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Sejam bem-vindos. Este é o "Conquistar o Futuro", um podcast do Observador em parceria com a Universidade Lusíada, onde olhamos para a forma como estamos a preparar e a formar a próxima geração e obviamente também as lideranças do futuro mais próximo. Do direito à arquitetura, da economia às relações internacionais, vamos saber como os professores de hoje preparam os profissionais de amanhã. O convidado de hoje, Manuel Monteiro, jurista, professor dos cursos de Relações Internacionais e de Direito, precisamente da Universidade Lusíada. Manuel Monteiro, é um gosto recebê-lo aqui.
O gosto é meu.
Bem-vindo. Da sua experiência como professor, nós hoje temos alunos que chegam à faculdade, à universidade, com mais qualidade e preparação, comparando com gerações anteriores, ou com menos qualidade e preparação?
Muito obrigado pelo convite. Há tudo. Há pouco, antes de iniciarmos a gravação, trocávamos aqui algumas ideias, não podemos ter aquela perspectiva de que antigamente era tudo bom e que agora é tudo mau. Eu não tenho essa visão.
Em qualquer área.
Em qualquer área.
Da universidade à política, por aí fora.
Tenho a noção que há um conjunto de jovens muito melhor preparados do que a minha geração, por exemplo, no domínio das novas tecnologias de informação, isso é inquestionável. Tenho dúvidas que seja assim no domínio da formação cultural. Ou seja, essa circunstância revela-se, por exemplo, na ausência de conhecimento histórico e na ausência de capacidade ou até de vontade para escrever. A lógica do envio permanente de mensagens ou comunicações muito curtas pelas redes sociais criou uma espécie de preguiça no desenvolvimento do raciocínio e na escrita.
Na estruturação de um texto.
Na estruturação de um texto. Portanto, que é revelador da falta de estruturação de um pensamento, de um princípio, de um meio e do fim. E por quê? Porque com todas as vantagens que, por exemplo, a internet tem, se um jovem hoje pode ir ao Google ou qualquer outra rede, obter a resposta, portanto, o fim, por que é que há de estar preocupado em saber como é que chegámos àquele fim?
O caminho. E em História isso é fundamental.
E em História isso é fundamental. E, portanto, eu diria que há hoje um grau de exigência muito maior para quem é professor universitário do que era uns tempos atrás. O professor universitário sente que para além de ensinar, tem também em muitos domínios de educar e sente que tem a necessidade de dar uma formação que supostamente deveria vir do ensino secundário, mas que manifestamente não vem. E isto é geral.
Claro.
Agora, há casos de excelência, há casos de menor excelência. Uma nota final: há um antes e depois, também, do período de Covid.
Nota a diferença?
Noto. Isso para mim foi notório.
Para pior agora.
Para pior. Ou seja, aqueles dois anos em casa foram tenebrosos.
Sem contato com a turma, com aulas presenciais, muitas vezes.
Exatamente. E, portanto, muitas das vezes os jovens também não teriam as condições de trabalho, de concentração, que a própria universidade lhes permite em casa, porque dadas as circunstâncias de muitas famílias, as coisas são o que são, mas isso foi mau. Como penso que foi mau que o governo, na altura, para tentar compensar essa circunstância, tenha decidido dar bônus de classificação aos estudantes. Isso foi um erro, sob o meu ponto de vista. Porque há jovens que se candidataram às faculdades com 15 quando provavelmente tinham apenas 13, outros com 17 que teriam 15. E, portanto, eu acho que isso foi um erro mau.
E criou desigualdades.
Criou desigualdades. A perspectiva de favorecer, sob o meu ponto de vista, prejudicou e criou ou pode ter criado uma desigualdade entre quem de fato é muito bom, o bom, o suficiente e o menos suficiente, já não digo o mau.
Claro. Em Relações Internacionais, focando agora neste curso, preparam-se os alunos para quê? Para que carreiras?
Eu sou um caso atípico e tenho que cumprimentar a administração da Fundação Minerva por ter tido a ousadia de me convidar para falar aqui. Eu venho de fora da academia para a academia. Eu tenho uma vida profissional que é conhecida. Fui líder político e partidário e só em 2000 é que o professor Martins da Cruz, na altura presidente da Fundação Minerva, me convidou para dar aulas na Universidade Lusíada do Porto, precisamente no curso de Relações Internacionais.
