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Tudo pronto. Arranca agora mais um Contracorrente da Rádio Observador, o primeiro desta semana. Já sabe que pode e deve colocar as suas questões, participar através do 910024185 e usar também as nossas redes sociais para deixar os seus comentários. 910024185. Carla Jorge Carvalho. Estes últimos dias foram definitivamente marcados pela invasão inglesa no Porto e é sobre isso que José Manuel Fernandes quer falar no Contracorrente, até porque tudo o que se passou contraria o que foi garantido pelas autoridades.

Bom dia.

Bom dia.

Novamente. Eu já disse e acho que vou dizer outra vez, e acho que vou dizer mais vezes, infelizmente. Nós somos mesmo um povo de mansos, porque se não fôssemos um povo de mansos, eu acho que já nos tínhamos revoltado, porque andam literalmente a fazer pouco de nós. E eu desta vez acho que o Pinto da Costa tem razão. Ele ontem disse que faz falta um Humberto Delgado, porque se tivesse cá um Humberto Delgado demitia toda esta gente, a começar pelo diretor-geral de Saúde e, segundo ele, até a acabar no primeiro-ministro. E eu desta vez estou com ele, porque também me apetece dizer, como o velho general, obviamente, demito-os. Nem sei bem por onde começar, porque a desfaçatez disto é tanta que vale a pena recordar. Aliás, eu já ouvi parte destas palavras hoje de manhã aqui na rádio, o que Mariana Vieira da Silva disse. E Mariana Vieira da Silva é a ministra mais política do governo, portanto, ela disse numa conversa de imprensa que foi o seguinte, vou citar: "As pessoas que vierem à final da Champions virão e regressarão no mesmo dia e estarão sempre em situação de bolha. Ou seja, vêm em voo charter, são dirigidas para duas zonas de espera de adeptos, daí para o estádio e depois do jogo, de volta para o aeroporto." Quer dizer, todos vimos o que se passou. Acho que nem preciso explicar como isto é ridículo.

Pois, ninguém controlou os adeptos ingleses, foi o que vimos.

Como é óbvio. Mas o que é extraordinário é que isto se passou depois dos sorteios do Sporting, depois dos sinais que em Lisboa podemos estar com mais contágios precisamente por causa daquela longa noite verde, lembro-te assim. Agora tivemos uma longa noite azul, noite, madrugada, manhã e dia, porque foi mais do que isso. Acho que temos agora este descontrolo como se fosse uma coisa normal. Mas queres que te diga, para mim o problema maior nem é, como te disse, o descontrolo verificado na Ribeira do Porto e na baixa do Porto. Já se sabe que é difícil controlar os adeptos ingleses, seria sempre um quebra-cabeças. O problema maior é a total incapacidade de planear, a total incapacidade de prever e a total incapacidade de passar, e isto é o mais importante, uma mensagem coerente. Por exemplo, com que moral se vai agora continuar a dizer que não se pode beber álcool na rua depois do espetáculo que toda a gente viu? Ou há uma lei para os turistas e outra lei para os portugueses? Há cada vez mais a perceção de que há dois pesos e duas medidas, que há uns filhos e uns enteados, que uns podem fazer tudo e outros não podem fazer nada. Que lógica tem, por exemplo, toda a regulamentação do acesso às praias, quando assistimos àquela confusão toda com a polícia a ver e com a polícia a ter ordens para não intervir? O que é que pensa um cidadão comum que está a ver um jornal televisivo e primeiro vê a Ribeira do Porto cheia de ingleses, alguns em cima das mesas a embebedarem-se, e a seguir vê imagens de uma praia quase vazia e um polícia a ameaçar com multas se as toalhas não estiverem à distância regulamentar? Só faltava a fita métrica. Eu diria que isto é um país de doidos, mas não é. Isto, como eu disse, é um país de tansos.

Tu achas, portanto, que aquilo que se passou no Porto pode pôr em causa as regras restritivas que o governo tem vindo a aplicar?

