Esta transcrição foi gerada automaticamente por Inteligência Artificial e pode conter erros ou imprecisões.
E junta-se a nós, o nosso convidado de hoje é Kleber Cavalcante Gomes, o músico brasileiro mais conhecido por Criolo. Já foi Criolo Doido, canta rap, também samba e agora juntou a eletrônica a este repertório. Escreveu o primeiro rap com 11 anos, a primeira canção aos 25. "Não Existe Amor em SP", já ouvimos por aqui, foi o primeiro grande êxito e agora "Etérea" é o mais recente. Esta conversa, que pode também acompanhar, está a ser transmitida no Facebook do Observador. Criolo, bem-vindo. Obrigada pela disponibilidade.
Eu que agradeço. Obrigado.
Olá, viva. Boa tarde.
Criolo, estar em Portugal, as relações do Brasil com Portugal são tão fortes, isto é quase como jogar em casa. E já não é a primeira vez que cá está, se quer.
Não, não é a primeira vez e é sempre bom quando eu venho.
Sente-se sempre confortável em Portugal?
Me sinto acolhido.
Acolhido. Aliás, isso aconteceu também aqui na redação do Observador. Quando chegou, teve imensos fãs que foram logo ter consigo. Criolo, falando um bocadinho de como tudo isto começou, como é que começou a cantar?
Eu acredito que a força do rap do meu país, em 1987, 88, que me visitou, mas antes, escutar a minha mãe cantar. A minha mãe sempre gostou muito de cantar em casa. Eu acho que juntar essas coisas e a força do texto, do rap, tudo aquilo que ele conseguia descrever, as sensações do bairro, do estado e do país, dando uma abertura de criação e de troca de informação, fez com que eu quisesse também escrever rap.
E o que sua mãe cantava?
Bom, minha mãe gosta muito de Clara Nunes, Elis Regina, Ney Matogrosso. São cantores maravilhosos, cantoras maravilhosas do Brasil e eu ficava tentando imitá-la.
E imitava também esses cantores, são cantores com os quais se identifica também, não necessariamente para fazer o trabalho que faz agora, mas são cantores que acabou por seguir ou pelo menos tentar redescobrir a obra e olhar para os discos que aconteceram já há décadas?
Sim, mas primeiro tentava imitar minha mãe.
Era a principal cantora na vida do Criolo.
Exatamente.
A número um.
Número um, maravilhosa. Mãe, um beijo.
Um beijinho para ela, se nos está a ouvir. Criolo, a sua mãe também teve um papel importante, porque a par da música, foi também desenvolvendo muitos projetos sociais. E a sua mãe também o fazia. Também foi uma inspiração nesse aspecto.
Totalmente. Minha mãe é minha pedra fundamental. Minha mãe é a luz dos meus olhos. Minha mãe é o que calça os meus pés. Minha mãe é que protege minha alma. Minha mãe é aquela fêmea que lambe as feridas do filho para que ele chegue no dia seguinte. Quando a gente se percebe no caos de desgraça social no qual a gente nasce. A minha mãe é a proteção, a investigação, e quem te põe no mundo para aprender a se proteger também, porque em algum momento, esse meu eu se dissipa do dela.
Mas sentiu que tinha que retribuir aos jovens que cresceram também no mesmo contexto em que cresceu, aquilo que foi ganhando também ao longo da sua carreira?
Estar aqui, ao vivo, na rádio do Observador, eu diria que outras pessoas produzem conteúdos, o que é de extrema importância para essa tessitura social de Portugal e além, mas acredito que vocês criam ambientes de construção de pensamento, que vai além de um conteúdo que se encontra numa tela. Já é para mim de uma grande honra e felicidade, pois posso contar essa história ao garoto que cresce no meu bairro.
E que cresce de inspiração.
E como é que crescem estes jovens que crescem na favela. Há muitas favelas, há muitos tipos de favela, mas o que sentiu quando cresceu? Sentiu-se alguém injustiçado, por exemplo, ou sempre tentou lidar com esse ambiente, com tudo isso, com alguma tranquilidade?