Não, é de Direito.
Diga?
É de Direito a sua formação.
Eu sou de Direito e depois fiz um mestrado na área das instituições políticas públicas, passando pela Sorbonne, e depois doutorei-me já na Universidade Lusíada, em Ciência Política, mas numa Ciência Política mais antiga do que esta Ciência Política estatística. E uma coisa que percebi e licenciei-me, e portanto, estou à vontade para lhe dizer o que lhe vou dizer, porque licenciei-me na Universidade Católica, não me licenciei na Universidade Lusíada, e portanto, aprendi a gostar da Universidade Lusíada Progressivamente, e não digo isto porque sou uma pessoa muito livre por trabalhar na Universidade Lusíada, mas apercebi-me que a vontade primeira do curso de Relações Internacionais naquela universidade é a formação humana, cultural e dar um espírito crítico. Ou seja, mais do que estar preocupado em saber: "Tu vens pra aqui para saber de diplomacia, tu vens pra aqui pra saber de relações econômicas internacionais". Com certeza que essa é uma questão, é muito importante, mas a lógica é: tu vens pra aqui pra ter pensamento e sentido crítico. Ou seja, só podes exercer verdadeiramente uma profissão se fores previamente um bom cidadão, e um bom cidadão é quem tem um espírito crítico.
No fundo, dar as bases para que depois cada aluno e depois cada profissional possa, nessas bases, formar o seu pensamento.
Exatamente. O curso de RI é um curso, na Lusíada, de banda larga. Obviamente que há uma perspectiva de quem sai dali poder ir pra diplomacia, sem dúvida.
É a saída mais óbvia, logo que estará na cabeça de mais pessoas.
Depende. Eu, como tive a experiência da Lusíada do Porto, percebi que uma parte substancial dos jovens que procuram o curso de Relações Internacionais na Lusíada do Porto querem ir para as empresas e pra área comercial internacional das empresas.
Que é uma aplicação também muito válida pra esse curso.
Exatamente. E até lhe vou contar uma coisa, penso que ele não levará a mal que eu revele isto, não me pediu segredo. Mas antes disso, ao contrário dos jovens da Lusíada de Lisboa, que admito que tenham uma vocação maior para a diplomacia propriamente dita e para as organizações internacionais.
Mas isso também tem a ver com a matriz econômica e social do Porto, norte versus sul do país.
Exatamente, que é uma coisa curiosa. Eu, como tive essa experiência, pude constatar que há uma vivência muito própria e dentro dessa vivência, lembro-me que o presidente do conselho de administração de uma empresa, a Colunex, disse-me em dado momento-
Estamos a falar de colchões
...colchões. E estamos a falar de uma empresa de grande valor. Eu não sou empregado nem avençado da Colunex.
Claro, mas conhece as premissas, claro.
Mas ele disse-me o seguinte: "Eu hoje procuro cada vez mais pessoas formadas em Relações Internacionais". Eu disse: "Mas por quê?" Porque ele diz: "Mais do que um bom economista ou um bom gestor, eu necessito de alguém que me saiba ler o mundo e perceber que quando eu vendo para um país africano duma determinada região, não é a mesma coisa do que vender pra um país africano de outra região".
Culturas diferentes, hábitos diferentes, claro.
Exatamente. Do mesmo modo que a Europa, um norueguês não tem exatamente a mesma sintonia em relação às coisas que você e eu temos, que somos latinos, o mesmo acontece no continente asiático, no continente africano. E, portanto, eu aprendi com este empresário a grande vantagem do curso de Relações Internacionais também para o desenvolvimento do setor comercial internacional das empresas. A Lusíada tem uma coisa que os alunos quando entram não gostam. Eu tenho que dizer isto, que é a componente histórica.
Que é fundamental nesta área.
Ora bem, mas um miúdo que vem, ou uma miúda que vem e que a história começou a ser um parente pobre no ensino secundário e que entra ali, começa a perguntar: "Mas por que tanta história? Por que a história diplomática, por que a história disso e tal?" Tem também cadeiras de economia, tem cadeiras de direito. E a nossa perspectiva é de transmitir uma coisa essencial: ninguém pode compreender o presente sem conhecer o passado. Ou seja, não quer dizer que concorde ou que discorde, mas eu não posso entender o que se está a passar hoje no Médio Oriente, se não tiver uma noção histórica.
