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O Paulo Azevedo nasceu em 1981 e desde pequeno que é uma pessoa diferente. No dicionário do Paulo, a palavra não, não existe. O Paulo estudou jornalismo, tirou um curso para ser treinador de futebol, estagiou num dos maiores clubes do mundo, o Real Madrid, foi o primeiro ator com deficiência a participar numa série de ficção em Portugal. O Paulo Azevedo é ator, palestrante e orador motivacional e por estes dias deve andar num frenesim, porque vai editar um livro chamado "Não Há Impossíveis", com o prefácio de José Mourinho. Paulo, bem-vindo à tarde em direto.
Obrigado pelo convite.
Nada, Paulo.
É bom estar aqui com vocês.
Ora essa. Paulo, que livro é este? É a tua história? É uma biografia?
Não, é um misto. Este é o meu segundo livro. Desde já, boa tarde a todos os nossos ouvintes, nem disse boa tarde. O meu primeiro livro foi em 2008, foi lançado pela Porto Editora. Esse sim era uma autobiografia. Foi escrito pela jornalista da SIC, a Sofia Arente. E na época eu não quis lançar um livro, porque eu acho que não fazia sentido lançar uma autobiografia. Mas a Porto Editora insistiu comigo. Na época, o Rui Conceito, também é editor do meu segundo livro. E este segundo livro, agora, "Não Há Impossíveis", este sim foi uma decisão minha, uma escolha minha. Eu quis escrever este livro. Este livro começa onde terminou o outro e conta muitos dos meus erros. A forma como eu dei a volta aos obstáculos, como eu superei as dificuldades, também um abrir de alma muito grande. Por isso, não é totalmente uma autobiografia, mas é um continuar do meu primeiro livro, que acabou num certo ponto da minha vida, até agora. Tem muitas das minhas palestras também.
É um exercício de introspeção.
Sem dúvida. Este foi escrito pelo Paulo M. de Morais, mas também comigo. Eu tive uma participação muito grande neste livro e era um desejo que eu tinha, era mostrar às pessoas que o difícil não significa impossível. E muitas vezes nós pensamos que chegamos ao final da linha, ao fim da estrada, e a decisão de continuarmos é apenas e unicamente nossa.
Falavas dos teus erros, Paulo. És uma pessoa arrependida ou não?
Não, não sou uma pessoa arrependida, mas eu quis que as pessoas percebessem que nem tudo é um mar de rosas, mas que não é por isso que nós não conseguimos dar a volta. Então este livro é uma ferramenta, porque eu sentia necessidade, quando acabava as minhas palestras, das pessoas levarem um pouco mais de mim para casa. E eles acompanhavam-me nas redes sociais e às vezes diziam que se lembravam de certos episódios da palestra. Este livro tem muito da minha palestra também e tem muito das dificuldades que eu ultrapassei para ser ator, para ser treinador.
Agora, qual é a parte, ou quais são as partes das tuas palestras que as pessoas mais recordam e que levam a contactar-te depois dessas mesmas palestras?
São várias. A minha história que eu conto é uma história de heróis, uma história real. Heróis reais, que tu também tens na tua vida todos os dias. Mas é acima de tudo uma história de amor, porque eu acho que esse sentimento vence todas as barreiras, o amor, seja ele de que forma for. E então, ou a ligação aos filhos, ou o tentar ir atrás de um sonho e não conseguir à primeira, ou a adaptação às próteses. Às vezes as pessoas também têm problemas de saúde e reveem-se um bocadinho ali. Ou então a minha mãe, quando levou o choque de perceber que o filho nunca poderia abraçar o mundo com as duas mãos porque não as tinha. Ou a ligação com meu pai, com meu avô. Muitas vezes as pessoas reveem-se muito no meu avô, que é o homem da minha vida. Há vários episódios na minha palestra e vários episódios neste livro que tu se calhar vais perceber um bocadinho de ti, ou já passaste por aquilo também, ou a perca de um familiar. Não sei, para generalizar é mais difícil. Há vários.