Você sente que você sangra, mas você não sabe quem está te sangrando e por quê. Aí com o tempo, com a idade que chega e junta a sua consciência, você vai percebendo os porquês e como.
Mas é um sentimento de injustiça que nasce consigo.
Às vezes você não percebe, você acha que ser maltratado é natural, porque faz parte do cotidiano. Mas depois, com o tempo, você percebe que não é para ser assim. Aí a força da arte vem ajudando a desenvolver essas tentativas de diálogo.
Mas é uma sociedade que leva os jovens e as famílias, e quem vive nesse meio, a acreditar que não há solução, que é sempre assim?
As famílias sempre falam que existe a solução. A juventude brasileira luta para apresentar o seu processo inventivo para as soluções. Então, o que acontece é que não existe essa abertura real, não existe um fomentar Bom ambiente para que esse jovem possa se desenvolver do modo mais especial possível.
E o Criolo acha que é através da sua música que faz essa luta também, para ver a mudança que quer ver no Brasil, e eu diria, se calhar, também no mundo.
A música nossa, de todos nós, porque eu me expresso pela canção, você pela voz e texto, e todos aqui nesse quadrante, de algum jeito, com o olhar sobre uma escultura ou uma fotografia, ou pensar numa capa de uma revista, ou como é a chamada do programa, cada um de vocês faz uma construção. Então, juntos, esse moderno que ficou, de um contemporâneo que não aconteceu, e um novo contemporâneo desse jovem que está por vir, vai nos apresentar, possa receber o que a gente tenta construir juntos.
Portanto, todos temos um papel.
Sem perceber. E às vezes percebendo. Mas naturalmente, cada um de nós tem uma boa energia que deixa pro mundo.
E Criolo, tem sido uma voz muito contestatária, digamos assim, do regime de Jair Bolsonaro. Como têm sido estes meses no Brasil?
Triste, horrendo. Triste demais.
Tem sentido menos liberdade para expressar aquilo que quer expressar ou não?
A gente continua expressando. Vambora. Cada vez mais. Existe um número pequeno de pessoas com muito poder nas mãos, que sempre tentou calar essa minoria, pois não acredito, somos maioria, com seu poder econômico e seus poderes que se desmembram nos tentáculos das malhas sociais. Mas isso a gente sempre gritou. O rap do meu país sempre gritou, sempre falou, sempre acentuou, sempre fez um convite através da arte, para que a gente pudesse refletir sobre esse abismo social.
Quando se fala do Criolo, fala-se de MC, fala-se de rapper, fala-se de músico, fala-se de compositor. Quando se coloca aqui o rapper, e o Criolo falava disso, do rap. O rap, para si, na sua opinião, tem sempre esta obrigatoriedade de ativismo e de intervenção social naquilo que é a sua ótica?
É da pessoa, liberdade de cada um.
Mas para si, faz-lhe sentido apenas que ser rapper é ter intervenção, é falar sobre os problemas, é agir com arte e através da arte.
Para mim, veio assim. Para mim. Eu não posso dizer isso ao outro, porque eu vou ferir a liberdade do outro.
Mas para si sempre fez sentido?
Sempre fez sentido.
E quando é que percebeu que queria também ser rapper? Já percebemos que fez o primeiro rap aos 11 anos, mas antes disso já sabia o que era o rap e já sabia que queria seguir o rap?
O que aconteceu foi que eu não sabia dessa mágica de rima. Eu não sabia que uma palavra combinava com a outra. Então aquilo foi uma mágica absurda. Aquilo para mim, tudo mudou. E eu escutei uma música onde tudo rimava. E aquela música parecia que conseguia descrever alguns sentimentos e conseguia descrever as sensações vividas naquele contexto. E o locutor da rádio
Exatamente. Há sempre um locutor de rádio em todo lado, não é?
Sempre.
Sempre a fazer magia, lá isso é.
Sempre. Ele falou: "Essa música é rap". Aí eu falei: "Eu quero fazer também".
Fazer aquilo.
Isso.
Criolo, vamos ouvir aqui um som que eu trouxe para ouvirmos. Vamos lá. Quer explicar o que é isto, Criolo, que estamos a ouvir, que teve uma reação imediata?
