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Hoje, na tarde em direto, estamos à conversa com o músico João Morais, que é como quem diz, o Gajo, que lançou no dia 15 de março o novo CD. Chama-se "Subterrâneos" e esta música está por lá, gosto muito, chama-se "Gato Pardo". "Gato Pardo" é assim que se chama esta música, faz parte do disco "Subterrâneos", do músico João Morais, o Gajo, que se junta a nós. Está conosco nesta tarde em direto pra nos falar também um bocadinho deste novo CD. João, bem-vindo, obrigada pela disponibilidade.

Eu agradeço também. Boa tarde.

Bem-vindo.

João, este disco junta aqui uma sonoridade jazz, rock, fado, sempre de guitarra campanissa na mão. Todo este amor pela guitarra campanissa nasceu também em Beja, depois de andares, no fundo, à procura de uma sonoridade que fosse o espelho da nossa identidade portuguesa. Portanto, em mais um disco teu, também espelhas isso. Esta mistura de muitos estilos, mas que no essencial traduz aquilo que é a música portuguesa. Não sei se concordas com tudo isso que te iba dizer.

Eu acho, sem dúvida, que a alma desta viola campanissa que eu utilizo, que é sempre uma espécie de homem do leme deste projeto, soa sempre a português e tem sempre qualquer coisa nossa. Depois, para onde é que ela vai? Ela viaja pelo mundo todo e, no fundo, por muitos estilos, muitos gêneros. O jazz desta vez veio através também dos convidados muito especiais, que eu tive as colaborações do Carlos Barreto e do José Salgueiro, mas eu acho que a viola se adapta muito bem a todas estas experiências. Acho que este disco prova que, realmente, há um caminho ainda grande pra percorrer e, portanto, estou ansioso também por próximos passos.

Certo, porque isto, na verdade, não foi algo planeado. Acabou por ser também resultado quase da pandemia e do tempo que tiveste livre em confinamento.

Sim, sem dúvida. Se não fosse a pandemia, não haveria "Subterrâneos". Pelo menos não haveria este mergulho nos meus subterrâneos, mas que no fundo representam um bocadinho este encontro que nós tivemos com o nosso eu interior, porque privados que estávamos do contato com outras pessoas.

E dentro de quatro paredes, torna-se muitas vezes essencial pensar sobre nós próprios.

É assim, no fundo, às vezes não sentimos necessidade de o fazer, mas este confinamento obrigou-nos a estar um pouco mais encerrados sobre nós próprios e encontrar coisas boas, más, depende dos casos, mas este disco reflete um bocadinho sobre isso e portanto a pandemia é que fez despoletar todo este processo criativo.

E o que tu encontraste exatamente, João? Como em todos nós, há sempre um lado mais negro, o outro mais feliz, mais alegre, mais colorido. Isso também se traduz neste trabalho?

Sim, de certa forma, eu tendo um projeto a solo, já passo muito tempo, digamos que confinado. Não foi uma experiência nova, mas isto é uma espécie de pensamento, um pouco sobre tudo que se passou, sobre nós, o mundo, sobre o ser humano, de certa forma, porque isto foi transversal a toda a gente. No meu caso específico, realmente veio pra eu mergulhar um pouco mais fundo ainda nos meus subterrâneos, porque há sempre coisas acontecendo na nossa vida e a composição é feita à par de tudo isso que se passa. E desta vez havia pouca coisa acontecendo, então a composição foi um bocadinho mais detalhada. Tentei também estar ao nível dos músicos com quem gravei este disco. E portanto, pra mim também foi uma surpresa descobrir que posso ir a determinados sítios onde não tinha ido antes.

Certo. E sendo mais introspectiva, olhando aqui pro teu trabalho, tu seguias uma linha muito exterior, tens o "Pela Cidade de Lisboa", em 2017, com o "Longe do Chão", depois em 2019 com as "Estações do Gajo". Portanto, no fundo, houve aqui uma transformação e por isso é que sentiste necessidade de chamar o Carlos e o José também pra estarem contigo?

