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A Patrícia Morais é a nossa convidada de hoje. É licenciada em Tradução, Desenvolvimento Internacional e formada, eu não sei se será a palavra certa, Patrícia, formada em kung fu numa aldeia remota na China. É formada? É isso que se diz, Patrícia? Bem-vinda, boa tarde.

Olá, Patrícia.

Olá. Não sei se é bem formada ou certificada, qualquer coisa desse gênero.

É uma coisa parecida.

Treinada. Treinei lá.

Mas é assim tipo cinturão negro?

Não, nós lá pelo menos não tínhamos cinturões, não havia qualquer distinções. Existe quando é cá, mas isso é uma coisa mais ocidental. Eles não prestam muita atenção lá.

Então, mas Patrícia, onde é que esteve exatamente?

Em Yantai, que é um pouco entre Beijing e Xangai, fica na costa, mesmo na pontinha da China.

E esteve por lá durante quanto tempo?

Um ano.

Um ano. Portanto, deixou tudo e decidiu: "Agora vou pra China aprender kung fu." Como é que foi? Por que de repente se lembrou de fazer tudo isso? Já era um gosto pelas artes marciais?

Sim, eu sempre tive um gosto pelas artes marciais. Eu pratiquei kenpo quando era mais nova e durante os meus tempos de escola tentei capoeira, tentei boxing, tentei uma coisa aqui, outra coisa ali. E eu estava um bocadinho deprimida. Estava a viajar pela América do Sul e estava a passar por uma pequena depressão e um dia passou-me pela mente: "Por que não treinar a minha mente e o meu corpo de forma a ultrapassar esta depressão?" E procurei no Google estudar artes marciais na China e deparei-me com esta escola.

Shaolin.

Não, eu estudei Wing Chun. A minha ideia originalmente era estudar Shaolin, mas eu depois experimentei o Wing Chun e apaixonei-me.

Eu estou a falar de Shaolin como se percebesse alguma coisa disso.

Exato, agora pareces um especialista.

É o único nome que me é familiar, porque quando era muito pequenino, havia uma série fantástica que era Os Jovens Heróis de Shaolin, que era de kung fu. E foi por isso que eu disse Shaolin, sem estudar. E há diferenças então entre as várias escolas de kung fu, é isso, Patrícia?

A maior parte deles todos ensinam Tai Chi, Shaolin e Wing Chun, que são as mais conhecidas. Existem diferenças entre outras. Wing Chun originou do Shaolin, mas é ligeiramente diferente, tem um contacto mais próximo do que o Shaolin.

E portanto, estava a contar-nos que tinha essa depressão e decidiu que o melhor remédio era de facto ir pra China e treinar a sua mente, o seu corpo, enfim, através do kung fu. Mas a reação da família e dos amigos? Não pensaram: "Mas ó Patrícia, mas por quê?"

Os meus amigos ficaram um bocadinho chocados e pensaram: "Vais agora pra China estudar artes marciais, mas isso cabe na cabeça de alguém?" A minha mãe foi logo: "Sim, por que não? Vai." Se eu tenho uma ideia doida, ela ajuda-me.

Apoia.

Apoia-me. Nunca me disse que não a nenhuma das minhas ideias e, portanto, a família ficou: "Sim, já estamos habituados."

Portanto, já é uma coisa como ela, querer pegar nas coisas e ir, não é?

Exato.

Foi basicamente isso. Mas a Patrícia falava mandarim, não falava de todo?

Eu tinha tido quatro meses de mandarim na faculdade.

Sabia dizer "nǐ hǎo"?

Exato. Era praticamente o básico. Não sabia mandarim nenhum e notou-se quando lá cheguei. Houve várias situações em que me vi à grega pra chegar a algum lado e tentar comunicar. Foi mais por linguagem gestual.

No kung fu pode ser mal entendido, ou não?

Pois, um bocado. Sim, mas não sabia e continuo sem saber mandarim.

Portanto, quando esteve por lá, não teve aulas, nada?

Tive aulas, mas era muito básico. Era só mesmo pra nós podermos ir ao mercado, pedir coisas. Estarmos na caixa do supermercado e sabermos desenvencilhar-nos, mas não sei ter uma comunicação, uma conversa com uma pessoa que fala mandarim.

Ó Patrícia Morais, isso parece quase um argumento de um filme de kung fu, que é a Patrícia, sente-se um pouco perdida, vai à procura de si própria e vai aprender kung fu.

Pois, a ideia eu acho que também foi influenciada por esses filmes de viagem. Eu pensei: "Toda gente faz e eu vou chegar lá e vou sair curada desta depressão". Mas quando eu cheguei lá, não funcionou bem assim.

Então como é que foi?

Até piorou, de certa forma. E eu fiquei a pensar: "Mas toda a gente viaja e vem se descobrir e acaba por se curar. E eu cheguei aqui e sinto-me ainda mais deprimida", porque depois tinha problemas de motivação. Estar constantemente a treinar o meu corpo, sentia-me cansada, não me sentia a melhorar. Fiquei perdida. Mas descobri também ao longo do meu percurso, que ao continuar a tentar e ao continuar a puxar por mim todos os dias Acabei por conseguir superar essa pior fase.

E como é que são as aulas? Há aulas ou é aquela, vou novamente voltar aos filmes, põem os alunos a limpar as janelas?

Existe uma parte dessa que eu também perguntei se este era o meu momento Karatê Kid.

Exato.

