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Houve cerimónias, mas não houve discursos. Entre os constrangimentos da campanha eleitoral e o esquecimento, os 115 anos da implantação da República foram quase ignorados. No Contracorrente de hoje, vamos olhar para os bloqueios e falhanços dessa primeira República. Helena Matos, é importante perceber o que aconteceu naqueles 16 anos pra percebermos o mundo de hoje?
Olha, quis fazer um ponto de ligação mesmo com o dia de hoje, com outro país, mas também um país que pronuncia a República de uma forma muito acentuada e que mesmo hoje, quando o homem que ia ser seu primeiro-ministro apresentou a demissão, eu estou claramente a falar de Lecornu, em França. É curioso que ele refere a República e a questão de República, e depois dizem sempre aquelas coisas ao povo francês, no caso: "Não se pode perder a esperança na República Francesa." E é curioso, nós podemos recuar a 15 de janeiro de 1920 em Portugal, no qual tivemos o chamado governo de um dia, o governo de cinco minutos, que há pouco, quando estávamos a conversar antes deste programa, me disseste que o candidato presidencial Gouveia e Melo terá referido numa entrevista que deu, porque de facto é uma espécie de fantasma que paira sobre essa primeira república e sobre outras repúblicas, que é quando se atinge uma situação de quase ingovernabilidade. O que acontece neste 15 de janeiro de 1920? Francisco José Fernandes de Costa ia tomar posse como presidente, na altura chamava-se ao primeiro-ministro presidente do ministério. Portanto, estávamos na Primeira República. A República tinha sido implantada em 1910. Eles ainda não sabiam, mas ela só iria durar mais escassos seis anos, nem tanto, cinco anos e meio. Portanto, neste janeiro de 1920, este homem, que era um homem que nós, aos olhos de hoje, isto tem tanto a ver com a França, meu Deus, era um homem que se pode dizer que era um veterano da direita republicana, um político experiente. Ele fazia parte daquilo que na época se chamava Partido Liberal. Não vamos fazer equiparações, aí não convém mesmo, com os dias de hoje, mas era um partido à direita daquilo que era o Partido Republicano Português, o Partido Democrático. E portanto, este Partido Democrático, que era na prática o partido de Afonso Costa, que controlava a sociedade e que tinha aqui uma presença que inviabilizava os outros partidos de governar. E portanto, Francisco José das Costa Fernandes era alguém que conhecia muito bem a situação económica do país, porque ele era um quadro superior da Junta de Crédito Público. Esta é uma altura em que a grave situação financeira do país leva a algo que às vezes é difícil de explicar, e explica depois também um outro grande escândalo da sociedade portuguesa, que é como é que Alves Reis consegue falsificar aquelas notas, porque estávamos numa época em que o Estado português muitas vezes tinha emissões clandestinas de dinheiro, mas também nós vamos encontrar aquilo que são as cédulas, que eram as mercearias, as misericórdias, os hospitais, as juntas de freguesia, as cooperativas, as tabacarias, emitiam uma espécie de bilhetitos, que era uma espécie de moeda, o papel moeda deles. A moeda mesmo metal é mais difícil de fazer. E portanto, o Francisco José Fernandes de Costa vai tomar posse. Na época, Lisboa o poder estava mesmo no Terreiro do Paço. Portanto, no Terreiro do Paço, ele está no sítio onde ele trabalhava, que era na Junta de Crédito Público, estão com ele os homens que também vão tomar posse. E é curioso, porque eles começam a ouvir um barulho, acham que é um tiroteio. Lisboa está em prevenção, mas não era nada um tiroteio, era só um carro que tinha feito algum barulho. Terão pensado então que as coisas estavam mais sossegadas, mas no Terreiro do Paço começa a crescer uma manifestação. Estamos a 15 de janeiro de 1920. Ainda terá sido de manhã, a manifestação começa a crescer, os manifestantes ficam muito desagradados com a constituição do governo, querem pensar em França, muito desagradados com a constituição do governo e querem até ser recebidos pelo presidente da República, que naturalmente está em Belém, mas são informados que o presidente da República não os pode receber, não se diz que não os vai receber, diz que não os pode receber. Eles vão então falar com o homem, Sá Carneiro, que deixou de ser chefe de governo. E nisto tudo, eles começam a entrar dentro dos próprios edifícios do Terreiro do Paço, onde estão os futuros ministriáveis e os antigos ministriáveis. Eles entram mesmo dentro do edifício da Junta de Crédito Público, como era o caso do homem que ia ser primeiro-ministro. Começam a ouvir muito barulho e a dado momento veem que eles estão a chegar à sua própria zona, em que eles estão, capitaneados por duas pessoas, dois agitadores, chamem do que quiserem, ligados à Formiga Branca, que eram conhecidos pelo nome de Ó Ai Ó Linda e o Pintor. E portanto, o homem que vai tomar posse como chefe de governo, vê os ativistas, por assim dizer, a crescerem pra dentro e a moverem-se dentro dos edifícios do Terreiro do Paço, capitaneados por sua excelência, o Ó Ai Ó Linda e o Pintor. Estes estavam ligados à Formiga Branca. Estamos a falar de gente que exerce a violência mesmo. Não é uma questão de uns gritos, é uma questão de violência física e às vezes matavam. É grave e terá sido essa uma das decisões que levou Fernandes da Costa a tomar a decisão que vai tomar dentro de poucas horas e que foi perceber que a GNR não vai fazer nada. A GNR estava muito bem apetrechada em termos técnicos. O que é que acontecia? Porque alguns governos republicanos, para contrabalançar o pendor mais conservador, sobretudo do exército, tinham resolvido ir municiando a Guarda Republicana, que estava transformada numa espécie de guarda pretoriana dos setores mais radicais do regime. Depois aquilo que nós conhecemos como Noite Sangrenta também não aconteceu por acaso, e o papel que nela teve a Guarda Republicana. E fosse porque efetivamente percebeu que realmente não estava para se ver confrontado perante a impassividade da GNR, com as explicações de como é que ele devia governar, do Ó Ai Ó Linda e do pintor e da multidão que eles capitaneavam. A verdade é que Fernandes Costa sai depois do Terreiro do Paço no seu automóvel, e as outras pessoas, é um cortejo, aquilo que na época se chamava um cortejo, eram uns carrinhos que iam a caminho de Belém, os carros da época tinham o estribo, e ele faz a viagem até Belém com várias pessoas montadas no estribo do seu carro e pessoas que lhe tentam mostrar que ele não deve governar como estava a pensar governar. Entretanto, a passividade da GNR mantém-se e Fernandes Costa chega a Belém, claro, onde já estava o presidente da República. A manifestação também vai prosseguindo até Belém. Há vivas à GNR, há vivas a tudo o que não tivesse a ver com o governo que ele ia tomar posse. E quando chega a Belém, Fernandes Steves Costa, cerimônia preparada, apresenta a demissão ao presidente da República. Portanto, agora temos aqui, ele considera-se que tomou posse e que imediatamente se demitiu. Pode-se discutir, pois isso são estas questões formais todas, mas eu hoje contei esta história, que não estava necessariamente a pensar contar, porque se tirarmos os adereços da época, tem muito a ver com aquela espécie de bloqueio a que chegou, por exemplo, um país que também fez de ser república, a questão estrutural do seu regime. E é curioso, porque eu penso que não há ninguém destes primeiros-ministros, que têm esta fugaz existência, que não refira sempre uma frase do general de Gaulle nestes momentos, esquecendo e tornando, sobretudo, patética a comparação. É porque uma pessoa, de cada vez que eles citam de Gaulle, fica a pensar: o que é que o de Gaulle teria feito neste momento? Ter-se-ia deixado apanhar nesta ratoeira ou não? É claro que os tempos mudam e aqui nós podemos voltar a isto que foi esta primeira república. E depois nós vamos ter, aliás, já temos em estudo um historiador, José Miguel Sardinha, que nos poderá explicar isto muito melhor, que é a forma como os próprios historiadores olham para este período da Primeira República, se foi uma revolução, se foi uma continuidade do liberalismo, se foi um episódio que nós podemos enquadrar numa espécie de decadência dos povos peninsulares, se é algo que se insere, sobretudo, as suas grandes revoltas sociais, se é algo que se insere na linha daquilo que estava a acontecer noutros países da Europa. Isso fica para quem sabe e para quem estuda. O que aqui do ponto de vista político hoje, até porque nós tivemos estas cerimônias que eu penso que teriam tido uma outra importância e relevância, como é óbvio, não estivéssemos nós em campanha para as autárquicas, porque nós estávamos aqui numa data redonda. República foi implantada em 1910, estamos em 2025, temos 115 anos. Para o ano que vem, vamos entrar já nas datas redondas daquilo que virá a ser o Estado Novo. Em 1926, não há de maneira nenhuma Estado Novo, mas há o golpe militar a 28 de maio de 1926, que depois de muita história, virá a estar na fundação do Estado Novo e portanto, teria merecido mais atenção, não fosse esta questão, até por duas ou três questões que eu gostava aqui de suscitar e que passam pelo seguinte: república chega com uma enorme expectativa. É claro que estamos a falar de Lisboa, Porto, não estamos a falar de uma revolta a nível nacional ou de uma adesão a nível nacional.