Paulo, no texto de apresentação do livro que tu vais editar esta semana, o "Não Há Impossíveis", pode ler-se que nesta obra estão os teus medos, as tuas angústias, os teus erros e os teus heróis. Vamos começar pelo fim. Já falaste um pouco da questão dos erros. Vamos começar pelo fim, pelos heróis. Quem são os teus heróis?
Eu costumo dizer que tenho uma prateleira muito grande onde ponho os meus heróis todos os dias. Às vezes tu podes te tornar herói na vida de alguém com pequenos gestos que pra ti não têm a mínima importância e pode valer a vida toda pra pessoa que está na tua frente.
Mas quem são as pessoas que te inspiram a ti?
Inspira-me o meu avô, a minha mãe, o meu pai, a minha família direta, os meus filhos agora. Inspira-me as pessoas que percebem que somos nós que tomamos as nossas próprias decisões, que somos nós que escolhemos desistir ou continuar a lutar. Mas acima de tudo, eu recarrego-me ou ganho força nestas pessoas mais próximas. Porque na época que eu nasci ainda não haviam ecografias e a minha mãe ia fazer o último raio-X aos oito meses e ninguém imaginava que eu ia nascer sem mãos e sem pernas. Foi um choque tremendo. O médico teve duas horas a chorar na sala de partos e a minha mãe era uma miúda, uma criança com 16 anos. Era muito mais fácil ela desistir. E eu se calhar não a condenava se ela o tivesse feito. E a minha mãe disse a única frase que eu uso todos os dias na frente do meu espelho quando eu acordo de manhã.
Que é?
Quando afastei o cobertor, a minha mãe olhou pra mim Todo nu, sem mãos, sem pernas. E a minha mãe olhou para a minha madrinha, na altura, que depois foi minha madrinha mais à frente, e disse-lhe: "Podia ser pior." Eu acho que nada pode ser pior do que destruírem-te os sonhos. E ela era uma criança, mas se calhar sonhou todos os dias que eu ia abraçar o mundo com as duas mãos, que ia fazer, que ia acontecer. E de um momento para o outro, o chão foge-lhe debaixo dos pés. E o mundo desaba sobre a cabeça dela. E aquela minha primeira grande heroína teve a coragem de dizer que podia ser pior.
Foi a tua grande, ou é a tua grande heroína? As mães têm essa capacidade fortíssima de nos inspirar, não é?
Foi a minha primeira grande heroína, mas depois também o meu avô, porque quando eu fui internado em Alcoitão, os médicos diziam que eu nunca me conseguia sentar, quanto mais andar. E o meu avô foi-me lá buscar ao hospital e disse: "Ele não se consegue sentar, não fica aqui nem mais um segundo, vem para casa e tem amor."
Que idade é que tu tinhas?
Tinha dois anos, três anos. Podia ter sido a decisão mais errada da vida dele. E o meu avô nessa decisão mostrou-me que nós não devemos viver no "e se" da vida. E tantas vezes nós vivemos: "E se eu fosse, e se eu fizesse?" E não vamos. E não fazemos, e não sabemos o que é que poderia acontecer se fôssemos. E o meu avô foi-me buscar. Podia ter sido a decisão mais errada, era o melhor hospital do país, e é, de reabilitação. E o meu avô inventou um encaixe onde eu ponho as minhas próteses todos os dias. Não foi nenhum cientista louco, nem nenhum médico, foi o meu avô que inventou uma coisa que apertava a minha cintura. E ele todos os dias me sentava numa tábua rudimentar, uma coisa antiga, e eu caía pra frente e ele voltava a insistir, até que eu fiquei cinco segundos sentado.
Uau!