Todas as semanas nós tínhamos que limpar o ginásio e a parte de fora da academia, porque é a forma tradicional das artes marciais. Nós não aprendemos nenhum movimento específico para limpar nada, é só mesmo limpeza, também havia a observação dos quartos, porque um ambiente limpo, origina uma mente limpa e era esse o mote deles. As aulas tinham um horário muito específico e começávamos às 06:00 da manhã e acabávamos por volta das 17:00 da tarde.

Era muito exigente.

Muito.

Vida de monge chinês, quase.

Quase.

E era a única portuguesa, Patrícia?

Sim. Antes de eu ter chegado, eles contaram-me que havia outro português, mas que foi-se embora antes de eu chegar. Durante todo o tempo que lá estive, fui a única portuguesa.

Mas havia mais alunos internacionais que não chineses?

A maior parte deles eram internacionais, europeus, americanos. Havia poucos alunos chineses.

E como é que eram vistos aí?

Nós éramos um bocadinho a celebridade do local. Toda a gente, quando nós íamos para a pequena vila, perguntávamos se éramos alunos da escola do Wushu, que é a maneira de eles dizerem artes marciais, e vinham ter conosco e perguntavam: "Wushu? Wushu?" E nós começávamos a rir e a dizer que sim, éramos um bocado as celebridades.

Existia uma grande curiosidade. Isso incomodou, de certa forma, ou não?

Quando eles tentavam falar comigo e eu continuava a dizer que eu não percebia o que eles diziam, e eles continuavam a me perseguir e a tentar falar comigo, ou tiravam fotografias nossas sem pedir autorização, aí incomodava-me de vez em quando.

Houve aí um choque cultural. O que é que foi difícil de ultrapassar? A língua não é, logo aí, pronto.

Certo.

Uma grande dificuldade.

E os golpes.

O nosso espaço pessoal era invadido, de certa forma, se eles tivessem muita curiosidade nossa. Nós estávamos no supermercado e eles vinham atrás de nós, tentar ver o que é que o estrangeiro está a ver. E também, em nível de educação, eles são um bocadinho mais brutos. Gostam de fazer as coisas à maneira deles e nós somos muito educados, existem certas regras na sociedade e aquilo choca-nos um bocadinho.

Sentiu, portanto, que o seu espaço foi invadido, de certa forma, durante esse ano, mas as coisas foram se tornando progressivamente mais fáceis?

Sim. Conforme fui habituando. Depois, de certa forma, aprendemos a rir com a situação.

E a lidar melhor com os chineses, é isso?

Sim.

Estava a dizer que eles são um pouco mais brutos. A educação é diferente, a forma de estar na vida é diferente?

Por exemplo, ultrapassarem-nos na fila, se nós não prestarmos atenção, vai logo e perdemos o lugar. Ninguém espera. Levar com a porta na cara porque nós íamos entrar e o chinês não esperou.

Não segurou a porta.

Exato. Coisas assim desse gênero, ou então uma situação em que eles me puxavam com o carrinho das compras para eu andar mais depressa e eu não podia andar mais depressa porque estava na fila à espera.

Portanto, há uma certa ansiedade, parece-me.

Exato.

E a comida?

Comida, adoro comida chinesa.

Mas é muito diferente daquela que nós comemos cá.

Sim, é.

Não há chop suey.

Existe.

Chow mien, enfim.

O meu preferido era brócolis e cogumelos com molho de soja, mas é diferente, é um bocadinho mais gordurosa, mas continua a ser boa.

Portanto, ficou fã. A Patrícia Morais foi para a China, foi aprender kung fu. Vamos continuar esta conversa já a seguir então com a Patrícia Morais, é a convidada da tarde em direto, porque nesta altura faltam 15 minutos para as 20:00. E Ricardo Conceição, quais são as notícias a marcar a atualidade?

O presidente da República pediu ao Tribunal Constitucional a fiscalização preventiva do diploma sobre a procriação medicamente assistida, num ponto relativo à maternidade de substituição. O presidente tem dúvidas sobre as alterações feitas à lei no Parlamento, nomeadamente sobre a norma que diz respeito ao arrependimento da gestante. Afinal, a Antrop não vai cancelar a venda de passes com descontos para estudantes. A Associação Nacional dos Transportadores Rodoviários de Passageiros recuou depois de o governo ter garantido que vai pagar o que deve já na próxima semana. Em causa estão €7 milhões em compensações financeiras que o Estado deve às operadoras de transportes. O governo diz que já estava previamente combinado que essa dívida seria saldada na próxima semana. As propinas dos alunos do Serviço Social do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas da Universidade de Lisboa sofreram um aumento de 500%. Passaram de 90 para €436, isto segundo o relato de alguns estudantes à Lusa. Além disto, além do aumento de 500%, os estudantes são informados no momento da inscrição de que têm de pagar o valor de uma só vez, ao contrário do que acontecia em anos anteriores, em que o pagamento das propinas poderia ser faseado.

As notícias com o Ricardo Conceição. Uma nova atualização às 20:00 em ponto. E amanhã conte com céu pouco nublado em todo o país, excetuando na região do norte, aí há possibilidade de chuva. As temperaturas essas não sofrem alterações. Amanhã o Porto terá uma máxima de 22 graus, Faro chegará aos 27 e Lisboa aos 30.

Rádio Observador, 98.7, Lisboa.

E retomamos a conversa com a nossa convidada de hoje à tarde em direto, a Patrícia Morais, que foi para a China estudar kung fu. Patrícia explicava-nos há pouco que embarcou nesta aventura para superar uma fase menos positiva, portanto uma depressão. E os outros praticantes, quem encontrou por lá, encontrou histórias de vida semelhantes ou os motivou