Uma adesão popular.
Não, nada disso, mas tem em Lisboa, Porto, tem uma grande expectativa e tem até uma grande expectativa criada pelo discurso daqueles que a proclamam e que, um pouco à semelhança dos franceses de hoje, estavam unidos por essa palavra República, mas depois estavam divididos por muito mais. E nós temos aqui entre uma expectativa daquilo que é criado, anunciado, declarado, e que eles repetiam incessantemente, e aquilo que depois é conseguido. E nós vamos ter aqui, a começar pela própria questão, por contraponto do progresso, da liberdade versus a monarquia atrasada, repressiva, a ditadura dos Braganças, mas na República a base eleitoral diminui face àquilo que eles chamavam a ditadura dos Braganças e que do ponto de vista da liberdade, temos de admitir que era, de facto, no dia a dia, no cotidiano, mais livre. Nós não temos nada como a noite sangrenta, nem os empastelamentos dos jornais, nem essas coisas, naquela fase da monarquia constitucional. Portanto, aqui nós temos logo essa contradição entre a própria natureza de liberdade e de progresso do regime. E depois temos dados, eu vou deixar só apenas aqui dois, e que é o grande desígnio também do conhecimento, das luzes versus o obscurantismo do passado, versus o obscurantismo da Igreja. A verdade é que a República falha estrondosamente aquele que era um dos seus grandes desígnios, que era a questão do conhecimento, da alfabetização. E falha por cegueira ideológica, na medida em que persegue, expulsa, maltrata aqueles que eram os melhores a ensinar em Portugal. Dos melhores, e não era apenas os seres melhores, eram de facto eles, porque não havia um corpo assim extraordinário. Estamos a falar da expulsão dos jesuítas, ordens religiosas, tudo isso. Há um falhanço de facto. E depois temos uma outra coisa, que se traduz também nesse falhanço, e que é aqueles que não aparecem assim tanto, não estão nas revoltas em Lisboa, não estão nas grandes manifestações, e que é o povo, o povo comum. Este é um tempo do qual se parte de Portugal. Depois dizem sempre: "Ah, mas é que houve a participação na guerra, houve a pneumónica, portanto terá sempre de haver um saldo negativo de população". Não, mas mesmo antes, a pneumónica começa em 1917, e nós já estávamos com surtos de imigração, nomeadamente na altura para o Brasil, o que quer dizer que havia aqui uma desistência. E há, de facto, um país, e Espanha é um pouco mais ou menos o mesmo, embora os indicadores não sejam sempre similares, há um ficar para trás em relação aos outros países no seu enriquecimento. Eu estou a falar dos outros países, aqui estou a falar da Europa, não estou a comparar com os Estados Unidos. E isto pode levar a uma pergunta que eu fiz hoje quando lancei aqui o programa de manhã, mas entretanto muita coisa aconteceu.
Muita, muita.
Muita coisa. E que é uma pergunta que eu às vezes tenho: onde é que nós estaríamos em 1990, que são 16 anos também sobre 74, caso não estivéssemos integrados na Europa? Onde é que teríamos ficado? Portugal, em 1910, é uma nação sofrendo todas as consequências daquilo que acontece no mundo. Essa é uma nação que é o seu Estado, não tem essa armadura.
Achas que é comparável os 16 anos da Primeira República com os 16 anos pós-74?
Longe vá o agouro.
Não.
Não, precisamente não são.
Não, eu estou a falar dos primeiros 16 anos a seguir à revolução.
Não.
Caminhava-se para alguma estabilidade.
Não, claro que não, é precisamente o contrário. Por quê? E não é por acaso. Nós vamos ver, sobretudo naqueles que são os continuadores, que de alguma forma eram, porque tinha a ver com as pessoas da área do Partido Socialista. Eram os herdeiros, apresentavam-se como os herdeiros do republicanismo da Primeira República, e de alguma forma fizeram essa mitologia da Primeira República como uma espécie de democracia avant la lettre, subitamente interrompida pela ditadura do Estado Novo. Como se, de facto, a Primeira República tivesse sido, ela mesma, uma democracia que foi interrompida por uma ditadura, sendo que o Estado Novo foi mesmo uma ditadura, mas a Primeira República não foi a democracia que se tentou dizer aos portugueses que tinha sido, mas há uma questão: a lição tinha sido aprendida. E nós vamos ver isso no pós 25 de Abril, com, em primeiro lugar, o enorme cuidado de Mário Soares em relação à Igreja Católica. Um enorme cuidado. Depois, aliás, uma pessoa que referimos aqui semana passada num programa, a eleição mais louca de sempre, teve um papel fundamental na negociação de um documento que se sabia que tinha de ser revisto. Foi revisto, foi salgado Zani que é concordada. Foi considerável.
Decisivo.