Eu acho que é óbvio que a partir de agora há muito menos autoridade para impor regras restritivas. A autoridade não se conquista escrevendo leis muito bonitas e muito bem feitas. Aliás, eu não acho que elas estejam bem feitas sequer. A autoridade conquista-se mostrando coerência e mostrando competência, exatamente aquilo que havia pouco e agora desapareceu por completo. Vou dar um outro exemplo do absurdo das normas que temos, da burrice, da que esmorrice que as fazem e depois não é capaz de as corrigir. Como sabes, meses e meses a fio que toda a gente explicou que fechar o comércio ao fim de semana, à hora de almoço, era pior do que tê-lo aberto todo o dia. Falámos disso muitas vezes, porque isso obrigava as pessoas a concentrarem as compras num período de tempo curto. Agora, por exemplo, também já se avisou que é uma estupidez, uma coisa sem sentido fechar os espaços de diversão noturna, porque isso faz com que os mais jovens acabem por arranjar forma de se entreter por locais sem qualquer controlo. Se estiverem em espaços controlados, as coisas, naturalmente, são mais fáceis de controlar. Aquilo que temos visto nos últimos fins de semana, por exemplo, em Lisboa, é mesmo uma espécie de jogo do gato e do rato entre os jovens e a polícia, para ver quem consegue ficar mais a beber e a dançar na rua até mais tarde. Eu pergunto: faz sentido? Eu acho que não faz sentido nenhum, mas as nossas autoridades acham que leis com muitas alíneas, muitos pontos, muitas alíneas, muitas coisinhas por ali abaixo, são melhores do que leis com poucas alíneas, mas regras claras, pelo que o resultado acaba sempre por ser pior, que é o que está à vista. Acaba sempre por ser este jogo do engana, em vez de ser o que devia ser, que era uma partida de responsabilidade por troca por mais liberdade, como tenho sempre dito.

Achas, mas talvez estejas a ser um bocadinho utópico, não achas?

Eu acho que não, porque só sou utópico na medida em que as nossas autoridades não acertam na mensagem correta. Por exemplo, neste momento a DGS criou a maior das confusões em torno da vacina AstraZeneca. Uma confusão de tal dimensão que eu, que já tomei a primeira dose precisamente dessa vacina, já me senti baralhado e tive que andar a ler outra vez as notícias e ir ao site para ver se não me baralhava. E que vou tomar a segunda dose da mesma vacina e não de outra, porque a confusão já é total. Mas isso é apenas um exemplo. Para mim, há algumas questões muito importantes sobre as quais não está a ser produzida a informação necessária. A primeira é a seguinte: nós neste momento já temos vacinada a parte da população mais vulnerável. Isso, de resto, explica porque é que mesmo estando a ocorrer mais contágios, não estamos a ter mais casos graves e o número de mortes está em mínimos. Há uma evolução da forma como a doença se propaga. Isto também significa que estamos a passar da fase pandémica da doença para aquilo que se chama uma fase endémica.

Uhum. E isso já foi referido na última reunião do Infarmed, na sexta-feira.

Sim, mas ainda não há consenso sobre exatamente se já estamos ou não nessa fase, sobre exatamente em que ponto é que estamos. Seja lá como for, há questões importantes que também começaram a ser explicadas às pessoas. Eu já falei delas aqui num outro "Contas Correntes". Por exemplo, que ao contrário de outras doenças, mesmo com a vacina, nós vamos viver com a Covid-19, não direi para sempre, mas pelo menos por muitos anos, tal como vivemos com outros coronavírus, tal como vivemos com muitas variedades do vírus da gripe. E o que vai suceder é que vamos ter anticorpos contra a Covid, a doença vai ser provavelmente menos agressiva, vamos ter que, sobretudo, proteger os mais velhos, etc. E depois os vírus vão continuar em circulação, com variantes e vamos viver com eles e vamos estar protegidos, mais ou menos. Enfim, uma doença que está por aí. Ora, as regras para viver com o vírus endêmico vão naturalmente ser diferentes das regras atuais. E é bom que começamos a falar disso e explicar às pessoas o que é que vai mudar e por quê. E eu acho que aqui há uma questão que é importante, que é o porquê. O porquê é muito importante, porque uma parte da população tem medo. E essa população vai ter que perder o medo, por assim dizer. E, por outro lado, há outra parte da população que se vai sentir superprotegida depois de tomar a vacina. E portanto, vai fazer disparates. Eu não vejo nada disso acontecer. Só vejo normas, regras, autoridades a perderem a autoridade. Só vejo gente com vontade de fazer gritaria na Real Ganda, porque ninguém explica nada. Só vejo tudo pronto pra correr mal. De facto, volto ao Pinto da Costa. Ele tem mesmo razão. Este nosso governo o que tem feito é passar um atestado de mediocridade ao povo português. É uma expressão que ele utilizou. E infelizmente, o povo português come e cala. Olha, por mim, ao menos, apetece-me dizer: "Ao menos, de vez em quando, é só um coice."

Aqui fica lançado o tema e este desafio também, em sentido figurado. Claro que sim. Mas para ouvir também a opinião dos nossos ouvintes, já vamos daqui a pouco estar com o nosso convidado desta manhã, mas vamos começar já a ouvir os ouvintes que se inscreveram para participar e chamamos já o empresário Luís Cabral, que está a falar de Lisboa. Bom dia.

