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Muito bom dia. O turismo foi um dos principais motores, senão o principal motor da recuperação da economia portuguesa desde o período do ajustamento, tendo ganho peso na economia desde essa altura, com exceção daqueles anos do Covid. Mas os dados mais recentes, os dados de 2025, divulgados pelo INE, indicam que o crescimento do turismo continuou, mas a um ritmo mais lento que o resto da economia. Será que este motor do crescimento está a abrandar e que outros motores nos restam agora que os investimentos do PRR também estão a acabar? Vamos tentar responder a estas questões no Contracorrente de hoje. José Manuel, bom dia.
Bom dia.
O turismo é uma atividade econômica esgotada, é isso ou não?
Não, espero que não. Acho que não. Nós queremos andar pra um lado, pra outro, não vamos deixar de viajar e, sobretudo, as pessoas não vão deixar de viajar. Nós agora estamos habituados a isso, a fazer férias, a ir para o estrangeiro, a ir pra longe, mas eu recordo num tempo diferente, o tempo da crise de 80, portanto, há mais de 40 anos. Uma vez fui em trabalho à Alemanha, uma coisa sobre energia. A pessoa que me acompanhou durante a viagem, que era um alemão relativamente novo, na altura nós estávamos com problema de inflação para aí a 30%, ou 20 e tal por cento, 30%, e lá estava uns estonteantes 6%. Marcaram tudo a dois. E nós aqui na Alemanha vivemos para o mês de férias. E o mês de férias é ir para o sul. Entretanto, as coisas mudaram. O sul tornou-se um espaço muito maior, as companhias de aviação já não têm nada a ver com o que eram nesse tempo, e uma conjunção imensa de fatores faz com que hoje o turismo seja um fenômeno mundial. Portugal beneficiou dessa situação, sem dúvida nenhuma. Tem uma situação que eu diria bastante vantajosa. À nossa frente, em termos de peso do turismo no PIB, só está a Islândia, mas a Islândia é um país minúsculo e com turismo muito top de gama, digamos assim. E a Grécia, por razões que se compreendem, porque combina o Mediterrâneo com a história de uma forma muito poderosa. E nós vimos a seguir. Portanto, estamos à frente de países que, em número de turistas, têm muito mais do que nós, como a França ou sobretudo a Espanha. Isto foi muito importante para a nossa recuperação, não apenas pelo dinheiro que trouxe, pela quantidade de visas, como se costuma dizer, mas de turistas que chegaram, de pessoas que vieram, mas porque teve um efeito que eu sempre valorizei imenso, apesar da imensidão de críticos que isso teve, é que a recuperação turística foi feita de forma muito capilar. Isto é, com muitas pequenas empresas e pequenos negócios a beneficiarem disso. Isso aconteceu na restauração, aconteceu no alojamento, foi o boom do alojamento local. O alojamento local pôs dinheiro na mão, nos bolsos de, não sei, centenas de milhares, milhões de portugueses, se calhar, porque toda a gente arranjou forma de beneficiar desse boom. E tudo isso ajudou imenso a nossa recuperação. Aquilo que nós agora estamos a notar é que o ritmo de crescimento abrandou. Ainda continua a crescer, mas abrandou. Portanto, temos ritmos de crescimento que em 2013 andavam quase nos 16%, o ano passado baixaram pra 7% e agora estão abaixo de 5% este ano. Portanto, é um ritmo diferente e o INE confirmou esses dados, o peso do turismo na economia, que tinha vindo a crescer, o ano passado perdeu ligeiramente. Estamos a falar de uma décima, é pouco, mas é um sinal. Importa perceber o que esse sinal indica, porque isso não foi igual em todas as regiões do país. Há zonas do país que continuam com crescimentos muito fortes e outras onde isso não está a acontecer. Só pra dar uma ideia em termos de crescimento, o Algarve tem crescimentos relativamente baixos. Estamos a falar, para o Algarve, num crescimento de 6%. Lisboa ainda menos, 1,9%. Nas outras regiões, como por exemplo, o Norte 8,7%, a Madeira 17%, os Açores 11%. O Alentejo mais 10% também. Há regiões que estão a crescer mais, o que é bom, porque percebe-se que as zonas mais saturadas, Lisboa e o Algarve, começam de alguma forma a abrandar, o que é porventura também um sinal da sua própria saturação, e outras a crescer. Isso é um sinal positivo e há outro sinal, que era o oposto desse, que é perceber se estamos, como dizem os economistas, se estamos ou não assumindo a cadeia de valor.
Exatamente.
O que significa isso?
Isso era o que nós gostávamos.
O que significa subir na cadeia de valor? Significa passar a ter turistas de cinco estrelas, em vez de turistas de quatro estrelas, turistas de quatro estrelas, em vez de turistas de três estrelas. Estou a falar em termos de alojamento.
Como se dizia nos anos 80 e 90, o turista do pé descalço.
Isso. O turismo hoje é muito diferente desse tempo e nós temos uma boa parte das nossas redes turísticas que estão ligadas a um turismo de muito curta duração. Nalguns destes centros, sobretudo Lisboa e Porto, associado aos pacotes, porque apesar de tudo tem influência. Quem chega num pacote está seis horas, sete horas, oito horas. É uma visita rápida, faz-se umas compras, faz-se uns circuitos, quando muito, toma-se uma refeição e volta.
É o turismo que as cidades mais detestam, não é?
Pois.
É o que tem a maior pegada em todos os níveis. Pegada de carbono, pegada social.
Nota-se na baixa bem se nota quando chega um cruzeiro.
Eu já fiz cruzeiros. O último que fiz já foi há mais de 20 anos. Eram barcos que na altura eram gigantescos e ao menos metade do tamanho dos atuais.
O que são hoje.
Aquilo é uma coisa absolutamente descomunal.
Cidades flutuantes.
Já era uma cidade flutuante, agora é uma metrópole flutuante, quase. Estamos falando de, acho que há alguns com mais de 5000 passageiros, 6000 passageiros, coisa desse género, 10 mil pessoas dentro de uma coisa daquelas. E depois temos o turismo de short break, que é o turismo que vem para um fim de semana e que tira partido de termos custos de voos muito baixos. A aviação tornou-se a forma de viajar mais barata. É uma coisa que até custa a crer, mas é mesmo. Devido à fortíssima competição e ao aumento enorme de eficiência, é evidente que o conforto das viagens não é o que era noutros tempos, todos também sabemos, quem viaja sabe isso, mas permite que as pessoas viajem. É fácil fazer contas, não é?
Sim, é possível ir passar um fim de semana do outro lado da Europa.
Passa a ser um final do outro lado da Europa e às vezes olha-se para o preço da deslocação. Eu vou dizer uma coisa que pode chocar muita gente, mas é o preço de comprar um Alfa daqui para Braga e voltar.
Isso.
Superbarato.
Às vezes menos. Um Alfa é o comboio, e já nem indico ir de carro, e pagar as portagens e a gasolina e essas coisas todas.
O preço do transporte aéreo é um dos preços mais irracionais que existe e é aquele que internaliza menos os custos económicos associados ao transporte, porque é um dos transportes que tem a maior pegada de carbono, que tem efeitos sonoros.
Apesar de ter melhorado muito.
De qualidade de vida da população, de pressão dos aeroportos e tudo, e é super barato. Quando os comboios entram em Portugal, o choque é total.
Tem a ver com a infraestrutura. Construir um aeroporto, apesar de tudo, é caro, mas construir uma linha férrea é muitíssimo mais caro. Se passarmos para o automóvel, o automóvel tem uma pegada também muito elevada. Dito isto, as pessoas passaram a viajar imenso. O turismo não é só o turismo de verão. É evidente que nesta época do ano, nalgumas regiões do país, ele está atulhado. Isso nota-se mais, sobretudo no Algarve, nas zonas no litoral, mas de resto é um hábito todo o ano, ganhou-se um hábito todo o ano e isto também teve efeito sobre muitas outras economias à volta. Uma das zonas que em Portugal há mais tempo começa a dar sinais de alerta é a zona da restauração. A associação dos restaurantes queixa-se imenso, há sempre uma discussão, porque como se recordarão, a seguir, uma das coisas que a troika trouxe, com a troika tinha subido o IVA, depois com a saída da troika desceu outra vez o IVA, e há uma discussão a perguntar por que razão é que uma pessoa vai tomar uma refeição de 100 € por cabeça e paga só 13% de IVA, quando aquilo, de facto, é um bem de luxo. É uma discussão legítima, mas quando se fala em aumentar o custo, aumentar o IVA, fala sempre de falências e de пройendente. É um setor muito particular, porque é um setor onde a mortalidade das empresas é enorme, mas também a criação das empresas é enorme. Por que o que aqui se passa? É uma área onde o custo de entrada, o custo de investimento inicial é muito baixo, por comparação com outras áreas. Se eu quiser construir um hotel ou se quiser criar uma empresa de serviços culturais, porventura é mais complicado do que abrir um café.
E hoje em dia quase nem é preciso licenças.
Quase nem é preciso licença. E era uma coisa que eu lembro, no tempo da crise, de vez em quando ouvia histórias de pessoas que eu conhecia daqui e de acolá, que tinham ficado desempregadas, e perguntava: "O que é que ele foi fazer?" "Abriu um café." Era uma coisa muito comum.
Hoje é mais estar a vender casas.
Eu nem tinha ideia destes números. Os números que a AES dá relativamente à mortalidade das empresas são incríveis. Estamos a falar este ano que houve mais de 6000 empresas criadas e mais de 9000 empresas fechadas. É uma rotação muito grande. Isso em si não baza problemas. Aquilo que nós podemos perguntar é se nós temos Este sector adaptado ao país que somos. Eu diria que em alguns aspectos não temos. Nós temos um índice de empresas de restauração. Estamos a falar em empresas, eu não consegui encontrar números para unidades de restauração, mas em empresas de restauração, nós temos uma empresa de restauração para cada 300 pessoas. Só a Chéquia e a Grécia que têm mais. A média europeia é 450, a de Espanha é 600. Já nem falo da Alemanha, outros países, por exemplo, a Polónia, 800. Portanto, temos um número de restaurantes por habitante muito superior àquilo que é normal. E eu acho que aqui, provavelmente, nem estão muitas da nossa rede de cafés. Eu recentemente fiz um short break, uma pequena escala num país do Báltico, e uma das coisas que reparei, que até achei estranho, enfim, não estava habituado, é não se consegue comer um pequeno-almoço na rua. Não há cafés, não há pastelarias, não existem. Quer dizer, aquilo é um país pós-soviético, com uma maneira de ser diferente. Essas coisas não existem, há restaurantes, naturalmente, sobretudo nas zonas onde há mais estrangeiros, mas não há aquele pequeno estabelecimento, praticamente não existe. Aqui não é em cada esquina. Em cada esquina há vários, são quatro esquinas, quatro estabelecimentos.