Foi muitíssimo importante. E depois temos uma outra questão que é a consciência, que se pode dizer que já vem desde muito anterior à República, que é Portugal precisa de um espaço exterior. E para mais numa altura em que, 25 de Abril, íamos perder aquilo que eram os territórios, o espaço do chamado ultramar. Mas o espaço do chamado ultramar é um espaço de expansão. E aqui a União Europeia vai ser muito um espaço também de blindagem para questões políticas. Na altura é apresentado como uma blindagem contra a possibilidade do regresso do fascismo. É assim que é apresentado, mas aquilo eu acho que é muito mais do que isso e foi muitíssimo mais do que isso. E portanto, de alguma forma, a pergunta que eu faço é: se não estivéssemos na enorme casa que é Da estrutura europeia, onde é que nós estaríamos 16 anos depois do 25 de Abril? Não acho que estivéssemos necessariamente como aconteceu na Primeira República, mas a nossa vida teria sido, sem dúvida, muito diferente, porque muitos dos nós que levaram a esta história, a estes passos trágicos da Primeira República, na minha opinião, continuam cá. Mas agora perguntas a quem sabe.
Pergunto ao José Miguel Cerveka, já que referiste os historiadores. Não sei se queres fazer esta pergunta ou se quer responder a uma pergunta destas.
Muito bom dia.
Bom dia e bem-vindo. Como é que a história olha para a Primeira República? E será que ela se foi repetindo de alguma forma?
Bom dia. Este historiador ouviu com toda a atenção aquilo que outra historiadora aqui nos disse. Eu gostava de começar por responder exatamente a essa questão. 1974, 90 é o mesmo arco temporal que durou a República entre 1910 e 1926. E de facto, em 1990, ironicamente, o país estava talvez numa das melhores situações em que já esteve entre 74 até hoje, porque justamente a Europa, de 86 em diante, deu ao país, do ponto de vista macroeconômico, social, político, deu-lhe talvez os anos de melhor surto de desenvolvimento entre 86 e 92. Agora, a Europa tem aqui uma função fundamental, antes de voltarmos lá atrás, porque a Europa, e se nós recordarmos aquilo que foi o debate que a adesão teve desde antes de 74, mas situemo-nos só a partir de 75, 76 até 85, levou 10 anos ainda, mas o debate sobre a Europa era não só aceder a um desenvolvimento econômico maior, mas a adesão era uma opção política, ou seja, era importante colocar o país na Europa, não só para compensar a perda de um império, que foi talvez a única coisa que uniu monarquia, república e Estado Novo. Todos os regimes foram nacionalistas imperiais, e compensar a perda desse império, afastar os agouros de um expansionismo espanhol ou de uma insubstantividade nossa, entrando na Europa, que era um antídoto não só contra qualquer regresso ao fascismo, entre aspas, anterior a 74, mas também um antídoto contra qualquer albanização, naquele sentido em que a Europa corrigiria os excessos à direita, mas sobretudo eventuais excessos à esquerda, como aqueles que tinham existido em 1974 e sobretudo em 75. Mas é interessante nós recordarmos a Primeira República, porque ainda hoje, malgrado ontem nós termos celebrado 115 anos de República em 15 minutos, não foram só cinco minutos como o infeliz Fernandes Costa em 1920, mas foram só 15 minutos, e 15 minutos sem retórica, ou seja, passar revista à GNR, subir à varanda, içar a bandeira, dizer adeus e ir embora. É verdade que a campanha eleitoral está em curso, mas eu acho que esta falta de atenção pela efeméride histórica ou esta desvalorização, ontem havia dois jogos de futebol importantes, à noite houve uma enorme comoção pública pelo ativismo, portanto, o dia não era simpático em termos de agenda para se falar desta efeméride, mas é pena que não tenha sido mais falada, porque falar sobre a República, e haverá outros aspectos a desenvolver, mas eu lançava pelo menos já este para a mesa. No nosso país, tanto 1910, como depois em 1926, como em 1974, mostra uma espécie de uma lei histórica que é que os regimes em Portugal não caem tanto pela solidez da oposição, caem pela incapacidade de autorreforma. A monarquia não soube reformar-se, tentou reformar-se, mas perdeu a competição no espaço público por quem representava melhor uma esperança de futuro, de desenvolvimento. Vamos ver que essa esperança depois ficou largamente incumprida. Mas do ponto de vista da agenda midiática, quem dominava o debate público em Lisboa era uma opinião pública muito republicanizada. Portanto, a monarquia não foi capaz, tentou quase até o fim, tentou até 1908, quando Dom Carlos foi morto, mas tentou de facto sintonizar o país com aquilo que eram tendências lá de fora, aquilo que era um século XX que estava a chegar e que tinha desafios novos, industrialização, massificação, democratização. Nós estamos a falar de uma monarquia que se quis democratizar e que tentou, mas os republicanos simplesmente explorando a questão social, explorando diversos escândalos financeiros e políticos, dominando o mundo da imprensa, a República foi capaz de instrumentalizar uma opinião pública muito politizada em Lisboa e Porto, talvez, mas sobretudo dominando o espaço urbano, o espaço de quem lê, de quem fala, de quem conhece alguma coisa E a monarquia perde essa corrida para uma república que não era nada inevitável, contrariamente àquilo que também nós às vezes lemos, que desde os anos 70, 80, particularmente com o chamado Ultimato, ou seja, o escândalo com a Inglaterra, que em 1890 obrigou o país a renunciar àquela que era a ocupação do interior da África, entre Angola e Moçambique, e como se desde o Ultimato tivesse havido uma espécie de ascensão inevitável, como se nós contássemos a história de 1910 a partir de 1890 como uma inevitabilidade. Nada era inevitável. A República, ou a hipótese da República, surge no meio de muitos acidentes e de muitas hesitações entre uma ala mais moderada, uma ala mais ativista. O facto é que no 5 de outubro de 1910, o regime político em Portugal mudou. Setecentos e cinquenta anos de monarquia chegaram ao fim, mas a incapacidade da monarquia em autorreformar-se, que é o que dita, ao fim e ao cabo, a vitória, e uma vitória muito acidental e quase anedótica republicana na manhã do dia 5 de outubro de 1910.
Desculpe interrompê-lo. Há detalhes, é uma espécie de revolta nos quais os chefes tinham morrido.
Exatamente.
O extraordinário é que um dos principais chefes, que é o almirante Reis, que nós conhecemos os cartazes por todo lado, suicidou-se porque achou que ele tinha falhado.
O Miguel Bombarda tinha sido morto por um doente.
Mas aí não tem nada a ver com isto.
Não tem nada, mas era um líder importante. Mas, sobretudo, o caso do almirante Reis é um...
Sim, achou que o golpe não iria ter êxito e, portanto, suicida-se na manhã de dia 4, 24 horas antes da sua vitória.
Do desmoronar.
E aquilo que se passa depois, quando nós saltamos para 26 e para 74, é um pouco isto. É uma república que tinha entrado em 1910 com um marketing político enorme, a mudança, democratização, desenvolvimento, cultura cívica, que falha. Falha por erros exclusivamente seus e por azares alheios, também. Mas em 1926, o regime estava de tal maneira bloqueado que, de facto, houve que apelar para a única força que poderia desempatar as coisas do ponto de vista político, que eram as armas, e daí o golpe militar de 1926. Como se saltarmos para 1974, a chamada Segunda República, e aqui a polêmica também ainda divide a direita e a esquerda, de saber se o Estado Novo pode ser chamado uma república ou não, constitucionalmente era uma república. Salazar, aliás, cooptou parte de um republicanismo moderado, garantindo que a forma não seria alterada nunca e, portanto, continuou a ser. Salazar inclusivamente manteve-
Carmona vem dessa-
Carmona vem dessa.
E até vem da maçonaria.