Bom dia. Eu começo por avaliar as minhas três figuras. O bom é o povo português, porque admite tudo de forma submissa, não se revolta nunca. E a prova é que continua a ir para a praia sem as raquetes. Depois, o mau. O mau é o excelente ministro Cabrita, porque continuo eu, como português, a sentir-me muito envergonhado por possuir no meu país um ministro com este perfil político. E por fim, o vilão. O vilão é o doutor António Costa, rei da hipocrisia e do cinismo. E a prova disso é que quando questionado sobre os acontecimentos de ontem, responde de forma irritada: "Não!" Portanto, termino com o vencedor, é a Rádio Observador. Já falamos. Obrigado.

Luís Cabral, muito obrigada. Quando o Miguel Pinheiro for de férias, já sabemos a quem recorrer. Obrigada, Luís Cabral, por ter deixado aqui o bom, o mau, o vilão e o vencedor. Vamos olhar daqui a pouco pra análise que aqui faz, mas vou chamar mais um ouvinte, o Alexandre Ferreira, que está a ligar de Espanha, é motorista. Alexandre, bom dia.

Bom dia.

Bom dia, Alexandre.

Estão a ouvir bem?

Estamos a ouvi-lo bem. Percebemos que está em viagem. Espero que esteja em alta-voz.

Estou, está o kit mobile.

Como é que viu a festa da final da Champions no Porto e que consequências é que tira disso?

A consequência que temos visto o governo português, é um governo de bananas, porque a UEFA escolheu mesmo Portugal para organizar a final da Champions, porque Portugal ia deixar fazer exatamente o que a UEFA queria, que era vender bilhetes, não ia haver restrições e é por isso que a Champions não foi organizada noutro país, tipo França ou Alemanha ou Espanha, porque politicamente ia haver um travão. Em Portugal não ia, porque a gente gosta de futebol. O governo pensa que aquilo é um prêmio, como foi o ano passado a final também da Champions, foi um prêmio pra quem ficou a trabalhar. Pois estamos há um ano e meio a levar com o vírus.

E pronto, Alexandre Ferreira, sabíamos deste risco, está a conduzir e agora está numa zona sem rede e por isso não estamos a conseguir ouvi-lo em corretas condições, mas esta ideia de que Portugal foi escolhido para receber a final da Champions porque sabia que Portugal ia acatar tudo aquilo que a UEFA quisesse, é uma boa ideia para discutirmos já daqui a pouco. Alexandre Ferreira, despeço-me de si, agradeço o seu telefonema e chamo só mais um ouvinte, o Francisco Garcia. Está em Palmela, é reformado. Francisco, bom dia.

Bom dia. Eu vou discordar do José Manuel Fernandes, porque acho que deve ser a primeira vez em que não vou dizer mal do governo. Enganaram-se naquela história da bolha, mas acabou por ser uma bolha, porque aquilo eram só ingleses. É tudo entre ingleses, é como se fosse uma bolha de ingleses e portanto, agora voltam pra Inglaterra de avião e a bolha vai-se embora pra Inglaterra. Se houver contágios, serão em Inglaterra. Agora, não vai haver contágios, porque as pessoas que lá estavam eram todas vacinadas, porque em Inglaterra a vacinação já está avançada, e as que não estão vacinadas estão todas testadas. Para viajarem de avião, têm que estar testadas. Portanto, não vejo razão e admitir o contrário seria também admitir que as restrições são para sempre, porque daqui a um ano, nós em Portugal, os portugueses também estão ou vacinados ou testados. Então vamos continuar com restrições para sempre? Se está tudo testado ou vacinado, pra que mais restrições? Portanto, qualquer comparação com o Sporting não faz qualquer sentido. No Sporting havia alguém vacinado e testado? Havia alguns, sem dúvida, mas era uma minoria. Não estavam vacinados ou testados na sua maioria.

Portanto, menos riscos este fim de semana no Porto do que no estádio do Sporting.

Não há risco praticamente nenhum. É tudo entre ingleses, é uma bolha de ingleses. Agora vão-se embora.

E agora devem estar a caminho, alguns deles, pelo menos. Francisco Garcia, obrigada por nos ter ligado e a ideia que aqui deixa é ótima, até uma ótima deixa para falarmos com o nosso convidado do Contracorrente, Francisco Antunes, infectologista do Instituto de Saúde Ambiental. Muito bom dia, obrigada por estar conosco.

