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No Contracorrente de hoje, José Manuel Fernandes quer falar do caso de Tancos. Bom dia, José Manuel. Não é pra falar do Presidente da República.

Pois não, porque eu acho que não devemos ir muito por manobras de diversão. Isto é, não nos devemos deixar enganar, nem deixar que nos distraiam. Eu acho que o que está em causa esta semana é que termina mesmo o prazo para o Ministério Público deduzir a acusação no caso de Tancos. E no fundo, o que está em causa é que, no momento em que isso acontecer, vamos todos ficar a saber por que um ministro de António Costa passou de arguido a acusado e o que isso significa. Ora, o significado disso é que não vão ser boas notícias a meio de uma campanha eleitoral. Aliás, o que se prevê é que sejam mesmo más notícias, tão más que criar um pouco de nevoeiro em torno do caso de Tancos é capaz de ser a melhor forma de diluir responsabilidades e até de dar a entender que se calhar há mais culpados.

Estás então a sugerir que as informações que surgiram sobre o Presidente da República podem ter como objetivo distrair a opinião pública?

Eu acho que em política não há coincidências e em campanhas eleitorais muito menos. Repara bem, a existência daquela escuta já era conhecida. Não havia ali uma especial novidade. O que era novo na notícia era que os investigadores teriam visto ali uma ligação a Belém, digamos assim. Mas isso já se sabe que é falso, que nada disso estará na acusação. Portanto, a divulgação daquela informação, apesar da reação vigorosa do presidente, acaba sempre por fazer mossa, até porque a frase do papagaio "moro do rei" é uma frase assassina. Ou seja, cria-se o tal efeito de nevoeiro. Ora, o que se pretende com esse nevoeiro é que não se veja o que é realmente importante, aquilo que é realmente grave.

E agora estás a referir-te a quê?

Eu estou a referir-me, por exemplo, à informação que o Observador divulgou ontem à noite e que nós temos falado aqui hoje de manhã. E aquilo que nós estamos a falar já não é de uma escuta, já não é de um diz que disse, já não é do que um major disse a um irmão ou qualquer coisa desse gênero. Estamos a falar de uma coisa muitíssimo mais concreta, que são SMS trocados pelo próprio Azeredo Lopes, que era então ministro da Defesa, com um deputado do Partido Socialista, e tudo isto no dia em que as armas foram descobertas. Eu digo descobertas entre aspas, como sabes, porque elas não foram propriamente descobertas. E nessas mensagens, o ministro vangloria-se de saber da operação, no fundo, dá a entender que sabia de tudo com antecedência. Acho que vale a pena lembrar esse SMS, até pelo seu tom coloquial. "Eu sabia, mas tive de aguentar calado a porrada que levei. Como é claro, não sabia que ia ser hoje." Portanto, no fundo, o que ele está aqui a dizer é que estava por dentro. Depois, o que é ainda pior, é que diz ao deputado que não vai poder contar tudo ao Parlamento. Ele sabia tudo, mas não vai poder contar tudo. O que ele não disse logo, mas nós hoje já sabemos, porque passou muita água debaixo destas pontes, é que ele a seguir mentiu muitas vezes à Assembleia da República e foi lá muitas vezes e disse sempre coisas que não eram verdade. Hoje em dia diz-se que faltou à verdade, eu acho que a gente deve dizer mesmo mentiu. Mas há aqui um outro problema que, a meu ver, provavelmente ainda vai ser um embaraço maior.

E que embaraço é esse?

Ora bem, vocês também se referiram de alguma forma hoje de manhã a isso nas vossas perguntas aqui nas pontas do...

Do Paulo e da Judite.

Do Paulo e da Judite. Estes SMS que estão no processo foram trocados com um deputado que é do Porto, que é a terra do Azeredo, mas que nem sequer é um dos mais conhecidos, o Tiago Barbosa Ribeiro, e que me leva a perguntar: se o Azeredo tinha conversas destas com alguém que nem estava sequer ligado ao setor de defesa, que era um simples deputado, e tinha toda esta franqueza, alguém imagina que ele não contou nada disto ao primeiro-ministro? Eu acho que não cabe na cabeça de ninguém. Acho que é uma coisa que é mesmo muito difícil de nós acreditarmos. Por isso, no dia em que a acusação for conhecida, na hora em que todos estes elementos forem públicos, na hora em que todos os jornalistas olharem para aquele processo, há perguntas que vão ter que ser feitas ao primeiro-ministro. E vão ser perguntas difíceis.

E isso tudo em plena campanha eleitoral?

Pois é, isto é uma chatice, mas é assim mesmo. O prazo do Ministério Público acaba esta semana. Podia ter sido feito antes, o Ministério Público talvez tivesse tido outro cuidado, mas não vejo forma, neste momento, da Procuradoria adiar a instrução da acusação. Primeiro, porque há arguidos em prisão preventiva, que terão que ser libertados se o MP se atrasar. Depois, porque há outra coisa que também é grave, é que se não cumprir o prazo, vai ficar no ar a suspeita que isso foi feito a proteger o governo. E eu acho que isso seria muito grave pra imagem da independência do Ministério Público. Eu acho que Tancos é mesmo aquele tipo de fantasma que persegue Costa, até porque Costa nunca soube bem lidar com esta crise, a começar por se ter deixado ficar em férias quando o roubo aconteceu. Na altura, é bom ter memória, quem andou a apanhar os cacos foi o presidente da República. Por isso é que eu digo que não devemos ter atenção a estas manobras de diversão e não nos devemos perder no nevoeiro. O caso de Tancos, repito, não nos leva a Belém, leva a São Bento. Nada de equívocos.

Contracorrente com José Manuel Fernandes, à conversa com Carla Jorge Carvalho, amanhã, à nova edição, sempre depois do Jornal das 18. Rádio Observador. Ouça este e outros conteúdos em observador.pt/rádio e subscreva os nossos podcasts.