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Hoje o tema pode ser: quem matou Dom João VI? O veneno estaria nas laranjas, mas quem o pôs lá e em que dia morreu realmente o rei? Estava ainda vivo Dom João VI no dia em que um decreto assinado por si alterou a sucessão ao trono ou a assinatura é falsa? Helena Matos, bom dia. Isto podia ser um podcast plus, não é? Mas o que sabemos é que esta corte era também muito arriscada. Os nobres caíam das janelas e o veneno acabou na mesa do rei.
Sim. O veneno acabou na mesa do rei e há nobres a cair das janelas e Marquês de Loulé, que morreu algum tempo antes, caindo de uma janela no Paço de Salvaterra. É uma corte perigosa, é uma corte onde se fala muito de venenos e é sempre com dor que se verifica que o veneno acabou na mesa do rei. O rei Dom João VI é particularmente injustiçado pela história e pela memória, mas é alguém que, na medida do possível, se esforçou para que Portugal tivesse sempre a melhor opção ou a opção possível e que, sobretudo, não houvesse guerra. Aliás, essa guerra vai começar após a sua morte. Mas a grande dúvida é: como é que isto hoje se investigaria? Como é que um caso como este se investigaria? Vamos ter em estúdio, claramente, quem nos saberá explicar isto. Vamos ter também quem defenda de uma forma apaixonada o rei Dom João VI, mas sobretudo vamos ter de começar por uma ponta. Por esse dia 4 de março de 1826. E vocês, que são as pessoas que se levantam mais cedo, até que eu costume, não sei o que comem logo de manhã, mas o nosso rei Dom João VI, nesse dia 4 de março de 1826, tomou o seu almoço, que correspondia agora, no nosso tempo, à primeira refeição do dia, portanto, ao pequeno-almoço. E o que comeu o nosso rei ao seu pequeno-almoço?
Vais dizer já?
Frango.
Frango?
Frango corado, queijo e laranjas. Não tirem ideias, quer dizer, podem tirar também, pronto, podem já começar amanhã. Frango corado, queijo e laranjas. Entende-se hoje, até por todo este processo, se o rei foi ou não foi envenenado, e é algo que tem gerado muita polêmica ao longo dos anos. Mal o rei morreu, começou a falar-se de veneno, que o rei tinha sido envenenado, e acaba depois, já por ser uma investigação muito recente, em que por acaso se encontra um pote chinês onde estavam as vísceras do rei, que vem dizer que sim, que havia veneno em doses muito elevadas nas vísceras do rei e, portanto, provavelmente o veneno estaria nas laranjas. Agora, quem é que o pôs lá? A quem é que servia? A quem é que interessava? E é um bocado também esse andar pelos corredores dessa corte e perceber quem é que beneficiava ou achava beneficiar com a morte do rei. São vários, ele tem dois filhos que representam dois partidos diferentes, Dom Pedro e Dom Miguel. O primeiro representa os liberais, o segundo representa os absolutistas. De alguma forma, a morte do rei poderia convir aos dois, pois temos aquela figura espantosa da rainha Carlota Joaquina, que sabemos, ela era absolutista, e tinha uma relação muito difícil com boa parte da corte, às vezes também muito difícil com o seu santo marido. E curiosamente é Carlota Joaquina a primeira pessoa, com autoridade, claro, porque já se sussurrava por todo lado, que o rei podia ter sido envenenado. Quando um dos embaixadores vai dar os pêsames, ela diz: "O rei foi envenenado". Mas não era a Carlota Joaquina a principal beneficiária do envenenamento do rei? E por que desaparece o cozinheiro?
Desaparece o cozinheiro?