E ele percebeu nesses cinco segundos que eu ia ser o dono das minhas próprias decisões e levou-me a outro médico a Coimbra, a quem eu dei o nome ao meu filho anos mais tarde, que também é um dos heróis da minha vida, o doutor Gustavo, que acreditou de verdade e me fez as minhas primeiras próteses. Por isso, tenho muitos heróis, todos os dias tenho heróis.
Paulo, falavas há pouco dos "ses" da vida. Que angústias é que tu tens?
Olha, eu agora tenho mais medos do que tinha antes.
Mais medo?
Sim, depois de ser pai, fiquei com muitos medos.
Então, por quê?
Medo de falhar como pai ou medo de que os meus filhos não tenham orgulho no pai, ou medo de não conseguir fazer aquilo que um pai, entre aspas, "normal" consegue, ou medo que o meu filho partiu um braço agora e eu tive mais medo do que ele. Eu assustei-me mais do que ele. Medos, porque agora não interessas só tu. Antes só interessava eu. E agora tenho ali duas crianças que temo muito que lhes aconteça alguma coisa. Se fores pai, tu percebes o que eu estou a dizer.
Sim.
Ou quem é pai sabe disso. Agora tenho muito mais medos. E na altura, o meu medo era normal, era não conseguir trabalhar ou não conseguir ter trabalho regular. E agora o meu medo é maior, porque tenho os meus filhos.
Que idade é que eles têm, Paulo?
A Matilde tem três anos e o Gustavo, cinco.
São pequeninos, então. Paulo, falavas da tua vida profissional. Uma parte dela é preenchida a dar palestras motivacionais. Qual é a mensagem que, do teu ponto de vista, importa transmitir nesta época em que o futuro de todos nós nos parece, ao segundo, fugir das mãos, neste contexto sanitário em que vivemos?
A mensagem que eu transmito às pessoas, normalmente, na minha palestra, é uma mensagem de superação. Eu vou te contar uma história muito rápida, muito curtinha, pra não te roubar muito tempo.
Não, estás à vontade.
Quando entrou a pandemia, eu fiquei sem palestras, porque eu vivo do público.
Claro.
E então eu percebi que com a minha rotina, com as minhas pressas do dia a dia, estava a perder coisas que um dia não vou ter. O abraço do meu avô, o sorriso dos meus pais, o contacto todos os dias, que passei a ter mais tempo para eles e percebi que eu abraçava muito pouco. Eu percebi que eu amava à pressa. Agora amo muito mais devagar, aproveito todos os segundos. E a única coisa que eu transmito às pessoas é que desistir não pode fazer parte, porque agora parece tudo muito difícil. Agora parece que não há volta a dar, mas continuamos a ser nós que temos o poder da escolha ou o poder da decisão, que é ficarmos sentados no sofá ou irmos à luta de novo e arriscarmos e lutarmos pelos nossos sonhos. Eu acho que mais do que nunca agora devemos lutar, porque nós percebemos que há coisas que nós não conseguimos controlar. Um pequeno vírus tirou-nos tudo, tirou-nos a liberdade. Por isso eu acho que agora, mais do que nunca, é que nós devemos ir atrás daquele sonho que tínhamos e que tínhamos medo e que vivíamos todos os dias no "e se". Agora, depois de ser ultrapassada esta pandemia ou de aprendermos a viver com esta pandemia, acho que devemos ainda ir com mais força atrás dos nossos sonhos.
É essa a receita da felicidade?
A receita da felicidade também é tu gostares de ti como és. Isso funcionou muito comigo. Eu gostar de mim como sou, com todos os meus defeitos, com todas as minhas virtudes, é gostar de mim e aceitar-me da forma como sou.
Há uma altura na nossa vida em que nós somos confrontados com o espelho. Isso acontece a toda a gente. Também te aconteceu isso? Também houve uma altura em que olhavas pra ti e dizias: "Eu não gosto do que vejo. Pronto, vou ter que aceitar, mas eu não gosto do que vejo." Isso aconteceu em algum momento da tua vida?