Quatro cafés.
Quatro cafés. Portanto, há aqui uma estrutura económica que, porventura, nem sequer se adaptou a algo que também é uma evolução dos comportamentos. Hoje em dia, eu creio que há duas coisas que aconteceram nos comportamentos. Uma que faz as pessoas gastarem mais dinheiro e outra que faz as pessoas gastarem menos dinheiro. Uma que faz as pessoas gastarem menos dinheiro, penso que começou no tempo da troika, depois as pessoas habituaram-se e não deixaram isso, que é: voltou a marmita. As pessoas perceberam que era mais barato trazer a refeição para o local de trabalho, comer no local de trabalho, do que andar a pagar uns croquetes, umas empadas, umas chamuças ou uma sopa num restaurante. E que era melhor, porventura, gastar o dinheiro que assim se poupava, depois a ir a um restaurante mais sofisticado com os amigos numa noite ou num fim de semana. Acho que é uma alteração de comportamento que naturalmente abalou a estrutura pré-existente. Não será radical, nem toda a gente faz isso, mas mudou. A outra coisa que mudou é os Uber Eats desta vida. Os Uber Eats, os Glovo.
Ainda tens os supermercados que estão a entrar.
Não, e essa é a nova realidade. Ainda há isso.
Estão a entrar no segmento das refeições muito baratas.
Muito baratas, muito rapidamente.
Que ameaça a gama mais baixa, mais popular da restauração.
Isto não é exatamente turismo, digamos, no sentido tradicional do termo. Cruza. É um tema que, aliás, se calhar um dia temos de fazer aqui um "Contra-Corrente" com esse tema para perceber melhor.
Já fizemos um por causa do impacto dos supermercados. Com a Helena Matos.
Pois. Portanto, há aqui alterações que são interessantes, que são desafiantes. Mas não podemos considerar que sejam-
É um tema que ainda daria para fazer mais um programa. Aparentemente, nós fizemos na altura só focado muito nos supermercados, mas aparentemente, nós temos aqui uma espécie de ensanduíchamento. Que é os restaurantes muito populares e os restaurantes de gama muito alta, porque os super-ricos que nós andamos a atrair também não vão a restaurantes, contratam chefs.
Sim, alguns super-ricos. Eu não sei, mas há restaurantes desses mais sofisticados de Lisboa, pelo menos de Lisboa, que ouvi dizer que se quiseres lá ir jantar, têm marcações para daqui a três meses.
Mas repare-se são eles que estão a ser mais vocais a pedir benefícios fiscais.
Pois.
Já vimos que é um tema interessante.
Não sei se é um tema interessante ou um tema difícil, e é uma coisa que é interessante, que também se nota nestas estatísticas do INE. Quando nós olhamos para os salários deste setor, portanto, para o emprego, para a remuneração por trabalhador, o setor mais mal pago é o setor da restauração. A remuneração média no setor da restauração é 75% da remuneração média no setor do turismo. Como sabemos, não é o setor mais bem remunerado do país. Portanto, é pior do que, por exemplo, os transportes, bastante abaixo da hotelaria, bastante abaixo das viagens. Depois há a aviação, que é outro mundo.
Mas estás a ver, um dos indicadores que nós temos de acompanhar para perceber se estamos perante uma subida na cadeia de valor, ou seja, estamos a fazer um turismo de maior valor acrescentado ou a oferecer um turismo de maior valor acrescentado ou não, um dos indicadores é exatamente a remuneração.
Exatamente.
Se a remuneração subir, é porque de facto estamos a ter já uma qualificação que já não se compadece com pessoas que sabem apenas servir um café.
Claro, exatamente.
E esse é um indicador importante para acompanhar, nomeadamente nas zonas que parecem indiciar esta alteração estrutural, que é o Algarve e Lisboa.
Lisboa. Sendo que, das coisas que se sambam
As pessoas do setor, vamos ter aqui algumas hoje, falam que há espaço, por exemplo, para o topo. Para os hotéis cinco estrelas, para uma oferta mais sofisticada, há espaço e há procura, porque apesar de tudo, há muitas coisas que o país oferece que continuam a ser muito competitivas a este nível.
Mas estou lá a voltar, só a interromper-te a propósito.
Não, à vontade, a gente está a conversar.
O que estás a dizer: os indicadores, embora eles agora precisem de ser confirmados, e há um problema com a conta satélite do turismo, que está relacionada com a alteração da população, que nós já debatemos aqui. Portanto, não é possível ainda dar dados mais desagregados sobre o emprego, mas há um outro aspecto que é, embora em zonas como Lisboa, e estou a falar de Lisboa e Algarve, porque são as zonas em que parece ter atingido aquele patamar de amadurecimento. E tanto pode ser amadurecimento como crise. Neste momento, parece ser amadurecimento e subida de patamar. Por quê? Porque embora o número de turistas, de hóspedes, tenha estagnado ou até diminuído, eu estou a falar nomeadamente de não residentes, não é dos portugueses, é dos não residentes, dos estrangeiros, a receita por hóspede aumentou.
Está a subir.
Ora, isto pode querer dizer que apenas subiram os preços e nós vemos nas redes sociais, por exemplo, muitas vezes as pessoas a queixarem-se: "Eu encontro um hotel mais barato logo ao atravessar Espanha, pegue-lhe a canela, do que no Algarve", vemos as pessoas a queixarem-se que o Algarve está muito caro, mas pode ser muito caro porque subiu de patamar ou muito caro porque subiu apenas de preços e isto pode reduzir a procura.
Muito bem.
Estamos aqui a passar uma fase de transição interessante.
Vamos esclarecer isso com o primeiro convidado do Contracorrente, que é o André Gomes, presidente da Região de Turismo do Algarve. Muito bom dia.
Bom dia.
E também da Associação de Turismo do Algarve. Antes de mais, antes de irmos à questão do preço e comparando com a Espanha, como é que está a ser o verão aí no Algarve?
Está a ir ao encontro daquilo que eram as nossas expectativas, tendo em conta aquilo que foram os resultados registados desde logo no final do primeiro semestre, em que de facto tivemos a capacidade de, conforme referiam, um destino consolidado como o Algarve e com o nível de reconhecimento e de visitação que tem. Estamos em conta, ainda assim, tendo em conta aquilo que são as incertezas que a situação internacional nos coloca, nomeadamente em particular com aquilo que são os efeitos do aumento dos combustíveis. Estamos a ter um verão em linha de conta com aquilo que estávamos à espera, em linha de conta com aquilo que tivemos no ano passado, em que recordamos, já tivemos mais uma vez resultados recordes, não só a nível de todo o ano, mas também em particular na altura do verão e, portanto, tudo a correr de acordo com o previsto.
Em linha, quer dizer que continua a crescer, é isso?
Sim, continuamos a crescer, mas continuamos a crescer, aliás, já como viemos a fazê-lo durante o ano passado e como estivemos a fazer durante este primeiro semestre, a crescer de uma forma sustentada e sustentável. Conforme vocês referiam, eu estava a ter a oportunidade de acompanhar a emissão, estamos a falar de um destino, como dizia, com um nível de reconhecimento a nível nacional e a nível internacional, como poucos a nível mundial, e que de fato entrou numa fase, nos últimos anos, de consolidação e de aposta na valorização daquilo que é a sua oferta. Nessa perspectiva, isso também se reflete, obviamente, naquilo que é o desempenho da atividade, nomeadamente naquilo que é contabilizado pelo INE, ao nível daquilo que tem sido um crescimento em proveitos, em percentagem superior àquilo que é o crescimento verificado, ao nível daquilo que são aqueles indicadores que consideramos que colocam mais pressão no território, quando falamos, nomeadamente e em particular, ao nível dos hóspedes e dormidas. E portanto, é esse os resultados que o Algarve tem atingido nos últimos anos, continua a atingir, dentro daquilo que é uma base estratégica que foi definida com horizonte até 2028 e que pretende e aposta precisamente nisso mesmo, numa qualificação da oferta regional, na valorização dessa oferta, nomeadamente e em particular, naquilo que é o seu período de maior procura, como é aquele em que estamos agora. Por isso, ficamos muito agradados por ver crescimentos, nomeadamente nalguns meses a dois dígitos, nalguns daqueles indicadores, nos períodos, por exemplo, entre janeiro e maio e entre outubro e dezembro. E depois, obviamente e naturalmente, um crescimento muito mais ténue ao nível daquilo que é uma altura em que, por norma, também já estamos completamente cheios. Quando falamos também de crescimentos relativos, temos que ver qual é a base de partida e vocês há pouco também abordavam isso na vossa discussão.
Pode dar-nos alguns exemplos de atividades que estejam a crescer a dois dígitos?
Não é atividades, são períodos do ano em que estamos a crescer a dois dígitos. Posso lhe dizer, por exemplo-
O que é que justifica esse crescimento?
O que justifica esse crescimento tem precisamente a ver com aquilo que tem sido uma aposta que temos feito na região nos últimos anos. Eu diria que é o reflexo de uma estratégia, diria, dos últimos 10 anos, em que houve uma aposta em demonstrar efetivamente que o Algarve é muito mais do que o sol e praia, é muito mais do que o golfe, que tem muitas outras ofertas diversificadas e complementares e que permite a sua experiencição ao longo de todo o ano. E, portanto, isso tem sido claramente a nossa aposta, até do ponto de vista daquilo que é a base estratégica da sustentabilidade do território, de precisamente crescermos mais fora da época alta, e é isso que temos vindo a fazer, e por isso é que acabamos 2025 com a taxa de sazonalidade mais baixa da história do turismo no Algarve. E, portanto, vemos com muito agrado estes resultados, porque de facto contribuem para a sustentabilidade, não só ambiental, mas também a social e econômica da região.
Muito bem, André. Está aqui alguns indicadores que não são assim tão positivos e eu o desafiava era a olhar um bocadinho para esse lado também. Os dados do Instituto Nacional de Estatística têm-nos dito que o Algarve está a registar um abrandamento na taxa de crescimento das dormidas, uma tendência que já era visível em 2025, quando as dormidas diminuíram ligeiramente. Esta tendência está Continua a verificar-se este ano. Os dados que já é possível ter para este ano também parecem confirmar que embora as dormidas estejam a diminuir ou a estagnar a taxa de crescimento, a receita por hóspede está a aumentar. E a minha questão aqui era, do seu ponto de observação, porque é verdade que o Algarve passou de uma fase de grande sazonalidade, teve esta alteração estrutural que acabou de referir, com uma redução do índice de sazonalidade. Esta alteração foi muito importante para garantir a atividade ao longo de todo o ano e parece estar a viver uma nova fase da alteração estrutural. A minha questão é qual é a sua explicação para esta estagnação ou até diminuição das dormidas, e a subida da receita por hóspede?