A bandeira e o hino continuaram a ser os mesmos, portanto, não se tocam. Foram aqueles aprovados oficialmente em 1911, mas em 1974, o que se passa é também isso, a incapacidade de um regime de se autorreformar, apesar de todos os ventos de suposta renovação ou liberalização a partir de 1968. Portanto, para voltar ao meu ponto, é sempre importante recordar esta história, porque ela é um estudo de caso de como os regimes em Portugal caem, e caem de uma maneira muito acidental. Ninguém diria, se calhar em 1904, 1905, 1906, 1907, que a República viria dali a dois anos. João Franco, que lidera o governo último do Dom Carlos até fevereiro de 1908, no exílio dirá que o cabo da vassoura ficou em mãos republicanas logo a partir de 1908. A Câmara de Lisboa era republicana, por isso é que no dia 5 de outubro eles não vão a São Bento, vão para a varanda da sua casa, porque a vereação já o era. Mas os regimes em Portugal caem muito rapidamente, ou seja, basta um episódio, uma revolta, basta um herói solitário. Em 1910 chamou-se Machado Santos. E é muito interessante em relação a esta ideia, se a República foi um golpe militar com um largo apoio cívico, uma revolução, é ele que diz que quando regressou à Rotunda no dia 5 de outubro à tarde, no dia anterior tinha lá 400, 500 homens. No dia 5 de outubro à tarde estavam lá 5 mil. Portanto, eles começam logo a explorar a estranha e surpreendente multiplicação de republicanos. Eles, aliás, acusarão muitos monárquicos de serem adesivos, ou seja, monárquicos que aderem à República. Mas o curioso é que muitos dos republicanos eram adesivos também, porque provavelmente ou não eram nada, ou eram monárquicos até ao dia 4 de outubro de 1910 e de repente, no dia 5, descobriram em si uma alma republicana enorme, um pouco à semelhança do que vai acontecer em 1926 e um pouco à semelhança do que também aconteceu em 1974. Portanto, quando nós pensamos como é que a monarquia, 750 anos, cai com um golpe semi improvisado, com líderes que abandonam o golpe, com Afonso Costa, que há de emergir como uma das grandes figuras do regime a partir de 1911. Afonso Costa, que na noite do dia 4 de outubro andou por Lisboa a tentar obter informação, ainda fretou um bote para o levar a um barco Porque ele também temeu que o golpe não tivesse êxito e que ele tivesse que fugir. E é Afonso Costa que, não direi no dia 5 de outubro, mas no dia 6 de outubro, renasce como líder natural daquele regime. Ele depois será ministro, sobretudo em 1911, depois liderará governos, de tal maneira que entre 1911 e 1917, nós designamos a chamada República Velha, que é a República Afonsista. Quem estudou a figura de Afonso Costa diz que ele não mexeu um dedo para que o 5 de outubro fosse um golpe vencedor. Ou seja, também há aquela história de: há um herói militar solitário que faz o golpe com alguns homens e depois há uma corrida para ver quem é que instrumentaliza essa vitória, qual é a República que aí vem. Porque havia republicanos moderados e havia republicanos da revolução, aqueles que queriam um golpe, que queriam expulsar a monarquia, a igreja. E o que nós vamos ver é a política de exclusão afonsista, ou seja, a República para republicanos, ou como dirá expressivamente outro importante republicano de seu nome, José Relvas: "O país é para todos, mas o Estado é para os republicanos." Ou seja, o Partido Republicano percebeu que ia governar um país cercado. Cercado naquele sentido em que o republicanismo é um fenômeno letrado, urbano, burguês, é um fenômeno circunscrito e por isso a política de Afonso Costa vai ser a política de entrincheirar o regime numa elite fechada, alienar um país inteiro, combater a igreja, combater monárquicos. Recuar naquilo que tinha sido o discurso republicano, já que foi levantada essa questão, mas desde o sufrágio, que recua a níveis nunca vistos. O sufrágio, não direi universal, mas o mais alargado é a chamada reforma de 1878, pela qual passam a votar nos homens cerca de 78%. Portanto, homens adultos letrados, 21 anos. Nas segundas eleições republicanas, não as de 1911, o sufrágio desceu, em termos de sufrágio masculino, para 28%. E como diziam os republicanos em geral, bastava ganhar Lisboa e talvez o Porto com 150 mil votos, o governo estava feito. Eu já aqui o disse, provavelmente a propósito de um outro tema, se nós substituirmos os 150 mil votos hoje por se calhar dois milhões, é aquele eleitorado citadino, minimamente informado, dependente do Estado, do funcionalismo público. Não havia Estado Social na altura, portanto não havia reformados naquele sentido em que nós hoje usamos o termo, mas continua a ser uma participação e sobretudo uma decisão política muito restrita e de um país que em 1910, e se calhar nos dias de hoje, continua a estar ao largo daquilo que é o debate ideológico. O sufrágio recuou, as leis de imprensa recuaram com as primeiras incursões monárquicas, logo há leis de exceção que permitiam suspender jornais, censurar textos. E aquilo que era apresentado como uma exceção, torna-se uma espécie de rotina. Com a guerra, há mesmo uma censura, mas todos os países têm censura entre 1914 e 1918. Mas depois quando acaba a guerra, há uma lei muito generosa para a imprensa feita pelo governo Relvas em 1919, mas a perseguição aos jornalistas, os chamados empastelamentos. Não houve imprensa livre, verdadeiramente livre, a não ser a espaços limitados. O mundo operário, do qual se falava muito em 1907, 1908, 1909, a questão social, a habitação, salário, tudo isso a República anunciou vir a resolver. Afonso Costa passa a história com o muito pouco simpático cognome de racha sindicalistas. Por quê? Porque quando ele começou a perceber que a classe operária desconfiava daquela república burguesa, elitista, e que o direito à greve, codificado pela lei, não era respeitado, o lockout, a perseguição, a Formiga Branca, que era uma espécie de milícia radical armada, carregava sobre eles. É óbvio que Afonso Costa e a República começam a recuar, porque se veem cercados por conspirações monárquicas, pela Igreja. Afonso Costa chega a anunciar um discurso de 1911, ainda hoje muito polêmico, porque se nós lermos alguma historiografia mais republicana ou jacobina, nega-se isto e diz-se que é uma lenda, que é uma fake news. Mas há suficiente evidência de que Afonso Costa, de fato, pensava, e disse-o, que em duas gerações a Igreja Católica e o catolicismo iriam ser extirpados. Portanto, não era só a Igreja, era o catolicismo enquanto ingrediente mental. Isto num país onde, segundo o censo de 1901, 98% a 99% das pessoas, mesmo que não fossem à igreja, era a mundivisão delas.
