Com 19 dias de atraso e arrastado por uma orelha

Miguel Santos Carrapatoso

Quatro cargas policiais depois, Luís Montenegro fez finalmente o óbvio: mostrou sentido compromisso e disse estar disponível para ouvir o que defendem os dois principais partidos da oposição em matéria de Habitação; recordou tudo aquilo que o Governo já fez para minorar a crise (tentando recuperar o controlo de uma narrativa que lhe é objetivamente favorável); e tratou os portugueses como adultos. Não, a crise da Habitação não se vai resolver de um dia para o outro. Não, as medidas coloridas que muitos prometem não vão resolver nada. E não, não há dinheiro para tudo — é preciso fazer escolhas e o país tem de o saber. Problema: está 19 dias atrasado.

Se Luís Montenegro fez tudo bem do ponto de vista da comunicação, se disse aquilo que devia dizer e explicou aquilo que podia, neste momento, explicar, pode-se, com legitimidade, perguntar o porquê de o primeiro-ministro ter falado tão tarde e depois de o país ter ficado tão perto de um ponto de não retorno — para lá das muitas cenas de violência, recorde-se que um agente à paisana se viu obrigado, segundo a PSP, a brandir a arma de serviço no meio de uma multidão por temer pela sua integridade física, e ponha-se em perspetiva o quão perigoso foi permitir este escalar da situação.

Não há uma resposta clara para explicar as idas e voltas do primeiro-ministro. Luís Montenegro diz que esteve a trabalhar e que o trabalho de um primeiro-ministro é governar, não é comentar as opiniões dos outros e aquilo que alimenta a comunicação social a cada momento. A determinada altura, Montenegro chega a dizer que não é um “político” — fica por saber se foi um lapsus linguae ou não — e que não é um “dirigente partidário qualquer”. O primeiro-ministro tem razão, a bolha político-mediática está muitas vezes dessintonizada das reais preocupações dos portugueses. Mas convém que não se leve o exercício ao extremo da caricatura: Montenegro não é Cavaco, que também dizia que não era político; o país e o mundo não ficaram no início dos anos 90; o PSD tem uma concorrência que antes não existia; e, como é óbvio, mais de duas semanas de manifestações implicam a presença, o envolvimento e a voz de comando de um primeiro-ministro, ainda para mais quando o que sobra é Luís Neves como porta-voz alternativo.

A ideia que fica é que o primeiro-ministro dispensava ter falado ao país. Que acha, como disse, injusta a crítica à sua gestão do silêncio, e que estava bem era a trabalhar no gabinete ou longe da chatice que é a comunicação social. Então, se o primeiro-ministro acha tudo isto, para quê falar agora? Não foi para anunciar medidas de emergência, nem se esperava que fosse. Não foi para fazer um mea culpa, nem seria suposto que fosse. Não foi para comentar a decisão do Tribunal Administrativo de Lisboa, assunto que Montenegro, ao contrário de Luís Neves, ignorou olimpicamente. Na verdade, o que o primeiro-ministro disse hoje podia ter dito há 19, 15, 10, 7 ou 5 dias.

Talvez a resposta a esta pergunta se construa apenas com três palavras: António José Seguro. A sensação que fica desta declaração ao país é a de que o primeiro-ministro apareceu às oito da noite arrastado por uma orelha pelo Presidente da República. Verdade ou não, Luís Montenegro perdeu tempo, energia, capital e autoridade política. E não tinha de ser assim.

Montenegro disse que de um primeiro-ministro não se espera que comente, mas que acrescente alguma coisa. Com esta declaração cumpriu metade

Bruno Vieira Amaral

Depois de, segundo a caricatura da esquerda, ter passado os últimos dias em recolhimento alternado nos seus 55 imóveis rústicos e em contemplação enlevada da atuação feroz, com a sua bênção, das forças policiais, o primeiro-ministro falou ao país à hora fatídica e litúrgica das oito da noite. O tema anunciado era a habitação, mas os portugueses esperavam uma palavrinha sobre a modalidade de campismo urbano muito em voga nas principais cidades do país e que lhe tem trazido mais dissabores do que qualquer construção fundada em alicerces sólidos, exceto a moradia de Espinho.

Luís Montenegro não os desiludiu. Quanto à crise da habitação, o primeiro-ministro começou por aplacar a fúria nervosa da oposição com o anúncio de convites aos líderes do Chega e do Partido Socialista para duas reuniões em São Bento para poderem trocar calmamente, entre estadistas, umas ideias sobre o assunto. Os restantes partidos, coitados, serão ouvidos por uma task-force composta pelos ministros de Estado e das Finanças, das Infraestruturas e Habitação, da Presidência e dos Assuntos Parlamentares, que é para ver se ganham juízo. Mas mais do que acalmar a oposição, estes sinais de abertura boa-vontade terão servido para tranquilizar o Presidente da República, cujos repetidos apelos ao diálogo adquiriram, nas últimas intervenções, uma tonalidade de mal disfarçada irritação.

Seguiu-se um número habitual em Montenegro, a enumeração de todas as estupendas medidas já adotadas por este governo que, por desafortunado alinhamento astral, não resolveram nada: o investimento cresceu, mais de cem mil jovens compraram casa, foram entregues, até agora, 32 mil novas habitações, que serão 40 mil até ao final do ano e 50 mil até 2027, reduziu-se o IVA da construção, criou-se um novo regime fiscal das rendas e inventariaram-se os imóveis do estado – “estamos a fazê-lo”, garantiu solenemente Montenegro – que possam ser dirigidos à habitação (aqui o primeiro-ministro dourou a retórica com o brilho das coisas concretas dando como exemplo um edifício das Finanças em Ansião, distrito de Leiria). Depois das medidas que não resolveram os problemas, falou dos problemas. Sublinhou que o problema das rendas não é da lei que ainda nem sequer foi aprovada mas da que está em vigor (ideia que tem sido contestada com grande veemência pelo ramo legislativo das assembleias populares) e que mais casas no mercado é que vão baixar os preços mas que existe esse pequeno obstáculo físico de as casas não se construírem de um dia para o outro.

