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Está na hora de conhecermos o tema do Contracorrente. O José Manuel Fernandes já aqui está conosco. Depois, para entrar em direto, só tem que ligar para o 91 002 41 85, número que também pode usar para nos enviar a sua mensagem de voz pelo WhatsApp. Se preferir, deixe os seus comentários nas redes sociais ou no nosso site. Carla. Poucos fora da Alemanha saberão apontar no mapa onde fica o estado federado da Saxônia-Anhalt, mas isso pouco importa. Ontem, os eleitores desse pequeno estado, um dos mais pobres da Alemanha, deram uma vitória esmagadora à AfD, o partido radical de direita que mais do que duplicou a votação e que, com 43,8% dos votos, ficou à beira de poder governar com maioria absoluta. É mais um sinal de que a Alemanha se está a tornar no doente no coração da Europa, uma Alemanha que também tem um dos governos mais impopulares e está confrontada com o colapso do seu modelo econômico de sucesso. Este mês ainda haverá mais eleições regionais, mas é impossível ignorar o terremoto de ontem, tanto em Berlim como em Bruxelas, e é disso que trataremos no Contracorrente de hoje. José Manuel, bom dia. Estamos a falar de menos de dois milhões de eleitores. Por que achas que esta eleição é assim tão importante em Alemanha?

Bom dia, Carla. Bem regressado.

Bem regressados, nós.

