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É hora de conhecermos o tema do Contracorrente, nesta véspera de Natal. Se quiser entrar em direto para nos dar a sua opinião, basta ligar 910 002 4185, ou então enviar-nos a sua mensagem de voz pelo WhatsApp para o mesmo número, 910 002 4185. Carla. No Natal costuma dizer-se que a tradição ainda é o que era, mesmo que a tradição peça bacalhau numas terras e noutra seja mais polvo. Contudo, de onde vem a tradição? Não a tradição da árvore, do Pai Natal ou das diferentes iguarias, mas a tradição de festejar o nascimento de Jesus. Há dois anos falámos no Contracorrente de como os relatos bíblicos do nascimento de Cristo não permitem situá-lo com exatidão no tempo e como os vários evangelhos até contam histórias ligeiramente diferentes, mas que se complementam. E no ano passado recordámos como a tradição do presépio é relativamente recente, só tem apenas 800 anos. No Contracorrente de hoje, vamos recuar mais atrás no tempo, até aos primeiros séculos do cristianismo, para tentar perceber como nasceu e como evoluiu a tradição de festejar o Natal e como ela foi evoluindo, retomando uma questão que muitas vezes se coloca: o Natal é mesmo uma festa cristã ou não é mais do que uma versão cristã de festas romanas e pagãs? Bom dia, José Manuel, encontraste uma resposta para isto?
Bom dia, Carla. E bom Natal.
E bom Natal.
Bom Natal. A resposta é muito interessante, porque a história das festas e a história das religiões muitas vezes intercruza-se e as coisas têm alguma relação. E no que diz respeito à tradição do Natal, nós falámos, de facto, porque muito provavelmente o Natal não foi no ano zero, como se imagina. O nascimento de Cristo não terá sido no ano zero, porque as contas não batem certas nem com a estrela, que seria a estrela que guiou os Reis Magos, nem com o rei Herodes, nem com o recenseamento romano, todas aquelas questões que estão nos evangelhos. Mas independentemente disso, o relevante aqui foi que, primeiro que tudo, o Natal não começou a ser o nascimento de Cristo, não começou a ser celebrado logo que São Paulo, que foi o grande promotor da religião, o grande evangelizador, logo que São Paulo viu a luz na estrada de Damasco, digamos assim, e começou a pregar a religião e a pregar o cristianismo. Portanto, levou algum tempo, levou até alguns séculos e o estabelecimento de uma data acabou por ter várias influências. E aqui começa um pouco a história. Primeiro que tudo, há algumas questões que às vezes nos tornam difícil estabelecer exatamente estas ordens, porque, isso agora parece-nos um pouco estranho dizer isso, mas os calendários não batem certo. Nós atualmente estamos no chamado Calendário Gregoriano, que foi estabelecido pelo Papa Gregório, no final da Idade Média, e que acertou o ano lunar pelo ano solar e tirou alguns dias ao calendário. Por isso é que os calendários, por exemplo, da Europa ortodoxa, não batem certo. A Revolução de Outubro, por exemplo, que talvez é o caso mais famoso, a Revolução de Outubro aconteceu em novembro. A Revolução de Outubro de 1917. E depois ainda temos o Calendário Juliano, e depois temos o Calendário Romano, e depois tínhamos os calendários judaicos. E tudo isto tem ciclos diferentes, e também festas móveis. Por exemplo, a Páscoa judaica, tal como a Páscoa cristã, não é sempre na mesma data, tal como o Yom Kippur ou o Hanukkah, que agora falamos muito, são festas móveis que têm muito a ver com os ciclos da Lua, mais do que com os ciclos do Sol. No caso do Natal, há dois elementos que se cruzam. Um que podemos considerar de alguma forma mais cristão e outro que tem mais a ver com as tradições do mundo romano, que é o mundo onde o cristianismo se desenvolve. E que não são só do mundo romano. Quer dizer, há uma tradição em quase todas as religiões, em quase todos os misticismos de relação com o Sol e com os ciclos do Sol. Ora, os ciclos do Sol são de alguma forma marcados pelos dois equinócios e pelos dois solstícios, em particular, neste caso concreto, pelo solstício de inverno. Mas no caso também daquilo que são os ciclos da igreja cristã, pelo equinócio da primavera. Por quê? Porque terá sido nesse momento, na Páscoa, que coincide com o equinócio, que haverá a morte e ressurreição de Cristo. Numa data mais concreta, hoje, atualmente, o equinócio da primavera bate habitualmente a 