Ainda acontece. Isto é uma transformação, é uma luta diária, é uma transformação constante. Nós não acordamos a aceitarmos como somos ou a gostarmos de nós próprios.
A vida não é uma revista.
Não, a realidade é que nós passamos a vida toda a tentar agradar aos outros, a tentar que os outros gostem de nós e muitas vezes somos nós que não gostamos de nós mesmos, e é difícil irmos longe profissionalmente e pessoalmente quando tu não acreditas no teu valor. E eu todos os dias. Eu às vezes gosto menos de mim, é normal. Eu costumo dizer em tom de brincadeira que às vezes tenho que me apaixonar todos os dias por mim mesmo. Mas é que se tu acreditares um bocadinho mais todos os dias no teu valor, nas tuas capacidades, é muito mais fácil, porque por muito que o teu chefe ou o teu diretor te diga que tu consegues, a tua equipe de trabalho também te diga que tu vais lá chegar, tu só consegues e só lá chegas se fores tu acreditar em ti primeiro. Tu primeiro, e a gostares de ti como és. Eu com as mãos redondas, tu se calhar tens uma orelha maior que a outra. A vida é uma aceitação constante.
É verdade. O que me leva à minha última pergunta, parece que combinamos a conversa, que é: aprender sobre a diferença deveria ser obrigatório nas escolas?
Aprender sobre a diferença, não. Conviver com a diferença ou lidar com a diferença todos os dias. Devia ser. Eu, por exemplo, não estudei numa escola de ensino especial, eu fui incluído numa escola normal e acho que isso foi um passo para a vitória muito grande. Eu aprender, em realidade, a lidar com a minha diferença e com a diferença dos outros. Eu acho que a diferença devia ser uma igualdade na escola. Devia existir. Devíamos aprender que a diferença ou que ser diferente não é ser inferior, por exemplo, isso devia ser incutido nas crianças. Porque a diferença às vezes ainda é olhada como uma inferioridade, e não é, é apenas uma diferença.
Muito bem.
Apenas sermos diferentes. Fazem muitas vezes esta pergunta: qual é para mim a maior barreira arquitetônica? É a mente. Porque se não conseguir subir umas escadas, eu peço ajuda. Agora, eu não posso pedir que tu olhes para mim da forma como eu gostaria. Quando as minorias forem olhadas de forma igual, minorias étnicas, religiosas, sexuais, a minha própria deficiência, quando as minorias forem encaradas como uma igualdade, a diferença acaba ou deixa de existir.
Até porque depois associada a ela há sempre um discurso de autojustificação, não é? Parece que as pessoas que são diferentes estão sempre a autojustificar-se perante a maioria, não é?
É. Eu gosto muito de mim como sou, pode parecer egocêntrico, mas gosto mesmo. Também não tenho outro remédio. Isso pode parecer egocêntrico de alguma forma, mas é a realidade. Eu tenho que gostar de mim da forma que sou.
Muito bem.
E fazer das minhas fraquezas forças. Este livro é muito isso, fazer das minhas fraquezas forças. Porque as pessoas pensam que se vence sempre, porque eu fui para a televisão fazer novelas e consegui sempre. E não, é mentira. Eu falho todos os dias para vencer. Falho todos os dias para vencer. E nós temos que cair várias vezes e levantarmo-nos sempre. Tal como eu caí quando me puseram as minhas primeiras próteses.
Paulo Azevedo, foi um gosto conversar contigo.
O gosto foi todo meu, amigo.
Paulo Azevedo, que esta semana vai lançar um livro chamado "Não Há Impossíveis." Um abraço, Paulo.
Um abraço para todos.
Obrigado.
Um abraço.
Olá, eu sou a Ana Filipa Rosa. Obrigada por ouvir este podcast. Se gostou, pode sempre partilhá-lo com alguém e ouvir a Rádio Observador. Estamos online, mas também no FM, na Grande Lisboa em 98.7 e no Grande Porto em 98.4. Obrigada.