Muito bom dia, muito prazer.

Francisco Antunes, estamos aqui a discutir os acontecimentos deste fim de semana no Porto. Do seu ponto de vista, o que foi mais grave, o que aconteceu? Foram os riscos para a pandemia, ao contrário daquilo que dizia o nosso último ouvinte, em que ainda assim os adeptos funcionaram em bolha, ou o risco foi para a chamada autoridade do Estado? Como é que olhou para o que aconteceu?

É preciso contextualizarmos a situação. O envolvimento dos ingleses nesta manifestação relativamente à final da Taça dos Campeões Europeus, envolvia principalmente jovens. Ora acontece que, mesmo em Inglaterra, com o avanço relativamente à vacinação, a maioria dos jovens ainda não estão vacinados. Por outro lado, é atirar areia para os olhos, dizer que todos foram testados. É evidente que nem todos foram testados, porque houve recurso a outros meios de transporte, que não exclusivamente os aviões. E mesmo relativamente aos transportes aéreos, é preciso ter garantia segura que todos tenham sido testados. Por outro lado, não é verdade que tenham estado apenas envolvido nas manifestações ingleses. Viu-se que num flash de uma televisão, verificou-se que havia pessoas de outras nacionalidades, inclusivamente portugueses, que estiveram envolvidos nas manifestações. E a sua presença no centro da cidade, evidentemente que houve cruzamento com pessoas conacionais, com portugueses. Por exemplo, os empregados dos restaurantes e dos bares onde eles estiveram, são portugueses. Regra geral, jovens, também ainda não vacinados. Por outro lado, como é solicitado aos portugueses que utilizem máscaras, particularmente quando não é possível o distanciamento, essa regra de minimização dos riscos não foi cumprida por aquelas pessoas. Todos sem máscaras, todos juntos uns aos outros. Portanto, houve aqui várias falhas. Por outro lado, já sabemos que cantar e gritar é uma forma fácil de transmitir o vírus. Por outro lado, não podemos esquecer de um terceiro fator. É que no Reino Unido, circula com uma elevada porcentagem a chamada variante indiana, que já foi introduzida em Portugal, mas que não tem grande representatividade em Portugal. Ora, esta variante indiana, já se sabe que é mais transmissível, já se sabe que pode provocar quadros clínicos mais graves. Provavelmente, pode ter um efeito ligeiro relativamente à proteção das infecções ou às antigas, ou da própria vacinação relativamente à imunidade para esta variante. Portanto, há aqui uma série de fatores que não foram devidamente acautelados com a vinda destes mais de 16 mil ingleses que atravessaram as fronteiras.

E portanto, Francisco Antunes, é expectável que o número de casos de infecção possa aumentar no Grande Porto daqui a 10, 15 dias?

É evidente que eu considero que foram criadas as condições para um aumento da transmissibilidade e o aumento do risco, portanto, de transmissão. Estão criadas as condições, isto do ponto de vista epidemiológico, que é nítido, não foram cumpridas as regras da utilização de máscaras, não foram cumpridos os distanciamentos e acredito que seja um fator de aumento do risco de transmissão. E portanto, esse fator vai ter implicações, muito em particular, no período de uma semana. Já se sabe que a transmissibilidade aumenta, atinge o seu pico cerca de cinco a sete dias depois do contacto. Portanto, daqui a cinco, sete dias, iremos ver se, de facto, esta situação teve implicações relativamente, quer ao aumento do número de casos, quer ao aumento de hospitalizações, porque, como se sabe, o fator de risco de gravidade da Covid-19 não está só associado à idade, porque há outros fatores de situações de base que existem mesmo em populações mais jovens, em pessoas que ainda não estão vacinadas, aqueles com menos de 50 anos, que têm situações crônicas, que podem estar a correr o risco de se terem infectado e de serem hospitalizados, portanto, aumentando também a pressão sobre os hospitais. Portanto, isto é assim. Para completar, acho que se admite que a segurança relativamente à chamada imunidade de grupo, só será atingida em Portugal quando cerca de 60% a 70% da população, isto é, dois terços da população estiver imunizada. Ora acontece que, ao que se sabe, apenas um terço da população tem a primeira dose.

A primeira dose das vacinas. Portanto, ainda temos um caminho para percorrer. Francisco Antunes, já vamos continuar a conversar. José Manuel Fernandes, gostava de ouvir também sobre estas primeiras três intervenções dos nossos ouvintes, nomeadamente, quer o Francisco Garcia, que nos dizia que estamos numa bolha. Ouvimos agora aqui o nosso convidado, o infecciologista Francisco Antunes, dizer que a bolha, afinal, ainda não era uma bolha que nos desse muitas garantias e continuamos aqui neste limbo sem saber o que é que podíamos efetivamente fazer e que regras é que devem ser respeitadas.