Muito bem. Nós olhamos também para esses números, obviamente, com o olhar que eles próprios nos merecem.
Exato.
Isso faz-me antever, desde logo, algo que venho a frisar há bastante tempo e que não deixarei de continuar a frisar, enquanto desempenhar as funções que desempenho, que tem a ver com o fato de, efetivamente, os dados que o INE contabiliza não demonstram toda a atividade da região. E refiro-me, em particular, ao fato dos dados do INE não contabilizarem-
Mas deixe-me só interromper para lhe dizer o seguinte: podem não contabilizar, mas são comparáveis e isso permite-nos comparar a mesma realidade, não é?
Certo. As realidades daquilo que não é contabilizado é que também são diferentes de região para região. Se me permite, conforme referia, o fato de o INE não contabilizar o alojamento local inferior a 10 camas, sendo o Algarve responsável por cerca de 30% da oferta de alojamento local inferior a 10 camas que existe no país, nós estamos aqui, pura e simplesmente, a ignorar um terço da nossa atividade. Repare que no Algarve o alojamento local tem um peso tal que a sua oferta de camas até já é superior à oferta de camas ao nível dos estabelecimentos hoteleiros classificados.
Mas deixe-me perguntar se essa oferta aumentou no último ano.
Não, no último ano, não.
Se não aumentou, estas estatísticas não têm erro, não é?
Não têm, é uma omissão. É uma omissão grave.
Claro, é uma omissão.
Prejudica bastante o Algarve.
Na sua perspectiva, não há problema nele.
Eu diria que não é uma questão de não haver problema. Nós estamos a seguir aquilo que são os dados estatísticos, estamos a seguir aquilo que é o desempenho da atividade, até inclusivamente para além daquilo que são os dados estatísticos, através nomeadamente, em particular, do nosso Observatório de Turismo Sustentável, e analisamos as coisas como elas devem ser analisadas em conjunto com todo o setor. E de facto, não registo neste momento, da parte do setor, nenhum sinal de preocupação, a não ser, obviamente, alguma apreensão relativamente à questão internacional, conforme referi há pouco, que pode influenciar em função daquilo que são as disponibilidades económicas dos diferentes mercados emissores. E sabemos que a questão do aumento dos preços dos combustíveis, de uma forma generalizada, impacta todos os mercados e todas as economias.
E o fato da receita por hóspede estar a aumentar, está a indiciar um aumento da subida na cadeia de valor, ou seja, com um turismo de maior qualidade? É que pode ser também isso que as estatísticas estão a revelar.
Sem dúvida, também é isso que entendemos, tendo em conta aquilo que tem sido a nossa aposta nos últimos anos ao nível da capacitação dos agentes do setor, ao nível da qualificação da nossa oferta, não só do ponto de vista das infraestruturas, que muitas delas melhoradas, remodeladas, que inclusivamente subiram de categoria e de classificação e passaram a propiciar melhores serviços e melhor qualidade de serviço e melhores experiências a quem nos visita. Portanto, isso vai ao encontro precisamente daquilo que eu referia, que é a aposta da região em valorizar aquilo que é a sua oferta. É referido muitas vezes a palavra estagnação, nós não vemos de todo como uma estagnação. Nós vemos um comportamento natural ao nível daquilo que é um destino completamente maduro, como é o Algarve, e que se calhar, como muitas outras regiões do país ou do mundo, invejariam ter o nível de reconhecimento e de visitação que o Algarve tem.
André, as comparações são inevitáveis. Por que Espanha, tendo mais poder de compra e pagando até melhor, consegue ter preços mais competitivos que o Algarve?
Eu diria que temos que comparar aquilo que é comparável, e é curioso referir isso, porque nomeadamente, em particular nos últimos dias, tive algumas expressões inequívocas e práticas de pessoas que efetivamente experienciaram também a oferta do sul de Espanha e que vêm de lá comprovadamente a referir que nada tem a ver com a oferta do Algarve. Nem nada do ponto de vista daquilo que é a qualidade da oferta dos serviços, nem nada tem a ver com aquilo que é a qualidade das infraestruturas e muito menos com aquilo que é a diversidade da oferta que o Algarve apresenta, que eu creio que é claramente uma das nossas mais-valias. Costumo dizer, a chave do nosso sucesso, para além do trabalho em parceria, em conjunto entre todo o setor público e privado na região, é também aquilo que a região nos oferece. E a região oferece-nos, para além daquilo que é um patrimônio natural fantástico, também costumo dizer que fomos abençoados com 40% do nosso território, cerca de 40%, protegido de alguma forma. Mas de facto, temos milhares de pessoas que todos os dias contribuem diariamente para fazer do Algarve este destino turístico que hoje tem.
E por que os salários não sobem?
Esse é o tema que temos vindo a debater cada vez mais nos últimos anos, em particular, que tem a ver com aquilo que é o reflexo do impacto da atividade turística naquilo que é a vida diária e do dia a dia das nossas comunidades locais. Impactos esses que são positivos e outros negativos, obviamente, também o reconhecemos e também o analisamos e também tentamos contribuir para a resolução dos mesmos. Nessa medida, trabalhamos também para que esse reflexo seja cada vez mais evidente. Eu costumo dizer que é uma falha, provavelmente até do nosso lado, das entidades públicas, das entidades regionais, das entidades nacionais, a nível do setor do turismo. Muitas vezes não estamos a conseguir demonstrar aqueles que são, em particular, os impactos positivos, porque os negativos muitas vezes são mais evidenciados. Mas não estamos a conseguir muitas vezes evidenciar ou transportar, efetivamente e na prática, para as nossas comunidades locais, para os trabalhadores, este aumento exponencial. Podemos mesmo falar de um aumento exponencial de proveitos gerados pelo setor do turismo a nível nacional nos últimos anos. Eu concordo totalmente, e é uma discussão que fazemos dentro do setor, de que forma é que conseguimos demonstrar esses impactos e a relevância e a importância dessa atividade.
E a partir daí aumentar os salários.
Aí também é outro tema.
Há aqui um paradoxo: a Espanha acabou de nos dizer que não tem a qualidade de Portugal. Nós estamos, aparentemente, com sinais de estar a subir na cadeia de valor. Faltam-nos dados para perceber se a margem de negócio melhorou ou não, mas os salários no setor não refletem essa subida na cadeia de valor. Qual é a sua explicação?
Quando vemos o setor no global, também temos que fazer alguma distinção. Eu recordo-me de uns últimos estudos, até inclusivamente na altura apresentados pelo anterior governador do Banco de Portugal, que referia, por exemplo, em particular relativamente ao setor da hotelaria, que teria sido aquele setor que, nos últimos 10 anos, mais aumentou as suas retribuições. E nós, do ponto de vista prático, posso dizer que eu pessoalmente vejo isso ao nível daquilo que é a retribuição salarial exercida no Algarve, ao nível da hotelaria, desde o diretor do hotel até ao ajudante da cozinha ou quem trata dos quartos. Portanto, ao nível da hotelaria, eu creio que esse reflexo está a ser de alguma forma mais evidente, até pela própria aposta que os empresários da hotelaria tiveram que fazer nos últimos anos para retenção de talento, para retenção das suas equipes, para terem equipes a trabalhar durante todo o ano, porque a atividade também o propicia. Também este paradoxo, e permitam-me referir, felizmente, longe vão os tempos em que cerca de metade da hotelaria no Algarve, durante o período de inverno, fechavam. Hoje, felizmente, se calhar chegam os dedos das mãos para contarmos o número de hotéis que fecham durante o inverno e que não estão a trabalhar durante todo o ano. E esta é claramente uma das coisas para a qual trabalhamos e que tem reflexos diretos na vida das nossas comunidades locais, tendo em conta a quantidade de trabalhadores do turismo que temos ao nível da região. Se calhar, ainda não está tão evidente. Vocês falavam também do setor da restauração. Aí é uma preocupação que acompanho e que temos discutido também no seio de reuniões com a AHRESP, que de facto, ao nível da restauração, não vemos o nível de recuperação, nem de crescimento que temos vindo a ver no nível da hotelaria nos últimos anos e que é um setor que merece uma melhor atenção.
Estão a encerrar restaurantes aí na zona do Algarve?
Sinceramente, e de uma forma muito prática, eu não vejo uma questão de encerramento de restaurantes. Vejo, efetivamente, alguns que continuam a trabalhar muito bem e não posso deixar de evidenciar aqueles que evidenciam maior qualidade e melhor reconhecimento ao nível daquilo que é a gastronomia que apresentam, os pratos que apresentam, a ligação dos produtos que utilizam com a própria região. Vejo, talvez na prática, uma menor recorrência aos restaurantes mais médios, as próprias tascas, vamos referir assim, os restaurantes de centro de cidade. Nesse aspecto, vejo alguma diminuição, alguma preocupação e transmitem-me alguns empresários algumas situações a este nível. Mas é algo que temos que continuar a trabalhar em proximidade, em proximidade muito particular com as empresas da nossa região e em colaboração estreita, não só com aquilo que são as administrações centrais, com os próprios municípios, que têm um papel fundamental ao nível daquilo que é a gestão do território, mas também a promoção das dinâmicas das economias locais e que são muito importantes dentro do setor do turismo do ponto de vista da estruturação de nova oferta, da criação de nova oferta que nós possamos promover e apresentar a quem nos visita todos os anos. É neste trabalho conjunto que temos que continuar a responder a esses desafios, como a muitos outros que temos, que partilhamos com outras regiões, que partilhamos a nível nacional, mas que muitas vezes no Algarve encontram uma premência de um ponto de vista um pouco diferente do que aquilo que é a resposta que têm por parte da administração central a nível de outras regiões.
André Gomes, aí no Algarve, há falta de mão de obra para trabalhar no setor do turismo ou não?
Eu creio que continua a haver alguma falta de mão de obra e uma procura cada vez maior por mão de obra capacitada. E é por isso também que nós aí tentamos dar um contributo, até em particular, através de um programa de formação específico que estamos a trabalhar com o Turismo de Portugal e com as nossas escolas de hotelaria, específico para as empresas, para os trabalhadores do setor do turismo no Algarve, nessa perspectiva de aposta de capacitação para que possamos valorizar aquilo que é a nossa oferta. De uma forma muito prática, não vejo a falta de trabalhadores que verificávamos, por exemplo, há três, quatro anos. Efetivamente, conforme há pouco dizia, nos últimos anos, os nossos empresários têm vindo a fazer uma aposta para reter as suas equipes durante todo o ano, até por uma questão de necessidade, conforme referi, uma vez que vamos tendo mais atividade durante todo o ano e em todo o território. Nessa medida, conseguimos segurar as equipes durante todo o ano. Evidentemente, comparamos com aquilo que era o mercado de trabalho no setor do turismo há 10 ou 15 anos. É bastante diferente. Aquilo que são as necessidades de contratações sazonais ou de reforço, em particular ao nível do pico do verão, são menores, porque efetivamente já as próprias equipes permanentes se mantêm a trabalhar durante todo o ano e nessa medida, muitos empresários não falam agora numa falta de mão de obra, tanto como falavam há dois ou três anos.