Bem regressados os dois. Faltámos os dois de férias. Eu acho que é muito importante, porque estamos a falar de um partido que, ao contrário de outros partidos da direita radical na Europa, é um partido de fato extremista em muitos aspectos, pelo menos é visto como tal, e tem seguramente fações que o são. E depois, porque estamos na Alemanha, que tem dois aspectos extraordinariamente importantes. Por um lado, foi durante décadas o motor econômico da Europa, está a deixar de o ser, e por outro lado, é um país que tem um passado que continua, de alguma forma, a atormentar-nos. Atormentou-nos durante o século XX, parecia ser um passado ultrapassado, digamos assim, deixado para trás, mas às vezes parece regressar, e regressar à galope. Ora bem, o que se passou ontem e por que aquilo é um sinal do que pode vir aí? Primeiro, este partido, a AfD, que é um partido que foi fundado no tempo da crise do euro por economistas que eram contra o bailout, contra o resgate de países como a Grécia, sobretudo era a Grécia que estava aqui em causa. Os economistas continuam lá, pelo menos alguns deles, continua a ser muito ortodoxo em termos de políticas financeiras, mas tornou-se um partido cujas principais bandeiras têm a ver com a imigração e com o regresso de um certo nacionalismo alemão e de um orgulho alemão em muitos aspectos. Este partido está claramente em alta na Alemanha nessa altura. Ele já teve uma prestação eleitoral muito forte nas últimas eleições, mas agora aparece nas sondagens claramente à frente, com cerca de 30% das intenções de voto no conjunto da Alemanha federal, bem à frente dos cristãos-democratas, que estão com cerca de 20, e muito à frente dos sociais-democratas, que estão mais perto dos 10 do que dos 20. Portanto, estamos a falar de uma alteração do equilíbrio político na Alemanha. Neste estado, o resultado é bastante impressionante, porque temos um partido que mais do que duplicou a sua votação. Os resultados finais apontam para 43,8%, ao mesmo tempo que a CDU, portanto, os cristãos-democratas, perderam metade do seu eleitorado, ficaram com o resultado que nenhuma sondagem previa. As sondagens estavam a falar para um resultado na casa dos 20%, ficaram com 17,2%. É um resultado baixíssimo e nenhum outro partido teve progressos significativos, sendo que talvez o progresso mais significativo tenha sido o de um partido que é novo, que apareceu pela primeira vez. Tem um nome que eu tenho imensa dificuldade em dizer, porque é um partido nacionalista de esquerda. Tem o nome da sua líder, eu vou tentar dizer o nome. O nome é Sarah Wagenknecht, não sei se é bem assim que se diz, enfim, pode ser que alguém depois nos ajude durante o programa. É um partido que em muitos aspectos parecia absolutamente incompatível com a AfD. Elegeu cinco deputados, a AfD elegeu 39, precisava de 42 para ter maioria. Mas, paradoxalmente, este partido, que partilha com a AfD algumas preocupações, as preocupações com a imigração, por exemplo, é um partido que é dirigido por alguém que vem diretamente do antigo partido que governava a República Democrática Alemã, portanto, a República Comunista. Nem sei se é de chamar ex-comunista, porque ela verdadeiramente nunca disse que deixava de o ter sido. E recordemos que este regime, o regime da Alemanha dita democrática, era o mais autoritário e tirânico de todos os regimes. Quer dizer, porventura, teríamos que regressar ao tempo de Stálin para encontrar algo mais violento. Aqui era um país onde todos eram vigiados. A Stasi ainda hoje atormenta a memória dos alemães. Mesmo assim, temos aqui um partido de alguém, com o seu nome, que consegue ter 5,3%, eleger cinco deputados e ficar como fiel da balança. Em boa parte, quem vier a formar governo na Saxônia-Anhalt dependerá muito do que decidir este partido, que como disse, tem alguns pontos comuns, designadamente no respeito à imigração, com a AfD. E não só, também no que respeita, por exemplo, ao lado um pouquinho doutrinário do serviço público de televisão na Alemanha, que também é contra, e outros aspectos. E mais do que isto, vamos ter mais duas eleições, como tu referiste, este mês, daqui a duas semanas, no próximo dia 20. Numa dessas eleições, no estado de Magdeburgo, a AfD também está à frente, com menos vantagem, mas surge à frente do SPD, os sociais-democratas, o partido que atualmente lidera esse estado, e as possíveis coligações pós-eleitorais também são um bico d'obra. Não é claro que resulte uma maioria com a capacidade de governar nesse estado, mesmo com a AfD menos forte do que aqui. E em Berlim, que é uma cidade que tradicionalmente era governada pela esquerda, foi a cidade onde, em tempos, foi presidente Willy Brandt, estamos a falar de muito tempo atrás, mas é uma memória. Enfim, na altura era só Berlim Ocidental. Em Berlim, nós temos, neste momento, uma espécie de tri-empate, três partidos mais ou menos com a mesma votação, a CDU, que surge empatada com a esquerda, que é um partido formado com uma mistura de antigos comunistas de leste com antigos sociais-democratas de esquerda da Alemanha Ocidental, e a AfD, inevitavelmente. A AfD ligeiramente atrás neste momento, mas a subir. Portanto, também não se sabe o que vai acontecer em Berlim. Também pode sair daqui uma situação de quase ingovernabilidade, porque é difícil formar coligações. Ora bem, isto numa altura em que a Alemanha está com um governo, como tu disseste, altamente impopular. Nunca um chanceler foi tão impopular como neste momento é o chanceler Merz, que ontem levou horas a aparecer nas televisões a reagir. Isto para a CDU é um golpe brutal mesmo. Eu acho que é um golpe brutal para todos os partidos tradicionais, apesar de o SPD ter quase deitado foguetes, porque manteve a votação praticamente ou subiu ali umas décimas, mas estamos a falar de não se saber bem como é que isto se resolve na Alemanha. Nós temos um enorme descontentamento que tem a ver com questões políticas e com questões económicas, num país que é muito difícil de governar e de onde a saída é difícil. Basta recordar, por exemplo, que o SPD, que tem resultados nas sondagens absolutamente catastróficos neste momento, isso não é de admirar se pensarmos que nos últimos 28 anos, o SPD esteve 24 anos nos governos. Ora como partido liderante, pouco tempo, ora como partido auxiliar, a maior parte do tempo, mas são 24 anos, quer dizer, esteve todo o tempo, e é o tempo do declínio alemão. Vamos tentar falar um pouco disso tudo e ver as consequências na Europa, porque isto desestabiliza completamente a União Europeia e aquilo que possa vir a ser feito, até porque a Alemanha é determinante para saber que orçamento vamos ter na União Europeia. E com estes resultados, não estou a ver qual é a solução possível.

E tem havido um silêncio muito grande até dos restantes países europeus.

Exatamente.

Vamos falar melhor depois das 10:00. Até já.

Até já.

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