Eu acho que esse é um dos problemas. Esta última reunião do Infarmed caracterizou-se, como, aliás, algumas das últimas reuniões, por ter sido muito indefinida. Houve conselhos vários, mas está demonstrado que aquela não é a maneira certa de avançar, sobretudo em alturas de viragem como vai ser esta que estamos a viver. Portanto, aquilo que nós próprios devíamos estar a perceber é que nós estamos a usar, por exemplo, aquela matriz de risco, que agora é muito bonita, todos os dias mostramos aquelas cores, mas aquelas cores remetem para indicadores que têm muito a ver, sobretudo, com a transmissão do vírus. Mas a transmissão do vírus está a se processar neste momento, sobretudo em faixas etárias que correm o risco muito mais baixo, sobretudo correm o risco de terem doença grave. Portanto, o risco de, uma vez infectadas, contraírem uma doença grave é muitíssimo mais baixo, como, por outro lado, nós também verificamos que a transformação de uma infecção numa doença grave está a ocorrer a um ritmo muitíssimo menor. E a nossa preocupação, pelo menos na minha perspectiva, devia ser: nós temos um sistema de saúde que levou uma pancada brutal no último ano e meio, praticamente já, por causa da Covid. Temos um atraso brutal em consultas, em diagnósticos, designadamente algumas doenças graves, que é necessário recuperar rapidamente. Isto no sistema de saúde. E, por outro lado, temos também uma economia num estado gravíssimo, com muitas empresas literalmente no limbo, que ninguém sabe como é que vão ou não conseguir recuperar. Nós estamos com aeroportos que estão a funcionar a 20%, ou 25%, ou 30% do que funcionavam em 2019, portanto, há dois anos, o que significa que aquilo que era, no fundo, a gasolina, o combustível da nossa economia, que era o turismo, não está a alimentar-nos.

Nós estamos muito a viver se chegamos à alta margem e nunca mais lá chegamos. Portanto, é necessário preparar essa mudança de momento. Já temos algumas condições para isso, porque aquela faixa da população que de fato era muito sensível à doença, nós temos, concordo com a ideia de que estamos longe da imunidade. Provavelmente, estamos longe da imunidade do grupo, mas se quer, já temos a imunidade do grupo nas faixas mais sensíveis da população.

Já estamos a conseguir proteger.

E já temos o suficiente de auto protecção para o sistema de saúde estar tranquilo e poder virar-se para a recuperação que tem que fazer. Ora, eu não ouço falar disso. Eu não vejo a ministra da Saúde aparecer a falar disso. Aliás, vejo-a desaparecida. Eu vejo de vez em quando profissionais da área da oncologia e da área das doenças cardiotorácicas virem dizer que a situação é gravíssima, mas não vejo ninguém dar-lhes ouvidos. Eu vejo pessoas da economia dizer que a situação está muito complicada agora que estão a acabar as moratórias e vejo hesitações sobre o que se vai passar a seguir. E é sobre isso que as coisas são urgentes. Nós tivemos uma reunião na semana passada. Agora estamos todos à espera que venha a reunião do governo. Isto parece tudo acontecer muito devagar e no meio disso tudo, bumba, cai-nos a Champions e a confusão em cima.

E estas imagens que podem acabar por ser quase perturbadoras para quem está a ter de cumprir as regras. Bom, vamos começar a ouvir mais opiniões dos nossos ouvintes, mas antes disso, Paulo, é importante também perceber que outras opiniões recolheste nas nossas plataformas.