Sem saber como é que se chegou aqui.
Exatamente.
Claro.
E, portanto, essa é uma preocupação muito grande da Universidade Lusíada, que é dar uma base, nomeadamente em Relações Internacionais, dar uma base cultural de formação cultural e depois, tendo uma vertente nas cadeiras econômicas, pensando exatamente naquilo que acabei de dizer.
Claro.
E também sem descurar a vertente política e a vertente jurídica. Por quê? Porque alguém que vai pra carreira diplomática não pode desconhecer o enquadramento jurídico ou constitucional do país pra onde vai ser colocado.
E Direito Internacional e a história, digo eu, das instituições europeias, etc.
Exatamente.
Claro. Falou agora, por exemplo, do Médio Oriente. Nós estamos a passar por uma fase muito complicada em termos de Relações Internacionais, se quiser. Neste mundo mais complicado, com tantos conflitos, é mais difícil de ensiná-lo de alguma maneira e dá-lo a entender aos alunos?
Há um fascínio de imprevisibilidade que é um constante desafio pra um professor universitário. Eu estou à vontade porque venho de fora, mas, portanto, a perspectiva de que eu já cheguei a um determinado patamar e não tenho que evoluir, não tenho que ler, não tenho que pensar, é um erro. Agora, repare, quando o Muro de Berlim caiu, e nota que eu conversava com um colega meu, o professor José Francisco Pavia, que é aliás o coordenador de Relações Internacionais. Quer dizer, quando o Muro de Berlim caiu, podia haver uma previsibilidade da queda do Muro de Berlim, mas pouca gente antevia aquilo que ia acontecer após a queda do Muro de Berlim.
Logo a seguir, o que é que aqueles países, como é que iam evoluir.
Repare, o senhor Fukuyama, que errou, que disse: "O fim da história, acabou a história".
Partiu agora?
Ela recomeçou, quer dizer, e nalguns casos foi buscar aspectos do passado. Essa coisa que faz com que nós tenhamos coisas novas que são mais antigas do que se pensa e coisas novas que de fato são novas, essa imprevisibilidade coloca um desafio e que nós procuramos, obviamente isso depende depois de cada professor, mas nós procuramos ali no curso de Relações Internacionais que esse desafio seja interativo com os próprios estudantes. Uma coisa que me fascina é ter uma turma interativa, uma turma que participa, uma turma que intervém.
Ou seja, Manuel Monteiro, que não sejam só receptores daquilo que o professor ou os professores estão a transmitir.
Em crianças nós vivemos aquela idade do porquê. O porquê é essencial na vida. E portanto, essa imprevisibilidade e essa eventual dificuldade que efetivamente o novo mundo nos traz, uma coisa concreta, quem ensina Direito Internacional deve andar um bocado aflito, porque diz assim: "Eu andei aqui a ensinar coisas e agora olho e as Nações Unidas não funcionam, o Direito Internacional não é respeitado, etc.". Como interagir com isso? Transmitir às pessoas, e essa é uma vertente muito relevante na Lusíada. Repare, a Lusíada é uma escola. Cada faculdade, não estou a dizer que é melhor ou pior, é diferente. A nossa escola é uma escola baseada muito no realismo político. Significa isso que a perspectiva idealista na análise da política internacional está posta de lado? Não. O ideal é transmitido e é explicado que esse idealismo consta dos tratados, das convenções internacionais, mas depois há aquela coisa chamada a realpolitik.
Claro. Isso é fundamental pra não descolar da realidade.
Exatamente. E essa vertente do realismo político é uma vertente muito característica da própria universidade. Portanto, quem escolhe o curso de Relações Internacionais pode até nem perceber isso no início, mas ao fim de um semestre, não digo todos, mas uma parte essencial dos estudantes percebe que foi para uma escola que tem uma vertente muito clara no que respeita ao realismo político, sem pôr de lado os valores e os princípios, como é evidente, baseado muito numa coisa que o professor Adriano ensinava, que uma coisa é a ideia do poder, outra coisa é a sede do poder.
Certo.
Está a ver?
Certo. No fundo, preparar as pessoas para o mundo que existe e não para o mundo ideal, que não existe.
Não descurando o ideal.
Claro.
Exatamente.