E esse reforço é feito à conta de imigrantes, certo?
São importantes no setor do turismo, como são importantes noutros setores de atividade que temos no país, porque de facto, perante aquilo que é um quase nível de pleno emprego que verificamos a nível nacional e também na região, e havendo uma dinâmica económica, nomeadamente, para o mal e para o bem, assente na atividade turística, a verdade é que a procura de mão de obra continua a existir, diretamente relacionada com as atividades prestadas ao nível do setor do turismo, mas também com todas aquelas que vemos que não estão associadas diretamente, mas que se associam de alguma forma indiretamente. Estou a pensar, por exemplo, ao nível da construção, como depois também podemos falar ao nível daquilo que são os serviços públicos, quando falamos de professores, quando falamos de polícias, quando falamos de médicos, quando falamos de muitos outros setores de atividade. E aí, conforme disse há pouco, volto a referir, o Algarve tem uns desafios, às vezes, um bocadinho maiores do que outras regiões para dar resposta a esse tipo de questões.
De necessidades.
De necessidades, é verdade.
André Gomes, agradeço. Muito obrigado por se ter juntado a nós no Contracorrente, onde estamos a olhar para o setor do turismo. Turismo que está a perder peso na economia pelo segundo ano consecutivo, cresce abaixo do ritmo do restante da economia portuguesa. O que pergunto ao Armindo Monteiro, presidente da CIP, é o que isto significa. Significa que o turismo atingiu o máximo ou a economia portuguesa está mais rica e mais diversa? Bom dia.
Olá, bom dia. Bom dia, José Manuel Fernandes. Bom dia, Helena Garrido.
Bom dia.
É um prazer estar de novo na vossa companhia. Esta é a verdadeira questão: estamos a crescer em volume ou estamos a crescer em margem?
Exatamente.
E até agora nós normalmente confundimos estes dois conceitos. Mesmo uma empresa também por vezes tem esta tendência. Aumenta o volume de negócios e aquilo que tem que de facto olhar é para o EBITDA. É que o EBITDA nacional é diferente, é o valor acrescentado. E esse valor acrescentado é exatamente esta conversa que eu estava a ouvir com muita atenção com o André Gomes. É exatamente isso. E as considerações iniciais já foram aqui feitas pelo José Manuel Fernandes e pela Helena Garrido. Nós temos que escolher.
O valor acrescentado que estabilizou.
Exatamente.
2004, 2025.
Nós temos que escolher. Nós temos um país de aproximadamente 92 mil km². Residimos aqui, incluindo 15% de trabalhadores estrangeiros, e residimos 11,5 milhões, sensivelmente, neste retângulo. E a pergunta que temos que nos fazer é se queremos competir com o turismo de massas. Nós com esta área, se podemos fazê-lo. E aquilo que me parece óbvio é que, para além da qualidade que nós temos e a qualidade, naturalmente, desde logo, a temperatura amena, a qualidade das praias, a qualidade arquitetónica, alguma infraestrutura.
As pessoas referem muito, apesar de tudo, a perceção de segurança.
Exatamente. A perceção de segurança é fundamental. Eu até diria, José Manuel Fernandes, que este talvez até seja dos principais fatores que não podemos de maneira nenhuma perder. E pode estar em risco. E estou a dizer isto de uma forma alarmante, mas como forma preventiva para não perdermos. Agora, vamos dar um pequeno exemplo. Nós chegamos a algumas capitais da Europa que têm rio e podemos beneficiar desse rio para várias atividades. Passeio, almoço, jantar, o que seja, conforme a bolsa de cada um. Pergunta-se: em Lisboa, isso é possível? Em Lisboa, para além dos tuk-tuks que nós temos e que naturalmente proliferam.
Começa, por acaso, a ser possível.
Começa a ser possível.
Mas essa é a palavra, começa.
Exato.
Esta é que é a palavra que eu queria chegar. Começa agora a ser possível. Hotéis seis estrelas, nós tínhamos em Portugal? A resposta é: começamos agora a ter. Algum valor acrescentado no nosso turismo, começamos agora a ter. O problema é que nós estamos a trabalhar com médias e esses efeitos nesta média ainda é bastante enviesada, ou seja, o desvio-padrão ainda é muito grande, o que faz com que a média seja pouco representativa.
No caso de Lisboa e do Algarve, há aqui sinais que faltam estatísticas para confirmar. Nomeadamente, se a margem das empresas aumentou ou não. Em termos de grandes números, os últimos números da conta satélite dá a ideia que há um ligeiro aumento do valor acrescentado por custo, por despesa turística, o que significa que a despesa feita pelos turistas se está a transformar mais em valor acrescentado. Ainda faltam-nos estatísticas para perceber e para o ano, quando o INE tiver a atualização do emprego, poderemos saber isso melhor. Mas não lhe parece que, por exemplo, Lisboa e o Algarve, tanto pode estar a subir na cadeia de valor, e aparentemente é isso, como pode eventualmente estar em crise. A mim parece-me estar mais a subir na cadeia de valor.
Os indicadores de várias fontes indicam que estamos a subir. Isso é uma boa notícia.
Na cadeia de valor, em Lisboa e no Algarve.
Estamos a subir e é um elemento muito positivo, porque antes, quando se falava em turismo, contabilizava-se sem alguma precisão que é importante. Por exemplo, os cruzeiros que chegam a Lisboa. Por exemplo, o alojamento local. Por exemplo, aquele investimento que é feito, pago todo lá fora e que depois aqui dentro propriamente não é registado como proveito. Estou a falar nas cadeias de registo, não queria fazer publicidade, mas os bookings da vida
O dinheiro entra cá, não é?
Entra cá, mas é faturado lá fora. Significa que em termos de contabilização primária, demora algum tempo até que o INE consiga dar esses dados. O que estou a dizer é que essa capacidade de nós termos imediatamente uma fotografia instantânea, estamos agora a melhorar, porque vamos basear-nos em fontes de informação variada e não apenas no INE. E com isto não estou a fazer crítica nenhuma ao INE, estou a dizer que o INE tem as suas metodologias, e nós precisamos de outras um pouquinho mais rápidas para conseguirmos construir também políticas e estarmos atentos a outras questões. Mas queria retomar o ponto. Eu creio que os sinais são positivos. E para isso é diferente, e já aqui foi falado, é diferente eu ter valor acrescentado para que os salários acompanhem ou não. Porque se eu estiver a servir cafés a 0,80 €, é diferente de estar a vender um cappuccino ou um latte a € 5 ou € 6. Se eu estiver a vender uma noite num alojamento local a 50, 60 ou 70 €, é diferente de estar a vender uma noite num empreendimento a € 1000.
Aquilo que as pessoas se queixam muito, em geral, e era a nossa conversa com o André, é que os nossos preços já são mais elevados e se perguntar à pessoa no restaurante ou no hotel se ela ganha mais, ela não ganha mais. Há aqui uma apropriação, aparentemente, do empresário, por falta de concorrência.
Mas isso aí vai ter que mudar, porque se repararem agora como foi feito o recrutamento de um hotel, sem dizer agora nomes, de um hotel de topo que abriu, acabou por atrair toda a mão de obra que estava disponível em empreendimentos, digamos, não similares porque mais baixo e de qualidade inferior, mas atraiu os melhores. Significa que se as pessoas não forem suficientemente remuneradas pela própria dinâmica, pelo próprio dinamismo do mercado de trabalho, ele vai ajustar-se. E isso é, naturalmente, um fator que nós temos que promover, porque também quem paga por uma noite de € 1000, quer ter um nível de serviço diferente de alguém que paga por uma noite de € 50. Significa que quem cuida do quarto também tem que ter uma motivação, uma dedicação e um brio, que naturalmente tem que ser compensado e tem que ser remunerado. Portanto, tem que estar ligado. Não é possível, e isto não se pode escamotear, não é possível que as margens empresariais sejam o problema, porque se isso acontecer, a concorrência vai encarregar-se de fazer esse equilíbrio. Creio que o que é importante é nós subirmos na cadeia de valor e, naturalmente, estar vigilantes para que não haja fenômenos de concorrência imperfeita. Mas é muito importante, e só para reforçar isto, primeiro subirmos na cadeia de valor.
Helena, como é que sobrevive a economia portuguesa sem o turismo? Não sobrevive.
Não. Se hoje acabasse o turismo, embora o contributo para o crescimento da economia tenha vindo a diminuir significativamente, o ano passado foi só 0,3 pontos percentuais no 1,9 que crescemos, e está, de facto, a diminuir. A expectativa é que aquilo que está a acontecer no turismo seja mais positivo do que negativo. Ou seja, estar a estagnar em algumas áreas pode não significar más notícias. Há algumas estatísticas, como já vimos aqui, alguns dados que ainda é preciso confirmar. Nós agora estamos aqui num compasso de espera por causa da alteração das estatísticas da população, que vão levar a algum reajustamento, embora o próprio INE diga que 2025, 2026 pode não alterar muita coisa, porque o pico da população foi em 2024. Mas dito isto, há aqui vários sinais. Um: há aqui margem de crescimento em algumas zonas, como o Alentejo. Esta margem de crescimento e a dinâmica está muito acentuada no Alentejo, pode estar muito relacionada com os projetos de gama alta que estão a surgir no Alentejo. Toda a gente já ouviu falar de Odemira e das pessoas famosas que andam por lá, que têm lá casa. Independentemente da controvérsia da apropriação da natureza que foi feita ali por alguns projetos privados, isso pode significar que o Alentejo até pode saltar para uma gama alta imediatamente. No caso de Lisboa e do Algarve, onde nós estamos a ver uma estagnação no número de hóspedes, de não residentes, há outros sinais das estatísticas já existentes que indicam que se pode estar a ter um turismo que gasta mais, para simplificar. Para não dizer subir na cadeia de valor. É um turista que deixa em Portugal mais valor. E há já alguns sintomas em termos macroeconómicos. Se nós compararmos o custo de despesa por turista com o valor acrescentado, aquilo que se transforma em valor acrescentado já é maior, é ligeiramente maior, mas são sinais. Nós estamos aqui na fase em que tanto podemos ver o copo meio cheio como o copo meio vazio. Independentemente de estarmos aqui com sinais estatísticos, ou o facto de estarmos a ter hotéis de gama bastante alta, de estar a existir e a entrar no país também um tipo de negócio de prestação de serviços a super-ricos, que têm casa em Lisboa e têm casa noutras zonas do mundo, há um tipo de negócio que começa a surgir e até na área do imobiliário. Independentemente disso, nós não podemos viver apenas disto. E eu aqui saltaria exatamente para a segunda parte do nosso tema, que é: quais são as alternativas? Quais são as alternativas que podemos ter, não se o turismo deixar de existir, mas se um turismo de valor acrescentado terá de ser forçosamente um turismo com menos pessoas, menos massificado. E desse ponto de vista, nós temos também, porque o turismo também não nos garante taxas de crescimento muito elevadas, é muito intensiva a mão de obra, e o seu desaparecimento também levaria a esse problema grave, nós temos de entrar num outro patamar. E aí a nossa esperança está que o país, os empresários, consigam aproveitar uma das vantagens competitivas que toda a gente identifica neste momento. É o facto de nós termos, nesta nova revolução, nesta nova energia que vai passar a ser usada ou que está a começar a ser usada, nós termos uma vantagem competitiva bastante elevada, obviamente, que a Espanha também tem, que é podermos ter energia muito barata. E na era em que o consumo de energia vai aumentar, nós temos a possibilidade de atrair indústrias nesse domínio. Mas nós temos aqui o Armindo Monteiro, que recentemente promoveu um estudo com o Nuno Palma e o Nobel da Economia Robinson, sobre quais é que deveriam ser as reformas no país. Agora não me lembro do primeiro nome do Robinson.