Desculpa só interromper aqui, quando diz coisas, a repressão das greves, a repressão terá sido muito mais violenta, sobretudo na repressão das greves do campesinato, no Alentejo, no Algarve, Évora, dos Tremores, que é muito violenta. Eu sei, tinham existido atentados, mas É preciso que se entenda que houve comboios que circularam em Portugal com um vagão à frente onde iam sindicalistas. E eles não iam de sua pura e livre vontade, tinham sido presos. Eles iam ali, e pessoal também da CP, que eles achavam que estava associado aos terroristas, para o caso de haver um atentado, eles seriam os primeiros a morrer. Há fotografias, isto está documentado. Em relação a esta questão da igreja, isso é muito curioso no fenômeno de Fátima. Por exemplo, o povo faz uma capela, que já não existe, e essa capela sofre um atentado. É posta uma bomba pelo Centro Republicano. E depois aquela árvore, a azinheira, aquilo é cortado, são feitas umas coisas que nós hoje acharíamos muito soviéticas, que são levadas as coisas de lá, depois fazem-se umas paródias com aquilo que está em Fátima, faz-se uma espécie de uns carnavais com a colaboração das autoridades, e depois é óbvio que isso só faz aumentar o número de pessoas que estão na peregrinação seguinte, do 13 de maio. Nota-se muito essa questão de achar que se podia acabar com a religião, é muito evidente na forma como, por exemplo, o regime viaja Fátima.
E é não só a expressão de um republicanismo que se entendia a si próprio como espécie de milenarismo laico. Ou seja, a República não era apenas a mudança de uma chefia de Estado dinástica para uma chefia de Estado eleita, não era apenas mudar instituições, não era o aparato exterior. A República implicava um homem novo, implicava um cidadão novo, um cidadão emancipado de tudo aquilo que era visto como superstição. E a Igreja, o anti-jesuitismo, sobretudo, era muito forte, porque a Igreja competia com o sistema mental entrincheirado, importante, que dominava, no bom sentido, o ensino. Tanto que, só para dar dois números que também são importantes, o analfabetismo em Portugal entre 1900 e 1910, portanto, numa década, desceu 4,2%. Mas entre 1911 e 1920, ou seja, na década republicana, desceu 4,1%. Portanto, factualmente, o analfabetismo diminuiu tanto na última década monárquica como na década republicana. E a chamada escolarização, ou seja, aqueles que iam à escola, 22% em 1900, 28,2% em 1910 e 29,7% em 1920. Portanto, a monarquia efetivamente escolarizou mais pessoas na sua última década do que fez a República entre 1910 e 1920. Certo, a situação económica era dificílima. Existe a guerra entre 1914 e 1918 e, portanto, fosse república ou fosse de outra forma qualquer.
Há uma possível explicação para isso ter acontecido, que é: há muitas famílias que precisamente por causa do lado antirreligioso, não é laico, é antirreligioso, que foi dado a um sistema de ensino, tiram os filhos das escolas.
As famílias mais ricas que mandam os filhos estudar na Inglaterra.
Não, estamos a falar de todas.
Mas, por exemplo, as mulheres ficaram sem ensino.
Mesmo as mais rurais. De tal forma que, apesar de formalmente o número de anos de escolaridade básica ter diminuído com o Estado Novo, a escolaridade passou de quatro para três anos, a escolaridade aumenta imenso, porque deixa de haver essa barreira, que era uma barreira psicológica.
Com a expulsão das freiras ou com o fim das ordens religiosas femininas, as meninas ficaram de fora.
Vamos continuar a explorar algumas destas características da Primeira República e falávamos da educação, mas José Manuel Fernandes, fez algum paralelismo entre a Primeira República e os problemas da Primeira República com os tempos atuais?
Bom dia, Carla. Olha, acho que há aqui uma questão crítica que o José Miguel falou aqui um pouco, e que é a capacidade de os regimes serem capazes de se reformarem ou não, de encontrarem ou não energias suficientes para isso. A Helena recordou o que está a passar em França, na altura em que foi a Revolução Portuguesa, digamos, a Revolução Republicana, a Europa era monarquias. Havia França, que era uma república e várias vezes não correu bem. E hoje em dia a regra é outra. A maior parte dos Estados são repúblicas, mas em Portugal, concretamente, aquilo que me parece que é algo que não vivemos há muito tempo, é que somos, tal como a França, de alguma forma, um país que tem dificuldade em fazer reformas e só se é capaz de fazer ou revoluções, ou golpes de Estado, ou rupturas radicais, partir para novos regimes. A França vai na Quinta República, nós estamos na Terceira, Espanha acho que é a Quarta. Portanto, há às vezes estas dificuldades. O que nós temos neste momento em Portugal, porventura, em termos de regime estável, o mais longo de todos. A monarquia constitucional durou muito tempo, mas com muitas revoluções Períodos muito conturbados pelo meio. O regime democrático já tem, enfim, não se compara com a Primeira República, também muito mais anos do que o Estado Novo, até porque o Estado Novo deve ser contado basicamente a partir de 32. Não é exatamente, 31, 32. Estamos numa fase em que muitas vezes eu interrogo-me até que ponto é que nós continuamos a manter as estruturas democráticas apenas por nós ou porque estamos amparados na União Europeia, que de alguma forma é algo que as pessoas sabem que não podemos fazer uma rutura com isso. Mas isso não nos ampara só a nós, ampara um conjunto de outros países na Europa, que porventura alguns deles até estão em fases de inconsciência democrática mais avançada. Ainda este fim de semana tivemos uma eleição na Chéquia, que deu um resultado importante, nunca nenhum partido tinha tido uma percentagem tão elevada de votos como teve o partido do senhor Babis, e o partido do senhor Babis é um partido difícil até de classificar. Já o vi classificado como sendo populismo de centro-esquerda, já o vi classificado como populismo de centro-direita. Ou centro-direita, ou direita, enfim, há ali uma mistura de coisas diferentes, mas isto tem muito a ver com algo que já se dizia relativamente à República, com maior gravidade para a República e também para a monarquia. É que quando os regimes, de alguma forma criam expectativas a que depois não são capazes de responder, criam também descontentamentos que podem ir crescendo. Há algo, no entanto, que nos diferencia de forma radical, e não é apenas a União Europeia, dos períodos em que ocorreram estas ruturas, que são como um castelo de cartas. Repara, nós descrevemos aqui o que foi o golpe da revolução, enfim, é mais um golpe que uma revolução do 5 de Outubro, mas o 28 de Maio de 26 também é uma-
É uma anedota
...é uma descida sobre Lisboa. Enfim, quase imparada. Não há resistência ao que aí vinha.
O que é mais impressionante nesse golpe, que é muito mal organizado, aquilo tinha havido um encontro em Braga, uma coisa religiosa, eles estão lá todos, depois vêm pra Lisboa. Mas o que é impressionante e dá conta de uma coisa que foi aqui referida pelo José Miguel Sardica, e que eu definiria quase como o esgotamento pelo cansaço das elites republicanas conservadoras. Eles fazem o acampamento fora de Lisboa, no golpe de 26. Não estão no centro de Lisboa, fazem o golpe ali, para aquilo que agora são os terrenos de Sacavém. Têm ali o seu acampamento, até porque é um golpe que vem com tropas, cavalarias, aquelas coisas todas. Claro, e o Gomes da Costa de cavalo. E então vão lá, e é procissão de gente que os vai lá visitar, porque eles não entram logo em Lisboa, aquilo demora o seu tempo. Estão lá não sei quantos dias, não são assim muitos, mas estão lá. Quer dizer, não há grande resistência.
Repara, e é um golpe sem programa.
