas têm os seus próprios eleitorados, têm sua própria identidade. Temos diferenças também. Mais do que andar a procurar disputar votos, parece-me que o que é importante é criar condições políticas, mas também ao nível do debate pela hegemonia cultural, que neste momento está muito dominada pela direita, em todos os planos, nas redes sociais.
Mas aqui há uns anos, Alexandre Abreu, passava-se a situação oposta. Portugal era até apontado uma espécie de exemplo de ilha de esquerda na Europa. O que aconteceu em tão pouco tempo para explicar essa diminuição do espaço eleitoral da esquerda?
É difícil, é uma análise difícil. Precisávamos de todo um programa só para isso.
Temos três minutos, acho que podia perfeitamente discutir. Mas há uma culpa da esquerda.
Sim, acho que nunca devemos deixar de assumir culpas próprias, porque acho que é um mau princípio politicamente acharmos que está tudo fora do nosso controle. Agora, é também verdade que este é um fenômeno que não é exclusivamente português, nacional, é um fenômeno que tem ocorrido por toda a Europa, de forma geral, até global. Nesse sentido, há algumas questões que passam, desde logo, pela captura do poder por uma direita radical nos Estados Unidos, com toda a capacidade de influência e os efeitos de arrastamento que isso tem sobre o resto do mundo, com a primeira presidência Trump e depois Bolsonaro, e depois os efeitos noutros países, com Orbán, Meloni, etc. Portanto, há um efeito de contágio, há um efeito de aquilo que é a forma como as redes sociais vieram alterar a comunicação política, de uma forma que me parece estar muito enviesada no sentido da direita, especificamente da direita radical.
Mas, por exemplo, Barack Obama, em 2008, foi um dos primeiros a usar as redes sociais precisamente a seu favor.
Exato, é verdade. Mas 2008 já é pré-histórico relativamente àquilo que é-
Neste novo ambiente, a esquerda perdeu a capacidade de dialogar com o seu eleitorado.
Recuou muito, viu-se muito ultrapassada e com certeza tem que procurar fazer mais e melhor, mesmo sabendo que em muitos aspectos é um plano que está inclinado contra si.
Não vai ter de fazer mais e melhor, porque 15 pontos já foram suficientes.
É positivo.
Fico muito contente. E pelo que me lembro de vos ouvir dizer, são raros os que conseguem apontar tal resultado.
Sim, mas de momento só 10 convidados. Em muito tempo. Em muito tempo. Já fazemos isto desde maio de 2024.
Já somos veteranos.
Tinha aspirações a melhor, mas é honroso.
Sem dúvida. Pode haver uma segunda volta, quem sabe. Alexandre Abreu, muito obrigada por ter estado na nossa casa.
Muito obrigado.