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Fernando Ribeiro, vocalista dos Moonspell, é o nosso convidado hoje na conversa de fim de tarde. Fernando, muito bem-vindo à Rádio Observador.
Olá e bom fim de tarde a todos.
Bem-vindo.
Fernando, estava aqui a conferir que o "Ermitage", novo disco dos Moonspell, acaba de entrar diretamente para o primeiro lugar da tabela de discos em Portugal esta semana. De resto, também boas posições no resto do mundo. Também se nota que os vossos fãs são muitos no norte da Europa, mas não só. Não é de agora que isso acontece com os Moonspell. Como é que é para ti, depois de tantos anos de carreira, também ter um disco novo e ele chegar aqui nas vendas físicas à liderança do top 50 português?
Sinto-me grato, sem dúvida. Penso que comprar discos hoje em dia é muito mais importante do que alguma vez foi. Há um mito, que não tem nada a ver com o estilo de música que nós fazemos, de que não se precisa de comprar discos. Não, precisa-se de comprar discos, há prazer em comprar discos. As coisas mudaram. Hoje em dia, as pessoas gostam mais também de fazer algum tipo de colecionismo no heavy metal, em particular. Mas na verdade, as pessoas tiveram que sair um pouquinho da sua zona de conforto, não só para ouvirem este disco, como também para o comprarem online, arriscar a ir a alguma loja que ainda esteja aberta. Portanto, o sentimento é de surpresa, claro, mas de muita gratidão, porque acho que os fãs têm estado lá para os Moonspell e esta entrada para número um em Portugal e todas as outras entradas no top, é graças, realmente, à dedicação que os nossos fãs em particular mostram pela banda com cada álbum e que renovam com cada proposta musical que nós fazemos.
Mas há também uma grande dedicação dos próprios Moonspell aos fãs que os acompanham ao longo dos anos. Isso mesmo pudemos testemunhar também no momento dos últimos preparativos para o lançamento do disco, porque há também um trabalho manual da própria banda no momento de assinar discos, de fazer, no fundo, tudo aquilo que é preciso para fazer chegar cada um desses novos trabalhos às mãos dos fãs, não é?
Tentamos, de alguma forma, fazer a nossa parte. E penso que a nossa parte agora, para além da parte musical, é tentar encurtar a distância que se estabeleceu e que é muito maior do que aquilo que costuma ser. Devido à pandemia e ao cancelamento ou adiamento da parte ao vivo, da parte da estrada, que é tão importante neste estilo de música e também para os nossos fãs, que de alguma forma concretizam aquilo que ouviram que nós fizemos em estúdio. E tivemos o cuidado de fazer mais conteúdos, de assinar mais discos, porque tínhamos também algum tempo. De fazer mais vídeos também desta feita para o lançamento do "Ermitage". Fizemos quatro vídeos, não é uma coisa muito habitual, mas nós conseguimos fazer. E o simples fato de termos mantido a data do disco, termos mantido isto no radar dos fãs. Acho que as pessoas precisam também de algum foco. No caso dos nossos fãs, isto era um momento ao qual eles aguardavam. E toda a gente está habituada às más notícias: "Vamos cancelar, vamos fazer para o ano, vamos tentar de novo". E pelo menos isto nós tivemos a sorte de conseguir fazer. Todas essas atividades, muitos meet and greets, encontros virtuais, também penso que são importantes para as pessoas não se esquecerem de nós e também para não se sentirem esquecidas, que é uma coisa que pode perfeitamente acontecer nesta altura de distanciamento social.
Fernando, a banda aproxima-se também de uma data redonda na sua carreira. Irão comemorar 30 anos em 2022. Estava aqui a olhar para este "Ermitage", mas a lembrar-me também do resto da vossa já longa discografia, 12º álbum, acho eu. Como é que tu achas que este disco também se relaciona, por exemplo, com o anterior, o "1755", e até com outros que estão mais atrás na carreira? Como é que tu poderias relacionar este novo disco com os outros trabalhos? Ou eles não têm relação?