Sim, é um golpe sem programa. Só tinham um programa, que era arranjar um empréstimo. E então, estão lá e tu começas a ver nos jornais: fulano de tal foi visitar. Portanto, há uma série de gente, aquela que era a elite do regime, que dado o effront demand, o desfazer do regime, se põe a caminho de quem lhe parece que vai agora governar, e vão lá fazer uma espécie de apresentação, que eu estou aqui. Essas pessoas tinham estado, eles não são vira-casacas no sentido depreciativo do termo, na minha opinião. Também o serão, mas o país tem que ser governado por alguém, e então vão visitar.
Tinha acontecido com a monarquia algo parecido. Quando é assassinado o rei Dom Carlos, com o assassinato cai a última tentativa de, de alguma forma, reformar o regime, que é com João Franco, que era chefe de governo. João Franco passou a ser visto como uma espécie de diabo na Terra. E depois, já o tempo do rei Dom Manuel II é quase que uma cedência, é ver se isso se aguenta, basicamente. Não aguentou. No fim da República, do ponto de vista da República, tem uma vida superconturbada, tem um primeiro-ministro assassinado, um presidente assassinado, portanto, é mesmo uma tragédia seguida. Mas talvez, porventura, o momento moralmente mais crítico é a Noite Sangrenta. É 21, é em outubro também, é quando a Caminha de Fantasma, quando o próprio Machado Santos é assassinado. E a partir daí aquilo arrasta, nem é aguenta-se, arrasta-se mais quase cinco anos. Não chega a cinco anos, quatro anos e meio. E nós temos uma percepção de que o que aconteceu também no final do Estado Novo, com o Marcelismo, é que já não tinha solução, já não saía dali. Ao princípio, ainda há aquela ideia, talvez dê, mas não, depois não sai dali. São regimes que caem com piparote. Eu creio que não nos vai acontecer isso por várias razões. Estamos na União Europeia, os exércitos já não fazem cair, em nenhuma parte, nenhum lado do mundo mais desenvolvido, fazem cair quem quer que seja com piparotes, portanto, têm uma cultura de tipo diferente, já não são messiânicos como noutros tempos E temos algo que também na minha perspectiva é muito diferente e ao mesmo tempo é uma razão de inquietação e de tranquilidade, é que nós somos sociedades envelhecidas. E as sociedades envelhecidas não querem solavancos revolucionários deste gênero. Também não são capazes de se reformar, portanto, envelhecem e de alguma forma definham. Podem definhar. Nós tivemos na semana passada indicações sobre o que seriam as nossas perspectivas demográficas de poder chegar ao fim do século com metade da população. Isso está a acontecer em todo o mundo. O que isso significa? Nós podemos até dizer que é uma boa notícia, vamos ter menos gente a pressionar a habitação, a comida, essas coisas todas. Mas até lá vai ser duro. Estamos a viver momentos muito complexos. Não creio que não estejamos à beira de qualquer tipo de revolução, porque as circunstâncias não são para isso, não temos massa social para isso, não temos forças armadas para isso e não temos uma Europa para isso.
E temos a classe social farta, potencial. Toda a gente tem algo a perder se houver uma mudança subversiva da ordem, mas as pessoas mostram disponibilidade em termos eleitorais para terem revanchismos eleitorais.
Sim, podem zangar-se, podem eleger pessoas que até dizem que vão mudar isto tudo, mas depois aquilo acaba tudo por ficar. Quando nós olhamos para o que se quer fazer, olha-se para França, se calhar vamos ter que voltar a esse tema aqui no programa, mas olha-se para França e a perceção com que se fica é: como é que eles saem dali? Eles estão a caminho de ter lá o FMI, só que o FMI não tem dinheiro suficiente para um país do tamanho da França. Mas é o que eles precisavam, levar um tratamento como nós tivemos, já por três vezes. Mas em França, por vontade própria, eles não chegam lá. E ao mesmo tempo percebes que eles têm uma quantidade de pessoas que não quer mudar nada e ao mesmo tempo, apesar de tudo, ainda têm alguma economia.
Estão felizes com a manie de la grandeur.
O problema é o estado de fomentário.
Esta tentação das comparações é mesmo inevitável. Nós temos o professor António José Tel também em linha conosco. Bom dia e obrigada por estar aqui conosco. Há sempre esta tentação de olhar para estes momentos históricos e falávamos aqui de que há uma incapacidade em Portugal de os regimes se autorreformarem. Foi isso que aconteceu na Primeira República e foi isso que, de alguma forma, foi também acontecendo noutros momentos históricos.
Aconteceu sempre.
Sempre.
Ou seja, em Portugal as mudanças de regime são sempre a partir da rua ou a partir de uma mistura de rua com militares ou a partir de militares. Desde a crise de 1483, 1640, etc. Então na época contemporânea, evidente. Nunca houve nenhum regime em Portugal que se autorreformasse de fundo. Alguns tentaram e fizeram reformas significativas. Estou a lembrar, por exemplo, da Regeneração, da monarquia liberal, mas de qualquer modo foi a partir de um movimento militar que essas reformas foram pedindo. Para conseguir o ímpeto para essas reformas se aplicarem, foi o movimento militar. Já agora, a Primeira República tem, de facto, muitas semelhanças com a atualidade em muitos aspectos. Em primeiro lugar, deixe-me mencionar dois aspectos que, em regra, existe uma ideia errada sobre o que era a Primeira República. A Primeira República não era um regime democrático. Isto dentro do que na Europa, na altura, 1910 a 1926, considerava-se ser um regime democrático. Por quê? Era um regime, em primeiro lugar, que não tinha liberdade de expressão. Era um regime que tinha optado por um sistema de autodefesa, que era o sistema de permitir exércitos privados. Logo, assim que se criou, os exércitos privados foram mantidos e foram passados, financiados diretamente, normalmente pelo Ministério do Interior, mas por outros ministérios. Ao princípio, eram exércitos privados por civis armados, exércitos privados ligados ao regime republicano, em regra, ao Partido Democrático, o mais radical dos partidos republicanos, mas depois cresceram, porque os outros partidos começaram a ver que ou nós criamos o nosso exército privado ou então não conseguimos fazer nada. E portanto, as coisas decidiam-se na rua e sempre se decidiram assim durante a Primeira República, na rua. O que não é muito para admirar, porque quem votava na Primeira República era 5% a 10% da população, ou seja, era muito pouco. Com uma agravante, que nós hoje consideraríamos completamente antidemocrática, é que o voto é público. Ou seja, como cada lista fazia os seus próprios boletins de voto, quando um desgraçado de eleitor depositava o voto na urna, toda a gente sabia em quem ele estava a votar. E obviamente, a partir daí poderia exercer as pressões. "Então tu foste votar no não sei o quê", etc. E controlavam o voto a partir daí. Portanto, era um regime extremamente violento. No final da República, 1926, haviam pelo menos oito exércitos privados no espectro que ia desde o que nós hoje classificaríamos de extrema-direita