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Depois de muitos anos a diminuir, o número de suicídios na Europa voltou a subir e em Portugal também. Um relatório europeu sobre saúde mental, conhecido esta semana, revela dados que devem ser motivo de preocupação, mesmo que os indicadores ainda sejam poucos. Em Portugal, este tema tem vindo a conquistar a atenção dos responsáveis políticos. No passado mês de setembro, entrou em funcionamento uma linha nacional de prevenção do suicídio e apoio psicológico, que usa o número 1411, mas há ainda um imenso caminho a percorrer no que respeita à prestação de serviços da saúde mental no nosso SNS. É precisamente isso que queremos discutir no Contracorrente de hoje. José Manuel, até que ponto consideras grave este problema? Bom dia, José Manuel.

Bom dia. Quando falamos dos números que estamos a falar, não pode deixar de ser grave. Estamos a falar de três mortes por dia. Vamos ver como é que fechamos este ano, mas de um número muito perto das mil mortes por ano ou mesmo superior a mil mortes por ano. E sobretudo, estamos a falar de uma evolução que se tornou negativa nos últimos dois anos e ainda não temos dados de 2024, pelo menos neste estudo não são revelados dados de 2024. É uma evolução que eu só posso considerar preocupante, até porque é bastante concentrada sobretudo em homens. A desproporção entre homens e mulheres é muito grande, o que talvez até vá contra a intuição que temos. E essa intuição é capaz de ser derivada de um outro fator: é que, em Portugal, as mulheres dão aparentemente mais atenção à sua saúde mental. O número de mulheres que são rastreadas, que recorrem a consultas e que são acompanhadas é muitíssimo superior ao número de homens. Em contrapartida, o número de homens que recorre ao suicídio é bastante superior. Isso em alguns países, como por exemplo, os países onde há disponibilidade de muitas armas de fogo. Também há muitos países europeus, que por razões da sua estrutura territorial, das suas tradições, têm muitas armas de caça em casa. A eficácia da tentativa de suicídio, no caso dos homens recorrendo à arma de fogo, era em média superior à das mulheres, que optavam por outras formas de suicídio e, por isso, só aqui se estabelecia uma relação. Talvez não seja essa a razão principal em Portugal. Em Portugal, a escolha do método está muito equilibrada entre os dois sexos. Nós podemos associar, em parte, este fenómeno do reconhecimento do número de suicídios às questões de saúde mental geradas pela pandemia, mas talvez isso não explique tudo. É preciso ter em consideração também que há enormes deficiências na cobertura e, porventura, algo que é muito persistente, sobretudo entre as populações com mais idade e que é uma das áreas em que os homens com mais de 65 anos são os que estão mais sujeitos à possibilidade de ocorrer um suicídio, que é a ideia de que a saúde mental é uma coisa para malucos. "E eu não sou maluco." E por isso não dão atenção ou não suprimem a atenção ao seu bem-estar emocional, aos problemas que muitas vezes têm e quando se repara já é tarde demais. É um pouco sobre isso que vamos falar. Vamos ter conosco a ajuda, naturalmente, de especialistas, nomeadamente do nosso médico dos malucos.

Exatamente.

Tem aqui um podcast chamado "O Médico dos Malucos", exatamente. Ele vai estar conosco em estúdio e eu espero que possamos tratar um pouco deste tema. Isto são dados de um relatório europeu. A situação em Portugal, nós tínhamos a mania de dizer que éramos dos países que estavam melhor. Não é verdade. Não somos os piores, mas estamos a meio da tabela e somos o pior do sul da Europa. Há mais tendência para o suicídio nos países do norte da Europa, o que pode estar associado também a períodos do ano em que é noite quase todo o dia. Eventualmente, um ambiente mais depressivo. Mas falamos disso tudo depois das 10.

Combinado, até já. 91 002 41 85 para entrar em direto, mas também nos pode enviar a sua mensagem de voz através do WhatsApp. O número é sempre o mesmo.