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A popularidade do futebol não podia deixar de atrair a política e os políticos, como as recentes polémicas em Portugal voltaram a recordar. Não é uma história nova. Desde, pelo menos, o Campeonato do Mundo de Mussolini, em 1934, que a política tenta usar o futebol, mas é duvidoso que os políticos tenham muito a ganhar por irem aos estádios ou entregarem as taças aos vencedores. As vitórias desportivas não evitaram a queda de ditaduras e serão raros os casos em que as apostas políticas de jogadores ou de dirigentes desportivos fizeram mexer as agulhas em lutas eleitorais apertadas. No Contracorrente de hoje, vamos recordar algumas das histórias mais reveladoras e tentar perceber por que é que futebol e política andaram, andam e andarão tantas vezes juntos. José Manuel, bom dia.

Bom dia.

Percebes este encantamento?

Percebo. Há o encantamento da popularidade. É um jogo popular e há a tentação de os políticos estarem onde está, de alguma forma, muita gente, muito povo, muitos eleitores. Isto não foi sempre assim no sentido estrito do termo, mas é assim há muito tempo, se bem que tenha tido graus diferentes e nos últimos anos, sobretudo em Portugal, acentuou-se bastante. Este hábito de termos os governantes, os políticos. Quando falo de políticos, falo de Presidente da República, falo de ministros, primeiros-ministros, deputados, a andarem pelos campos de futebol, não era tão comum aqui há uns tempos atrás. Não era mesmo nada comum nos tempos não democráticos, e nos primeiros anos da democracia também não foi nada comum. Tornou-se muito comum desde que Portugal começou a estar presente nas fases finais, a ter melhores resultados, a ter jogadores um pouco por todo lado, portanto, a ter outra projeção, tornou-se algo muito comum. Agora, para ser franco, este fascínio da política pelo futebol, esta instrumentalização, nalguns casos, do desporto pela política, não é recente. Tu referiste aí, julgo eu, o segundo campeonato do mundo. O primeiro foi no Uruguai, teve muito poucas equipas presentes, os europeus não foram lá, era muito caro atravessar o Atlântico, não se fazia de avião, ainda se fazia de barco. Estamos a falar em 1930, há 94 anos. E há 92 anos, em 1934, houve o primeiro campeonato na Europa, foi em Itália e foi organizado por Benito Mussolini, pelo ditador italiano. Apesar de o ditador italiano não ser, à partida, um entusiasta do futebol, naquele tempo havia um certo culto do desporto, do corpo, da masculinidade, e o campeonato transformou-se um pouco nisso. Itália acabou por ganhar. Ainda hoje se discute, porque por incrível que pareça, não há imagens gravadas da final, ninguém filmou a final. Portanto, não sabemos, por exemplo, se o gol de Itália, que foi determinante para o prolongamento, foi ou não antecedido de uma bola na mão, por exemplo, que é uma coisa que ainda hoje se discute, se houve ou não favoritismo da parte dos árbitros, se eles portaram bem ou não. Isto repetiu-se noutros jogos, noutras ocasiões. Foi um daqueles casos em que a interferência do regime no futebol foi gigantesca. Mussolini restaurou clubes. Mussolini, ou melhor, ajudou a criar uma situação que ainda hoje se mantém, que é os clubes italianos, alguns dos clubes italianos principais jogam em estádios públicos. Estádios que partilham, por exemplo, os dois grandes clubes de Milão jogam no mesmo estádio, que é um estádio construído nessa altura, o Estádio San Siro. Isto foi uma interferência, uma presença que teve outros momentos parecidos, em que vários regimes procuraram projetar a sua força e o seu sucesso através do futebol. Mas para ser franco, se nós virmos bem, as coisas não tinham que resultar obrigatoriamente. Por exemplo, a Argentina, que sempre teve grandes jogadores, e aliás, alguns jogadores da Argentina foram protagonistas de episódios políticos. Não foi só recentemente com Maradona, que a certa altura tinha quase que uma atividade política. Foi com a interferência, por exemplo, que o regime franquista em Espanha teve na transferência de um outro grande jogador argentino, que foi o Di Stéfano, e que era para ir para o Barcelona e foi para o Madrid. O Madrid era o clube do regime. E isto aconteceu mais vezes. Discute-se se em Portugal também aconteceu com o Eusébio ou não, mas noutras circunstâncias jogaram ou não no estrangeiro. Falaremos um pouco melhor disso. A verdade é que, por exemplo, na Argentina, que tornou-se campeã do mundo em 78, ainda por cima num campeonato onde, aí sim, há sérias suspeitas de que houve interferência do regime nas arbitragens, e não só. O regime terá ajudado a que a equipa chegasse à final, graças a uma vitória por 6 x 0 à equipa do Peru, que muita gente desconfiou que tinha sido fabricada. Mas mesmo assim, o regime caiu pouco tempo depois. Não lhe serviu de nada ter ali uns heróis. Maradona tinha 18 anos, mas não jogou nesse campeonato do mundo, viria a jogar mais tarde, em 86, mas na altura já não havia General Videla no poder em Buenos Aires. Portanto, isso é sempre muito discutível. Nós temos uma história em Portugal também de relação muito próxima entre desporto e política, que não acabou bem para o desporto no sentido de determinar uma eleição. Foi a primeira eleição do Rui Rio no Porto, na Câmara do Porto, em que toda a gente achou que o Rui Rio zangou-se com o Pinto da Costa. O Pinto da Costa, na altura, era todo-poderoso. O outro candidato à Câmara era o Fernando Gomes, que era um habitué do Estádio das Antas. E, no entanto, Rui Rio ganhou a Câmara, o que é um sinal que às vezes os políticos acharem que por andarem concubinados com jogadores e dirigentes desportivos, têm lugar garantido, e está longe de ser assim. Vamos falar um pouco disso tudo e também de como é que alguns regimes apostaram no desporto para se promoverem. O caso, por exemplo, talvez limite, seja a República Democrática Alemã. Obrigando os atletas a esforços absolutamente fora do comum. Mas temos tempo de falar disso tudo depois das 10, com a ajuda também de quem estudou este assunto, de quem publicou até livros sobre esta matéria. Portanto, vamos falar disso.

Vamos percorrer aqui muitos exemplos. Até já, José Manuel.

Até já.