No fundo, a ideia de fazer um disco em trio surge para também tentar não repetir a fórmula dos discos anteriores. Ou seja, se o primeiro foi a solo, o segundo com um ou dois convidados pontuais, este aqui teria que ser de outra forma. E portanto, o desafio que lancei início ao Carlos Barreto, que é um músico que eu admiro muito, e no fundo, também aproveitando um pouco esta pandemia que deixou muitos músicos sem trabalho e com disponibilidade. Eu acabei por tentar aproveitar todas essas Não digo energias negativas, mas sim, também estavam presentes, mas um pouco deste lado negativo, para tentar criar um trabalho que fosse um lado positivo, tirar uma energia mais positiva desta pandemia. E o Carlos Barreto era um músico que eu conhecia, que se disponibilizou a aventurar-se comigo neste trabalho. E depois trouxe o José Salgueiro. Eu acho que o trio funcionou muito bem e esta dupla, a secção rítmica, é excelente e eu estou muito satisfeito.

Mas como é que vocês trabalharam, à distância ou não?

Sim, todo o processo de criação das músicas, de certa forma, partiu de mim e de um trabalho que eu fiz sozinho primeiro. Levou meses. Depois, quando começo a enviar as coisas por e-mail aos músicos, eles começam a retribuir com algumas sugestões de ideias e mais na parte final, perto das gravações em estúdio, é que fizemos algum trabalho em conjunto.

Já agora, João, deixa eu só perguntar uma coisa. Já fomos abordando de alguma forma isso aqui também na conversa, mas o fato de se fazer um disco a pensar num disco a solo, depois num segundo disco, se avançar para mais contributos, depois num terceiro disco já ter ainda mais colaborações, o que é que se ganha e o que é que se perde em tudo isto? Obviamente que são sempre projetos diferentes, são sempre formas diferentes de trabalhar, mas quais são as principais limitações e as principais possibilidades que surgem no momento de avançar quase sozinho contra tudo e contra todos ou avançar olhando para trás e havendo mais alguém conosco?

É assim, neste caso e com estes músicos, porque eu não pensei num trio qualquer. Eu quando desafiei o Carlos Barreto era porque já conhecia o trabalho dele.

É um nome até conhecido lá fora, não é? Um nome português também que cruza fronteiras.

Sim, exatamente. Já tem muito. O currículo dele é de várias páginas, que eu já tive que utilizar uma vez o portfólio do Carlos Barreto e que são várias páginas A4 cheias de experiências fora e dentro. E eu acho que a perder eu nunca poderia ter nada, porque quando entra um músico como o Carlos Barreto para um trabalho de composição, nós só podemos ficar entusiasmados e aprender muito com o que aí vem. E eu acho que a sensibilidade dele está bem demonstrada neste trabalho, em alguns temas, particularmente. E o José Salgueiro é a sua imprevisibilidade, porque é um músico que está muito habituado ao improviso, ou seja, nós nunca sabemos o que é que ele vai fazer naquele dia. E eu não estava habituado a isso. E portanto, para mim, ter essa possibilidade de fazer uma experiência completamente nova é exatamente o território onde eu gosto de me movimentar, em sítios onde eu nunca estive. Eu estou habituado a trabalhar tudo quase ao pormenor e, portanto, de repente, tenho um músico que me diz diretamente que ele nunca repete o que faz. E para mim, isso, por um lado, é um choque, mas, por outro lado, é um desafio e uma aventura que eu obviamente estaria totalmente disposto a fazer e estou muito feliz com tudo o que tem acontecido e espero eu que em maio arranque então alguns concertos que já temos marcados.

Era isso que te ia perguntar, porque agora queres tirar este subterrâneo da cave e apresentá-lo. Imagino, a vontade é muita, não é, João?

Exatamente. Queremos sair debaixo das nossas tocas e conseguir mostrar isto ao vivo, porque eu acho que é aí que normalmente as coisas têm uma energia diferente, onde conseguem ser mais envolventes, conseguem tocar mais as pessoas e a ideia é que cheguem aos subterrâneos também de cada um de nós. E eu acho que estes músicos, eu não gosto muito de falar de mim, mas estes músicos que eu conheço e de já os vi tocar ao vivo, eu acho que eles conseguem isso na perfeição e eu espero que eu consiga também estar a esse nível e que estas músicas ao vivo tenham esse impacto.

É sempre uma envolvência bastante diferente. Nós quando falamos normalmente com pessoas que estão ligadas a estes instrumentos mais tradicionais, mais ligados às nossas raízes, a pergunta é sempre a mesma: há muitos jovens interessados em agarrar na viola campaniça, tu sentes-te responsável também, de certa forma, por preservar este elemento da nossa música portuguesa, da nossa música mais tradicional?

É assim, a responsabilidade, realmente, eu a princípio, quando peguei na viola campaniça e não conhecia o instrumento, não conhecia a sua história, peguei de forma bastante relaxada.