Acabam sempre por ter relação, que é uma relação provavelmente muito mais óbvia para nós, que estivemos por detrás das operações, por detrás do pano onde se fazem os discos. Não tem uma relação muito direta com o "1755". Acho que isso faz parte da dinâmica dos Moonspell. Nós fazemos uma coisa, exploramos essa sonoridade, que no caso do "1755", era um álbum em português, muito sinfônico, muito direto, muito incisivo, porque era sobre um terramoto, muito imediato, tal como o terramoto. Agora, falando de ermitas, falando de santos, falando de combater os demônios, falando de distanciamento, preferimos optar por uma atmosfera musical que é muito mais psicadélica, muito mais prog rock também. E eu acho que os álbuns novos têm que ter alguma coisa que faça justiça exatamente a essa característica de novidade. Eu penso que os Moonspell, desde os anos 90, tentam sempre fazer um som que seja uma espécie de assinatura nossa. Não é fácil, porque digamos que era mais óbvio para as bandas dos anos 70 fazerem isso e inventarem as peças da música. Nós agora conseguimos dispor essas peças dentro do universo dos Moonspell de uma maneira diferente. Mas penso que é um disco que soa À banda que o fez, mas que também provavelmente vai a alguns campos que nós ainda não tínhamos coberto ou com tanta intensidade na nossa música. Por vezes é um risco, por vezes é uma aposta, mas eu acho que a música é uma espécie de encontro às cegas, como se diz em inglês, o blind date. E acho que é muito mais, pelo menos até como ouvinte, eu gosto muito mais que uma banda me surpreenda do que me entretenha, de alguma maneira. E acho que é esse o caso do "Ermitage".
Olha, ainda em relação ao "Ermitage", estava me aqui a lembrar também do início da carreira dos Moonspell e se calhar há um elogio que terá que ser feito. Por causa dos Moonspell, alguns jovens fãs de heavy metal podem ter tido pela primeira vez contato com alguns autores portugueses. Eu lembro-me da importância da obra do Pessoa para vocês e até daquele trabalho que fizeram com o José Luís Peixoto.
Exato.
Mais recentemente. O "Ermitage" tem momentos destes ou não é um disco tão ligado, até por questões de inspiração, com autores portugueses ou outros que não portugueses?
Há sempre autores, há sempre livros na música dos Moonspell, tal como há música nos livros, por exemplo, do José Luís Peixoto. Para mim, ambas as vertentes artísticas estão extremamente ligadas e normalmente o disco dos Moonspell começa por um contexto, por um punhado de letras, por um assunto, neste caso os eremitas e tudo o que envolve a carga mística, a febre de ir para o deserto, mas também o facto de sermos também hoje em dia uma espécie de eremitas, não só eremitas Covid, mas na altura, quando começámos a gravar o disco em 2017, eu pessoalmente já sentia alguma falta de autenticidade nas relações com as pessoas. Havia muita conectividade, mas pouca conexão. E eu comecei a escrever sobre isso, mas há sempre autores que me influenciam bastante. Por exemplo, o Miguel Torga é um autor que eu gosto muito, tem um pouco de tudo. É muito monolítico também, por vezes não é, é fluído, portanto, tem muita musicalidade dentro da obra dele, que eu conheço relativamente bem. E também foi uma das inspirações para escrever este texto, não roubando as histórias e os contos, mas roubando um bocadinho também, entre aspas, com todo o respeito, o estilo, a profundidade, por assim dizer. Eu acho que apesar de nós termos imensas influências musicais, acho que Moonspell também é uma banda que se rege, cujo compasso também aponta um bocadinho para o campo das letras. O "1155" é um disco impregnado de história portuguesa e de cultura portuguesa. O "Ermitage", penso que é uma história mais universal, por assim dizer, mas que se encontra em todo o lado, desde a Galiza à China, aos Estados Unidos, em Portugal também. E não quer dizer que sejam só os famosos eremitas portugueses, se os existir, mas também aquela pessoa que de vez em quando está fora da sociedade e que é uma espécie de eremita também, que nós conhecemos e que passamos na rua e não sabemos nada, mas sabemos que ele está de alguma forma sozinho. Ele ou ela, claro.
Fernando, a última vez que passaste aqui por este espaço, aqui nas conversas de fim de tarde na Rádio Observador, foi no dia 20 de agosto do ano passado. Estavas a poucos minutos de entrar em palco na altura, penso que no Algarve, no Festival F, e falava-se na altura de um regresso aos palcos. Entretanto, uma das ideias que ficou dessa conversa foi esta afirmação tua de que 2020 foi uma prova de fogo cruel. Falávamos até de um heavy metal sentado no ano de 2020. Aquilo que aí vem agora augura algo de bom para a música portuguesa, para os espetáculos. Há agora melhores perspetivas também para os concertos. O que esperar agora destes meses que aí vêm? E perguntar também se dará de alguma forma para esbater aquilo que foram as dificuldades vividas no ano passado.
