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8:15, hora de conhecermos o tema do Contracorrente. Se quiser entrar em direto para nos dar a sua opinião, só tem de ligar 91 002 41 85, ou então enviar-nos a sua mensagem de voz pelo WhatsApp. O número é sempre o mesmo, 91 002 41 85. Carla. Todos têm de novo os olhos em Davos, nos Alpes Suíços, o resort onde por estes dias se cruzam líderes de todo o mundo num ambiente tenso, como há muito não se vivia. Ontem subiram ao palco figuras como Emmanuel Macron e Ursula von der Leyen. Para hoje está agendada a intervenção de Donald Trump e a expectativa não pode ser maior, depois de uma escalada nas provocações do presidente dos Estados Unidos e também da subida de tom dos líderes europeus, mas não só. No centro estão as pretensões americanas relativas à Gronelândia, agora acompanhadas pela ameaça de uma guerra tarifária de consequências imprevisíveis para as economias dos dois lados do Atlântico. Nos bastidores multiplicam-se as reuniões bilaterais, mas o ambiente na Europa é que será mesmo necessário mudar de estratégia na relação negocial com Trump. Vamos tentar falar disso tudo no Contracorrente de hoje, começando pela pergunta mais assustadora. José Manuel, bom dia. Achas mesmo que pode haver guerra, que os Estados Unidos podem usar a força para ocupar a Gronelândia?

Bom dia, Carla. Vou ser sincero, eu achava que isso era apenas um cenário completamente fictício e acho que a probabilidade ainda é baixíssima. Mas a evolução dos últimos dias tem me deixado bastante mais preocupado do que estava. E não propriamente pelo desenrolar do que possa vir a acontecer, mas pelo lado imprevisível e em muitos aspectos, sem respeitar qualquer tipo de limites de Donald Trump. Apesar de tudo, a verdade é que a presidência dos Estados Unidos não se gere como quem anda a comprar e vender apartamentos em Nova Iorque, ou torres em Nova Iorque. Portanto, as táticas negociais seguidas no imobiliário podem ser muito agressivas, como ele aliás explicou no seu livro sobre a arte da negociação. Mas fazer bullying, como ele está a fazer, está um pouco para além daquilo que é razoável, porque estamos a falar para todos os efeitos da relação entre a Europa e os Estados Unidos. Se bem que, porventura, é a altura de perceber que não só essa relação já teve melhores dias, como uma parte da responsabilidade pela sua degradação é do que a Europa fez, e vou só dar um exemplo. Em vários momentos na história recente, a Europa disse que estava bem e recomendava-se. Recordo-me, por exemplo, que quando começou a crise nos Balcãs, o então presidente da Comissão Europeia, uma pessoa super venerada ainda hoje, Jacques Delors, disse que era um problema europeu, a América não tinha nada a ver com isso e a Europa havia de resolvê-lo. Como infelizmente todos nos lembramos, depois foi necessário que fossem os Estados Unidos a resolvê-lo. O acordo para cessar fogo na Bósnia foi assinado numa base militar nos Estados Unidos e depois haveria de se passar o mesmo também no Kosovo e na Albânia, por aí adiante. Eu ontem estava a ler, porque não ouvi em direto, aquilo que disse von der Leyen em Davos. E von der Leyen foi para Davos dizer que o mundo estava a virar para a Europa e, portanto, nós iríamos, como o mundo está a virar para nós, iríamos naturalmente fazer tudo bem. Não creio que isso seja exatamente assim. Não creio que o mundo esteja a virar para a Europa como ela sugeriu. Vamos inclusivamente ver qual é a margem por que passa a aprovação do acordo com o Mercosul no Parlamento Europeu. Nem está sequer garantido que venha a ser aprovado. Veremos. Seria quase suicidário não aprovar, mas já vimos tudo da parte dos eurodeputados. E, portanto, a situação é complicada. Eu ontem estava a ler um texto no Wall Street Journal, escrito por uma espécie de diretor emérito das páginas de opinião, George Baker, que me deixou a pensar, porque basicamente o que ele faz é um cenário de Terceira Guerra Mundial, não uma guerra mundial que acabasse com a humanidade, mas uma guerra mundial sem armas atômicas, mas da qual sairia os Estados Unidos e a Europa em muito mau estado, e ele colocava, na sequência dos acontecimentos, uma possível invasão da Gronelândia. Quando alguém com experiência, a responsabilidade, a projeção do antigo diretor emérito das páginas de opinião de um dos mais importantes jornais dos Estados Unidos, e que ainda por cima é um jornal que nas páginas de opinião, por regra, apoia os republicanos, dá que pensar. No mínimo, dá que pensar. Portanto, aquilo que se está a passar, vamos ver se é apenas um passo para chegar a um acordo. Percebe-se, mais uma vez, que há, por vezes, razões do lado dos Estados Unidos, mas a forma como Donald Trump age, é uma coisa que me diziam muito quando eu era mais pequeno em casa, que é: "A falar assim, perdeste a razão." Coisa que me deixa às vezes muito furioso, mas nós percebemos que há formas de falar e formas de falar, e neste caso, estamos numa situação em que a possível ruptura da NATO volta a estar em cima da mesa. Há quem faça uma comparação com uma crise quase de nascimento, que é a crise de 1956, chamada a Crise do Suez, em que na altura foi um pouquinho ao contrário. Na altura foi o presidente americano, Eisenhower, que obrigou os franceses e os ingleses a terminarem uma intervenção militar no Suez por causa do canal. A maior parte das pessoas não se recorda, é uma das muitas guerras do Médio Oriente. Ontem estava a recordar esse episódio, procurasse conhecer alguns pormenores e reparei numa coincidência que me deixou também a pensar. Esse episódio aconteceu ao mesmo tempo que um outro na Europa, que foi o levantamento de Budapeste e o seu esmagamento pelos tanques soviéticos. Foi um dos momentos marcantes da repressão comunista na Europa de Leste. E nessa altura, a Voz da América, que era a forma como os Estados Unidos se faziam ouvir nos países de Leste, de alguma forma apoiou e incentivou a revolta anticomunista, a revolta democrática, e depois os Estados Unidos não fizeram nada e abandonaram os húngaros. Nós agora temos uma coisa porventura semelhante. Temos uma crise da NATO, como foi a crise de 56 no Suez, e temos um abandono dos iranianos, com o argumento que já acabou a repressão. Às vezes a história repete-se, mas repete-se sempre de uma forma mais trágica e se calhar é aquilo a que estamos a assistir. Vamos falar um pouco disso tudo depois das 10.

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