21 de março, mas a data que se considerava na altura era 25 de março, e a ideia nos profetas do Antigo Testamento é que as vidas dos profetas correspondem a anos certos. Seriam imperfeitas se não fosse um ano certo. E portanto, sendo a morte no 25 de março, tu dirias: "Está bem, então nesse caso o nascimento também teria que ser a 25 de março". Mas o momento crucial no nascimento de Cristo é a anunciação, é a conceção. A conceção imaculada, a conceção da mãe. Que fica grávida sem interferência do pai humano. E isso acontece quando? Nove meses antes. E por isso, fazendo as contas, é como se passasse mais nove meses, vamos bater a 25 de dezembro. Mas há outra questão: nessas datas estamos a bater no solstício de inverno. E o solstício de inverno é sempre uma data muito relevante, para os romanos, mas também para várias liturgias pagãs na Europa toda. Celtas, nórdicos e vikings. Nós sabemos que muitos monumentos, inclusive monumentos pré-históricos, batem com esses movimentos do sol. Há, por exemplo, um túmulo lindíssimo, a norte de Dublin, na Irlanda, que é um túmulo pagão. Há casos em que é o solstício, há outros casos em que é o equinócio, eu penso que aí é o solstício, onde o sol entra pela porta e bate no fundo. Há um outro monumento egípcio famoso que é Abu Simbel, a montante, mas a sul da primeira catarata. E Abu Simbel é um monumento também onde há esse mesmo fenómeno do tempo de Ramsés II, onde só duas vezes por ano é que o sol vai até ao fundo e bate no fundo desse monumento. E aí é nos equinócios. Neste caso concreto, o equinócio de inverno é um momento muito relevante. Por quê? Porque, sobretudo numa Europa mais a norte, até do que nós, temos dias muito curtos, frios, desagradáveis. E aqui acontecem duas coisas: por um lado, o ciclo do sol muda, os dias deixam de ficar mais pequenos, começam de novo a ficar maiores. É o que acontece a partir deste momento, dia 2 de dezembro, anteontem. Os dias voltaram a começar a ficar maiores. E também não é um momento de muitos trabalhos agrícolas, mas a existência de um momento em que volta a haver esperança, por assim dizer, volta a haver, não direi luz ao fundo do túnel, porque ainda há pouca luz, mas volta a haver um ciclo diferente, é um bom pretexto para festas, é um bom pretexto para beber, para comer, para sair daquela tristeza daqueles dias.
De enorme recolhimento.
Enorme e mais recolhimento. No mundo romano, isto coincide com duas festas e muitas vezes associou-se o Natal a essas duas festas. Havia, por um lado, as Saturnálias. As Saturnálias eram uma celebração do deus Saturno, que aconteciam em dezembro, mas um pouco mais cedo, entre 17 e 23 de dezembro, e que também tinham elementos festivos, elementos de inversão da ordem. Nesse dia, por exemplo, eram os senhores que serviam os escravos. E muitas vezes associou-se às Saturnálias, mas hoje em dia pensa-se que tem mais a ver com a celebração do sol renascido, cuja celebração começou a ser promovida pelos césares numa altura em que o cristianismo já começava a ter peso no império e um pouco para contrabalançar esse peso crescente do cristianismo. Alguns dos césares que vão promover mais isto são daqueles que vão perseguir mais os cristãos. E assim, coincidiu com o solstício, que na altura era 25 de dezembro. Há aqui uma possível dupla inspiração para a data de 25 de dezembro. E daí também esta ideia de que há uma origem pagã na celebração do Natal. Há um texto muito bonito, devo dizer, ele escrevia maravilhosamente bem, do Papa Ratzinger, sobre precisamente isto, em que ele de alguma forma assume que as religiões acabam por interconectar-se e por irem buscar umas às outras inspiração. Depois vou citar esse texto, que vale a pena ler um pouco no programa, assim como perceber outras coisas, outros ciclos, perceber porque é que temos o 6 de janeiro, o Dia de Reis.
O Dia de Reis.
Qual é esta diferença? O que significa o Advento? Se o Advento é um tempo de festa ou um tempo de jejum, a importância dos jejuns nas várias religiões, porque não temos só os jejuns no cristianismo, temos também o Ramadão no Islão, temos jejuns judaicos também. Vamos falar disso tudo.
Muito bem. Até já, José Manuel. 910 002 41 85 para entrar em directo, mas também nos pode enviar a sua mensagem de voz através do WhatsApp ou deixar os seus comentários nas nossas redes sociais ou no site do Observador.