James Robinson.
Jameson. Ele escreveu um livro muito importante com o Acemoglu, que também é prémio da Economia, que se chama "Porque Falham as Nações", que é um livro poderosíssimo, que se as pessoas quiserem perceber a importância das instituições, é poderosíssimo até pelo seu início, porque ele compara a fronteira dos Estados Unidos com a fronteira do México, duas cidadezinhas que estão ali mesmo ao lado, e uma desenvolveu-se e a outra não se desenvolveu. É quase como uma experiência de laboratório, uma coisa que os economistas não têm acesso, que é esse laboratório. Eu diria que temos aqui o presidente da CIP, que pode contribuir para nós percebermos melhor que caminhos é que se podem abrir para o país. Não é para destruir o turismo, não é à espera da crise do turismo. Mesmo que o turismo venha a registar, como parece estar a registar, uma nova alteração estrutural, passando para uma gama mais alta, isto vai exigir a industrialização dentro da indústria 4.0.
Sem dúvida. O turismo, independentemente de todos os outros setores, é absolutamente fundamental. Aquilo que estamos aqui a falar não é encontrar modelos alternativos ao turismo, é fazer com que o turismo também seja parte da solução e não do problema, porque neste momento nós contamos com o turismo, mas em alguns pontos puxa-nos para baixo em vários indicadores.
Por exemplo, a produtividade.
Por exemplo, na produtividade.
A produtividade, porque os salários praticados são baixos e muitas vezes a própria eficiência dos estabelecimentos não é a melhor de todas.
Tal e qual. E por isso é muito importante que o turismo faça parte deste conjunto de soluções que procuramos. Quanto ao estudo, efetivamente foi um estudo que o Instituto Adelina Malda Costa e a Confederação Empresarial promoveram.
Para quem estiver vendo no YouTube, o Armindo Monteiro trouxe, está aqui.
Quiseram promover com este sentido de responsabilidade. É fácil apontar o dedo aos outros. É fácil dizer que o problema está no Estado, é fácil dizer que o problema está nos trabalhadores, é fácil dizer que está em muitos fatores e não dizemos que está um pouco em todo lado. E foi esse exercício de humildade que quisemos ter, a começar por pôr em questão também o modelo empresarial. E esse estudo que foi encomendado, foi encomendado sem baias, sem restrições. Aliás, era difícil que com estes dois acadêmicos, com qualquer acadêmico, mas estes em particular, precisamente pelo livro que a Helena Garrido já referiu, que também recomendo, "Porque Falham as Nações", que mereceu o Nobel ao James Robinson, juntamente com o Acemoglu. E ele tem uma ideia muito simples e ao mesmo tempo muito concreta. É exatamente os intangíveis que a Helena agora se referia. Por que nós não crescemos ao nível do potencial? Naturalmente que não é por fatores tangíveis, é por fatores intangíveis. À cabeça, a vontade, o compromisso. Nós não temos nem vontade, nem compromisso, nem ambição E para fazermos transformações precisamos ter um pouco de tudo isso.
E se isso existisse, onde é que se poderia investir fazendo a diferença?
Eu diria que o ponto que é a nossa fragilidade é termos um salário mediano, não é médio, mediano em Portugal, líquido de 980 €. Eu creio que não é preciso mais nenhum dado, mais nenhum elemento, além deste, que já transmite bem a nossa fragilidade.
António, não acha que isso também tem muito a ver com o tipo de empresário que não deu o salto? A falta de concorrência no mercado de trabalho com o tipo de empresário que não deu o salto nessa matéria.
Nós temos que ter bem a noção que temos empresários que são proprietários, donos, líderes de grandes empresas e temos empresários em que é ele próprio a empresa.
Que são a maioria.
Que são a maioria.
Exatamente.
A esmagadora maioria.
Mas depois vemos. Mas por que é assim? Tem muito a ver com os incentivos. E por favor, incentivos, não estou a falar de incentivos financeiros, estou a falar com motivações. Quais são as motivações? Então, desde logo, por exemplo, nós motivamos em Portugal a que haja grandes empresas? Não. Todo o nosso espaço legislativo está construído para combater as grandes empresas.
Mas também temos um problema, diria eu, que é nós termos dois países. Há o país atlântico e depois há o país do interior.
Certo.
Com a dispersão geográfica que existe no interior, não há condições para aparecerem grandes empresas, ou há?
Certo, mas deixa-me só voltar aqui a este ponto das grandes empresas. Nós temos em Portugal a síndrome do funcionário 250. Portanto, uma empresa é a grande empresa, para além da questão do balanço e do volume de negócios, está a questão do número de trabalhadores ao seu serviço. Qual é a motivação para um empresário quando tem uma empresa que está no 250, é continuar ou fazer uma outra empresa e passam a ser duas empresas, ou três, ou quatro, ou cinco?
O que vai reduzir também a sua margem.
É que nós temos uma coisa em Portugal, que depois estranhamos as consequências, é o único país da Europa que tem imposto em cima do IRC. Aquilo que é a derrama.
Ou um IRC progressivo, não é?
É que não existe, Helena Garrido. Não existe, em nenhum país existe um imposto progressivo. A ideia é que a empresa ganha mais, pronto, paga mais em termos de proporção. Nós em Portugal não é assim.
Mas há alguma expectativa? Todas as organizações internacionais têm recomendado que se acabe com isso.
É que se isso não acontecer...
Os governos não têm tido coragem. Há alguma expectativa de que este governo, no próximo orçamento de Estado, corrija essa questão? Porque isso é, de facto, um castigo ao crescimento.
Não é possível que estejamos de acordo só quando os partidos estão na oposição e quando chegam ao governo, não praticam as medidas que estavam de acordo na oposição. O que estou a dizer é: isto foi considerado aberrante antes da formação do governo e está no programa do governo. Ora, não podemos aceitar que apenas porque dá jeito para compor as contas, que o princípio filosófico se perca. E nós estamos hoje em Portugal com uma necessidade muito grande de promover escala para fazer conglomerados de empresas para poderem ser mais competitivos e todo o nosso edifício jurídico, seja laboral, seja tributário, está construído para tolerar as pequenas e combater as grandes.
Castigar, até. Castigar o crescimento.
Eu acho que essa palavra até é mais apropriada, Helena Garrido, porque é de facto para castigar, é um pouquinho aquela ideia: são grandes, podem pagar tudo. Esta ideia de estimular.
Porque a questão não é só os impostos. Há obrigações burocráticas que também aumentam, obrigações relacionadas com os trabalhadores. Há uma série de-
Um conjunto enorme de obrigações que as grandes empresas são obrigadas a cumprir, que não têm nenhuma justificação, que não seja, utilizou a palavra e eu vou tomá-la, que não seja de alguma maneira penalizar por ousarem crescer, penalizar por ousarem ser grandes. E isto é o tal sistema de incentivos que nós temos em Portugal, toda a nossa discussão.
Também vem da Europa alguns deles.
É verdade.
A Europa também não gosta de grandes empresas.
Tem toda a razão, José Manuel Fernandes. Nós também combatemos as grandes empresas na Europa, também legislamos sempre para evitar que haja conglomerados e depois recebemos os que vêm de fora. Quantas grandes empresas é que nós temos na Europa? Quantas grandes empresas nos últimos 10 anos foram criadas na Europa?
Esse é o problema, sempre analisar qual é o mercado relevante, se o mercado relevante é país a país ou se o mercado relevante é o mercado europeu. Faz toda a diferença. Por exemplo, para perceber onde é que nós garantimos, porque o essencial aqui, relendo também o Robinson, é a concorrência e a possibilidade de entrar novos atores.
Exatamente.
É importante haver a entrada de novos atores. E para isso é preciso poder não apenas concorrer e crescer.
Nós protegemos na Europa, de facto, quase com essa ideia, como se pensássemos numa concorrência perfeita e temos sempre muita atenção aos monopólios e aos monopsônios, mas depois temos o mercado completamente aberto. É sempre difícil falar nas empresas sem mencionar nomes, mas se pensarmos cinco, seis empresas que utilizamos todos os dias, nenhuma delas tem sede na Europa. E em Portugal, menos ainda. Nós ainda não conseguimos, apesar do esforço de internacionalização e de presença forte de algumas empresas portuguesas, nós ainda não conseguimos criar uma empresa verdadeiramente global. Mas pergunto O que é que nós construímos em Portugal para verdadeiramente motivar a que haja grandes empresas? Por exemplo, uma empresa que decida juntar-se com outra. Já viram as dificuldades sob o ponto de vista tributário que existe para mais-valias, penalizações disto, penalizações daquilo, um conjunto de obrigações que noutros ordenamentos jurídicos não existe. E por isso, quando falo em incentivos, é necessário nós dizermos o que queremos. O que é que Portugal quer? Quer ou não quer ter um tecido empresarial forte? E quer ou não quer que esse tecido empresarial tenha margem e com essa margem consiga pagar melhores salários e melhores impostos?
Do vosso ponto de vista, empresas, CIP, acabar o PRR não é o problema.