É um amigo querido.
Um grande amigo?
É, a arte fez com que a gente se encontrasse.
Antes nós temos que apresentar este amigo. Que amigo é este, Criolo?
É o Chico Buarque, que é um cara muito legal.
E qual é o significado também deste momento?
Ele respondeu com arte algo que chegou a ele. E foi de uma delicadeza e de uma alma grande, absurda. Eu nunca imaginei que isso fosse acontecer na minha vida. E ele responde o verso e põe a música no setlist da tour dele.
Porque vamos explicar para quem está ouvindo.
Música 22.
Exato. 22 é o número. O Chico Buarque, que descobriu no YouTube então a versão que o Criolo fez da famosa canção "Cálice", então respondeu assim, desta forma que acabamos de ouvir. Isto é um orgulho enorme. Notou-se em si um orgulho incrível. Como é que não podia ser, não é? É o Chico Buarque. Não há maneira.
E depois ele gentilmente me convidou para assistir o show, e não deu para ir assistir, que eu estava gravando um trabalho, mas assim que teve o show em São Paulo, eu fui e a gente se abraçou e ele falou: "Rapaz, você fez eu voltar a cantar essa música depois de décadas, obrigado". E eu falei: "Ô, rapaz, quem sou eu? Me dá um abraço aqui, está tudo certo".
Sente-se pequenino ao pé do Chico Buarque?
Eu me sinto bem. Pequenino, não.
Não.
Porque ele coloca todos em igualdade.
E eu gostava que me falasse também do mais recente single que tem, "Etérea", porque também tem aqui uma mensagem importante. Aliás, começa logo por dizer que devemos quebrar paradigmas. Estamos a ouvir a música em fundo neste momento. Há muitos paradigmas, há muitas coisas a quebrar ainda.
Muito. Começa pela gente.
Exatamente. E nesta mensagem, nesta música, o que é que quer transmitir exatamente?
Essa canção é uma tentativa muito respeitosa e muito carinhosa de falar da beleza, da alegria, de viver, de sorrir, de amar. E também alerta a uma questão extremamente importante que são as perseguições e assassinatos à comunidade LGBTQ no Brasil.
Nós tivemos o caso da Marielle também. A Marielle foi um caso que extravasou as fronteiras do Brasil, foi um caso muito falado dentro de portas, foi um caso muito falado também aqui em Portugal. Houve também manifestações de apoio. Esse foi também, na sua opinião, um momento de viragem para todos aqueles que querem combater o ódio que existe muito no Brasil, não só no Brasil, noutros lados, mas muito no Brasil, em relação à comunidade LGBT, por exemplo.
Tocou muitas pessoas no Brasil que não tinham ideia do tamanho dessa perseguição. Um tanto de pessoas não tinha ideia de quanto o preconceito se materializa, ele aumenta o número de mortes. Um caso horrendo que chocou a nação, chocou o mundo e colocou muita gente pra refletir.
E essa reflexão hoje em dia é mais profunda na sociedade brasileira ou não sente isso?
Eu não posso falar pela sociedade, mesmo porque ainda tento enxergar quem não me enxerga. A gente às vezes cai no abismo de achar que a gente tem que se moldar pra ser aceito por um mundo que nunca vai nos aceitar. E esse mundo também nós não queremos. Não por troca de farpas, mas por entender que o nosso jeito de pensar e de amar é muito mais fraterno e solidário. Mas desde sempre as pessoas se reuniram pra falar sobre essa questão, desde sempre as pessoas se reúnem e lutam contra as desigualdades, pois sabem o tamanho da violência. O que acontece é que outras pessoas começam a ter contato do quanto o ser humano é capaz de pisar, humilhar, maltratar o outro ser humano, e isso choca.
Criolo, vai estar já em Portugal, começamos por dizê-lo também, com dois concertos, um já amanhã no Lisboa Ao Vivo e depois no sábado também em Évora. O que é que podemos esperar desses concertos? E a Téria vai lá estar, com certeza.