Não sei se conhece dados da empregabilidade dos alunos desta área de Relações Internacionais.
Eu penso que de um modo geral são bons.
Já há pouco falámos das saídas profissionais, que não são só a diplomacia, as empresas também.
A Lusíada, eu já estou há 25 anos na Universidade Lusíada e, portanto, a universidade não levará a mal que eu diga que a Lusíada tem méritos que nem sempre divulga. Repare, e são factos. Uma parte essencial dos nossos licenciados em Relações Internacionais ganham concursos abertos pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros.
Aí pra carreira diplomática.
Estão até pra estágios de diplomacia econômica, estão em Bruxelas em ótimas posições, estão na diplomacia portuguesa em variadíssimos locais e essa perspectiva é uma perspectiva que nos conforta. Ou seja, termos a sensação de que quem sai dali, mesmo que isso não ande nas primeiras páginas dos jornais, sabe.
No fundo, é uma validação do vosso trabalho também.
Exatamente. Eu acho que isso é muito importante.
Nós temos uma boa diplomacia em Portugal ou não?
Eu acho que é excelente, mas sempre foi.
Não é de agora, portanto historicamente.
Historicamente.
Isto tem a ver com o quê? Com a nossa matriz, se quiser, de conhecer o mundo, de nos relacionarmos com várias culturas, isso vem dos descobrimentos.
Eu penso que sim. Nós temos muitas das vezes uma tendência pra estar sempre a dizer mal tudo. E eu penso que se há área onde se verifica o bom que há, é a diplomacia. Repare, o engenheiro Guterres com certeza chegou a secretário-geral das Nações Unidas pelo seu mérito, mas a diplomacia portuguesa teve um papel muito relevante.
Trabalhou pra isso.
Trabalhou pra isso. O mesmo com o presidente da Comissão Europeia, Durão Barroso. Ou seja, nós temos excelentes embaixadores. E isso é algo que, no que diz respeito à Universidade Lusíada, também agrada perceber que está a dar um contributo para que o futuro seja, no mínimo, igual ao presente.
Claro.
E isso é bom.
Quase a chegar ao fim, Manuel Monteiro, desta nossa conversa. Que conselho daria a um aluno do primeiro ano, recém-chegado ao curso de Relações Internacionais, para que de fato venha a ser um excelente profissional nesta área?
Nunca perder a curiosidade. Eu acho que essa questão é uma questão relevante. Ser curioso, querer saber sempre mais, querer ir ao fundo das questões, é importante e não se contentar com a resposta que obtém no Google. A segunda nota é que leia, que tenha prazer pela leitura.
Leitura transversal. Já há pouco falámos disso, de alguma maneira, é uma área em que há um cruzamento de saberes como outras áreas muito diferentes. A História.
Exatamente. Eu no curso de Relações Internacionais dou uma disciplina chamada Ideias Políticas do Mundo Ocidental. Eu estou muito mais ligado à área da Ciência Política e às ideias políticas. E eu sou insuspeito, a Universidade Lusíada é uma universidade plural, defende o humanismo, isso está escrito nos próprios estatutos, mas eu incentivo os estudantes a lerem o Manifesto Comunista de Marx e de Engels, do mesmo modo que os incentivo a ler São Tomás de Aquino.
Claro.
E essa questão é uma questão muito importante. Na lógica de que ninguém pode dizer mal do que desconhece.
Porque só assim é que percebem também, pelo menos uma parte importante do mundo.
Com certeza.
Perceber as ideias que, no fundo, ainda moldam muito a governação e as opções políticas.
Sem dúvida nenhuma. E portanto, essa ideia de que eu não posso ser a favor ou contra, sem saber fundamentar por que é que sou a favor ou contra. E essa é uma mensagem que é dada logo nos primeiros dias de aulas aos estudantes: todos têm direito nesta casa a ter a sua livre opinião, mas uma coisa é ter a livre opinião com fundamento, outra coisa é o acho que, porque perdidos e achados é na Polícia de Segurança Pública.
Isso é outro curso também.
Isso é outro contexto.
Muito bem, Manuel Monteiro. Foi um gosto recebê-lo aqui neste "Conquistar o Futuro". Este é um podcast do Observador em parceria com a Universidade Lusíada. Voltaremos brevemente com outro tema, outra área de saber, se quisermos, e outro convidado. Até lá.