Nós há algum tempo atrás tínhamos o PIDDAC. O PIDDAC era um programa dos investimentos da administração central. E aí nós percebemos o que o Governo decidia investir. Nós hoje não temos PIDDAC, temos algo que é o PRR, e o PRR tanto pode ser, desculpem eu utilizar estes anglicismos, pode ser OpEx ou pode ser CapEx, ou seja, tanto pode ser investimento, como pode ser consumo, despesa corrente. E que eu saiba, o PRR não é para OpEx. O PRR é para investimento e passou a ser o único investimento nacional. Preocupa-nos. Sim, preocupa-nos que as políticas públicas dependam de uma mão estendida, onde muitas vezes o critério, e atenção, eu não estou contra os fundos per se, estou é com a falta de escrutínio, que muitas vezes aquilo que se procura garantir é o bom cumprimento regulatório. Isso é básico, naturalmente que isso é condição necessária, mas não é suficiente. O que é que seria uma condição suficiente, além dessa que é necessária, que é o bom cumprimento regulatório? Naturalmente, condição suficiente era que fosse medido o retorno. E esse retorno pode não ser um retorno como nós nas empresas fazemos, que é o retorno sobretudo financeiro e económico, mas um retorno social. Em que é que isso contribuiu para a vida, para a qualidade-
Económico até, não é? Porque a economia mede todas as externalidades positivas.
Porque isto não é gratuito. Nós temos que acabar com esta ideia que se gaste porque é dinheiro gratuito. Não há dinheiro gratuito.
Exatamente.
E esta ideia de vamos lá gastar porque é uma esmola. Não, vamos acabar com essa ideia.
Uma das coisas que devia ser obrigatório é o impacto que isso tem nas despesas operacionais.
Exatamente.
Isso é sempre esquecido.
Exatamente.
E depois aquilo degrada-se, porque não há dinheiro para manter.
Para manter.
Exatamente.
Vamos chamar a esta reflexão o Miguel de Castro Neto, professor universitário, está ligado à investigação dos territórios inteligentes da nova economia digital, simplificando. Bom dia, Miguel.
Muito bom dia.
Bom dia. Como é que a economia portuguesa pode crescer sem estar tão dependente do turismo?
Eu gostaria que ela crescesse, mas também incluindo o turismo propriamente dito, até porque ao longo deste programa, dá-lhes os parabéns pelo tema, já foram aqui referidos vários aspetos que podem, eles próprios, também ser parte da solução. Porque na primeira parte, um dos aspetos curiosos é que nós partimos da informação disponível para tentar discutir este desafio e também rapidamente se chegou à conclusão que quando tentamos discutir, percebemos que a informação disponível é na realidade muito escassa. Porque para nós conseguirmos perceber o que está a acontecer e pensarmos como é que efetivamente o turismo pode ainda ter um papel muito importante, porque ele pode crescer, eventualmente, se não em volume, mas tem um enorme potencial de crescimento em valor, nós temos que ter muito mais detalhe na sua dinâmica ao longo do espaço e do tempo.
E hoje em dia isso é possível através de múltiplas ferramentas digitais, certo?
Exatamente. E eu gostava de adicionar aqui um aspeto que ainda não foi referido, que é: já falámos do potencial do país em termos da energia, com as energias renováveis. O Armindo Monteiro, que cumprimento pela também proximidade que tem à Nova Information Management School, já referiu aqui esta questão da escala, da articulação de empresas e de nós termos a capacidade de criar novas empresas. Nós também temos agora uma janela de oportunidade na nova economia, com os grandes investimentos que estão a ser feitos em Portugal, para eventualmente o talento que nós também criamos em Portugal possa, de alguma forma, combinar todas estas dimensões para nós sermos capazes de, neste novo contexto, tirarmos partido desta dimensão analítica para olharmos para os desafios que enfrentamos e para a construção de novos produtos e serviços em que o talento pode ser a única limitação. E nós, portugueses, temos tido ao longo da história vários exemplos em que surpreendemos com a nossa capacidade de inovar. E pensando um bocadinho aqui nos territórios e no turismo, o que acontece, na realidade, é que nós olhamos muito, quando falamos do turismo, para o turista, para o hotel, para a comida e para a restauração. Mas para nós conseguirmos pensar nesta ideia de crescer em termos de valor, nós temos que olhar, do meu ponto de vista, para uma lógica mais de governação do território, de um território inteligente. Como é que nós conseguimos identificar, como é que nós conseguimos monitorizar o que existe no território, o que acontece no território e a carga que está ao longo do espaço e do tempo neste território. E como é que fazemos isto para que quem governa o território o possa fazer de uma forma mais eficiente e eficaz Não só porque nós não queremos problemas sobre turismo, mas também porque queremos garantir a disponibilidade de serviços e infraestruturas. E nós vemos que quando chegamos aos picos de ocupação turística, as nossas infraestruturas muitas vezes não estão preparadas para essa sobrecarga.
Mas ó Miguel, é o quê? É colocar sensores em todo lado?
Não é necessário. Isso é um investimento que é totalmente desnecessário à data de hoje, porque para nós conhecermos o que está a passar-se no nosso território, nós hoje, feliz ou infelizmente, transportamos connosco um sensor. Nós somos sensores vivos, não é? Mais é verdade. E portanto, tudo isso está disponível.
É o telemóvel, para quem não está familiarizado com a tecnologia.
O telemóvel, o cartão de crédito, a Via Verde, o consumo de água, de energia, tudo isso gera um conjunto de dados riquíssimo que permite monitorizar a pressão turística. O que é que não existe? Aí é que está o problema. É que nós devíamos ter a capacidade de, a nível mesmo nacional, criarmos uma plataforma de dados destes serviços regulados, e portanto, que operam sobre concessões, que deveriam disponibilizar esses dados de forma agregada e anonimizada para a administração, para a governação. Ó Miguel, mas isso poderia ser um salto que o Instituto Nacional de Estatística podia dar. O Instituto Nacional de Estatística poderia ser ele, esse instituto, ou poderia ser outra entidade qualquer. À data de hoje, a entidade em si é irrelevante. É pouco importante, exato. O que é importante é que cada um dos detentores destes dados os partilhe com, agora vou dizer um palavrão também, porque isto é um programa que cada um usa as palavras inclusivas, que tenha uma API, que é uma interface em que as máquinas comunicam entre elas e não interessa onde é que ela está, ela tem é que partilhar os dados num determinado formato para as máquinas poderem comunicar entre elas. E isto acontece. Deveria acontecer o mais rapidamente possível, tanto mais que nós estamos neste momento em Portugal, numa fase de implementação de uma estratégia nacional dos territórios inteligentes, em que foram estabelecidos modelos de dados comuns para diversos setores de atividades econômicas. Portanto, existem as condições para isso acontecer. E isto era um salto quântico num modelo de conhecimento, e se nós conhecemos, podemos passar a gerir com base em evidências e com políticas públicas completamente distintas das que temos hoje.
Não só para avaliar os investimentos que foram feitos, mas para identificar potenciais investimentos ou oportunidades, certo?
Sim, exatamente. Ou seja, quer oportunidades de investimento, quer constrangimentos e dificuldades e necessidades para resolver problemas. E mais do que isso, pois a partir do momento que esta capacidade existe, nós podemos ainda ir mais longe, que é, por exemplo, nós conseguirmos gerir a capacidade de resposta dos chamados serviços de interesse geral, como é por exemplo os hospitais, quase em tempo real, em função da carga que nós temos em cada momento, em cada território. Que à data de hoje já não há fluxos tão marcadamente sazonais como havia há 20 anos. E portanto, não há razão para nós não termos um ajustamento quase dinâmico de todo um conjunto de serviços de interesse geral em função desta dinâmica territorial. Só se me permitem já agora dizer que isto não é ficção científica, isto já está a acontecer. Já existem territórios, já existem municípios onde nós temos este tipo de abordagens a partir da Nova Information Management School, de um dos seus laboratórios, da Nova Cidade, a Urban Analytics Lab. Nós temos tido a oportunidade e a capacidade de trabalhar com alguns territórios.
Já agora, Miguel, pode dar-nos um exemplo do que é que está a ser feito? Para os nossos ouvintes também perceberem.
Dois exemplos. Um mais abrangente à escala regional, com a Comunidade Intermunicipal do Oeste. À data de hoje, qualquer um dos 12 presidentes de câmara ou mesmo do presidente da Comunidade Intermunicipal, quando há um evento em que o presidente de câmara aplicou um determinado montante do seu orçamento público, ele na semana seguinte tem a capacidade de saber qual é que foi o impacto daquele evento na restauração, na hotelaria, no trânsito, na produção de resíduos. Isto hoje já existe e já funciona em tempo real para estes municípios. Mas eu vou-lhe dar outro exemplo que tem diretamente a ver com o turismo, que é, não sei se o José Manuel Fernandes ainda nos está a ouvir. Estou aqui, sim, senhor. Na Páscoa deste ano, foi feita uma experiência em que nós estivemos diretamente envolvidos com uma plataforma analítica que apoiou a Parks Sintra Monte Lua e a Câmara Municipal de Sintra, a identificar os pontos onde nós poderíamos testar uma nova solução de mobilidade para tentar resolver alguns dos problemas graves que nós temos no município de Sintra. E esta plataforma analítica permitiu desenhar um plano e como é que se deveria fazer, quais eram as intervenções, aonde, quais é que eram os percursos que deveriam ser alterados. E nós conseguimos, como resultado, ao avaliarmos na Páscoa, conseguiu-se aumentar a procura da Parks Sintra, em termos de clientes, de visitantes, em 13%, reduziu-se em 11% os engarrafamentos e aumentou-se em 20% a velocidade comercial do transporte de passageiros. E portanto, isto são exemplos concretos que se nós conseguirmos agregar estes dados Alguns deles, para nós fazermos isto, tivemos que comprar dados. Isto não é aceitável quando nós estamos a falar de políticas públicas. É isto que nós deveríamos estar a tentar fazer hoje, que é não pensar apenas no turismo, mas pensar num território. E o território envolve o facto de tirar partido da transformação digital, construir uma parceria com as várias partes interessadas, que não são apenas os turistas, mas também é quem gere o território e nunca esquecendo os locais. E os locais é quem tem economia local, mas é também quem reside e esse património cultural, e tentarmos avançar. Isto ainda tem uma terceira camada, que era muito importante nós conseguirmos fazer, se nós quisermos construir um turismo de alto valor acrescentado, na minha opinião, que é nós conseguirmos também ter a capacidade de recolher os dados da oferta turística que existe no território. E quando eu digo a oferta turística que existe no território, isto é um trabalho bastante exigente e que poderá demorar algum tempo a construir, que é hoje as pessoas procuram experiências e procuram autenticidade. É eu poder ir para um território e ter a capacidade, de uma forma muito fácil e simples, saber que eu vou numa estrada, mas que daqui a 200 metros, se eu virasse à direita, podia ir assistir à tiragem da cortiça ou se fosse mais à frente, podia ir fazer pão. A tecnologia hoje não impede, antes pelo contrário, torna isto de uma simplicidade extrema. Caso seja possível, nós fazermos uma boa governação de dados para que isto seja fácil e entregue.