São muitas, são muito variadas, sobretudo nos últimos dois dias, as opiniões e os comentários que têm surgido aqui nas plataformas eletrónicas do Observador. Miguel Fonseca escreve: "Procura-se presidente da República da República das Bananas. Se alguém o viu, por favor contactar as autoridades competentes", com um I entre parênteses, incompetentes, portanto. José Maria: "Dois pesos e duas medidas, consoante sejam nacionais ou estrangeiros, uma enorme vergonha, sem dúvida." Refere-se obviamente às regras que foram permitidas aos adeptos ingleses. Alberto Pereira diz que não é adepto do Futebol Clube do Porto, mas tem que reconhecer que tem toda a razão. Ele refere-se aos comentários, às críticas de Pinto da Costa. Continua Alberto Pereira: "A UEFA trata Portugal como caixote do lixo, onde se disputam finais recusadas por outros países e o governo trata os portugueses como parvos. A assistência a competições desportivas em Portugal é proibida aos portugueses e permitida aos hooligans ingleses. Que tacanhez e que incompetência dos nossos governantes", clama Alberto Pereira. Adriano Marques diz que não é propriamente um apoiante de Rui Rio, mas neste caso tenho de dizer, diz ele, que ele está coberto de razão. O caos vivido nos últimos dias na cidade do Porto era perfeitamente previsível, mas como sempre, Rui Moreira nada fez. Como presidente da Câmara, tem sido de uma inutilidade atroz, é o que escreve Adriano Marques. Sem sentido contrário, escreve Cláudia Magalhães: "Rui Rio não acerta uma, agora que o Covid não mata ninguém, quer continuar a estrangular economicamente o Porto e os portuenses. Continua a ser o melhor seguro para a continuidade de António Costa, porque é provinciano e bacoco. Como verdadeiro cromo." É esta a opinião de Cláudia Magalhães.

E estes são só alguns dos muitos comentários, como disse o Paulo Ferreira, no nosso site e nas redes sociais do Observador, mas reforço que pode dar-nos a sua opinião em direto e falar com o José Manuel Fernandes. O número é o 910 002 41 85. E estamos já a Isabel Teles, que nos liga do Estoril, é agente imobiliária e quer também deixar aqui a opinião no Contracorrente. Bom dia, Isabel.

Olá, bom dia, Carla. Eu acho que estou um bocadinho nervosa, portanto não levem a mal.

Não se nota nada.

Quero em primeiro lugar cumprimentar a Carla Jorge Carvalho e o José Manuel Fernandes e toda a equipe que está aí e de fato cumprimentar por mais esta vossa iniciativa que eu acho excelente e pelo trabalho todo desde há sete anos, salvo erro, que o Observador tem feito, com a Rádio Observador. E espero muito em breve que também se dediquem à televisão para eu poder começar a ver um canal de notícias, que já não vejo desde há seis anos, português. A razão principal deste telefonema, e eu espero que não me levem a mal, é pedir ao Observador que divulgue a história gravíssima de um empresário agricultor que se mantém há 22 dias em greve de fome em frente ao Palácio da Presidência da República. Vocês devem saber o que é, não vale a pena eu estar aqui a perder tempo com isso, mas eu gostaria muito que vocês repercutissem, que falassem com o senhor, que divulgassem o máximo possível esta situação. Quanto ao Porto e ao Sporting, ao Porto não me admira nada. Isto já sucedeu em Lisboa, com o Sporting, e não me admira nada, infelizmente, da não ação do governo, visto que eu recordo que quando foi o confinamento mais grave ou mais restritivo, de 15 de janeiro a 15 de março, salvo erro, os portugueses não podiam sair de Portugal e os estrangeiros podiam entrar em Portugal. Eu tive o caso caricato de que o meu irmão, como tem a residência em Espanha, podia se movimentar livremente e eu, residente portuguesa, não me podia movimentar livremente em Portugal.

Quanto ao vírus propriamente dito, eu só gostava de deixar uma nota: eu sou apelidada, eu não me considero, mas sou apelidada de negacionista, simplesmente porque eu acho que dentro do meu bom senso, do meu equilíbrio, da minha consciência pessoal, eu sou capaz de me precaver a mim própria de contrair o vírus, dado o conhecimento que eu tenho dele e de salvaguardar as outras pessoas desse vírus. Eu não preciso que me restrinjam as minhas liberdades, todas e mais algumas, de ser abordada, como já fui, por polícias, por andar a pé a passear o meu cão no jardim. Não preciso de ser expulsa da praia, como já fui, numa praia completamente deserta, pela polícia. Eu sou como uma pessoa, entre aspas, "normal". Se eu tiver bom senso, equilíbrio e me preocupar com o outro e comigo, eu sei perfeitamente o que tenho que fazer. Não preciso de regras absolutamente nenhumas. E mais uma vez, obrigada pelo telefonema.

Isabel Telões, agradecemos o seu telefonema. A opinião aqui deixada. E porque o nosso convidado, Francisco Antunes, tem de se despedir de nós já daqui a dois minutos, quero aproveitar para lhe colocar uma última questão. Francisco Antunes, infectologista. Esta ideia de que neste fim de semana houve dois pesos e duas medidas e que houve adeptos que foram tratados de uma forma diferente em relação aos portugueses, isto pode provocar ruído na comunicação e nas mensagens que as autoridades de saúde vão ter de passar nos próximos tempos, em que ainda há regras para controle da pandemia. Pode-se perder essa credibilidade e legitimidade?