O primeiro-ministro não fugiu ao tema dos protestos e insistiu na tese de que se trata essencialmente de uma importação de modelos violentos do estrangeiro, contrários à índole pacífica do povo português, índole essa cuja preservação pode requerer, em determinados momentos, umas bastonadas, não sabemos se de origem nacional ou se também elas importadas. Lembrando os portugueses que não é comentador, não fossem alguns mais distraídos confundir a sua ausência com uma espécie de comentário esfíngico, e que o seu relativo silêncio nas últimas semanas se deveu ao facto de estar ocupado com os pesados encargos da governação, Montenegro disse que de um primeiro-ministro não se espera que comente, mas que acrescente alguma coisa. Com esta declaração cumpriu metade.

Sem estratégia, sobram as esmolas

André Abrantes Amaral

Na sua declaração de hoje, Luís Montenegro tentou eximir-se de qualquer responsabilidade pela crise da habitação. O raciocínio parece fácil: o problema é antigo, as causas têm anos e Montenegro só leva dois anos e meio como primeiro-ministro. Sucede que os raciocínios fáceis são geralmente enganadores. É que se Montenegro diz ter feito tudo para aliviar a crise da habitação, e que precisa de tempo para a resolver, também é verdade que o governo que lidera pouco mais fez que atribuir ajudas para a aquisição de casa própria.

Ajudas que, por sinal, carregaram nos preços das casas. Os apoios de que Luís Montenegro se gabou esta noite foram nada mais nada menos que um incentivo à procura quando o problema é a pouca oferta perante uma procura já desmesurada. O Governo recusou sempre esta crítica e continuou a carregar no acelerador dos preços dando ainda mais incentivos à procura de casa. E dos preços (que subiram cada vez mais). As autarquias (das quais o PSD depende) viram as receitas do IMT aumentar a agradeceram a ajuda.

Perante o fracasso dos apoios, o actual governo começou uma procura desesperada por casas. O exemplo de Ansião é, no mínimo, ridículo. Pelo desligamento da realidade, mas essencialmente por não passar por uma gota no oceano. A crise da habitação é antiga, as causas são profundas devido ao aumento da população imigrante e à falta de construção, bem como às razões que levaram a essa falta de construção (que vai levar muito tempo a ultrapassar), mas deve-se também ao nível de vida dos portugueses que não evolui há anos e que Montenegro pouco ou nada fez para melhorar.

Perante o aumento dos preços da habitação (inevitável num mundo global) os salários não crescem porque a produtividade e o investimento não cresceram. Luís Montenegro referiu-se ao crescimento económico e ao nível de emprego, mas finge não reparar que a economia cresce porque a população aumentou, não porque se produza mais e se ganhe melhor. A falta de estratégia é tal que o próprio aumento da população que faz a economia crescer é uma das causas para a crise da habitação. E como não há estratégia, sobram mesmo as esmolas. Foi disso que Montenegro se congratulou hoje.

O Reality-show

Nuno Gonçalo Poças

Não é fácil viver, quanto mais governar, num ambiente político-mediático de reality show impregnado de viés revolucionário, mas suspeito, até pelo que vou vendo e ouvindo de pessoas que vivem fora de bolsas do privilégio burguês, que toda a gente neste país sabe que existe um problema com os preços das casas ou um problema com os valores dos salários, mas que boa parte do país não se revê nesta parangona das tendas e das cantilenas anti-capitalistas. Querem, simplesmente, que o problema seja atenuado.

Montenegro tem razão: o passado das políticas públicas não ajuda, a Habitação é um tema transversal e precisa de tempo para ser resolvido. E não há razão nenhuma para que os partidos não se entendam na reforma do sector. E tem ainda mais razão quando diz que o Governo não começou a olhar para o tema da Habitação hoje – as manifestações vieram introduzir a cacofonia, não soluções. O Governo tem trabalho feito, e as críticas que lhe devem ser feitas serão por arriscarem trazer mais problemas para a procura do que se julga, mas não de que não tem feito nada. Montenegro agarrou o PS e o Chega, trazendo-os para a mesa das soluções, e suspeito que seja isso que o país quer. O Presidente da República não deixa de sair vitorioso desta conferência de imprensa, talvez mais do que o Primeiro-ministro.

Quando, no dia 16, ainda a procissão das acampadas ia no adro e só contávamos ainda com uma resposta policial, arrisquei que as coisas podiam correr mal ao Governo se deixasse que se instalasse a psicologia da crise. Deixou. O país não reagirá com maus fígados à ideia de que todos se sentem à mesa para encontrar soluções. Mas o Governo já vem tarde, perdeu iniciativa política, que agora tenta recuperar, e deixou que se implantasse a ideia de que não tem feito nada. A política, em 2026, é mais comunicação do que política pública. António Costa governou assim oito anos, apenas comunicando e montando as suas narrativas. Montenegro ainda não percebeu que só se governa hoje ou com controlo de narrativa ou com uma dinâmica fortíssima de políticas públicas. Não tem o primeiro, e quanto ao segundo tem andado assim-assim. Vamos entrar agora numa novela partidária, o assunto das tendas acabará por morrer, que já ninguém tem pachorra para ele, e o que sobrará disto tudo é que o país está num impasse político e partidário que tem de ser resolvido. Antes de ser resolvido tudo o resto, é preciso resolver esse problema primeiro.