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É hora de conhecermos o tema do Contracorrente desta terça-feira. Se quiser entrar em direto logo a seguir ao jornal das 10:00, basta ligar 910 002 4185, mas já sabe que também pode deixar a sua mensagem nas redes sociais, no site do Observador, ou então enviar-nos a sua mensagem de voz, o seu áudio, através do WhatsApp 910 002 4185. Carla. Sébastien Lecornu transformou-se ontem no primeiro-ministro mais efêmero da Quinta República Francesa, o regime criado pelo General de Gaulle para superar a instabilidade crônica da Quarta República, um regime de pendor mais parlamentar. Com a queda de Lecornu, o presidente Macron perde mais um aliado e falha mais uma tentativa de encontrar um consenso mínimo que permita governar França, um país que enfrenta um gigantesco déficit orçamental e tem vindo a acumular uma dívida que se agrava de ano para ano. Temos discutido muitas vezes França aqui no Contracorrente, mas esta nova crise acontece numa altura em que outras crises espreitam noutros países europeus e a União Europeia parece incapaz de superar as suas divisões e fragilidades. José Manuel, bom dia. Temos que a crise francesa passa a arrastar com ela a Europa.
Infelizmente, creio que nós estamos numa situação difícil e para a qual não se vê uma saída fácil. A França tem um sistema político que foi desenhado para dar estabilidade aos governos, portanto, um sistema muito centrado no presidente da República. Mas nos últimos tempos, a França tem tido uma sucessão de presidentes da República que não foram capazes de estar à altura do cargo. E para ser verdadeiro, isso acontece praticamente só de Gaulle. É um sistema feito para Charles de Gaulle, e mesmo ele próprio, no fim, percebeu como era difícil governar a França, digamos assim, e ele próprio saiu da presidência. Portanto, este sistema muito centralista cria, ao mesmo tempo, uma Assembleia Nacional, como se chama lá a Assembleia da República, que está neste momento totalmente dividida. Aquilo que se passa nesta altura é que nós temos quatro blocos, três mais ou menos do mesmo tamanho, um bloco à esquerda, mas que ele próprio é muito heterogêneo, que vai desde a extrema esquerda extremíssima até ao Partido Socialista e aos ecologistas. Chamou-se Frente Popular, vai tentar reviver no século XXI aquilo que se passava na década de 30 do século XX, portanto, um tempo muito diferente do atual. Depois temos o bloco centrista, que é o bloco de Macron, onde estavam também antigos centristas, mais de centro-direita, a antiga UDF. Depois temos o bloco do maior partido, que é o Rassemblement National, a Frente Nacional de Marine Le Pen, que em condições normais seria o partido do governo se a França fosse um país que não tivesse reações às vezes bastante bizarras. E ainda temos o que resta da antiga direita gaullista, que também é muito pouco. O que acontece é que com esta composição, que resultou de uma ação inopinada do presidente, que foi dissolver a Assembleia Nacional, depois de umas eleições europeias em que a Frente Nacional tinha ganho, achou que era boa altura de fazer uma experiência política e o resultado é uma sucessão de governos. Portanto, nós neste momento temos uma situação que faz lembrar a nossa Primeira República. Era o quarto governo desde essa eleição, com Emmanuel Macron. Ele em sete anos já teve tantos governos como Mitterrand em 14, e Mitterrand também não foi um bom exemplo de como isto se deve fazer. E agora, de facto, estes últimos dois governos, um teve 99 dias, outro teve 27, e não sabemos para onde vamos. Literalmente não sabemos para onde vamos, até porque uma nova eleição não há nenhuma garantia que dê um resultado muito diferente, a não ser que haja rearranjos políticos, que também não parecem estar no horizonte. Portanto, isto cria uma situação de bloqueio. Ainda ontem nós estávamos aqui discutindo o Contracorrente a propósito do fim da monarquia e depois do fim da Primeira República, de regimes que, no caso português, se autobloquearam de alguma forma, que não eram capazes de tentar resolver os seus problemas, estavam bloqueados. Enfim, ninguém espera um golpe de Estado militar em França, ninguém espera que isso aconteça na Europa, mas há outras situações que podem levar a caminhos diferentes. E quando nós nos recordamos dos bloqueios portugueses de há um século, também há o bloqueio que também levou a uma situação que tem muitas semelhanças com o que se está a passar em França. Um presidente a fazer experiências, um centro a desaparecer, os extremos a crescer e depois acabou com um senhor com um bigodinho muito pequenino no poder chamado Adolf Hitler. É a chamada República de Weimar. Olhar para o que se passou nos últimos anos da República de Weimar, enfim, socialmente as sociedades são muito diferentes. Na Europa há também um ambiente muito diferente, porque há uma União Europeia. Só que também nós passamos para o nível da União Europeia e temos um presidente da Comissão que no Parlamento Europeu enfrenta sucessivas moções de censura. Esta semana está a ser discutida e votada mais uma, entregues, curiosamente, por eurodeputados franceses. Olhamos para o que se passa noutros países, ainda este fim de semana tivemos eleições na República Checa, a antiga República Checa, agora Chequia, e ficou à frente um partido que no mínimo é cético em relação à construção europeia e que é visto com bastante desconfiança pelos restantes europeus. E enquanto tudo isso se passa, temos na fronteira leste Putin a fazer gato e sapato dos sistemas de defesa europeus. Portanto, é assim que estamos. É uma situação realmente perigosa e acho que temos que meditar sobre este caminho, porque a França é a segunda maior economia da Europa e o que lá se passa diz-nos respeito, até porque algumas das coisas que lá se passam têm a ver com problemas pelos quais nós passamos, designadamente os problemas de conseguir ou não conseguir fazer algumas reformas, conseguir ou não conseguir equilibrar as contas públicas, conseguir ou não conseguir controlar a dívida, tudo coisas que os franceses não estão a conseguir. Só que não se pode dizer com a França aquilo que se dizia habitualmente com os bancos, too big to fall, é demasiado grande para cair. Pois, é demasiado grande para cair, mas da maneira como está, não sei.
Vamos falar sobre isso melhor depois das 10:00. Até já, José Manuel.
Até já.