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Bom dia. Às vezes, quando se ouve falar da ética republicana, percebe-se, porque é como se agora a ética fosse ética por ser republicana ou por ser monárquica. Tem muito a ver, muitas vezes, naquilo que acontece em Portugal, com a convicção, quase a fé, que se nós mudarmos alguma coisa do ponto de vista do regime, é sempre aquela ideia de mudar alguma coisa de substancial no regime, como se isso pudesse resolver os nossos problemas, que são muito comuns. A incapacidade, de fato, de reformar, a dificuldade muitas vezes de criar consensos, muitas vezes confundirmos aquilo que são as triônicas manifestações com mudanças, quando muitas vezes elas acabam por ser uma resistência à mudança. Tem muito frequentemente a ver com isso. E há sempre uma pergunta que eu tenho, que é impossível de ser respondida, e que é: não fosse a nossa integração europeia, aquilo que nos teria acontecido no pós 25 de abril de 74, teria sido assim tão diferente daquilo que nos aconteceu no pós 1910? Ou seja, na verdade, nós estamos a falar de um período, a Primeira República, que durou muito pouco tempo. É certo que teve 45 governos, mas durou 16 anos. Aliás, nem chegou a durar 16 anos. E aquilo que está a acontecer é que nós estamos a acabar estas datas redondas em torno da República, porque ela é implantada em 1910, portanto, tivemos o centenário, agora os 115 anos, que acabaram por ficar muito perdidos, temos uma campanha eleitoral. Bem, na verdade, os candidatos à Presidência da República tentaram, de alguma forma marcar o dia.

Marcar o dia ou sinalá-lo, pelo menos.

Mas por outras razões, que nada têm a ver com a República, acabaram por ficar um pouco abalroados, por assim dizer. Mas, contudo, aquilo que nós notamos, em relação a este período, é que temos sempre, é claro, e há imensas escolas em termos de História, nomeadamente se aquilo que aconteceu aqui é apenas o reflexo, igual ou mais um episódio daquilo que estava a acontecer em termos internacionais, uma espécie de, e aí sim é uma expressão que tem a ver com Portugal, uma espécie de reação frustrada, claro, a uma espécie de decadência dos povos peninsulares, por assim dizer, num enquadramento histórico no qual emergiam grandes potências, nomeadamente os Estados Unidos. Por outro lado, temos também uma espécie, e aí a literatura ajuda muito, quase que uma espécie de uma crônica de uma tragédia anunciada, na medida em que temos um regime que se anuncia, cuja grande mudança é, de fato, a forma como ele se organiza, que é a República, quer ser uma república versus uma monarquia, que era o que tinha vigorado desde 1943, mas que não consegue introduzir reformas no país. Portugal vai ficando para trás nas questões da industrialização, nas questões do enriquecimento, nas questões do analfabetismo, que era a grande bandeira da República, e que não consegue, por uma questão de cegueira ideológica, ninguém consegue fazer uma reforma. Se persegue ou expulsa aqueles que eram os melhores agentes de educação em Portugal, que era o clero. E por outro lado, um regime que está muito espartilhado entre uma violência crescente das associações como a Formiga Branca, a Legião Vermelha e da própria rua, e por outro lado, uma elite e temos depois aqui um partido, que é o Partido Republicano Português, que só consegue sobreviver e impor-se, e de fato impunha-se, e temos aqui uma coisa, o que na prática, era um regime em que aquele partido ganhava sempre as eleições, muitas vezes recorrendo à violência, e que a expectativa foi enorme, o resultado ficou, de fato, muito longe daquilo que se tinha aspirado. E, portanto, vale a pena regressar, penso eu, à pergunta que fiz, e que é: se nós, de fato, em 1974, não foi em 74, foi depois, na prática, a adesão plena em 86, se nós não tivéssemos tido uma integração internacional, esses velhos fantasmas, esses velhos laços do nosso atavismo, que acabaram por minar a Primeira República, onde é que nos teriam levado em 75, 76, 77, 78, por aí. Portanto, é um pouco essa reflexão, 115 anos depois, até porque para o ano, 2026, estaremos muito mais em torno das datas que levaram ao golpe militar de 28 de maio de 1926, e que, de alguma forma, nos deve também levar à pergunta: onde é que podem acabar as elites de um país quando o esgotamento, a impossibilidade do fazer, os acabam a fazer baixar os braços e aceitar como uma fatalidade o que está por vir.

As datas redondas são sempre um ótimo pretexto pra estas reflexões. Até já, Helena.

Até já.

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