até extrema-esquerda, em que, de facto, os mais fracos eram os republicanos moderados, por exemplo, não cabeçadas, normalmente cabeçadas, mas de facto eram os exércitos privados que decidiam. E no final da República, quase todos esses exércitos privados concordavam numa coisa: temos que derrubar este regime. Não concordavam era o que é que vem a seguir. Mas que temos que derrubar este regime era a opinião generalizada. Aliás, aconteceu uma coisa quando foi o 28 de maio, é que o governo não se defende O governo a única coisa que tenta fazer é que o poder seja entregue a cabeçadas, que era quem estava mais próximo ideologicamente do governo, ou almirante cabeçadas, entenda-se, e por isso simplesmente não consegue. Portanto, isso não era propriamente um regime democrático, mesmo à luz do que era de regra na Europa de então. Com uma eventual exceção, que é o período a seguir à Primeira Guerra Mundial, em que a Europa é uma grande confusão, aparecem os Soviets, aparecem revoluções por toda a parte. Aí sim, podemos dizer que o regime português não era muito diferente de muitos outros regimes europeus. Mas sem esse curto período, a seguir à Primeira Guerra Mundial, não era. Depois, uma outra noção completamente errada é a ideia de que os republicanos estavam muito bem com o nosso solar aliado, que era a Inglaterra, ou Reino Unido, como diríamos hoje. Não estavam. O Reino Unido, desde o primeiro momento, considerou aqueles republicanos que tomaram conta do poder como um perigo e considerou-os como uns indivíduos altamente incompetentes, altamente corruptos e que iriam criar problemas nas relações com o Reino Unido. E, de facto, criaram. Só vou dar um exemplo, não temos tempo para mais: forçaram o Reino Unido a aceitar a protecção inglesa portuguesa, coisa que o Reino Unido não queria, a Inglaterra não queria, de modo nenhum queria. E portanto, eles conseguiram forçar. Claro, pagaram o preço a seguir. Pagaram o preço e pagaram um preço muito forte. Nomeadamente, o preço que pagaram foi quando surgiu o regime de Sidónio Pais. Eu tenho documentos do governo britânico que dizem: " Finalmente foram-se embora os republicanos. Ainda bem. Temos que apoiar este novo poder e impedir que o Costa volte ao poder". Portanto, isto é dito nos documentos internos, quer do Foreign Office, quer do War Office, ou seja, os dois principais ministérios que tratavam com Portugal. E é dito pelas figuras máximas desses ministérios e indivíduos que na altura faziam parte do gabinete de guerra. O gabinete de guerra era um governo pequenino, que era quem decidia a posição da Inglaterra na guerra. Portanto, essas duas ideias são extremamente erradas. Nós ainda hoje temos uma ideia do que era a República, que é uma ideia muito ideológica, muito marcada ao cabo pela ideologia atual. E como a ideologia atual enfrenta um problema grave, que já vou mencionar a seguir, significa que tem uma ideia deturpada da Primeira República. A Primeira República, aliás, tinha uma outra característica muito curiosa: é que no papel era a coisa mais democrática que podia haver, só que não era aplicado. Pura e simplesmente não era aplicado. O que estava no papel não era aplicado, ninguém aplicava e quem tentasse aplicar era espancado na rua. Se conseguisse escapar com a vida, tinha sorte. Portanto, essa era a realidade da Primeira República e foi desde o primeiro ao último dia a realidade da Primeira República, inclusive no regime de Sidónio. O regime de Sidónio no final também recorria aos cafeteiros, que na rua tratava da oposição, tratava com pancada, como é evidente, e à censura. Portanto, isto foi uma generalidade durante todo esse período. Foi um período muito conturbado, muito violento. E se existem hoje ideias erradas sobre esse período, deve-se a duas coisas: a uma adesão da população portuguesa à ideia da República, por oposição à ideia de monarquia. Quando digo da população portuguesa, não é de 100%, mas é da maioria. Mas não àquela primeira república que, de facto, foi um exemplo triste do que podia e devia ser uma república democrática. O que se passa hoje? Nós hoje estamos numa altura em que, goste-se disso ou não, o mundo mudou. Não é que está a mudar, é que já mudou. E mudou drasticamente. Mudou em praticamente tudo. Mudou na ideologia, mudou na economia, na defesa, na segurança, nas mentalidades, etc. Simplesmente, esse mundo que mudou ainda está, no essencial, no caso da Europa, governado pelos partidos ligados ao mundo politicamente correto, ao mundo antigo, ao mundo que ainda não tinha mudado. Estão a adaptar-se. Já perceberam que se não se adaptarem minimamente, são varridos nas próximas eleições. Estão a adaptar-se em relação, por exemplo, à imigração, em relação à pauta e à proteção pautal, em relação a vários aspetos, eles já perceberam que se estão a adaptar, mas estão a adaptar-se muito lentamente para um mundo que já mudou. O mundo não fica à espera, o mundo avança. E avança independentemente das noções que as pessoas têm. E depois, o que acontece? Essas pessoas dizem: "Os que querem coisas diferentes são todos uns radicais, ultrarr radicais, fascistas, etc." Sempre foi assim. É a regra e é o normal. E aqui vai acontecer aquilo que já aconteceu outras vezes na Europa. Por exemplo, estou-me a lembrar da Europa depois da Primeira Guerra Mundial. Houve dois tipos de Estados. Houve Estados que se adaptaram à mudança da sociedade e conseguiram manter a democracia. O melhor exemplo é o Reino Unido, mas também a Suécia, parcialmente a França, e houve os outros que não se adaptaram, que pura e simplesmente disseram: "Não, isto continua tudo igual, não temos que fazer adaptações de fundo, não temos que fazer reformas de fundo". O resultado foi o crescimento das ditaduras. Desde o fascismo italiano, que foi uma das primeiras, depois até Espanha, até Portugal, até a Alemanha, já um processo adiantado em 33. Mas foi isso que aconteceu. Ou seja, quem se adapta à mudança e quem cavalga a onda de mudança pode, tem hipóteses, se fizer as coisas certas, de sobreviver e de determinar as regras do novo mundo. Quem não o faz, quem se puser de frente à onda e disser: "Não, cravar os pés na areia e aguentar a onda". Se a onda for pequena Ele aguenta-se de forma muito grande essa fita. Está levado pela onda, sabe Deus onde irá parar.
Professor António José Taylor.
E nisso até há uma situação muito semelhante ao que era no final da Primeira República.
É o que acontece. Muito obrigada, professor António José Taylor. Muito importante ouvi-lo aqui nesta descrição e nesta onda. José Miguel Serzica, esta ideia aqui deixada no papel da Primeira República era ótima e depois a Constituição era boa, mas os homens não a conseguiram aplicar.
A Constituição e as leis em geral, ou seja, governava-se para uma sociedade e um país fictícios. Nós, aliás, temos a característica de termos regimes que fazem muitas leis. As leis têm que ser sempre revistas, é preciso haver novas leis. Quase como se a ação política fosse apresentar uma nova lei.
Vem um pouquinho daí.