Antes de responder à sua questão, eu gostaria de voltar um pouco ao problema, que neste momento é um problema emergente e com alguma gravidade, que é em relação às outras doenças, em particular em relação às doenças infecciosas. É evidente que houve uma quebra acentuada, quer na prevenção, quer no tratamento de algumas doenças infecciosas. Por exemplo, iremos dentro em breve, ter conhecimento da dimensão relativamente à prevenção e/ou tratamento da toxicodependência. Relativamente à infecção pelo vírus da imunodeficiência humana, ou mais conhecido pelo vírus da AIDS, aquilo que se está a verificar, em particular nalguns hospitais, é o internamento de doentes que já não se via há muitos anos em estádios praticamente terminais da infecção por vírus da imunodeficiência humana, doentes com aumento da problemática da tuberculose, não só nesses doentes, como também na população em geral. E isto apenas referindo às doenças infecciosas, que é a área do meu conhecimento em relação às doenças sexualmente transmissíveis, como a sífilis, como a gonorreia e por aí adiante. Portanto, esta situação é uma situação extraordinariamente preocupante, que eu diria que entre o balanço da Covid e a emergência destas novas situações, eu acho que neste momento a balança está a pender para a necessidade urgente e premente relativamente à prevenção e tratamento dessas situações no âmbito das doenças infecciosas. Relativamente à sua questão, aquilo que eu lhe posso responder é que há uma sensação da população em geral de perda de confiança na Direção-Geral de Saúde e no próprio governo. Eu acho que , e neste último caso, o governo, que é quem toma as decisões políticas relativamente às pandemias, eu acho que sai muito desacreditado pelo que disseram e que não executaram ou não fizeram.

Muito obrigada por esta ideia e pela ideia de que se perdeu credibilidade por parte das autoridades de saúde e é uma das preocupações que estamos aqui a ouvir também por parte dos nossos ouvintes. Para já despeço-me de si, Francisco Antunes, infectologista do Instituto de Saúde Ambiental e muito obrigada por ter estado conosco nesta parte do Contracorrente, altura em que chamo o António Lopes, que é empresário. Muito obrigada. António Lopes, está a falar do Porto, é empresário. Bom dia.

Bom dia.

Bom dia. Como é que assistiu à chegada dos adeptos ingleses?

Olhe, antes de mais queria cumprimentar a equipa e dar os parabéns a todos pelo excelente trabalho que têm feito. Relativamente a isto, era o esperado. É o caos sempre que adeptos ingleses visitam qualquer cidade, isto não é virgem. As coisas acontecem e sempre da pior maneira possível. Mas a razão da minha intervenção não tem tanto a ver com isto. Eu aprecio muito o José Manuel Fernandes, o esforço incrível que ele faz para denunciar este país com dois sistemas, mas hoje fiquei muito desiludido com uma pessoa por quem tenho grande estima, que foi pelo Júlio Magalhães. A intervenção dele hoje Foi infeliz, provavelmente não estava num dia muito feliz, porque pôr no mesmo saco o governo e a oposição e o povo português, acho que é absolutamente lamentável. Quem manda é o governo, quem mente aos portugueses é o governo. Foi a ministra que mentiu ao dizer que havia uma bolha, que tudo estava controlado. A oposição não governa, nem tem como poder dar opinião com este governo que não ouve ninguém, que simplesmente é um governo autista, que não ouve ninguém, faz aquilo que lhe dá na real gana. Nem o presidente da República ouve, porque senão esse cômico ministro da Administração Interna que a gente tem, já tinha sido demitido. A senhora que está na Direção Geral de Saúde, com tantas incoerências, já tinha sido demitida. Portanto, como é que a oposição vai poder sequer solicitar ou saber o que é que vai acontecer se eles não dizem nada a ninguém, ou quando dizem, mentem? Era só isso que eu gostava de transmitir ao Júlio.

E mais do que isso, António, este espaço é a ideia que os ouvintes deem a sua própria opinião, cada um tem direito à sua. Partiu da opinião do Júlio Magalhães para responsabilizar unicamente o governo. Vê como o único culpado pelos acontecimentos deste fim de semana.

É óbvio que é o governo que é o culpado. Eu acho que a intervenção dele é uma tentativa subliminar de branquear o comportamento do governo. Portanto, meter tudo no mesmo saco, não me parece que seja correto.

E por isso aqui fica clara a opinião do António Lopes.

Eu gosto muito do Júlio.

