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Bom dia.
Julgo que tens as vacinas todas em dia. Nunca tiveste dúvidas em tomá-las, pois não?
Não, nunca tive dúvidas em tomá-las.
Nem mesmo desta última.
Não. Para se ter ideia, as estimativas variam conforme os países, mas o facto de hoje em dia termos praticamente em todo o mundo uma política de vacinas, há uma preocupação e um esforço para vacinar as crianças, mesmo nos países mais pobres do mundo. Mas nos países que têm esses programas há mais tempo, há mais décadas, as vacinas terão contribuído para um aumento da esperança de vida de, não sei se estás sentada, prepara-te, 30 anos.
30 anos?
30 anos, basicamente por causa da diminuição da mortalidade nos anos mais… Não só a mortalidade infantil, mas a mortalidade quando se é criança ainda, que quando se estima a esperança de vida é um valor estatístico. Se se morre muito novo, ela contribui, mesmo que depois haja pessoas muito velhas. Isto mostra a diferença. Eu estava ontem a ler alguns documentos e encontrei uma frase absolutamente extraordinária, muito reveladora, só que um bocadinho negativa daquilo que é hoje a conversa dos antivacinas. As vacinas em Portugal começaram de uma forma muito primitiva, digamos assim, começaram a ser dadas para a varíola, as bexigas, como se dizia antigamente. No início do século XIX, há dois séculos. E há na altura um testemunho de um médico de Coimbra, José Feliciano Castilho. Ele é pai do António Feliciano Castilho, aquele escritor conhecido que também inventou um método de leitura. E esse testemunho é que ele era médico e uma das suas doentes apareceu e lhe disse assim: "Isto das vacinas", e eu vou citar, "é a maior das desgraças que têm vindo ao mundo, a maior das desgraças. Ter filhos é o maior mal que pode suceder à gente pobre. Com a criação deles, os filhos, não pode cuidar da sua vida, não pode ir à lenha, não pode ir à erva, não pode fazer nada." As bexigas eram para os pobres aquilo que eles apelavam para se verem livres dos filhos. E agora nem esse recurso têm. É uma frase horrível. Mas é uma frase típica de um tempo, estamos num país muito pobre, no princípio do século XIX. Um país que vai conhecer as invasões francesas e vai ficar mais pobre ainda. Um país extremamente desgraçado. Mas este retrato da desgraça parece hoje reproduzir-se naquilo que são meios até relativamente instruídos, mas que acham que os segredos do mundo estão todos no fazer perguntas ao Google e no Google encontra-se sempre tudo e encontram-se as teorias mais estapafúrdias, mesmo aquelas que são verdadeiras fraudes científicas. E neste caso concreto, por exemplo, da vacinação, há uma vacina que a maior parte de nós tomou, que é a chamada vacina tríplice, que é uma vacina contra três destas doenças que antigamente eram muito comuns e que matavam muitas pessoas, muitas crianças, sobretudo. Diz-se que ela provoca autismo. É um estudo com dados falsificados, foi publicado há 20 e tal anos e que veio fazer renascer um movimento antivacinas. Mas depois houve outros vários fatores, nomeadamente tudo o que se passou durante o período da Covid, em que o debate sobre a forma de combater a Covid, em vez de ser um debate centrado nas medidas sanitárias e políticas, transformou-se num debate muito político, muito extremado e muito partidarizado. A certa altura valia tudo. Isso foi mais verdade nuns países do que noutros, mas houve países em que isso aconteceu. Há países que têm uma cultura de receio por aquilo que o Estado faz, porque o Estado já fez coisas demais, já entrou demasiado na vida delas. São nomeadamente os antigos países comunistas, onde o Estado antes era totalitário, no sentido em que dominava completamente a vida das pessoas. Isso também contribui muito para ter receio de tudo o que sejam intromissões do Estado naquilo que parece, e é, a vida das pessoas, para todos os efeitos. Cada pessoa é dona da sua vida. Mas isto, no caso concreto das vacinas, é muito relativo. Por exemplo, no sarampo, falaste que há sarampo novo. Os surtos de sarampo na maior parte dos países desenvolvidos, nos Estados Unidos e Europa, acontece por importação, porque vem de fora. E depois, naturalmente, as vacinas nunca dão 100% de proteção, há sempre alguma suscetibilidade que fica. Mesmo que seja 3%, 2%, como acontece nos casos, por exemplo, da vacina do sarampo. E portanto, quando há o vírus que chega de fora, apanha-se as poucas pessoas que existem e elas são contaminadas. Se apanhar bolsas com menos grau de vacinação, isso espalha-se mais depressa. Foi precisamente o que aconteceu nos Estados Unidos, por exemplo, agora. Aquilo apareceu numa região do Texas, onde vivia uma comunidade dessas comunidades religiosas, não são os amish, mas são uma comunidade parecida, daquelas que acham que se deve fugir da tecnologia, se deve viver da forma mais simples possível. E portanto, as vacinas são tecnologia e eles evitam tudo o que seja esse tipo de coisas. Sabes que há, por exemplo, quem recusa as transfusões de sangue e são comunidades religiosas muito maiores. Isso ajudou a explicar este surto nos Estados Unidos, mas há outras razões que são mais profundas, que atravessam todas as sociedades, mesmo em Portugal. Felizmente, em Portugal, com uma expressão muitíssimo menor. Houve países onde já houve partidos antivacinas a irem às eleições e a terem boas votações. Portanto, acho que vale a pena voltar a debater este assunto, porque todos os anos isto volta um pouquinho à baila. Todos os anos percebemos que, por exemplo, há idosos que não querem a vacina da gripe, não querem a vacina da Covid, que devem continuar a tomar, porque todos os anos há variantes novas e não dá proteção total. E isto tem muito a ver com este discurso, que é um discurso repetitivo e com um lado anticientífico muito recorrente. O que não quer dizer, e também falaremos disso, que não tenha havido, ao longo destes dois séculos, ou mais de dois séculos de vacinação, situações em que houve erros, em que houve vacinas mal feitas, em que houve desastres e situações de mortalidade causadas por vacinas que estavam mal desenhadas. Às vezes acontece isso, acontece em tudo o que é progresso. Quer dizer, nós não vamos deixar de andar de automóvel, porque de vez em quando há acidentes nas estradas.
Enfim, eu já percebo que há aqui muitas abordagens e muitos temas também.
Vamos falar disso depois. Já estava a estender.
É, já está na hora. Até já. Ligue 910 002 41 85 e dê-nos a sua opinião em direto no "Contra Corrente", logo a seguir ao jornal das 10.