Eu há pouco estava aqui a procurar mais informação para esta conversa e estava a ler qualquer coisa como: "A viagem da campaniça mais punk de Portugal". Como é que é ser considerado uma espécie de punk da viola campaniça?

Isso tem a ver com o passado, porque eu realmente cresci e toco desde 1988 e sempre tive bandas no circuito mais punk, mais underground. E portanto, esse passado, no fundo, foi o que me fez crescer como músico. E hoje em dia, quando pego na viola campaniça e tento transformá-la em alguma coisa, claro que tem que ser uma coisa um pouco à minha maneira, tem que ser uma coisa feita sem as regras do costume, um bocadinho contra a corrente. E portanto, eu acho que esse punk também está sempre subentendido, talvez um bocado escondido. Escondido, não diria, mas que está um bocado envolvido neste trabalho que eu estou a fazer. Tem muito a ver com o meu passado.

E essa questão que falava a Ana Filipa Rosa, dessa transmissão também para as outras gerações, a forma como olham para este instrumento?

Sim, eu acho que acima de tudo, a responsabilidade que eu sinto é de não deixar ninguém do percurso mais tradicional da viola, daquelas pessoas que querem preservar a forma como se toca e o instrumento como ele era há muitos anos atrás, maldisposto com aquilo que eu ando a fazer. Eu ando a fazer uma coisa que realmente não quis seguir esse caminho, quis fazer qualquer coisa de novo, que nunca tivesse sido feito com esta viola. E isso tem realmente trazido muita gente nova para o contacto com estes instrumentos, com os cordofones, não só a viola campaniça, mas todo o resto desta grande família de cordofones tradicionais portugueses que nós temos. E eu acho que é importante ir atualizando um bocado estes dois mundos, que é o nosso passado com o nosso presente, porque as novas gerações muitas vezes desinteressam-se facilmente, às vezes por falta de informação, mas também porque têm coisas atuais que lhes interessam mais. Mas se vier um instrumento antigo com um som um pouco mais atual, se calhar isso já pode ser interessante de explorar e eu espero poder contribuir de forma positiva, obviamente, é a minha ideia.

Certo. Portanto, o próximo passo são os tais concertos. Para quem nos está a ouvir e quiser acompanhar-te nas redes sociais, é simples, não é? Basta procurar pelas tuas páginas.

Sim. Os concertos estão agora, por exemplo, eu sei que há um festival que é o Som-as Guitarras, no qual eu vou fazer três concertos em maio, que estão agora a arrancar com a venda de bilhetes, acho que é entre hoje e amanhã. Mas claro que tudo o que está a ser feito, está a ser feito com cuidado, a tentar seguir as notícias para percebermos a possibilidade das coisas irem para a frente. Portanto, eu vou sempre atualizar a minha página, a página do Facebook, as redes sociais, para quem quiser estar atento e quem quiser ir assistir. É uma questão de estar em contacto, basicamente.

Muito bem, a seguir o músico João Morais, O Gajo nas redes sociais para estar atento a esses concertos. João, nós vamos terminar com a "Eletro-Santa", que faz parte da playlist do Observador. Já agora, para quem nos está a ouvir no Spotify, a editoria de cultura do Observador fez uma playlist com as melhores músicas do mês de março e esta canção está por lá, portanto, pode passar por lá para ouvir.

Obrigado.

"Eletro-Santa". João, muito obrigada. Até à próxima.

De nada, muito obrigado eu também.

Obrigada.

E bom regresso aos concertos.

Ok, obrigado.

"Eletrossanté" é assim que se chama a música do Gajo, o nosso convidado de hoje, o músico João Morais. Faz parte do disco "Subterrâneos". É uma conversa que vai ficar disponível já a seguir em observador.pt para voltar a ouvir ou partilhar com quem quiser. Estará também em podcast nas plataformas habituais. Rádio Observador, Seixal 98.7. Estamos nesta altura a cinco minutos das 20h. Já a seguir vamos atualizar as notícias. Antes disso, ainda temos tempo de ouvir Astrud Gilberto e Tom Jobim. Chama-se "Água de Beber".

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Olá, eu sou a Ana Filipa Rosa. Obrigada por ouvir este podcast. Se gostou, pode sempre partilhá-lo com alguém e ouvir a Rádio Observador. Estamos online, mas também no FM, na Grande Lisboa em 98.7 e no Grande Porto em 98.4. Obrigada.