Eu queria referir aqui um aspecto que o nosso time, que aproveito para cumprimentar, Miguel Castro Neto, referiu aqui. São dois pontos muito importantes. Um, eu sou muito naquele princípio, só se gere o que se consegue medir.
Exatamente.
E a Nova IMS tem esta particularidade de permitir formar técnicos profissionais que têm um conjunto de ferramentas que permitem medir. Porque às vezes nós estamos a basear-nos em convicções.
Ou em crenças.
Em crenças, exatamente, e não em dados objetivos reais. A primeira dimensão é esta: precisamos de ter informação e essa informação vai seguramente permitir-nos ter melhores decisões, seja no plano individual, empresarial, de família, mas sobretudo, que é o que estamos aqui a falar, políticas públicas. Porque se nós não tivermos informação, se nós não conseguirmos transformar os dados em informação, informação em conhecimento, nós não conseguimos evoluir. E por isso, nesta era, como nós estamos, tal conforme Miguel Castro Neto referiu, estamos na nova economia. Isto não é uma abstração intelectual, porque às vezes parece que estamos aqui todos a falar de uma abstração intelectual. Estamos a falar de realidade muito concreta, que é esta nova economia que exige conhecimento. E a segunda dimensão é o talento, que também Miguel Castro Neto referiu. O que é que nós estamos a fazer enquanto país? Se o talento é efetivamente base, o que é que estamos a fazer enquanto país para reter e atrair talento? As empresas que não o fizerem estão condenadas. E os países que não o fizerem? Podem sobreviver?
Mas nós temos o IRS Jovem.
Mas nós precisamos mais que isso, Helena Carriço.
Mas acha o IRS Jovem bom?
Eu queria sobretudo dizer o que nos falta. E o que nos falta é: nós tínhamos medidas, aqui algum tempo atrás, que permitia a fixação, escolher Portugal para trabalhar. Nós, neste novo mundo em que podemos trabalhar fisicamente no local e estar a produzir para milhares de quilómetros de distância, nós acabamos com o único instrumento que tínhamos, que era de atrair talento. E nós tivemos durante alguns anos profissionais talentosos que se fixaram em Portugal precisamente porque tinham condições competitivas. Acabamos com isso, não descansamos enquanto não acabamos com isso.
Também fez uma pressão, também contribuiu para a pressão da habitação.
Mas essa é que foi a maior pressão? Ou seja, foram esses profissionais que saíram?
Todos os bocadinhos contaram, não é, de alguma forma?
Ou será que nós não construímos oferta suficiente? Ou seja, o problema foi do lado da procura ou do lado da oferta? Eu sou dos que acham que foi do lado da oferta, que não foi suficiente para uma procura que estava a acontecer. E por isso queria reforçar esta ideia da Nova IMS, que é muito importante. A partir de universidades, nós conseguimos construir o modelo de valor que já não conseguimos fazer por mera inspiração. Tem que ser por transpiração, quero eu dizer, tem que ser por inspiração. E o nosso modelo económico tem que ser muito baseado na informação, muito baseado no conhecimento, porque para subirmos na cadeia de valor, não é apenas estalar os dedos. É precisamente estas ligações com as universidades, com os centros de conhecimento, com a informação cada vez mais detalhada, cada vez mais analítica, e aqui seguramente que é um contributo grande para a evolução do tecido empresarial.
Eu só, Helena.
Sim, Miguel.
Se me permite, era só acrescentar aqui nas palavras do Arlindo e agradecer, dizer que nós, a partir da Nova IMS, temos, de facto, tentado criar até novos modelos de parceria, porque verificamos que a própria transferência de conhecimento entre as instituições de ensino superior e as empresas, também tiveram que evoluir. Nós hoje já não fazemos projetos, digamos assim, aquele projeto de encomenda: receber uma encomenda, entregar um resultado. Nós hoje trabalhamos em conjunto, em parceria, em equipas mistas, em que ao longo do projeto nós capacitamos quem connosco colabora para garantir não apenas a absorção dos resultados, mas a sustentabilidade e a resiliência dos projetos que desenvolvemos e a capacidade de eles próprios poderem depois continuar a evoluir ao longo do tempo.
E as administrações públicas também são sensíveis a este novo modelo?
Exatamente o mesmo modelo. Ou seja, há hoje, de facto, um quadro completamente distinto de colaboração e também de energia e de tração para querermos ir mais longe e tirar partido deste enorme desafio e oportunidade que é a inteligência artificial. E agora aproveito para felicitar a CIP pelo trabalho que estão a desenvolver, porque eu acho que nós temos as empresas e agora precisamos é de uma espécie de um comprimido de inteligência artificial que as possa fazer dar o salto para conseguirem criar novos produtos e serviços para esta nova economia com as novas infraestruturas e capacidades que temos ao nosso dispor. E eu acho que isso só vai acontecer se a academia também estiver presente neste processo. Face à velocidade a que tudo isto acontece, que é estonteante.
Miguel Castro Neto, obrigado.
Muito obrigada, Miguel.
Obrigado pela reflexão que aqui deixou e também pelos exemplos. Estamos a falar de turismo, obviamente é uma atividade económica importante no país, que engloba outras micro e macro atividades, nomeadamente a restauração, que é muito importante em Portugal. Cristina Siza Vieira é a vice-presidente executiva da Associação de Hotelaria de Portugal. Muito bom dia, Cristina. Sente que a restauração, à semelhança da hotelaria, é um setor que se está a transformar nos últimos anos?
Bom dia, muito obrigada pelo convite. A transformar-se está sempre, porque tem que se adaptar. A hotelaria tem sido, de facto, dentro do turismo, da grande atividade, da grande indústria que é o turismo, a hotelaria tem que acompanhar as tendências internacionais, a concorrência, desde logo aqui do nosso país vizinho, e portanto tem-se, como sabemos todos, reequipado, oferecido outro tipo de experiências e também praticado outro tipo de preços. Tem-se reinventado e por arrasto todos os outros setores, quer do turismo, quer da economia, acabam também por vir alimentando estas novas experiências, prolongar a estada dos turistas, etc. Criar outros motivos de atração.
Foi referido aqui ao longo do programa, Cristina Siza Vieira, que há algumas regiões do país onde o valor acrescentado da hotelaria subiu nos últimos anos. Isso deve-se ao quê? Ao subir da qualificação dos hotéis ou porque os custos de exploração dos hotéis baixaram?
Estamos a falar um pouquinho de coisas diferentes. De um lado, a questão da rendibilidade dos próprios hotéis, e que de facto tem havido aqui ajustes relativamente ao valor que é praticado no final, e em determinadas regiões onde a descoberta do turismo, inclusive pelo mercado interno, tem servido muito para esta melhor relação com a própria comunidade e com o efeito de arrasto que tem noutras atividades econômicas. Eu acho que é um todo que tem vindo desta redescoberta de outros valores que o turismo hoje, até em termos internacionais, tem procurado, estes movimentos de maior sofisticação, de maior identidade e procura daquilo que é o autêntico dos destinos. E portanto, determinadas regiões do país têm vindo a acompanhar esta tendência e a afirmar-se. Depois uma promoção. A promoção público-privada tem corrido realmente muito bem esta questão da distribuição no tempo e no espaço dos fluxos turísticos.
Temos de ligar o microfone à Helena Garrido. Aí está.
Peço desculpa. Desliguei o microfone. Olá, Ivo.
Eu estava a ouvi-la ali no fundo do poço.
Exato, pois, porque eu esqueci-me de ligar o microfone. Um dos aspetos, Cristina, que era um bocadinho o que o João estava a referir, que nós temos vindo a ver nas estatísticas é exatamente esta estagnação do número de hóspedes, mas o aumento da receita por hóspede, com especial relevo para Lisboa e para o Algarve. Na sua perspetiva, isso é apenas porque estão a aumentar preços porque não há concorrência, ou é também um reflexo de que estamos perante mais valor acrescentado e uma entrada de turistas de gama mais alta, que foi sempre o nosso sonho e que pode agora estar a concretizar-se?
Eu acho que o debate só sobre mais turistas, menos turistas, mais valor, menos valor, é um bocadinho pobre, porque isto há obviamente uma relação também com o volume. No entanto, aquilo que a Helena está a dizer verificou-se, é verdade, um preço médio a subir por hóspede. Todavia, a Associação de Hotelaria de Portugal já tinha sinalizado, concretamente no caso de Lisboa Que estava a haver um abrandamento claro do preço. E a Páscoa revelou exatamente isto, ou seja, que se nós conseguimos manter a taxa de ocupação, aliás, na Páscoa subiu ligeiramente a taxa de ocupação em Lisboa, mas foi muito ligeiro, foi quase para ser mantida a taxa de ocupação. Houve, no caso da hotelaria, um sacrifício do preço. O preço desceu 6% no período da Páscoa. Nós já tínhamos sentido Lisboa abrandar e já tínhamos dado nota também de preocupações para o verão. O aeroporto é realmente aqui um bottleneck tremendo. E, efetivamente, há alguns sinais que não quer dizer que os turistas estejam menos tempo no território nacional todo, aliás, é isso que estávamos a dizer, distribuem-se até no espaço e no tempo, mas a estadia média não tem crescido, ou seja, em cada hotel eles estão menos tempo, concretamente em Lisboa, menos dormidas. E isto é um sinal que nos preocupa, porque precisamente a única forma de rentabilizar-
E as reservas para o verão também indicam isso?
Muito tímidas. Na altura em que fechamos o nosso inquérito, também estávamos em maio, e o fenômeno last minute veio para ficar em tudo. Estavam muito tímidas e agora as previsões ainda são relativamente baixas, em abrandamento relativamente ao ano anterior. Lisboa já não é uma cidade sazonal. Portanto, o verão nunca é época altíssima. Setembro retoma muito uma atividade, até por causa dos congressos, de outro tipo de eventos. Temos ocupações e picos na altura dos festivais, etc. Depois na altura das Web Summits, etc. E depois abranda um bocadinho no verão. Mas está nos a preocupar esta situação de, para se manter a ocupação, haver que sacrificar o preço. E aliás, esta tendência também, no fundo, como dizíamos, basta olhar para os movimentos de passageiros, Lisboa, Algarve, Porto, Faro, para perceber que, tirando a tragédia, que é mesmo uma tragédia, nos Açores, mas como tem uma cota de mercado muito pequenina no total dos aeroportos nacionais, não impacta tanto.