Já vinha de antes, já vinha desde o século XIX. O que é preciso é que haja um elã e uma coisa nova. Se esse elã, se essa energia ou se essas leis aderem à realidade ou não, não se sabe. Por exemplo, para a África faziam-se imensas leis. Estou-me a lembrar de uma citação feita pelo Douglas Wheeler, que era um estudioso destes anos, em que ele cita um político, penso que em Angola, que dizia que em Angola existiam mais leis do que mosquitos. E portanto, esta imagem de que o que era preciso era fazer leis sem cuidar daquilo que de facto essas leis conseguem num país que, também vale a pena reconhecer, era evidentemente muito pobre, analfabeto e onde, portanto, se calhar a complexidade da cultura cívica republicana era difícil de entender, mas era também difícil reformar instituições. E nós hoje continuamos a oscilar e isso vê-se na maneira como recordamos estes anos de 1910 a 1926. Há a narrativa à esquerda, que é de facto aquela que se calhar ainda é dominante, porque há uma simpatia pelo republicanismo, como se o republicanismo fosse intrinsecamente mais democrático do que aquilo que existia. Ou seja, a monarquia em Portugal era o antigo, a república é o futuro e o novo. Se calhar vale a pena lembrar o quanto, ainda nos dias de hoje, há muitas monarquias europeias que são democráticas e que têm uma qualidade democrática, social e económica superior às repúblicas. A nossa república, a república em França, a Itália, que é um caso republicano também muito instável. E nós continuamos a oscilar entre a narrativa de que a república foi um regime democrático, futurista, desenvolvimentista, atraiçoado por azares alheios, a guerra e a improbabilidade que a guerra ou o caos social que a guerra vai lançar, embora o guerrismo tenha sido uma opção política, levar o país para a guerra, não só para valorizar a república face à vizinha Espanha neutral, para defenderem a África, mas sobretudo para fazer figura na Europa, ou seja, para conseguir uma legitimação lá fora sem Afonso Costa, porque é dele, e não só, mas é sobretudo o próprio afoncismo, que vê na guerra uma maneira de engrandecer o regime e sobretudo de resolver contradições internas, porque enquanto há guerra, evidentemente que o debate político interno e as oposições internas têm de se silenciar. O governo que vai para a guerra é um largo governo de reconciliação nacional chamado União Sagrada, mas a União Sagrada desuniu profundamente o país pelo impacto económico que essa guerra teve. Mas independentemente de haver guerra ou não, a República cometeu os seus próprios erros de se ter fechado, de ter negado com a prática muito daquilo que tinha anunciado nas leis e na fase da ascensão ao poder até 1910, o sufrágio, os direitos das mulheres. É uma das grandes retóricas até 1910. As mulheres não vão ter acesso ao voto, quando um pouco por toda a Europa, o sufragismo começava a dar voto feminino. Em Portugal não se podia dar voto às mulheres, porque dar voto à mulher era dar voto ao padre, ou seja, atrás da mulher pela confissão, pela educação.
Isso foi dito no Parlamento.
Pois foi dito.
Foi dito, não foi assim uma coisa...
Não se pode dar voto às mulheres.
É ir consultar os diários do Parlamento, está lá tudo.
Entre outras coisas politicamente incorretíssimas que não são citáveis. E portanto, nós continuamos a oscilar entre a visão de uma república incompreendida, de uma república que foi depois sabotada por uma espécie de conspiração reacionária a partir de 1918 com Sidónio. Sidónio não é uma ditadura contra a democracia republicana. Sidónio é a tentativa de abrir um monopólio político que Afonso Costa tinha fechado até aí, incompreendido também, assassinado em 1918, e portanto, cai sobre o país uma espécie de conspiração sinistra a partir de 1926. Ou então, nós temos que passar a considerar a República como, de facto, um estado de coisas eternamente revolucionário, que nunca se conseguiu consolidar, o que aliás é também um padrão político em Portugal, porque repare-se, em 1974 houve um golpe e houve uma revolução que dura dois anos ou 17 meses, até 25 de novembro e depois com a Constituição em abril de 76. Durou dois anos O golpe de Estado de 1926 vai também durar numa situação chamada ditadura do exército, vai durar seis, sete anos até ser constitucionalizado o Estado Novo. Se calhar o problema republicano é que nunca passou da revolução fundadora para um regime viável e, portanto, teve 16 anos de revolucionarismo endémico, de sectarismo endémico. Eu tenho aqui alguns números que acho que dizem tudo. Em 16 anos nós tivemos em governos, foram 45, o que dá uma média de quatro meses cada um, e muito instáveis a partir de 1918, 1919. Chefes de governo foram 27. Intentonas, conspirações e golpes, também 20 e tal, algumas com êxito, outras sem êxito. Assembleias dissolvidas por força civil ou por intervenção militar foram sete. E mesmo chefes de Estado, oito. Só António José de Almeida conseguiu fazer um mandato inteiro, quatro anos, entre 1919 e 23. Portanto, com esta instabilidade, já lhe ouvi chamar também à República de 1026, uma República de Weimar latina, ou seja, comparável com a situação alemã, que a seguir à guerra produz um episódio republicano, democrático ou tentativamente, que é a chamada República de Weimar, e a República de Weimar, com a situação económica, a hiperinflação, o cerco à direita e à esquerda, a República de Weimar é a estrada aberta para a ascensão de Adolf Hitler. Portanto, nós não tivemos um Adolf Hitler, mas também tivemos uma estrada aberta e a partir de 1919, 2021, isso é absolutamente lógico. Ou seja, a questão não era se a República ia cair, era quando é que ia cair e como. E já aqui foi referido, 1926. Há, de facto, um quase consenso nacional em recusar aquilo que existia. A grande questão que se colocou em outubro de 10, em maio, junho de 26 e em abril de 74 é: há muita gente que está unida por aquilo que não quer, mas não se sabe ainda o que é que se quer e sobretudo é no que é que se quer. É no dia seguinte à vitória destes golpes, 10, 26 e 74, que o debate político começa e que, portanto, a divisão também começa. Eu acho que a situação é comparável com hoje. Não quer dizer que amanhã vai existir um golpe, não é isso. Mas é comparável ou pode ser comparável, ou nós devemos ler sinais e, portanto, é pena que o nosso 5 de outubro de ontem tenha efocado 115 anos, mas não tenha havido alguma reflexão cívica ou pelo menos uma intervenção pública. Para voltarmos ao João Franco, que vai para o exílio e depois escreve um importantíssimo livro em 1924, que são as cartas que o Rei Dom Carlos e ele tinham feito circular entre 1906 e 1908. Ele edita as cartas. São um best-seller enorme. Foi um dos livros mais vendidos em Portugal em 1924. Toda a gente correu a ler as explicações do exilado de 1908, do abandonado de 1908. E João Franco edita as cartas e depois faz alguma análise política e ele diz a determinada altura sobre a monarquia, estávamos em 1924 com uma república já em queda final, e ele diz, e cito: "Os regimes sucumbem e desaparecem menos pela força do ataque do que pela frouxidão da defesa. Só tem direito à vida quem sabe fazer por ela." Isto era um remoque aos monárquicos que o tinham miseravelmente abandonado em 1908. Era um remoque aos republicanos que estavam a copiar, sem talvez terem consciência disso, o mesmo caos e a mesma incapacidade. Poderia ter sido dito por alguém ligado ao Estado Novo em 1974, 75, 76, ou seja, revivendo. E sobretudo esta ideia de que só tem direito à vida quem sabe fazer por ela em termos de regimes políticos, acho que pode e deve ser lembrado hoje, porque há quem esteja a dizer isto, há quem esteja a capitalizar no voto isto. O que é necessário é que não sejam os extremos a usar esta frase. O que nós necessitávamos era que houvesse um centro forte que dissesse isto e que atuasse em conformidade.
Professor José Miguel Silva e "Inem de Propósito" chega ao fim, como sempre, nesta semana.
Por causa do tempo diontino.
Por causa do tempo diontino, vamos agora para o tempo diontino. Voltamos amanhã para outro contracorrente. Muito obrigada.
Muito obrigado.