Desaparece o cozinheiro, morre o cozinheiro. E o médico, um dos raros que pode entrar na Câmara, os reis, em geral, estas coisas eram geralmente formuladas por 17 médicos, mas um dos que o acompanhou vai imediatamente para o Brasil, depois também volta. E quando volta do Brasil, suicida-se. Portanto, nós não vamos dizer aquilo que pensamos tantas vezes . Se nós fôssemos americanos, o que eles não fariam com isto? Mas há, sem dúvida, aqui muito que perguntar. E há mais ainda uma outra questão: em que dia é que morreu o rei? É assim, a morte do rei foi anunciada aos portugueses no dia 10 de março, ou seja, seis dias depois de ele ter adoecido. É anunciada com salvas de canhões, com aquelas salvas que estão perfeitamente codificadas para todas estas coisas. A morte é anunciada. Mas há uma coisa: há quem tenha reparado que as janelas do quarto do rei, ou do quarto onde ele estava agonizante, não se fecham desde o dia 7. Por quê? Para que saia o mau cheiro de um cadáver, de um corpo em decomposição? Portanto, há quem ache que o rei morreu antes da data oficial. E por que isso acontece? Porque, na verdade, foi produzida legislação assinada durante a agonia do rei e foi assinada pelo rei. Há um decreto que altera, todos os textos são sempre muito ambíguos, às vezes como era o próprio Dom João VI, coitado, para tentar navegar no meio daquela tormenta.
A forma como está escrito pode ou não ter condicionado aquele que veio a suceder a D. João. Há investigações, também muito recentes. A assinatura é provavelmente falsa, mas é falsa porque o rei estava já morto e alguém fez aquele decreto e vai atrasar o anúncio da morte do rei? Ou é falsa porque o rei, concordando com o decreto, já não conseguia assinar?
Tantas perguntas.
Pois é. Vocês vão ter o noticiário daqui a pouco, penso eu, mas espero que estejam aqui com a cabeça bem nesta questão.
Acho que aguçaste a curiosidade.
Sim, e eu acho que para esta altura de verão, às vezes um pouco destas viagens ao passado talvez nos ilustrem mais um bocadinho o presente. De qualquer forma, se eu ainda tiver dois minutos, eu posso dizer quem é que é D. João VI. D. João VI não era para ser rei. Ele era filho segundo de D. Maria I. Ele nasceu em 1767, não era o herdeiro. Quem era para ser o herdeiro era D. José Francisco Xavier de Paula Domingues António Agostinho Anastácio de Bragança. E D. José Francisco Xavier de Paula Domingues António Agostinho Anastácio de Bragança morreu prematuramente com varíola. Ele tinha 27 anos e esta morte do herdeiro contribui para algo que nós sempre ouvimos falar muito, que foi a loucura da rainha D. Maria I, que era mãe de D. José e era mãe de D. João, daquele que vem a ser D. João VI. Portanto, este príncipe, que não era para ser rei, toda a sua vida é uma sucessão de ter de tomar decisões. A mais, aquela que eu penso que mesmo aqueles que sabem muito pouco de história recordarão, é que a corte teve de partir para o Brasil, de fugir para o Brasil, porque tivemos as invasões francesas. Talvez o sítio onde D. João VI tenha vivido, se não mais feliz, pelo menos mais descontraído, tenha sido o Brasil. Mas D. João VI teve de regressar ao reino, contrariado, dizem, e aí começa uma das fases mais difíceis da sua vida, que é já este confronto entre liberais e absolutistas. Temos também a questão da carta constitucional. Ele começa por ser rei absoluto. Vemos este homem a tentar manter-se a si e ao reino no cimo, não se deixar soçobrar completamente por isto que está a acontecer no reino. Mas há aquele dia em que o veneno acabou na mesa do rei. E o que nós vamos ver hoje, e provavelmente estava dentro das laranjas.
Sim.
Vamos ver. Para já, nunca comam ao pequeno-almoço franco ao rato, queijo e laranjas. Amanhã já sabem. Vou logo perguntar-vos o que é que queriam.
A minha mãe diz que laranja à noite é que mata.
Mas aquela parte do franco ao rato é que eu duvido. Ainda há de vir esta dieta, ainda há de vir a dieta do rei. Mas é disso que vamos falar. E como é que isto se investigava hoje? Se teríamos as mesmas dúvidas, se os venenos seriam outros. Enfim, vamos conhecer este rei que perdoou tudo a todos e que acabou com veneno na sua mesa. E ele que gostava imenso de comer.
Até já, Joana.
Até já.
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