O que é que isso, que é uma tragédia? É uma tragédia por causa da-
Porque caiu, só para ter uma ideia-
Caiu porque a low cost saiu de lá, não foi?
Saiu a Ryanair e neste momento ainda temos uma grande instabilidade aqui. E neste momento, só para ter uma ideia, no acumulado até junho, o movimento de passageiros nos Açores caiu 10%. Portanto, isto é, de facto, para os Açores. Só que como eu dizia, como tem uma cota pequenina no total nacional, não tem um impacto gigantesco.
Para a economia local é brutal.
Não, é brutal. O que se está a passar neste momento nos Açores é, de facto, dramático.
O transporte aéreo é determinante para o negócio do turismo. Lisboa tem um gargalo que vai ter durante mais 10 anos, aparentemente.
É verdade. Que é uma preocupação se pensar nos hotéis que estão em pipeline e na concorrência. Mas só para ter uma ideia, os lucros da Ryanair neste período todo deste primeiro semestre caíram 34% e as tarifas também. Portanto, os passageiros subiram, mas mais uma vez, com sacrifício das tarifas. A própria IATA, a Organização Internacional dos Transportes Aéreos, também está a dar sinal. As ações europeias das companhias aéreas, negativas. Portanto, há aqui alguns sinais de mercado um bocadinho preocupantes.
Qual é que está a ser a sua leitura? Está a haver uma retração do mercado turístico?
Não contração da vontade de viajar, mas esta questão das instabilidades geopolíticas e do relativo custo do transporte aéreo, que ainda que, de facto, basta pensar nos Açores, neste momento, está a loucura chegarmos aos Açores. E de facto, há aqui também alguma retração, algum medo da inflação. As pessoas estão a guardar-se para a última da hora, estão, por exemplo, a reduzir, em vez de passarem tantos dias fora, passam menos. Preocupa-nos um bocadinho, porque nós temos projeções da Organização Mundial do Turismo que há um crescimento muito grande do volume de turistas internacionais. Nós, relativamente ao crescimento aqui para Espanha, estamos a comparar relativamente bem, ainda assim aquém daquilo que tem sido o crescimento deles, quer no ano 2025, quer no primeiro semestre, e também aquém da média europeia do Eurostat. Portanto, é um abrandamento, não quer dizer, nós também tivemos saltos muito grandes, que seja sinal de que vai parar, mas é preciso estar atentos a esta tendência. Por outro lado, é interessante perceber que o nosso mercado interno, portanto, mercado residente, não só mercado nacional, tem crescido muito bem, que é algo que nós gostamos sempre. E portanto, enfim, há aqui algumas cambiantes neste momento.
Alguns sinais de alerta.
Alerta e ao mesmo tempo algumas mutações, digamos, nos mercados emissores. Enfim, algumas coisas interessantes. A parte do transporte aéreo, que 90% dos nossos turistas chegam por essa via, é a que mais nos preocupa.
Armindo Monteiro, tem uma questão para colocar à Cristina Siza Vieira.
Não, era sobretudo para reforçar estas notícias que de alguma maneira nos chegam por uma associação naturalmente muito bem informada. É a tal questão que há bocado falávamos. Nós, para as políticas públicas e privadas, naturalmente temos que ter, sobretudo, uma base de conhecimento muito boa. E a associação que a Cristina aqui representa é exemplo disso. E eu queria, sobretudo, juntar-me a estas boas notícias. Nós temos 50 anos E o nosso tecido empresarial mudou muito. Não estou a querer terminar nesta nota condescendente, nada disso. É apenas como estímulo, porque também é muito importante termos estes estímulos positivos. Há muita coisa que está a ser bem feita na área do turismo, como nas outras áreas, mas sobretudo nós termos esta convicção de que temos ainda espaço, de não ficarmos contentes com o que já atingimos, mas sobretudo esta vontade de irmos mais longe e de conseguirmos multiplicar estes bons exemplos que nos chegam.
Recebeu aqui um bom incentivo, Cristina.
Muito obrigada e eu agradeço em nome da Associação de Hotelaria de Portugal. De facto, temos muito cuidado com os números que juntamos e divulgamos, e concordo em absoluto consigo. Ou seja, esta questão da distribuição no tempo e no espaço tem levado efetivamente a que o turismo consiga demonstrar dar valor às comunidades e aos stakeholders e não só apenas retorno para os acionistas e para os impostos. Acho que é preciso perceber o valor que o turismo tem, não é apenas debitar números, peço desculpa pela expressão, mas também esta relação com a comunidade que o recebe, porque isso não é um mero cenário. É a matéria-prima de que o turismo vive e Portugal tem isso para dar e para crescer.
Cristina Siza Vieira, agradeço-lhe muito. Obrigado por se ter juntado a nós no Contra Corrente hoje.
Obrigada, Cristina.
Estamos a falar de turismo, que é obviamente uma atividade económica muito importante para a economia portuguesa, passo aqui a redundância, mas há mais economia para além do turismo e nos próximos anos, Armindo Monteiro, Portugal vai assistir ao investimento em grandes projetos como o aeroporto, a terceira travessia do Tejo, o TGV, o Hospital de Todos os Santos em Lisboa. Podemos estar aqui a empurrar a economia portuguesa para repetir os anos 90, ou seja, um crescimento muito assente em obras públicas ou não?
Sobretudo, não termos a ideia de adormecer. Muitas vezes nós podemos conseguir mais apenas querendo. Isto às vezes pode chocar. Esta ideia, como temos repetido, muitas vezes nós não temos o desempenho ao nível do nosso potencial. E esta verdade objetiva não é para estabelecer o confronto, não é para estabelecer um conflito, um debate. Não, é para estabelecer um compromisso. Se estamos abaixo do nosso potencial, o que é que nos falta fazer para conseguirmos atingir esse potencial? E estes investimentos que o João acabou de referir são essenciais. Se nós não tivermos esta capacidade de os materializar já. Estamos a falar de turismo. Vamos falar num exemplo que todos compreendem: o aeroporto. Faz algum sentido toda esta demora para construir o novo aeroporto, que qualquer pessoa que vá ao aeroporto, que viaje ou que viaje para fora do espaço comunitário, em particular, nota. É um péssimo cartão de visita.
Deixe-me ser mau. Acredita que vai ser construído?
Ó João, o Nobel, para dar esta novidade aqui aos ouvintes da Rádio Observador. Sabem qual foi a primeira perceção que o Nobel, o tal que veio falar sobre como desbloquear o crescimento de Portugal, fez? Quando estava a chegar ao aeroporto, tirou uma fotografia e disse: "Mas é Portugal?" Atenção, ainda para chocar mais. Ele estava a vir da Nigéria e ficou chocado quando aterrou em Portugal.
Não, vir de qualquer aeroporto europeu para Lisboa neste momento é muito deprimente.
É deprimente nós assistirmos àquilo que é a chegada de uma-
Mas também não acha que a ANA podia ter feito mais investimentos do que aquilo que fez? Eu começo a ouvir críticas também à AVANCE e os défices de investimento.
Ó Helena, aquilo que constatamos é isto: nós, no século XXI, em 2026, termos esta situação, ou seja, não era previsível isto? Eu pergunto: isto não era previsível?
Porque o único que está a ganhar com isto é a ANA.
Mas saturar um aeroporto não era previsível a necessidade de termos um segundo aeroporto? Era, com certeza. Às vezes parece que queremos nos meter em problemas para depois acelerarmos na resolução, porque nós normalmente somos bons a resolver problemas quando estamos em aflição, mas a aflição já está.
E este tipo de aflição não se resolve de um dia para o outro.
Não, sobretudo porque criamos uma imagem. Podem vir campanhas de promoção do turismo, mas depois quem aterra no aeroporto e constata aquilo, não é possível ter uma ideia positiva como primeiro impacto. E aquela ideia que se diz, não há uma segunda oportunidade de criar uma primeira boa impressão, é exatamente isso que acontece quando qualquer turista chega ao nosso aeroporto de Lisboa. E por isso, aquilo que eu espero é que nós façamos um compromisso. E aqui não estou a pensar nem no governo, nem na oposição, nem na direita, nem na esquerda. Estou a pensar enquanto português. E enquanto português, nós não estamos a fazer tudo aquilo que podemos fazer e que está ao nosso alcance. E é verdadeiramente necessário um pacto. Eu sei que hoje não é tempo de moderados, hoje é tempo de extremos, mas estes problemas que nós temos só se resolvem com compromisso. E esse compromisso requer confiança. E para haver ambição, tem que haver compromisso e tem que haver confiança, senão não conseguimos.
José Manuel, em 30 segundos.
Bem, eu acho que este ponto final é muito importante. Eu acrescentava outro para retomar também o que está neste estudo. Confiança é o nome de um livro escrito pelo Francis Fukuyama, é um livro que ele escreve a seguir ao famoso livro sobre o fim da história, onde ele diz que as sociedades que são capazes de ter regimes que geram confiança, são sociedades que criam mais riqueza. Para haver confiança, entre outras coisas, é fundamental que as pessoas tenham confiança, por um lado, nas instituições, que elas não são extrativas, são instituições que promovem a inovação e a concorrência, e, portanto, o progresso, e, por outro lado, tenham também confiança na justiça e na forma de funcionamento do Estado, na previsibilidade, que são coisas que nós, infelizmente, não temos. Um país que muda o sistema fiscal todos os anos, que muda as regras do jogo dia sim, dia não, é um país que tem dificuldade em atrair investimento. É bom dizer isto também, já que a gente está a falar de turismo. Um dos momentos que é um clique no disparar do turismo, claro que coincidiu com o fim da Troika, mas antes tinha havido um trabalho feito pelo Adolfo Mesquita Nunes, secretário de Estado, que desregulamentou, tirou complicações. E isso depois foi necessário por outros, porque entretanto apareceram coisas a mais, toques poluentes em Alfama, e foi necessário regular outra vez.
É um bom exemplo de como descomplicar pode induzir grande crescimento.
Ele descomplicou e aquilo explodiu. Depois percebe-se que há problemas novos e vamos tratar deles. Mas no momento em que nós, antes de fazermos alguma coisa, começamos a imaginar os problemas que vai haver e a criar regras, que é um hábito português e um hábito europeu, não ajuda nada ao crescimento e não nos ajuda nada a ter um lugar diferente.
Muito bem. O Contra Corrente está de regresso amanhã. Armindo Monteiro, muito obrigado. Até amanhã a todos.
Muito obrigado.