Não está em causa, estamos a discutir opiniões, não estamos a discutir as pessoas. Claro que não. António Lopes, muito obrigada. Bom dia, deixe-me ouvir só o próximo ouvinte. Nós é que agradecemos. O próximo ouvinte também está a falar do Porto, o José Morais, que é arquiteto. Bom dia, bem-vindo.

Muito bom dia.

Muito bom dia.

Os meus parabéns ao Observador e à rádio, na pessoa do José Manuel Fernandes. Eu só queria dizer duas coisas. É extremamente lamentável que um governo que foi eleito, não com maioria, se porte de uma forma ditatorial. O primeiro-ministro tem uma atitude de tirano e de vendedor de banha da cobra. O atestado que se está a passar ao povo português, às pessoas, é lamentável, inacreditável e estão completamente subjugados, e estão quase que adormecidos. É lamentável que o futebol, uma indústria que gere milhões e milhões de euros, seja só vista pelo atual governo com interesse para pagar os impostos. Os portugueses estão coartados nas suas liberdades, nas mais amplas situações, que não vale a pena, os senhores sabem muito bem. E para exemplo disso, basta enunciar o seguinte: o primeiro-ministro António Costa, quando se candidatou a secretário-geral do PS, fez a rasteira mais vergonhosa e mais escandalosa ao seu companheiro António José Seguro, que intelectualmente é superior a ele e que conseguiu oportunisticamente ludibriar toda a elite socialista e ser eleito com a complacência de todo o restante. Em relação ao nosso presidente, é lamentável que assista a isto de uma forma, com alguns comentários, passiva e não tome uma atitude ativa. Por muito menos, o presidente Jorge Sampaio demitiu o governo na altura, cujo primeiro-ministro era Santana Lopes. Por quê? Porque o Santana Lopes, eu posso falar à vontade, porque eu não sou simpatizante do Santana Lopes. O Santana Lopes atacou a hierarquia banqueira, porque exigiu dos bancos toda uma atitude diferente. E então, a partir daí, desencadeou-se todo um processo que sabem muito bem o que aconteceu. Portanto, em resumo, os meus parabéns pelo vosso programa. Isto é uma vergonha. A mentira compulsiva deste governo deveria ser demitida de uma forma correta e intelectualmente válida. Isto é vergonhoso. Muito obrigado.

José Morais, nós é que agradecemos. Um bom dia para si. Obrigada por nos ter ligado. José Manuel Fernandes, quer nas opiniões expressas pelos ouvintes, quer nas nossas plataformas, fica aqui esta responsabilidade política por parte do governo. E a pergunta: onde é que está o presidente da República? O que o presidente da República pode fazer? Pode avançar com a bomba atômica, como sugeria agora o José Morais.

Bem, o presidente da República fez um comentário sobre a bolha, foi um comentário mais venenoso do que o habitual. Penso que o presidente da República já desistiu de tentar empurrar o ministro Cabrita para fora do governo, porque o presidente da República não gosta de ser derrotado, por assim dizer, e portanto já fez um, dois, três recados sobre isso.

E António Costa também não. E já disse que Eduardo Cabrita é excelente.

E António Costa também não, e já disse que Eduardo Cabrita é excelente e portanto vamos ter que provavelmente esperar, não sei bem o quê, que desastre, que calamidade, que cataclismo, talvez as eleições autárquicas, enfim, qualquer coisa para Eduardo Cabrita sair do governo, porque aos olhos dos seus próximos, como recentemente se leu numa reportagem que saiu na imprensa, Eduardo Cabrita é quase um génio e além disso é muito amigo e muito próximo de António Costa. Sobre tudo isso. Eu não creio que a solução também fosse a bomba atómica. Nós estamos numa situação em que é preciso, aliás como muitas pessoas também aqui referiram, ao mesmo tempo que isto se passa, a oposição também não foi coerente nas respostas que foi dando a estes casos e há uma certa situação de algum desespero da parte das pessoas. Não creio que a solução esteja aí. Talvez o Presidente da República seja a altura de começar, até porque o momento de união nacional, que eu não sei se foi necessário ser dessa forma, o momento de união nacional da pandemia talvez já tenha passado, em que ela talvez fosse tão necessária, começar a distanciar-se e a marcar suas distâncias. Não sei até que ponto é que já começou a fazer isso na última reunião de environment de sexta-feira, em que já deixou alguns pedidos e alguns recados, mas tem que fazê-lo de uma forma mais clara. Não pode ser só tão subliminar e tão para iniciados nas leituras políticas. Tem que ser de uma forma que o povo perceba.

José Manuel Fernandes, vamos voltar amanhã para mais um Contracorrente. Agradeço a participação dos nossos ouvintes e até amanhã.

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