Eu acho que não temos outra opção senão realmente dar luta. E o ano passado nós tocámos quatro concertos, ainda conseguimos fazer mais três concertos, um deles em streaming, que deu para toda a comunidade Moonspell lá fora também participar de alguma maneira. Eu senti o amor e a dedicação dos nossos fãs, porque realmente é um bocadinho cruel, passe a expressão, estar a ver heavy metal com máscara, a dois metros de distância, nas cadeiras, sentado. E, portanto, eu acho que depois do concerto em Faro, ainda tivemos a oportunidade, a sorte de fazer esses três concertos e senti ali, sem dúvida, a esperança que pode haver no futuro. Penso que a cultura, o ramo da cultura tem dado provas, porque também é o nosso trabalho, de organização, de logística, de qualidade, de segurança. Penso que aqui e ali fomos um bocadinho castigados e esquecidos pelos decisores, mas o nosso exemplo é positivo. E acho que só o facto desse movimento solidário com todos os agentes culturais, por assim dizer, no mesmo barco, a remar para o mesmo lado, nos permitiu fazer quatro concertos. Eu fiquei agradavelmente surpreendido e contente do facto de a partir de 19 de abril, já finalmente ser possível outra vez retomar onde deixámos, e penso que tínhamos deixado numa situação boa. Entretanto, como é óbvio, as coisas agravaram-se e a cultura também teve que fechar, mas penso que temos todas as condições, tal como tivemos em 2020, para, em segurança, com a consciência e com responsabilidade, retomarmos os espetáculos. E os Moonspell, se tudo correr bem, voltam já aos palcos dia 1 de maio, em Castelo Branco. Estamos também a tentar fechar alguma coisa para apresentarmos o disco. Não vai ser provavelmente o concerto que nós gostaríamos de fazer, mas é o concerto que podemos fazer. E acho que é muito importante a gestão das expectativas neste sentido, darmos valor às coisas. Portanto, temos vários planos, incluindo também fazer outro concerto em streaming. E hoje tivemos uma reunião também com a nossa agência internacional. Em breve iremos anunciar as nossas turnês para 2022, já na celebração dos 30 anos do Moonspell.
Portanto, é estar pronto para tudo, para o melhor e para o pior, e usar sempre a criatividade para inventar no momento em que for necessário.
Sim, acho que essa é a nossa vantagem, por assim dizer, é usar essa criatividade. E o fato de que não é a primeira crise que a indústria da música e da cultura passa. É uma crise diferente, uma crise bastante grave e que ainda estamos a tentar entender, mas a resposta foi sempre positiva. Eu, quando começou o Covid, também estive a esperar para ver qual era o valor, o significado da cultura na vida das pessoas e agora já percebo que faz muita falta. Faz muita falta para o equilíbrio mental, faz muita falta para o entretenimento, também. Portanto, somos, sem dúvida, também, de alguma forma, parte de uma comunidade que quer, não diria esquecer, mas quer viver experiências diferentes e que sítio melhor para viver uma experiência diferente que não um concerto.
"Hermitage", novo disco dos Moonspell, aqui em destaque na tarde, em direto também está a liderar o top português. Fernando Ribeiro, só para terminar e deixando um pouco o "Hermitage" de lado, como é que viveste essa noite europeia da passada terça-feira do teu Futebol Clube do Porto?
Confesso que me custa ver um bocadinho o futebol. Acho que o futebol, sem dúvida, que é um desporto no qual o público e a sua vibração dão outro contexto, tal como na música.
Tal como na música, exato.
Exato. Como é óbvio, como adepto do Futebol Clube do Porto, acho que foi um grande feito. Eu sempre acreditei que o Porto tem uma vocação europeia. A mim, como adepto, sempre me entusiasmou muito mais as conquistas europeias, as conquistas internacionais, do que propriamente as nacionais, que também são importantes. E portanto, aproveito para dar os parabéns à equipe técnica, à equipe do Porto, porque fizeram muita gente contente e nós precisamos de boas notícias. Isso para os adeptos do Porto foi uma excelente notícia.
Sem dúvida, Fernando Ribeiro, é um prazer falar contigo. Obrigado por teres passado pela Rádio Observador nesta conversa de fim de tarde. Também ficamos a saber mais sobre "Hermitage". É o novo álbum dos Moonspell. Fiquem atentos às redes sociais da banda, porque há já algumas atuações agendadas e também apresentações deste novo disco, "Hermitage", dos Moonspell. A banda, que para o ano faz 30 anos de carreira e que está nesta altura em primeiro lugar do top português. Fernando, um abraço, até breve.
Um abraço. Saúde e sorte.
Um abraço.
Olá, eu sou a Ana Filipa Rosa. Obrigada por ouvir este podcast. Se gostou, pode sempre partilhá-lo com alguém e ouvir a Rádio Observador. Estamos online, mas também no FM, na Grande Lisboa em 98.7 e no Grande Porto em 98.4. Obrigada.