Vai, sim, com certeza. Muita boa energia, muito bom sentimento, momento de encontro. Como diz o DJ Dandá, nós somos uma trilha sonora para o encontro. E quando acontece o encontro, tudo é possível.
Portanto, amanhã esse encontro especial. E já agora, só mesmo pra terminar. Eu sei que, gosta de fado?
Gosto. Nossa Senhora.
O que o fado lhe transmite?
Emoção.
Porque normalmente nós associamos o fado a um tom mais introspectivo, se calhar, mais triste, mais melancólico. Transmite isso, emoção?
Transmite emoção. Pra mim transmite emoção. Quando eu escuto um fado, quando escuto música tradicional japonesa, quando escuto Enka, eu sinto de uma profundidade de sentimento ali que não dá pra se explicar.
E quem gosta de ouvir, já agora, no fado, lá em Portugal?
Lá no fado tem uma amiga minha chamada Ana Moura. Muito especial, me convidou pra cantar. Cantamos uma música juntos no festival de fado no Brasil e me senti muito honrado, foi um grande desafio, pois não é fácil.
Não é fácil juntar os dois estilos, não é?
Não é fácil. Não juntamos estilos. Tentei cantar fado, realmente.
Ah, tentou cantar fado?
"Doce meu amor, se me souberes pedir tanto".
Ai, como? Quando é que temos isso gravado?
"Não me venhas com truques para. Já lhe conheço bem demais." Como é que é? "Doce meu amor, se me souber..." Bom, vou parar aqui pra não fazer feio, mas foi um grande desafio e foi maravilhoso.
A Ana Moura vai estar consigo nestes concertos já em Portugal?
Eu creio que não, ela deve estar fazendo show em algum lugar do mundo.
Está ocupada, mas nós queremos uma gravação deste dueto. Tem de gravar, Criolo, pra nós podermos ficar com este registro. Isto lá mostra que foi muitíssimo bem.
Vou estudar mais um pouco.
E fica prontinho.
Estudar bastante, muito. E quando ela me convidar, a gente faz isso.
Criolo, Portugal tem o fado, o Brasil tem o samba, tem muito mais do que o samba, mas tem sobretudo o samba e aquilo muitas vezes que passa pra fora do Brasil. Pra um brasileiro que, por exemplo, nunca veio a Portugal, o fado dá uma imagem triste e pesada do país que é Portugal, ou não há essa imagem transmitida pelo fado pra quem nunca visitou Portugal e pra quem ouviu o fado lá fora?
Depende de que Portugal você está falando. Qual Portugal a gente tá falando? Porque aqui nas ruas de Portugal eu vejo muitos mundos.
Ou seja, o fado não é uma característica identificativa do povo português.
Identifica uma cultura, lógico que identifica. Nossa Senhora, você fala fado. Ó.
Portugal. Brasil.
Mas isso o que quer dizer?
Que na hora você liga uma coisa à outra, porque é o que chega a mim, é o que chega ao mundo. Mas eu tenho certeza que nessas terras são construídas outras estéticas absurdamente maravilhosas, que também vêm dessa raiz e é interessante falar com respeito e com carinho do fado, falar com toda a disciplina e todo o respeito, pois existe uma liturgia, existe uma história. Mas eu acredito que também que os jovens de Portugal estão construindo coisas belíssimas. É importante, por isso que lhe pergunto, quais Portugais ou de todos eles? Como podemos falar de todos, então?
Aliás, basta seguir numa rua aqui de Lisboa, que na mesma rua, na mesma avenida, encontramos vários países e várias culturas.
E nisso teremos várias tessituras, várias estruturas, várias células, várias pulsações, vários pensamentos.
E o rap português, vai acompanhando?
Eu conheço muito pouco.
Portanto, fica essa promessa de que vai conhecer mais e vai aprofundar também aí alguns conhecimentos sobre alguns artistas.
Criolo, foi um gosto ter estado aqui consigo, ter partilhado este estúdio também consigo. Fica esse convite a quem nos está a ouvir. Criolo atua no Lisboa Ao Vivo amanhã, 20 de setembro, e no Évora Urban Village já também no sábado. Obrigada. Até à próxima.
Até.