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José Manuel Fernandes quer ir mesmo contra a corrente no Contra Corrente de hoje, tudo por causa da Cimeira do Clima que está a decorrer em Nova York. José Manuel, por que a contra corrente?

Bom dia.

Bom dia.

Porque ontem estive um bocado a ouvir a nova estrela mundial do ativismo climático, a Greta, aquela menina sueca com uma longa trança, e vou ser franco: eu devo dizer que compreendo e até estou de certa forma solidário com todos os mais novos, com toda esta geração que está preocupada, eu acho que está mesmo aterrada com o seu futuro. Mas aquilo que não entendo e que de certa forma também não aceito, é que Greta Thunberg se tenha transformado nesta heroína global, que faz discursos que são, na minha perspetiva, muito irrealistas, muito radicais. E diria mais, no caso de ontem, foram, na minha perspetiva, até um pouco malcriados. Ela ontem esteve nas Nações Unidas, para todos os efeitos era uma convidada, virou-se para quem a convidara e disse qualquer coisa como isto: "Como se atrevem? Vocês roubaram os meus sonhos, a minha infância, com palavras vazias. Há pessoas a sofrer e a morrer. As vossas metas não são aceitáveis para nós. Como é que se atrevem?" Claro que houve muita gente que aplaudiu, porque é sempre fácil aplaudir. Agora, o difícil é saber o que é que se pode fazer. Aquilo que Greta disse é que cumprir os acordos de Paris não chega, e que isso é inaceitável. Aquilo que é verdade é que, por mais que nos custe admitir isso, ninguém ainda, sequer hoje, sabe como é que vamos conseguir cumprir os acordos de Paris.

Como é que não é possível? Então estes acordos não foram assinados por quase todos os países do mundo, há dúvidas?

Foram, os acordos foram assinados por quase todos os países do mundo. Mas uma coisa é falar de descarbonização, todos andamos a falar disso, andamos com a boca cheia disso, outra coisa é saber como é que chegamos lá. Eu vou dar alguns exemplos, que aliás tirei da última edição da Economist, que tem a capa sobre isso e dá uma noção das dificuldades que nós temos pela frente. Vamos, por exemplo, pensar na eletricidade, a energia limpa por excelência. Ela só é limpa se for produzida por fontes renováveis. E nós quando pensamos em fontes renováveis, pensamos em energia eólica, em fotovoltaica, e todos vimos que houve um boom extraordinário, vemos ventoinhas por todo lado, células por todo lado. Apesar desse boom, isso só representa 7% da produção mundial. 7% é quase nada. Portanto, tudo o resto, ou quase tudo o resto, ainda é carbónico, por assim dizer. Agora repare, estamos a falar de produção de energia elétrica. A energia elétrica é só 40% das emissões industriais. Tudo o resto não vai lá com ventoinhas e fotovoltaico. Ainda ninguém sabe hoje, por exemplo, como é que vamos fazer aço ou cimento, só para dar dois exemplos, sem ser com combustíveis fósseis. E ainda estamos só a falar de indústria. Agora passamos para os transportes. E quando chegamos aos transportes e não vamos para os aviões, fiquemos só pelos carros, sabemos que tem havido tremendas evoluções nos carros elétricos, carros hidrogénios, mas ainda hoje, por exemplo, não podemos ir ao Porto num dia e voltar no mesmo dia, sem medo de ficar parado na autoestrada, porque não conseguimos recarregar o carro a tempo. Nós queremos ir mais depressa, todos queremos ir mais depressa, mas não é com apelos dramáticos que conseguimos, porque o grande problema é simples: não temos ainda tecnologia. É preciso um salto tecnológico e ninguém sabe quando é que ele vai chegar.

Mas apesar de tudo isso, Greta Thunberg disse que as metas do Acordo de Paris eram insuficientes e que era preciso fazer mais.

Pois, o problema é que as metas do Acordo de Paris já são muito ambiciosas. As metas do Acordo de Paris implicam a chamada neutralidade carbónica em 2050, que é já amanhã, é uma geração, são 30 anos. Mas para isso, em 2030 devíamos ter reduzido as emissões para metade. Ora, mais uma vez cito a Economist, nenhum país, repito, nenhum país está sequer próximo de alcançar essa meta. E depois há um outro problema, que é um problema de que quase ninguém fala. É que entretanto, como a Revolução Industrial já foi há quase dois séculos, já começou há dois séculos, há uma quantidade imensa de CO₂ que já foi emitido e que está na atmosfera e ele não vai desaparecer. Ele está lá para ficar. E aquilo que nós também não sabemos, ainda não descobrimos, é como é que conseguimos capturá-lo de volta, de forma a fazer reduzir o efeito estufa. É por isso que é tão difícil agir. É por isso que, na minha perspetiva, aquele espetáculo, aquele dramatismo, é também um bocado incoerente. Porque a própria Greta Thunberg acaba por não saber o que há de fazer e o que ela fez é um bom exemplo disso. Como sabes, ela foi para Nova Iorque num navio ecológico da família real do Mónaco, para não ir de avião. Ótimo, excelente ideia. Só que há um problema: é que para ela fazer isso, houve dois tripulantes que tiveram que ir de avião para trazer o navio de volta. Ou seja, a pegada carbónica da Greta acabou por ser maior do que se ela tivesse simplesmente comprado uma bilhete turística. É muito bonito, mas depois não é muito coerente.

E então, com isto tudo, o que é que podemos afinal fazer?

Ninguém tem nenhuma solução mágica, mas eu acho é que quando nós levamos isto muito para a emoção, não ajuda, porque provavelmente uma parte do que vamos ter que fazer é aprender a viver com as alterações climáticas. Isso é difícil de admitir, mas algumas pessoas andam a dizer isso há uns anos e temos que assumi-lo. Isto é, no fundo, combater em duas frentes. Por um lado, tentar evitá-las o mais possível, fazer tudo o que for possível para descarbonizar, mas ao mesmo tempo encarar de frente o problema. Elas vão continuar a ocorrer, já estão a ocorrer e o melhor é precavermo-nos. O problema é simples, mesmo que fizéssemos desaparecer hoje todos os seres humanos da face da Terra, os glaciares iam continuar a recuar e os gelos do Ártico iam continuar a derreter, porque o CO₂ está cá, não ia desaparecer. Nós não vamos desaparecer, mas também não vamos desistir. Também não vamos de repente achar que é só por causa das alterações climáticas que há gente a sofrer e a morrer, como disse, em lágrimas, a Greta Thunberg. De resto, é bom ter os pés na Terra. E ter os pés na Terra é assumir que, por exemplo, a malária mata muito mais gente todos os dias, mas mesmo muito mais gente, e nunca ninguém fala dela nas Nações Unidas.

Contra Corrente com José Manuel Fernandes, à conversa com Carla Jorge Carvalho, aqui no Observador. Rádio Observador. Ouça este e outros conteúdos em observador.pt/rádio e subscreva os nossos podcasts.